o exótico triatlo japonês (poesia 15)

sier90


 

tudo começou na fila de um refeitório
lá eu já não sabia onde estava nem
o que estava fazendo nem por que
mas tinha uma bandeja em mãos
sobre ela um prato e talheres e um
guardanapo de papel bem dobrado
seguia a fila que levava às opções de comida
saladas e carnes e massas et cetera
um típico quilo diferente por não ter mesas
me servi sem ver o que pegava
não importava afinal era só comida
coisas para manter o corpo ativo
botei o prato na balança e dei um cartão
branco sem valor pra moça que me atendia
ela eu conhecia de algum lugar
todo mundo ali eu conhecia de algum lugar
vários lugares diferentes
uma amálgama de figuras da minha vida
ali
gente com quem nem falava mas
vi passar na rua tal dia e a cara
se queimou na minha memória bizarra
que grava coisas sem saber o motivo
e esquece outras que podiam ser importantes
memória sem noção de prioridade
mas a comida está paga e
só então descubro para onde ir

àquela velha e familiar sala de aula
com as mesas e cadeiras de madeira compensada
a sala-de-jaula de tijolos vermelhos
o quadro negro como um olho que tudo vê sobre nós
o palanque de dez centímetros de altura
símbolo da superioridade do professor
que a instituição mantinha a rédeas curtas
deixei a bandeja sobre uma das mesas e sentei
quantos mas quantos rostos conhecidos
mas ninguém que viesse falar comigo
achava que um ou outro se referissem a mim
à distância aos cochichos
e eventualmente alguém se aproximou
falando como se não me visse havia muito tempo
o que estou fazendo aqui, eu disse
é aula, ela disse, lê esse texto
é importante é Derrida difícil pra caralho
mas é o tema de hoje então corre
boto o texto de lado umas tantas folhas grampeadas
nada que eu já tenha ouvido falar do Derrida
do Derrida só conheço reputação
fama e infâmia mas acima de tudo tenho fome
corto a comida a levo à boca mastigo mas não me concentro
meus olhos vão ao texto e voltam à comida
travo várias vezes até desistir antes de terminar o prato

o texto começa com duas imagens jornalísticas
com legenda que fala do exótico e humilhante
triatlo tradicional do Japão
das lutas contra essa tradição terrível
degradante às jovens mulheres japonesas
amaldiçoadas com o talento incrivelmente
específico que o esporte requer
um misto de acrobacia equilíbrio na corda bamba e tiro ao alvo
entre três cordas bambas sob as quais não há rede
a atleta deve fazer a série mais complexa possível de acrobacias
o grau de dificuldade e a perfeição no ato é julgado
por cinco membros da realeza imperial nipônica
ao chegar na terceira corda
a pobre moça deve caminhar sobre ela
até alcançar uma lança
voltar ao centro da corda e
atirar essa lança num alvo
um imenso triângulo de Sierpinski
devendo atingir um dos seus vértices
a diferença de valor de pontos entre cada vértice é
ao que tudo indica arbitrária
tudo feito com sucesso
a atleta deve então voltar
para que seus pontos valham
e a perdedora deve morrer

o mais humilhante no entanto o texto aponta
é que as vestes das atletas nunca cobrem
com sucesso a genitália
elas podem largar essa vida
mas ninguém precisa de gente com os talentos delas
na vida real
se veem presas ao jogo para sobreviver
contudo são milionárias e respeitadíssimas
as que vivem o suficiente
e por outro lado largar a carreira é imensa desonra
a essa altura a foto virou um filme de uma partida
vejo o movimento a tensão diante dos meus olhos
o suor escorrer pelo corpo da atleta
incomodada pelos fios invasivos de sua roupa
e pelos olhos invasivos dos espectadores
no estádio na bancada de juízes
em casa assistindo quiçá com o pau na mão
e meus próprios olhos invasivos
que veem o close da câmera
na moça curvada pronta pra dar sua série de saltos e piruetas
e o close se aproximava da faixa
do tecido que era segunda pele incompleta
que apertava a vulva até que
seus lábios asas de borboleta fugissem do casulo
e a essa altura já não sei se estou na sala de aula lendo
se estou em casa vendo o espetáculo
descontrolado pela hipnose irracional do entretenimento
não sei mais de muita coisa
muito menos por que uma lança
que atingiu a face de um dos 
menores triângulos
quase quase no centro
não valeu pontos

---
Já editei essa merda umas cinco ou seis vezes. 
Desculpem os transtornos.

