Confissão no quarto 219 – parte 2

helmut_newton_-_arielle_after_haircut__paris__1982

A exata meia hora do sono mais profundo, escutei um zumbido se aproximar, cauteloso, do meu ouvido. Me dei conta do barulho e levantei me estapeando. Agora era o braço esquerdo que coçava e queimava, ainda mais que o dedo. Acendi as luzes, mas nem sinal do canalha, que eu estava certo ser o mesmo do restaurante. Tão certo quanto os garçons estavam rindo de mim. Sabia que só poderia dormir de novo sobre o cadáver daquele inseto, Nêmesis. Busquei o controle remoto e liguei a televisão – o que há anos eu não fazia, falando em quebra de rotinas. Passava os canais como um maníaco, pensando que, independente do que passasse, algo melhor existia logo no canal ao lado e eu estava perdendo – motivo que, em primeiro lugar, fez eu me livrar da minha televisão. Olhei para a mão que segurava o controle, ela tremia. Bem de leve, mas tremia. Meu chefe me disse uma coisa, mais cedo naquela mesma semana. Estava separando uns papéis e ele comentou que minha mão estava tremendo. Disse que era porque estava embaralhado com os papéis, eram muitos, me faltava coordenação para os separar sem que um ficasse preso no outro. Ele não acreditou e pediu que eu esticasse as mãos no ar. As duas tremiam igual. Vai procurar um médico, ele sugeriu, isso é coisa de sistema nervoso, muito perigoso. Isso fez sumirem quaisquer chances de minhas mãos atingirem estabilidade.

Achei um canal. Nunca tinha ouvido falar dele. Aparentemente era brasileiro e dedicado à arte, em todas as suas formas, vinte e quatro horas. Passava um breve documentário sobre Cartier-Bresson. Não entendia nada de fotografia, nem tinha planos de aprender, mas parecia interessante. Era uma pena que, após algumas frases em francês, com legenda em português, que não faziam muito sentido separadas do contexto, mas soavam filosóficas para cacete – mais pelo idioma –, e algumas fotos de Paris, começaram a rodar os créditos. Em seguida, uma escritora jovem brasileira falava sobre seu novo romance, parecia interessante, mas minha cachalote branca apareceu, pousada na parede. Dei um tapa nela, mas ela esquivou – sim, ela, li em algum lugar que os únicos mosquitos que sugam sangue são fêmeas –, e se pôs a flutuar sobre mim a uma altura fora do meu alcance, como se tivesse me medido por antecedência, então me cegou voando em direção à luz, finalmente sumindo sob as sombras.

Agarrei de novo o controle remoto. Passava outro documentário, dessa vez sobre Helmut Newton, mas a narração continuava em francês. Falava sobre o intenso erotismo de suas fotos relativamente simples. A foto se chamava Arielle depois de cortar o cabelo. Uma mulher sardenta, de braços cruzados, cabelos curtos emoldurando seu rosto, de seios expostos. Percebi quão pouco valor dei às sardas durante minha vida. O que seria da arte sem a nudez e o sexo? Tem coisa mais inspiradora que o corpo feminino despido, com todas as suas formas e delicadezas? Não, por isso nenhum movimento artístico casto poderia ser levado a sério nos dias de hoje.

Enquanto aumentava o volume, pensei na tremedeira, o que a ativou, causando um espasmo que começou no meu cotovelo e atravessou todo o antebraço, derrubando o controle remoto no espaço estreito entre a parede e a cama. Desisti e usei o interruptor ao lado da cama para desligar a televisão. Eram dois interruptores. Antes, apertei o errado e liguei o ar-condicionado, então corrigi e desliguei os dois aparelhos.

Olhava para todos os lados, para o teto, para as paredes, paranoico, como se cada sombra fosse aquilo que, não era um predador feroz, era apenas um mosquito. Um mosquito que, por esquecimento, quem sabe, pousou novamente na parede. Devagar, abri a gaveta do criado-mudo ao meu lado. Uma bíblia, somente o novo testamento, e uma lista telefônica. A bíblia, embora menor, logo menos gratificante, seria mais eficaz, rápida, de capa dura. Em movimentos suaves e discretos, tirei a bíblia da gaveta e a acertei na parede. Com a fúria das minhas frustrações, golpeei o mosquito, que virou uma massa preta e vermelha na parede. Meu dedão, mal posicionado, acertou a parede também. Soltei o livro. Ele se abriu, no chão, não em uma passagem edificante, mas de modo a expor a guarda e a folha de guarda, esta, quase virando. Ambas estavam escritas, do começo ao fim, com caneta azul.

***

Lembram que comecei a postar um conto aqui? Não? Então aqui a parte um:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/21/confissao-no-quarto-219-parte-1/

Demorou porque decidi revisar a coisa toda mais uma vez. É a vida. Talvez surjam mais contos por aqui.

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