Andei vendo uns filmes aí… #2

Enquanto seres humanos se desgastam para postar todos os dias desse mês, cá estou sem postar há quase três semanas. Mas, ei, vi uns filmes. E, puta que o pariu, que filmes. Foram 4 de sexta pra domingo (há 3 semanas, quando comecei a escrever essa postagem), e os 2 de domingo foram daqueles que te fazem lembrar por que o cinema existe e por que é uma arte. Vamos aos culpados:

KAZE TACHINU [VIDAS AO VENTO] -HAYAO MIYAZAKI

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Até o mês passado ou retrasado, nunca tinha visto nada Miyazaki, nem os mais universais. Decidi mudar isso, vi Porco Rosso, e isso me deu vontade de ver todos. Até agora foram 3. Pretendo ver mais. Tanto que nem planejava botar Vidas ao Vento (último que vi) nessa postagem, porque pretendo fazer uma postagem só Miyazaki, mas achei melhor falar um pouco desse aqui, só de prévia. Dos que eu vi, esse me pareceu o mais realista. Envolve a biografia do engenheiro que desenhou os aviões utilizados pelo exército japonês na Segunda Guerra Mundial, Jirô Horikoshi. Mas biografia pura seria chato, então ele mescla a vida dessa personagem histórica com a de Naoko Satomi, baseada na personagem do romance de Tatsuo Hori, que leva o mesmo nome do filme do Miyazaki. Esse livro nada tem a ver com a vida do engenheiro aeronáutico ou com a 2ª Guerra Mundial, mas é sobre uma mulher tuberculosa, em estado avançado, que se interna em um hospital isolado nas montanhas, e sobre o homem que se apaixona por ela mesmo sabendo seu destino. Miyazaki faz o engenheiro se apaixonar por essa mulher e cria, a partir disso, uma história nova, com aquela típica mistura que ele faz entre realidade e sonho, animada com aquela atenção absurda aos detalhes, aos pequenos movimentos que tornam as personagens indivíduos completos.

GOZARESH [O RELATÓRIO] – ABBAS KIAROSTAMI (1977)

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Motivado pela morte do diretor, este é o segundo filme que vejo do Kiarostami. Gosto muito desse tipo de história quase sem estrutura, em que começo, meio e fim se misturam, sem perder a linearidade, somente porque as coisas, como na vida, não são assim tão bem estabelecidas e separadas. Não é exatamente uma história propriamente dita, um roteiro, é um momento da vida de um ser humano fictício e as coisas que o cercam. Este trabalha numa repartição pública, cobrando impostos. Um dia, um homem aparece e o denuncia por corrupção. Começa como boataria, mas vai crescendo em proporção, até que ele é forçado a se afastar do escritório até que a situação seja averiguada. Ao mesmo tempo, a esposa dele, por tantos motivos, é infeliz. Os problemas na vida dele e da família vão se acumulando e o filme se expande e se expande.

NOSTALGHIA [NOSTALGIA] – ANDREI TARKOVSKY (1983)

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Falando de expansão, esse filme do Tarkovsky me deixou sem palavras. É o segundo dele que vejo, nesse ele já havia desistido de trabalhar na, então, União Soviética, e levado seus esforços à Itália. A história trata de um poeta russo e sua tradutora italiana, na Toscana, pesquisando a vida de um compositor russo expatriado que “não podia trabalhar na Rússia nem viver fora dela”, muito como Tarkovsky na época. Seria necessário muito mais que um parágrafo para falar desse filme com o devido respeito. As imagens, o ritmo, a poesia, as ideias, cada fator traz um mundo de análise dentro de si, que eu não tenho os meios ou a capacidade de explorar. Esse filme, como tudo do Tarkovsky parece ser, é uma experiência de vida. Algo que se deve experienciar antes de morrer, é o que eu digo. As cenas são longas e crescem perante os olhos. Alguns momentos ainda não posso nem começar a imaginar como foram criados. Porque é isso que diferencia um filme com cortes rápidos de um que se prende a uma mesma cena por minutos: o ato filmado precisa acontecer em frente a câmera. Há ilusão, como em todo filme, mas o truque deve ser bem escondido, pois o ambiente em que se dá a magia é muito mais frágil. O momento final, em que o poeta atravessa a piscina esvaziada, segurando uma vela a acessa, com o dever de não deixar que ela se apague para que “a humanidade não pereça” ainda é um dos mais marcantes do cinema. Como disse no começo, são momentos assim a razão de ser do cinema.

WERCKMEISTER HARMÓNIÁK [A HARMONIA WERCKMEISTER] – BÉLA TARR & ÁGNES HRANITZKY (2000)

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E falando em cenas prolongadas, foi do Béla Tarr o último filme que vi naquela semana. Também o segundo do diretor. Existe um paralelo entre a obra de Tarr e de Tarkovsky. Existe poesia no filme de ambos, calma e expansão, lentidão e uma noção da amplitude do que cerca as personagens. A diferença que eu pude perceber, e talvez seja bastante clara, é que, enquanto em Tarkovsky há esperança sob a desilusão, e há sonho e cor e beleza, Tarr nos esfrega a cara com o que há de pior no ser humano e nos mostra porque essa desilusão existe em primeiro lugar. Aqui acompanhamos a chegada de um caminhão trazendo a carcaça de uma baleia e a presença de uma figura anônima porém poderosa chamada apenas de “Príncipe” a uma pequena cidade da Hungria. Um jovem inocente se vê tomado pelo que parece ser uma revolta política causada por esse grupo que trouxe o caminhão. Claramente uma referência ao autoritarismo que tomou conta da Hungria nos anos da União Soviética, e quão fácil foi domar o povo, fazer com que o povo abraçasse o fascismo. Mensagem essa facilmente traduzida aos dias de hoje. De fato, mostra o pior do ser humano e, ao mesmo tempo, o quão próximos sempre estamos desse pior. A poesia de Béla Tarr é a poesia do caos e do terror, da fragilidade e da morte, da decomposição que nos consome ainda em vida. É dito que o filme mais acessível dele é o mais recente, O Cavalo de Turim. Discordo. Até porque usar a palavra acessível para qualquer filme dele me parece um erro. Apesar desse detalhe, A Harmonia Werckmeister me pareceu mais acessível. Não se enganem, requer esforço. Mas não se intimidem tampouco. O filme, como nenhum outro, não morde. Basta paciência e desejo por se entregar ao melhor dessa forma de arte que chamamos cinema.

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