assistindo; a que? não se sabe

dylan-thomas-1941

aqui estou eu, meio dia e vinte, naquele mesmo quilo, à mesa que por hábito chamo de minha, pensando em cenas para o romance que escrevo há 4 anos e visto como roupa e no quanto quero escrever uma poesia de novo, mas não qualquer outra poesia como as de antes, uma que será notada de alguma forma irreal porque às vezes sou tomado por essa ideia narcisista de que eu mereço ser notado mais que aquele outro poeta, o que é mentira, mas poderia não ser, não poderia? e no fim não escrevo nada, apenas ouço a sinfonia do tilintar e raspar dos talheres nos pratos feito triângulos e reco-recos de porcelana ressoando arrítmicos e desafinados e me cercando, e encaro o fato de que meu livro de poesias, sim sou cara de pau a ponto de o chamar assim pois é o único nome que posso dar a ele, nunca foi lido por ninguém e o romance nunca será lido por ninguém. não ignorado. não reprovado. ele é invisível e eu, a minha maneira, sou também invisível. nada me vê no quilo ou nas ruas ou na cidade. posso passar despercebido, mesclado ao elenco dessa ópera improvisada de vozes que, não cantam, sussurram e falam e gritam das banalidades de suas vidas, de sei quem lá que acaba de ter filho e sei quem outro que acaba de casar e sei lá eu quem morreu – o que, na verdade, é o que há de mais importante, e se torna banal apenas pela repetição e frequência desses acontecimentos que de tão inevitavelmente fundamentais são fraquíssimos – e completa o coral a criança que chora ou grita por atenção não sendo capaz de compreender a música sem melodia que cerca a todos, dentro disso eu posso passar despercebido e deixar de existir da noite para o dia; sem fazer parte do canto, posso puxar minha caderneta e lápis e rabiscar essas cenas, rabiscar o palhaço a minha frente com o filé de frango empanado pendurado entre os dentes e lábios com um celular nas mãos, sorrindo, vendo só ele sabe o que; fazer deste palhaço arte tão alta quanto minhas capacidades – um tanto mínima e, acima de tudo, invisível. arte pelo fantasma da Marcos Konder, avenida invisível de uma cidade invisível num estado fantasma; nenhum radar pode nos captar, nem melancias adornando nossos pescoços ajudariam. parece que ao se viver tempo o suficiente como câmera de um filme falso, logo se perde o papel até de figurante nas cenas dos outros.

Youtube, livros, editoras e outras chateações

livros

Tá na hora de tocar nesse assunto?, falar de livros de youtubers et cetera? Queria me convencer de que já passou da hora, que isso não tá mais acontecendo e foi só um sonho ruim. Bem, não é o caso. Nada baixa a ereção financeira dessas editoras, agora cada uma delas tá vasculhando os buracos mais sórdidos da internet buscando um youtubeiro para chamar de seu. Isso é a pior coisa do mundo?, razão de todo esse alarde? Não. É inesperado? Não. É errado ou antiético? Talvez, mas o mercado editorial nunca teve nada contra o errado e o antiético – é, afinal, um mercado -, logo, mesmo que assim seja, não é novidade.

Convenhamos, é mentira que esse povo do youtube tá roubando espaço de escritores de verdade. É bom tirarmos esse argumento do caminho logo de uma vez. Escritores brasileiros de boa literatura contemporânea sempre foram minoria nas editoras e vão continuar sendo. Se alguma editora ainda publica autores de “literatura” – e me permitam não ter que conceituar literatura neste texto, pois acho que todos sabem do que estou falando – é pura e simplesmente por obrigação moral. O escritor contemporâneo é um estorvo no mercado editorial, um teimoso que insiste em existir e impede as editoras de lucrarem por completo. O que mais me intriga nesse oceano de críticas aos livros de gente do youtube (desculpem-me, sou velho – de alma -, youtuber é uma palavra que me deixa ruim do estômago) é que raramente elas vêm de pessoas que poderiam ser chamadas “leitores ávidos”. Se for parar pra fazer um levantamento estatístico das fontes dessas críticas, a maioria vem de outras pessoas do youtube, menores ou não que os que escreveram os tais livros, que, por acaso, ainda não fecharam contrato com editora nenhuma – pra esses, eu digo, é só questão de tempo.

