Confissão no quarto 219 – parte 3 (final)

Parte 1: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/21/confissao-no-quarto-219-parte-1/

Parte 2: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/07/24/confissao-no-quarto-219-parte-2/

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Peguei o livro do chão e comecei a ler o texto. A letra era horrível, como se o autor tivesse a mão tão trêmula quanto a minha. Foi escrito às pressas, claramente. A primeira palavra poderia tanto ser um título quanto o destinatário de uma carta. Era o nome de uma mulher. Mas carta não poderia ser, exceto que o autor pretendesse enviar toda a bíblia à moça. Abria com um tom poético, mas estava em prosa. O tom, no entanto, não era fixo e sumia ao longo do texto. Aos poucos se tornava narrativa confessional, direta e realista, se referindo a alguém, à moça-título, como se a pedisse perdão.

Começava extremamente afetado, com mescla de formalismo antiquado e erotismo: Sonho com o dia que verei seus olhos em frente aos meus, olhos cor de terra e mel, olhos curiosos, olhos abertos, olhos vivos. Quero que me enterre com essa terra e me deixe enterrar-me em você. Se você é a terra, que eu seja o fogo, basta me olhar para abastecê-lo e ele nunca se apaga. Por-lhe-ei em merecido pedestal e me alimentarei de seu sexo como néctar divino que é, será meu templo, minha deusa, minha guia. Quero ver-lhe em gozo eterno, epiléptico, alcançarei sua divindade com minha torre de babel que fala e usa todas as línguas. Nessa passagem o autor dizia querer ver a moça, mas nas sessões diretas eles pareciam se conhecer, ou estar se conhecendo. Aí o erotismo desaparecia. A realidade podia ter atingido o autor. Apesar do estilo, podia ser bonito, aos olhos menos cínicos. Por que escrito em uma bíblia e abandonado no hotel?, não tinha como saber. Era irônico, vista a frase: Que esqueçamos cristo e nos entreguemos a dionísio, nos esfreguemos entre os lençóis, banhados de vinho e suor… Um pouco de heresia nunca faz mal, eu diria.

A perda do erotismo, contudo, não era brusca. Acontecia ainda de maneira poética, quando o autor se dava conta da realidade e decidia a analisar. Você me deixa pornográfico, garota, ele dizia, assumindo sua própria exaltação. Mas não pedia desculpas. Questionava a si mesmo e a ela se a causa de seu desejo era séria ou ímpeto juvenil, primeira pergunta que qualquer apaixonado deveria se perguntar, independente das circunstâncias. Ainda assim recusava que suas emoções fossem mantidas em silêncio e encerrava: Por que me envergonho dessas palavras, então, se são tão sinceras? Por que quero escondê-las e as julgo ilegíveis, indignas da beleza dos seus olhos? É uma vergonha universal dizer o que se sente com as exatas palavras, não sou o único. Também causa vergonha ouvir certas verdades. Eras e mais eras disfarçando sentimentos, diminuindo-os, por medo de sabe-se lá o quê, medo que se tire proveito da verdade, então chora-se pelo excesso de mentira. Por um instante, desejo ser diferente, desejo ir até você, minha musa, só para te dizer estas mesmas palavras, com cada vírgula e entonação. Ria de mim, se assim desejar, chama-me de louco, pois o sou, perdoa-me se te incomoda quando eu digo que quero te apreciar e satisfazer, que quero te vulgarizar e, quem sabe – no futuro, um dia –, te amar. É apenas a verdade. Primeiro o desejo, então a sua satisfação, e somente depois existe a possibilidade de amor. Concordava com cada palavra, ainda que sempre me constrangendo pelo estilo patético e extravagante.

Então, em um salto, o autor admitia frustração. Não com sua musa, essa ele se esforçava por compreender. Era frustração generalizada com a qual eu me identificava. Ele contava, nessa nova parte sem poesia, o que poderia ser um caso real, vagamente descrito. Até me senti envergonhado pela leitura daqueles trechos, eu era um estranho invasor das memórias alheias. Esqueci que eram linhas abandonadas a sabe-se lá quantos anos. Quantas pessoas já não haviam lido aquele texto? Quantos não ficaram sabendo daquele começo de tarde, daqueles minutos de conversa tímida e tensa? E pior, quantos não ficaram sabendo dos pensamentos íntimos do autor naquele momento, das tais inseguranças que, no texto, ele fazia questão de relatar da forma mais literal possível, sem os disfarces confortáveis do símbolo e da metáfora, da ficção e da poesia? Preferi não o parafrasear por medo de desconhecer o que estaria expondo, talvez só a última linha desse parágrafo, a mais chamativa e que resume tudo: Viro as costas e contemplo a Terra, que gira só para chegar sempre no mesmo lugar. Não é isso a vida? Repetição constante. Acordar, trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho, chegar em casa e perceber que é hora de dormir para que se possa acordar, trabalhar, seguir esse fluxo infinito com a ilusão de que o dia seguinte trará algo de melhor, algo que interromperá o ciclo. Mas quando algo de fato interrompe, como acontecia comigo, o sentimento é desconfortável. Não traz nenhuma felicidade e faz com que você se pergunte, então é isso? Será que vale a pena? Mas pensar em acabar com tudo e contemplar o nada é ainda mais terrível. Principalmente sabendo que o nada é apenas pessoal, a Terra seguirá sem você, girando da mesma forma, como sempre, como desde muito antes do seu nascimento. Por isso seguimos girando em círculos, como loucos iludidos.

