Poemas de amor

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Wilder shores of love – Cy Twombly, 1985*

Equivalho os poemas de amor, a relação entre o poeta e sua musa do momento inserida nos poemas de amor, à relação de um pintor e sua modelo. (Sintam-se livres para inverter os gêneros nas frases, já que eu creio que seja o mesmo para mulheres poetas e pintoras e seus ou suas modelos ou homossexuais ou bissexuais ou quaisquer outras variações possíveis. Quando escrevo não-ficção, escrevo por mim, pela minha perspectiva. Por quem mais poderia escrever?) A diferença é que a musa do poeta não precisa estar presente. Não precisa nem saber que aquelas palavras meticulosamente organizadas e escolhidas são para ela. Pode até nunca ler as tais palavras. Na pintura é diferente. Ela está ali, posando, desconfortável, por horas durante vários dias. Fotografia é a mesma coisa, exceto que a foto é mais rápida que a pintura. Por ironia, quem sabe, a relação seja outra. Modelos são apenas modelos. Servem de imagem representativa de algo que pode não ser – raramente é – elas mesmas. Já a musa da poesia tem uma relação mais pura com o texto, genuína. Ou assim eu acredito. Hiperbólica, com certeza, principalmente quando denominamos o poema poema de amor. Sempre se ama a musa? Não, amar é uma palavra muito forte. Chamemos de intensa atração imediata. Ainda assim não existe nome mais exato para esse tipo poesia. Talvez porque poema de interesse não soe poético e poema de vaga atração sexual seja muito frio – e a poesia, sendo a forma de linguagem mais próxima de representar as emoções humanas com fidelidade, pode ser tudo menos fria. O que eu sei é que o texto não é uma montagem, não é uma cena imaginária. A inspiração pode trazer à tona invenções, jogos de suposição, brincadeiras fictícias e puramente estéticas, mas a pessoa é real, e o que se sente é abstrato mas real.

Faz tempo que não venho com um poema desses. Tem poetas que são mestres desse gênero. Pablo Neruda, Brian Patten, Vinícius de Moraes. Algo nas palavras desses professores-doutores do amar tornam suas musas intocáveis. O romantismo, por outro lado, aquele de Castro Alves, Casemiro de Abreu, me incomoda um pouco. Produto de uma época, com certeza. Mas todo aquele papo de virgens pálidas e tísicas… Pertence àquele século e somente a ele. A forma é fascinante, sempre tão bem montado e vibrante, com o peso de um tumor no pulmão e a beleza de um nascer do sol depois de uma noite de bebedeira. Mas morreu. Não funciona hoje. Não para mim. A tara pelo puro me aliena. Esses primeiros que eu citei, por intocáveis que façam suas musas, são mundanos; as mulheres que eles escrevem estão ali ao lado, caminhando, perdidas olhando para o céu. São de carne e osso. A beleza sobrenatural vem dos olhos do poeta, e só.

Existe uma dificuldade nisso. Por mais que possa não parecer. Queria ter um conhecimento enciclopédico sobre poesia para poder repassar dados “arqueológicos” sobre o tema, mas como não tenho vou chutar que poesia e amor andaram juntos desde sempre. É uma teoria que faz sentido, admitam. Então pensem comigo quantos poemas de amor existem por aí. E quantas mulheres já tiveram um escrito para si. E quantas já tiveram um reciclado como cantada. Todas as descrições usadas a ponto de se banalizarem – o mal dos escritores clássicos: não pensarem nos seus sucessores e tomarem tudo para si, tão egoístas.