Vou dizer de uma vez que nunca li e nem pretendo ler um desses livros. Não por serem “ruins”, “errados”, “criminosos”. Acontece que eles não me afetam. Quase não acompanho canais de youtube. Vejo uns vídeos, de vez em quando, mas não é bem meu tipo de entretenimento. Digamos que eu não “falo a língua”, é só. Mas não desmereço o conteúdo. Os poucos que vi, por indicação de terceiros de confiança, não foram de todo ruins, mas não me peçam pra lembrar o nome de quem quer que seja. Os melhores vêm com boas ideias já digeridas praqueles que não conhecem determinado conceito ou ideia ou coisa assim. O que eu fiz, no entanto, foi ler as opiniões de gente tanto que acompanha e não acompanha essas pessoas sobre os tais livros. Ver quais pontos se repetem, quais as críticas e elogios mais comuns, o que mais aparece nos livros (biografia, crônica, roteiros transcritos, algo de novo etc.), e, assim, tentar formar um argumento que justifique minhas objeções. Pode não parecer, mas é mais justo com os livros que eu filtre minha opinião pela dos outros, nesse caso, do que eu mesmo vá atrás de ler os livros. Repito, não sou o público-alvo de nenhum deles. Não foram feitos pra mim, não me diriam nada – isso me baseando só nos vídeos que vi. Partindo do ponto de vista expresso pelo público-alvo, posso ter acesso aos lados positivos dos livros, mesmo que seja por segunda mão, que talvez lendo os livros eu não fosse perceber.

Aconteceu que, feita a pesquisa, a maior parte dos lados positivos tinham tom de desculpas. Ok, o livro não é lá essas coisas, “mas foi um presente para os fãs”; “pra entender, você precisa acompanhar os vídeos”; “foi pra imortalizar o canal”. Nenhum destes é motivo pro livro existir pra começo de conversa, e parece autoengano de um leitor não exatamente satisfeito mas que defende a pessoa que admira até o fim.

Comecemos pelo presente para os fãs. Que presente é esse que o presenteado tem que pagar pra receber? Existem maneiras de preparar uma lembrança/presente, barata de produzir e sem custos para os fãs. Sem fins lucrativos, no entanto – talvez esse tenha sido o problema. Depois vem a questão do precisar ver os vídeos. Por que exatamente? O livro não deveria ser uma obra separada? Além do mais, um livro publicado – exposto ao “público” – não pode contar apenas com admiradores prévios como leitores. Afinal, não é como se a editora só tivesse fechado o contrato contando que o autor viria com um rebanho consumidor de um milhão ou mais cabeças, é?

Enfim, a questão do imortalizar. Hoje em dia, com nosso conhecimento arqueológico, sabemos que a maior parte da história foi apagada há muitos séculos e continua sendo, de incidente em incidente, de ditador maluco em ditador maluco, de guerra em guerra. Livros sumiram do mapa e ainda somem. Escrever com vista à posteridade é inocência, sempre foi e sempre será. Irônico até que, hoje, a forma mais segura de “imortalização” seja a internet. Sim, vídeos no youtube, desde que seus arquivos originais sejam guardados em algum canto da “nuvem”, são, essencialmente, “imortais”. Claro, quando o declínio da nossa civilização realmente tomar fôlego e toda nossa rede de dados for apagada ou se tornar inacessível, vai morrer, mas, nesse ponto, também irão os seres humanos, inutilizando os livros de igual maneira.

Se nenhum dos elogios que listei serve pra justificar a existência desses livros, eles são errados? Não. Ponha-se no lugar do “autor”. Está você em paz, quieto, fazendo seus vídeos. Entra em contato contigo uma das maiores editoras do Brasil e te diz: – Farejamos os rabos dos teus seguidores e achamos dinheiro. Tá afim de explorar essa oportunidade? É muito dinheiro por zero esforço. – O que você faria? Tenho minha relação pessoal com literatura, minhas próprias aspirações, desejo de publicar o que escrevo, então minha resposta seria diferente, se eu recebesse esse tipo de proposta. Mas a maior parte desses criadores de conteúdo não escrevem, nunca pensaram em escrever. Quando muito, escrevem seus roteiros, mas estes seguem outro método, são animais diferentes dos livros longos, sejam de narrativa de ficção, crônica ou biografia.

O grande problema é que a existência desses livros, dessa estratégia mercadológica, é legitima. Funciona e nada pode ser dito contra ela, justo porque ela funciona. Aí ouvimos aquela típica frase-sequestro, dita pelos próprios youtubeiros, por autores best-seller, pelos editores e até os próprios autores “sérios”: são estes livros que financiam projetos literários que não darão retorno financeiro – esses sendo todos os livros “sérios” de ficção, não-ficção, poesia, qualquer coisa que não seja estritamente comercial. Há argumentos contra isso? Não. Fomos nós que nos colocamos nesse estado, na verdade. Não nós eu e você, mas nós a sociedade atual, contemporânea, resultado de processos sociológicos inúmeros do passado. Constatado esse fato, qualquer coisa além dele é uma discussão infinita baseada no velho arranca-rabo entre o ovo e a galinha, entre o frescor e a velocidade das vendas da bolacha Tostines: as editoras só publicam literatura comercial porque é o que os leitores querem, ou os leitores querem literatura comercial porque é só que as editoras publicam. Shakespeare e Dickens escreviam por dinheiro, o que difere esses dois de Paulo Coelho e James Patterson, além do período em que escreviam? (Bom, James Patterson tem estagiários que escrevem os livros por ele e é basicamente uma corporação literária com nome de pessoa, mas isso não vem ao caso.) Foi o público que mudou e hoje não liga mais pra histórias dickensianas? A diferença no tratar da prosa é tangível, mas qual o valor objetivo da bela prosa?