O último parágrafo era outro pedido de perdão. Por tudo. Para a musa, para o autor, que precisava se autoperdoar pelas próprias ações e erros. Se arrependia por falar demais e criar expectativas inalcançáveis. Se enganar e ainda cobrar dos outros que não cumpriram com as impressões que ele errou em ter, para começo de conversa. Ego, ele repete diversas vezes. Todas as suas ações, quando analisadas com a devida sinceridade, não passavam de alimento para o ego. Até mesmo o texto que eu lia era apenas algo que ele poderia usar para demonstrar sua própria sensibilidade e visão de mundo – não é isso que todo o escritor faz? –, mas que não passa de masturbação. Masturbação intelectual, masturbação emocional, o que seja. É possível ser egocêntrico e se autodesprezar?, ele perguntava.

Era com premonição que o texto terminava. Mais provável é que escreverei um novo texto falando sobre este texto e como ele não passa de uma sequência de autopiedades e vou me arrepender de tê-lo mostrado para qualquer um, principalmente a você. Enquanto eu terminava a leitura, via outro mosquito fazer sombra ao passar ao meu lado. Por um instante, me esqueci de tudo que li. Fechei a bíblia e voltei à caça. Estava na cabeceira marrom da cama, camuflado, mas eu o via. Com uma porrada sagrada ele se desmanchou como seu parente. Agora eram duas marcas de sangue na contracapa do livro.

Precisava de outra bebida. Ainda eram nove da noite e o bar do hotel estava aberto, embora ninguém o frequentasse. Pedi outro uísque ao garçom, que já me olhava com suspeita, mas não fazia perguntas. Trouxe a bíblia comigo. Mostrei o texto a ele e perguntei se ele sabia de quem era.

Não sei, nunca vi isso antes.

Ninguém nunca te mostrou isso?

Não, acho que não. Você quer que eu troque a bíblia do seu quarto? Acho que posso fazer isso e me livrar dessa daí.

Não. Não tem problema, pelo contrário, só queria saber se vocês sabiam de alguém que se hospedou aqui e pudesse ter escrito isso.

Não, não que eu saiba. Pode ser que um escritor tenha passado um tempo aqui, mas que tenha rabiscado nas coisas, disso nunca ouvi falar.

Terminei minha dose e ele perguntou se queria outra. Na verdade eu queria, mas achei melhor dizer não. Ainda tinha que acordar naquela madrugada. Voltei para o quarto, agora certo de que todos os mosquitos estavam mortos – levantei a procura de um, matei dois. Estava errado, mal deitei a cabeça, já ouvia os zumbidos. Acendi a luz e vi os pontos pretos em fuga. Peguei de novo minha arma e olhei ao redor – nada. Andei um pouco pelo quarto. Vi a mancha na cortinha branca. Observei de perto e achei o mosquito. Acertei para matar, e agora eram três manchas de sangue na contracapa. Agora poderia dormir em paz, pensei, mas ainda encontrei outro me esperando em cima do colchão. Este nem teve tempo de fugir e me dar o trabalho de o caçar. Quatro manchas na contracapa e uma no colchão, sobre a qual eu dormi após dar uma segunda lida no texto. Pensei em o guardar comigo, arrancar as páginas do livro, mas seria egoísta impedir outras pessoas de cruzarem com ele, tampouco queria destruir a bíblia do hotel. Aquela leitura, de qualidade ou não, cumpriu seu papel comigo. Não me confortou, mas me fez perceber que outros sofriam que nem eu, que outros também se odiavam apesar de se sentirem completos egomaníacos. Se odiavam justamente por isso, por terem que viver dentro deles mesmos sem descanso e só terem a si a si a si o tempo todo.

Três horas de sono apenas, mas não podia fazer nada. Tinha o voo de volta para pegar. Tinha que voltar para casa, almoçar, depois ir ao trabalho – com o diferencial que agora teria os resultados bem-sucedidos da viagem para exibir, como se fossem servir para alguma coisa, como se tivessem significado real. No fim do dia, após o expediente, ia voltar para casa e perceber que o dia acabou e tinha que ir para cama para acordar no dia seguinte e ir ao trabalho e ao meio-dia sair para almoçar e voltar logo depois e trabalhar até o fim do expediente quando eu voltaria para casa e me daria conta de que o dia acabava e em círculos daria voltas infinitamente, agora sem a ilusão de algo melhor e sem a ilusão de que a destruição do ciclo que parecia me escravizar me traria qualquer liberdade.

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