O que eu quero dizer é que vi uma moça que tinha tudo para ser um poema. E faz tanto tempo que eu não escrevo um, fui tomado por aquela sede que só a escassez traz. Foi uma questão de desespero. Mas nunca começo um poema sem ter um primeiro verso. Não quero dizer um bom primeiro verso, mas um que seja pré-aprovado pelo meu sistema pessoal de qualidade. Nada. Talvez eu não a conheça bem o suficiente. Com certeza não a conheço, mas eu também não conhecia a moça carregando um garrafão de água na fila do supermercado. Isso não me impede, normalmente. Pensei e pensei. Formulei frases, quebrei o ritmo, fiquei tentando visualizá-la e o que nela eu via como poesia. Porra, que dificuldade foi fazer um verso. Mas ele saiu. Essa é a coisa dos versos, eventualmente eles saem. Quem lê Bukowski sabe que versos saem, mesmo quando não deveriam. Ele esporrava versos bons e horríveis como se um dia sem escrever poesia fosse um dia de coma. Então eu reli meu verso, aquele primeiro. Quando o primeiro sai, caso eu o aprove, ele costuma vir segurando a mão de um segundo e assim por diante. O primeiro verso é um fósforo aceso na poça de gasolina. Esse não foi, o fósforo apagou na queda. Fez fumaça e deixou cheiro de enxofre, o puto. Ah, quantas vezes eu reli. Que merda sentimental e barata era aquele primeiro verso. E todos que eu conjurava mentalmente em sequência eram piores ainda. Chegaram a me dar enjoo de estômago. E não falo figurativamente. A melosidade de certas palavras me deu náuseas reais. Todos os poetas têm essas vergonhas. Eu tenho a vantagem de perceber antes de publicar – de vez em quando. Hoje tenho essa vantagem. Anos atrás não tinha e só eu sei das vergonhas que já escrevi me achando o último boêmio de Itajaí. Foi essa falha – porque, sim, eu apaguei aquele verso, acreditem era horrível – que motivou esse texto que vocês, a essa altura, já deixaram de ler.

Outro obstáculo que só o escritor dentre os artistas tem: como eu invejo a sensação de comunidade dos outros artistas. O clima de uma exposição, o ambiente de gravar um filme, se apresentar em uma banda. A literatura é a arte mais próxima da punheta. Mesmo quando se tem sorte e se é publicado, o autor está a quilômetros de distância do público e quase anônimo – li um livro tão bom esses dias, esqueci o nome do autor, diz o leitor médio sobre todos os livros que leu na vida. As personagens e a história tomam conta. Esse é meu lado egocêntrico falando, claro. Minha personalidade, que eu denomino introvertido-excêntrico, dá graças a deus pelo isolamento. Só que essa sensação de isolamento se potencializa durante a escrita de um poema de amor. Retorno ao pintor e sua modelo. Ela está lá, vê a obra se formando. O poeta, mais especificamente eu, costuma ter só uma garrafa de vinho e um cachimbo meio cheio de tabaco durante a escrita. Mesmo que eu terminasse o poema, a impressão de falta de autoria que uma leitura natural dele traria é frustrante. Lógico, não tão frustrante quanto a não realização do poema como um todo. Fico pensando, se apenas eu tivesse os dons para desenhá-la de uma vez. Poderia embelezar os traços. A reação à lisonja é sempre melhor que à abstração. Se ela (ou qualquer outra que já passou pela minha escrita) lesse um texto meu, provavelmente perguntaria se eu a via daquela forma mesmo ou não entenderia nada. O desenho só ressalta os melhores traços, sem subjetividade. Por que fui escolher esse método tão abstrato de retratar alguém? Merda; é a vida. Cada qual conforme suas capacidades, sofrendo as consequências de suas limitações.

*Indico muito as obras de Cy Twombly praqueles que gostam de pintura. Essa, em questão, de alguma forma complementa a ideia que eu quis passar com o texto – a da abstração de um retrato com base em sensações e não imagens. Procurem mais sobre ele e, principalmente, respeitem mais os pintores abstratos. Nem toda a pintura deve parecer com alguma coisa. As coisas já existem e tem forma, sentimentos não. Pensem nisso.

***

Postado originalmente em 1 de outubro de 2015: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/10/poemas-de-amor-conversa-franca-1.html

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