Não tenho respostas para essas perguntas. Tenho meu gosto e ele me basta, mas não sei em que ele se baseia. Só sei que li Brida e quase peguei no sono, e James Patterson não me prende nem pela sinopse, enquanto Sérgio Sant’anna, Julio Cortázar, Cesar Aira, Truman Capote e inúmeros, inúmeros outros, me causam tremendo deleite – e há quem ame e quem odeie, ambos os lados com razões válidas, cada um desses autores. Mas isso é gosto. Como vem do gosto querer ou não ver vídeos no youtube de uma determinada pessoa e gostar dela a ponto de querer ler suas palavras impressas.

Conclusões são uma impossibilidade, então permitam-me do alto da minha irrelevância sem limites inocentar pelo menos uma das partes. Os youtubistas, vocês nada fizeram além de topar uma proposta, convenhamos, irrecusável. Não fizeram nada, só foram engolidos por um mercado muito maior que vocês e demasiado complexo. Se os leitores os amam, que assim seja. Não me afeta. E não há de afetar a literatura enquanto arte estabelecida. Os escritores novos, esses que insistem em surgir em conjunto com o mal das pretensões artísticas, vão continuar nascendo. Talvez mudem de estratégia, façam também canais no youtube, ou resistam na esperança de conquistar público na base da luta. Eu, que também tô na luta, não sei o que eu vou fazer. Continuar escrevendo, essa é uma certeza, mas a única. O resto, tô esperando pra ver no que vai dar. Talvez em nada.

O cenário é complicadíssimo, mas pode ser que sempre tenha sido assim. Claro, o que mudou foi a estrutura, o tamanho do monstro. É fato que isso já deve ter impedido várias obras primas de existirem. Restam aqui dois acusados, inocentado o vocêtubeiro, a editora e o público. E, ignorando a construção da cultura de massa e como ela se tornou o que é hoje, ignorando o passado e levando em conta apenas o que pode ser feito de agora em diante, culpo o leitor. Abram os olhos, se cada reclamação contra um livro feito pras “massas incultas” viesse acompanhada da compra de um livro de alta ou média literatura, o estado do mercado literário já teria mudado ao menos um pouco. O público está ciente da massificação da cultura, da estupidez vendida a granel, das farsas e publicidades enganosas, do E-G-O. Se esse público ou parcela de público, ainda que ciente de tudo isso, insiste em se recusar a procurar por boa literatura e ignorar o que é ruim, é porque ele, secretamente, não gosta da boa ou ama a ruim. Suspeito que ama. Tudo além disso é choradeira que nada resolve. E as editoras seguem duras como pedra pela grana e a subcelebridade da vez (acredito que youtube é temporário, sinto muito; se a maioria do seu público é adolescente, saiba que adolescentes crescem e cansam do que eles costumavam amar) vai continuar recebendo ofertas milionárias para publicar livros que ela nem quer escrever. A arte, seja o cinema ou a literatura ou a música ou que seja, vai continuar ali, à margem, resistindo, atendendo aos que a procuram. O que não é o ideal. Até o mais obscuro, recluso, dos artistas quer ser visto, quer vender, só que pelo que ele faz e não por quem é – o que parece ser um problema nos dias de hoje. Mas é o caminho que escolhemos seguir, logo, único destino. Ah, e sempre vai haver quem reclame disso sem fazer nada para mudar a situação. Modas serão modas serão modas… os cães ladram, a caravana passa, o que é passageiro ao seu período e apenas ele pertence.

Falando em demonstrar ódio ao que se ama, vou encerrar isso aqui com uma anedota altamente literária, para os que se interessam por essas bobagens: Yukio Mishima, sim, o grande romancista japonês, amante do ascetismo, da disciplina, do Imperador, do fascismo, do perfeito equilíbrio entre o corpo e a mente, desdenhava um autor da geração anterior a dele, já estabelecido e respeitado por todo o Japão, Osamu Dazai. O desdenhava porque ele era seu oposto. Dazai era um bêbado, com tendências suicidas (não cerimonialistas, como as do Mishima), misantropo, e, não bastasse, tinha ligações com o partido comunista, embora o próprio fosse distante da política – o que Mishima tampouco admirava. Mishima considerava Dazai mais que tudo um fraco, mas havia acabado de publicar seu Confissões de uma Máscara, com grande sucesso e, recém-inserido nos meios literários, foi convidado a uma festa em homenagem ao Dazai, este, então, no auge. Mishima, decidido, foi até Dazai, que estava cercado de amigos e admiradores, e, supostamente, disse algo nas linhas de: eu não dou a mínima pros seus livros. Dazai ouviu e se pôs a rir. Então disse para os que o cercavam: este aqui me ama. E todos riram. Menos Mishima. Reza a lenda que, muitos anos depois, Mishima, já amadurecido – Dazai já morto (morreu no mesmo ano da tal festa) -, antes de cometer seppuku, recontou essa história aos que o acompanhavam naquele momento final.

Poemas de amor

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Wilder shores of love – Cy Twombly, 1985*

Equivalho os poemas de amor, a relação entre o poeta e sua musa do momento inserida nos poemas de amor, à relação de um pintor e sua modelo. (Sintam-se livres para inverter os gêneros nas frases, já que eu creio que seja o mesmo para mulheres poetas e pintoras e seus ou suas modelos ou homossexuais ou bissexuais ou quaisquer outras variações possíveis. Quando escrevo não-ficção, escrevo por mim, pela minha perspectiva. Por quem mais poderia escrever?) A diferença é que a musa do poeta não precisa estar presente. Não precisa nem saber que aquelas palavras meticulosamente organizadas e escolhidas são para ela. Pode até nunca ler as tais palavras. Na pintura é diferente. Ela está ali, posando, desconfortável, por horas durante vários dias. Fotografia é a mesma coisa, exceto que a foto é mais rápida que a pintura. Por ironia, quem sabe, a relação seja outra. Modelos são apenas modelos. Servem de imagem representativa de algo que pode não ser – raramente é – elas mesmas. Já a musa da poesia tem uma relação mais pura com o texto, genuína. Ou assim eu acredito. Hiperbólica, com certeza, principalmente quando denominamos o poema poema de amor. Sempre se ama a musa? Não, amar é uma palavra muito forte. Chamemos de intensa atração imediata. Ainda assim não existe nome mais exato para esse tipo poesia. Talvez porque poema de interesse não soe poético e poema de vaga atração sexual seja muito frio – e a poesia, sendo a forma de linguagem mais próxima de representar as emoções humanas com fidelidade, pode ser tudo menos fria. O que eu sei é que o texto não é uma montagem, não é uma cena imaginária. A inspiração pode trazer à tona invenções, jogos de suposição, brincadeiras fictícias e puramente estéticas, mas a pessoa é real, e o que se sente é abstrato mas real.

Faz tempo que não venho com um poema desses. Tem poetas que são mestres desse gênero. Pablo Neruda, Brian Patten, Vinícius de Moraes. Algo nas palavras desses professores-doutores do amar tornam suas musas intocáveis. O romantismo, por outro lado, aquele de Castro Alves, Casemiro de Abreu, me incomoda um pouco. Produto de uma época, com certeza. Mas todo aquele papo de virgens pálidas e tísicas… Pertence àquele século e somente a ele. A forma é fascinante, sempre tão bem montado e vibrante, com o peso de um tumor no pulmão e a beleza de um nascer do sol depois de uma noite de bebedeira. Mas morreu. Não funciona hoje. Não para mim. A tara pelo puro me aliena. Esses primeiros que eu citei, por intocáveis que façam suas musas, são mundanos; as mulheres que eles escrevem estão ali ao lado, caminhando, perdidas olhando para o céu. São de carne e osso. A beleza sobrenatural vem dos olhos do poeta, e só.

Existe uma dificuldade nisso. Por mais que possa não parecer. Queria ter um conhecimento enciclopédico sobre poesia para poder repassar dados “arqueológicos” sobre o tema, mas como não tenho vou chutar que poesia e amor andaram juntos desde sempre. É uma teoria que faz sentido, admitam. Então pensem comigo quantos poemas de amor existem por aí. E quantas mulheres já tiveram um escrito para si. E quantas já tiveram um reciclado como cantada. Todas as descrições usadas a ponto de se banalizarem – o mal dos escritores clássicos: não pensarem nos seus sucessores e tomarem tudo para si, tão egoístas.

O que eu quero dizer é que vi uma moça que tinha tudo para ser um poema. E faz tanto tempo que eu não escrevo um, fui tomado por aquela sede que só a escassez traz. Foi uma questão de desespero. Mas nunca começo um poema sem ter um primeiro verso. Não quero dizer um bom primeiro verso, mas um que seja pré-aprovado pelo meu sistema pessoal de qualidade. Nada. Talvez eu não a conheça bem o suficiente. Com certeza não a conheço, mas eu também não conhecia a moça carregando um garrafão de água na fila do supermercado. Isso não me impede, normalmente. Pensei e pensei. Formulei frases, quebrei o ritmo, fiquei tentando visualizá-la e o que nela eu via como poesia. Porra, que dificuldade foi fazer um verso. Mas ele saiu. Essa é a coisa dos versos, eventualmente eles saem. Quem lê Bukowski sabe que versos saem, mesmo quando não deveriam. Ele esporrava versos bons e horríveis como se um dia sem escrever poesia fosse um dia de coma. Então eu reli meu verso, aquele primeiro. Quando o primeiro sai, caso eu o aprove, ele costuma vir segurando a mão de um segundo e assim por diante. O primeiro verso é um fósforo aceso na poça de gasolina. Esse não foi, o fósforo apagou na queda. Fez fumaça e deixou cheiro de enxofre, o puto. Ah, quantas vezes eu reli. Que merda sentimental e barata era aquele primeiro verso. E todos que eu conjurava mentalmente em sequência eram piores ainda. Chegaram a me dar enjoo de estômago. E não falo figurativamente. A melosidade de certas palavras me deu náuseas reais. Todos os poetas têm essas vergonhas. Eu tenho a vantagem de perceber antes de publicar – de vez em quando. Hoje tenho essa vantagem. Anos atrás não tinha e só eu sei das vergonhas que já escrevi me achando o último boêmio de Itajaí. Foi essa falha – porque, sim, eu apaguei aquele verso, acreditem era horrível – que motivou esse texto que vocês, a essa altura, já deixaram de ler.

Outro obstáculo que só o escritor dentre os artistas tem: como eu invejo a sensação de comunidade dos outros artistas. O clima de uma exposição, o ambiente de gravar um filme, se apresentar em uma banda. A literatura é a arte mais próxima da punheta. Mesmo quando se tem sorte e se é publicado, o autor está a quilômetros de distância do público e quase anônimo – li um livro tão bom esses dias, esqueci o nome do autor, diz o leitor médio sobre todos os livros que leu na vida. As personagens e a história tomam conta. Esse é meu lado egocêntrico falando, claro. Minha personalidade, que eu denomino introvertido-excêntrico, dá graças a deus pelo isolamento. Só que essa sensação de isolamento se potencializa durante a escrita de um poema de amor. Retorno ao pintor e sua modelo. Ela está lá, vê a obra se formando. O poeta, mais especificamente eu, costuma ter só uma garrafa de vinho e um cachimbo meio cheio de tabaco durante a escrita. Mesmo que eu terminasse o poema, a impressão de falta de autoria que uma leitura natural dele traria é frustrante. Lógico, não tão frustrante quanto a não realização do poema como um todo. Fico pensando, se apenas eu tivesse os dons para desenhá-la de uma vez. Poderia embelezar os traços. A reação à lisonja é sempre melhor que à abstração. Se ela (ou qualquer outra que já passou pela minha escrita) lesse um texto meu, provavelmente perguntaria se eu a via daquela forma mesmo ou não entenderia nada. O desenho só ressalta os melhores traços, sem subjetividade. Por que fui escolher esse método tão abstrato de retratar alguém? Merda; é a vida. Cada qual conforme suas capacidades, sofrendo as consequências de suas limitações.

*Indico muito as obras de Cy Twombly praqueles que gostam de pintura. Essa, em questão, de alguma forma complementa a ideia que eu quis passar com o texto – a da abstração de um retrato com base em sensações e não imagens. Procurem mais sobre ele e, principalmente, respeitem mais os pintores abstratos. Nem toda a pintura deve parecer com alguma coisa. As coisas já existem e tem forma, sentimentos não. Pensem nisso.

***

Postado originalmente em 1 de outubro de 2015: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/10/poemas-de-amor-conversa-franca-1.html

Andei vendo uns filmes aí… #2

Enquanto seres humanos se desgastam para postar todos os dias desse mês, cá estou sem postar há quase três semanas. Mas, ei, vi uns filmes. E, puta que o pariu, que filmes. Foram 4 de sexta pra domingo (há 3 semanas, quando comecei a escrever essa postagem), e os 2 de domingo foram daqueles que te fazem lembrar por que o cinema existe e por que é uma arte. Vamos aos culpados:

KAZE TACHINU [VIDAS AO VENTO] -HAYAO MIYAZAKI

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Até o mês passado ou retrasado, nunca tinha visto nada Miyazaki, nem os mais universais. Decidi mudar isso, vi Porco Rosso, e isso me deu vontade de ver todos. Até agora foram 3. Pretendo ver mais. Tanto que nem planejava botar Vidas ao Vento (último que vi) nessa postagem, porque pretendo fazer uma postagem só Miyazaki, mas achei melhor falar um pouco desse aqui, só de prévia. Dos que eu vi, esse me pareceu o mais realista. Envolve a biografia do engenheiro que desenhou os aviões utilizados pelo exército japonês na Segunda Guerra Mundial, Jirô Horikoshi. Mas biografia pura seria chato, então ele mescla a vida dessa personagem histórica com a de Naoko Satomi, baseada na personagem do romance de Tatsuo Hori, que leva o mesmo nome do filme do Miyazaki. Esse livro nada tem a ver com a vida do engenheiro aeronáutico ou com a 2ª Guerra Mundial, mas é sobre uma mulher tuberculosa, em estado avançado, que se interna em um hospital isolado nas montanhas, e sobre o homem que se apaixona por ela mesmo sabendo seu destino. Miyazaki faz o engenheiro se apaixonar por essa mulher e cria, a partir disso, uma história nova, com aquela típica mistura que ele faz entre realidade e sonho, animada com aquela atenção absurda aos detalhes, aos pequenos movimentos que tornam as personagens indivíduos completos.

GOZARESH [O RELATÓRIO] – ABBAS KIAROSTAMI (1977)

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Motivado pela morte do diretor, este é o segundo filme que vejo do Kiarostami. Gosto muito desse tipo de história quase sem estrutura, em que começo, meio e fim se misturam, sem perder a linearidade, somente porque as coisas, como na vida, não são assim tão bem estabelecidas e separadas. Não é exatamente uma história propriamente dita, um roteiro, é um momento da vida de um ser humano fictício e as coisas que o cercam. Este trabalha numa repartição pública, cobrando impostos. Um dia, um homem aparece e o denuncia por corrupção. Começa como boataria, mas vai crescendo em proporção, até que ele é forçado a se afastar do escritório até que a situação seja averiguada. Ao mesmo tempo, a esposa dele, por tantos motivos, é infeliz. Os problemas na vida dele e da família vão se acumulando e o filme se expande e se expande.

NOSTALGHIA [NOSTALGIA] – ANDREI TARKOVSKY (1983)

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Falando de expansão, esse filme do Tarkovsky me deixou sem palavras. É o segundo dele que vejo, nesse ele já havia desistido de trabalhar na, então, União Soviética, e levado seus esforços à Itália. A história trata de um poeta russo e sua tradutora italiana, na Toscana, pesquisando a vida de um compositor russo expatriado que “não podia trabalhar na Rússia nem viver fora dela”, muito como Tarkovsky na época. Seria necessário muito mais que um parágrafo para falar desse filme com o devido respeito. As imagens, o ritmo, a poesia, as ideias, cada fator traz um mundo de análise dentro de si, que eu não tenho os meios ou a capacidade de explorar. Esse filme, como tudo do Tarkovsky parece ser, é uma experiência de vida. Algo que se deve experienciar antes de morrer, é o que eu digo. As cenas são longas e crescem perante os olhos. Alguns momentos ainda não posso nem começar a imaginar como foram criados. Porque é isso que diferencia um filme com cortes rápidos de um que se prende a uma mesma cena por minutos: o ato filmado precisa acontecer em frente a câmera. Há ilusão, como em todo filme, mas o truque deve ser bem escondido, pois o ambiente em que se dá a magia é muito mais frágil. O momento final, em que o poeta atravessa a piscina esvaziada, segurando uma vela a acessa, com o dever de não deixar que ela se apague para que “a humanidade não pereça” ainda é um dos mais marcantes do cinema. Como disse no começo, são momentos assim a razão de ser do cinema.

WERCKMEISTER HARMÓNIÁK [A HARMONIA WERCKMEISTER] – BÉLA TARR & ÁGNES HRANITZKY (2000)

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E falando em cenas prolongadas, foi do Béla Tarr o último filme que vi naquela semana. Também o segundo do diretor. Existe um paralelo entre a obra de Tarr e de Tarkovsky. Existe poesia no filme de ambos, calma e expansão, lentidão e uma noção da amplitude do que cerca as personagens. A diferença que eu pude perceber, e talvez seja bastante clara, é que, enquanto em Tarkovsky há esperança sob a desilusão, e há sonho e cor e beleza, Tarr nos esfrega a cara com o que há de pior no ser humano e nos mostra porque essa desilusão existe em primeiro lugar. Aqui acompanhamos a chegada de um caminhão trazendo a carcaça de uma baleia e a presença de uma figura anônima porém poderosa chamada apenas de “Príncipe” a uma pequena cidade da Hungria. Um jovem inocente se vê tomado pelo que parece ser uma revolta política causada por esse grupo que trouxe o caminhão. Claramente uma referência ao autoritarismo que tomou conta da Hungria nos anos da União Soviética, e quão fácil foi domar o povo, fazer com que o povo abraçasse o fascismo. Mensagem essa facilmente traduzida aos dias de hoje. De fato, mostra o pior do ser humano e, ao mesmo tempo, o quão próximos sempre estamos desse pior. A poesia de Béla Tarr é a poesia do caos e do terror, da fragilidade e da morte, da decomposição que nos consome ainda em vida. É dito que o filme mais acessível dele é o mais recente, O Cavalo de Turim. Discordo. Até porque usar a palavra acessível para qualquer filme dele me parece um erro. Apesar desse detalhe, A Harmonia Werckmeister me pareceu mais acessível. Não se enganem, requer esforço. Mas não se intimidem tampouco. O filme, como nenhum outro, não morde. Basta paciência e desejo por se entregar ao melhor dessa forma de arte que chamamos cinema.

Andei lendo uns livros aí… #2

O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro – Sérgio Sant’anna [1982]

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Um dos livros mais aclamados de um dos meus escritores favoritos. Essa foi uma leitura que não tinha como dar errado, e já está entre as melhores desse ano – não pretendo fazer lista. É difícil resumir um livro que tem de tudo. É uma coletânea de contos, logo já se sabe que é Sérgio no seu habitat natural e tudo pode acontecer. Os textos têm aquela voz distinta do autor que, ao mesmo tempo, quase nunca se repete. As obsessões dele estão todas lá – o sexo, a arte, a escrita, o futebol -, mas sempre apontando algo novo, entre a ficção e a biografia, a narrativa e o ensaio, o formal e o coloquial. Um clássico da literatura brasileira escrito por um dos melhores autores vivos.

Leia um trecho: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/13833.pdf

Pé do ouvido – Alice Sant’anna [2016]

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Que inusitado eu falando de um livro no mesmo ano do seu lançamento. E mais, essa autora estava na primeira edição do “Andei lendo uns livros aí…”. Não podia ser diferente. Tendo lido Rabo de baleia, anterior da autora, quando fiquei sabendo desse lançamento, corri atrás. Não é uma coletânea de poesias, mas uma poesia só, longa (o livro tem 64 páginas), dividida em duas partes, a segunda como um epílogo. Assim como Rabo de baleia, Pé do ouvido trata, com leveza e imagens vívidas, de viagens (uma só, ao Japão, e a poesia da Alice carrega traços da poesia japonesa, sem metáforas, só imagens diretas), solidão, relacionamentos. A poesia da Alice captura imagens e sons ao redor como uma câmera e filtra tudo ao seus estilo, insere na história que a poesia conta, forma uma grande sequência sensorial de momentos e memórias.

Trecho: http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/14071.pdf

A história dos meus dentes – Valeria Luiselli [2013/2015/2016*]

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Queria tanto ter gostado mais desse livro. Porque não é ruim. O método de criação é inventivo. Foi feito como literatura de folhetim para os trabalhadores de uma fábrica – vocês podem pesquisar mais sobre o método, a história da criação do livro é bem interessante, talvez mais do que o livro em si – que participaram do desenvolvimento de enredo. A história, sobre a vida do melhor leiloeiro do mundo, Estrada, é divertida, leve. A prosa tem seus momentos. Mas o livro nunca me prendeu de verdade por nenhuma de suas características. Nada me chamou atenção. Li aos poucos, intercalando com outras leituras melhores. Não é um livro ruim, mas ou não é pra mim ou li no momento errado. Pretendo acompanhar o trabalho da autora, inclusive ler o outro livro que ela tem publicado – saber escrever ela sabe -, mas só indico esse para quem ler a sinopse e se interessar muito.

Sinopse (site não oferece trecho): http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1649

*2013 foi o ano de publicação do livro original, em Espanhol. 2015, em inglês, e a autora mudou um pouco o livro, acrescentando trechos aqui e ali, em parceria da autora com a tradutora. 2016 chegou ao Brasil, mesclando a edição original com a americana, para deixar o livro o mais completo possível.

Não foram todos os livros que li entre a primeira e a segunda edição dessa coluna, mas são os mais recentes, e as leituras que me achei capaz de falar um pouco sobre.

Antes de terminar a postagem, vou fazer uma coisa que nunca faço e indicar a quem estiver aqui que leia um conto meu, caso não tenha lido ainda. É um conto que escrevi faz tempo, mas foi um dos primeiros que escrevi com confiança. É raro que alguém comente nesse blogue, mas seria bom saber o que vocês acharam desse texto. Senão por comentário aqui, mande um e-mail, um sinal de fumaça, o que acharem melhor. Meios não faltam. Estou linkando a parte 3 – última -, porque ela tem os links pras outras duas partes:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/07/27/confissao-no-quarto-219-parte-3-final/