Bored To Death (2009-2011) – Resenha de uma série cancelada e subestimada

Postado originalmente em 7 de junho de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/06/bored-to-death-2009-2011-resenha-de-uma.html

Momento raro aqui no Delirium Scribens, eu indicando uma série (ok, essa encarnação do blogue não viveu o suficiente para que sejam percebidas raridades, mas não esperam muitas postagens sobre séries após esta). A cada tantos meses eu toco nesse assunto, falo um pouco das que eu assisto, mas sempre de modo geral e sem muita análise – e agora mesmo não tô vendo nenhuma. Dessa vez farei uma resenha específica sobre a já cancelada Bored to Death. Mas Raphael, se já foi cancelada, a série é boa mesmo? É. Se você visita esse blog a tempo o suficiente e em quaisquer das encarnações, já deveria saber que uma indicação minha é praticamente uma garantia, então relaxe, leia o texto e depois procure pelo menos os primeiros episódios só pra verificar o quanto eu estou certo (2 anos de existência – 4 agora -, é hora de dar férias à humildade nesse blog; 90% da credibilidade vem da falsa autoridade, então vamos lá).

A história de Bored to Death gira em torno do escritor Jonathan Ames (Jason Schwartzman). Ele tem trinta anos, publicou seu primeiro romance “hard-boiled” considerado razoável pela crítica. Sua namorada acaba de o abandonar (o piloto começa com ela de mudança) porque ele bebe demais e fuma muita maconha, embora ele esteja tentando diminuir seu consumo, restringindo o álcool apenas ao vinho branco. Sozinho e com bloqueio criativo para o seu segundo romance, ele coloca um anúncio na internet oferecendo seus serviços como detetive particular – ele não é licenciado, por isso faz um preço acessível. Além disso, ele tem que considerar os problemas pessoais do seu amigo cartunista, Ray Hueston (Zach Galifianakis), que vive as custas da namorada (outro relacionamento instável), Leah (Heather Burns), enquanto seu quadrinho, Super Ray (um super herói que tem como poder sua rola gigante), não consegue publicação; e George Christopher (Ted Danson), editor e colunista de uma revista em decadência, maconheiro nas horas vagas, autoproclamado “sexualmente fora de controle, vivendo como um deus demente” desde a década de 60, e que oferece uns bicos de jornalista e uma figura paterna a Jonathan.

Participação do diretor Jim Jarmusch.

Foi um escritor chamado Jonathan Ames quem criou e escreveu os roteiros dessa série, mas eu não sei até que ponto ela é autobiográfica. Como escritor, Jonathan Ames publicou alguns livros de mistério e outros tantos de memórias e crônicas humorísticas – nada que eu tenha lido para opinar contra ou a favor. Mas isso não importa, o que mais me chamou atenção na série foi a criatividade do enredo em geral e o desenvolvimento psicológico de cada personagem.

A personalidade de Jonathan é ironicamente oposta a dos típicos detetives dos livros Hard-Boiled (Raymond Chandler, Dashiell Hemmett, por exemplo, frequentemente citados na série). Ele é inseguro, fisicamente fraco, frequentemente chapado, cheio de problemas emocionais, à Woody Allen. Mesmo assim ele aceita os casos que ele passa a receber e, como uma pessoa normal, sofre para resolvê-los. No começo coisas corriqueiras, como uma alcoólatra que quer saber se o namorado a está traindo, até coisas mais complicadas, como um russo ex-presidiário que quer reencontrar uma mulher que ele amava, mas é envolvida com a máfia. Falando assim, nem parece engraçado, mas é aí que está o humor dessa série. A comédia é sempre muito discreta e tão inserida no roteiro que espectador quase não percebe que “aquilo é engraçado”. Raramente você vai morrer de rir com uma piada, ao invés disso o episódio inteiro funciona como um momento cômico, capaz de prender a atenção do começo ao fim, tanto com o enredo central, quanto os secundários e terciários inseridos no capítulo.

No fim das contas, os casos de detetive, que deveriam ser tão inusitados, acabam se tornando normais, não só para os personagens como para quem assiste, o que por si só já é engraçado. Jonathan nunca se torna Philip Marlowe, mas ele aprende alguns truques, e é divertido acompanhar esse desenvolvimento.

Outro motivo que me fez indicar essa série e não qualquer outra é que, como a maior parte das pessoas que me visitam têm o hábito da leitura, os personagens da série também, então ela é cheia de referências (desde os clássicos da narrativa policial até Samuel Beckett) literárias, cinematográficas, musicais e psicanalíticas. O próprio clima dos episódios seguem um ritmo, por vezes satírico, sem nunca pesar a mão, de um filme noir. Temos femmes fatales, interrogatórios, tiroteios, perseguições, tudo no ambiente urbano comum da classe média de Nova York.

Durante as três temporadas, todos os três personagens recorrentes ganham seu desenvolvimento e histórias próprias ao redor da história de Jonathan – que às vezes perde importância perante as necessidades psicopatológicas dos seus amigos. Falando de problemas psicológicos dessa maneira, mais parece um drama, mas são esses problemas que geram a comédia. O humor, de estrutura mais próxima da anedota que da piada, é baseado em observações do absurdo cotidiano, na sexualidade – principalmente perversões – dos personagens, no uso de drogas, nas decisões erradas, na autodepreciação e em questões mais filosóficas, como a mortalidade. Os personagens são todos deslocados e alheios as suas próprias vidas, buscando distração, seja se fingindo de detetive, se fingindo de super-herói, ou relembrando o passado em uma nuvem de Cannabis. Isso os torna suficientemente relacionáveis para que a série se sustente, apesar da comédia discreta e por vezes propositalmente obscurecida.

Agora você deve estar dizendo, sim, tio Rapha, você tem razão mais uma vez, eu quero ver essa série, mas e o final? Se ela foi cancelada no meio do caminho, será que o fim não é frustrante demais? Mais ou menos. Eu não considero o fim de todo satisfatório, até porque os acontecimentos da última temporada abrem espaço para continuações. Mas não chega a ser frustrante, já que não termina em “cliffhanger”, nem deixa nada de muito importante sem resolução. É como um livro de final aberto (coincidentemente, Jonathan, o personagem, diz gostar de deixar os finais dos livros dele em aberto – ou talvez não seja coincidência…), terminou, mas sempre dá pra explorar um pouco mais, desenvolver novas histórias, coisas assim. Esse tipo de livro deixa a conclusão a cargo do leitor; o fim dessa série é a mesma coisa. E essa foi só a minha impressão, talvez você assista e ache o final perfeito, principalmente se você assisti-la já sabendo que ela termina do nada (eu comecei a acompanhar em 2009, então vi o cancelamento de perto). Se você gosta de comédias, histórias com clima noir, mistérios – mesmo que satíricos – e bons personagens, provavelmente vai gostar da série também. Pelo menos não vai te tomar muito tempo, são só 8 episódios por temporada – por ser da HBO – de 25 minutos cada.

Obs.: se alguém decidir assistir ou já conhecer ou ver e gostar, avise. Até agora só sei da Carol e dum cidadão que comentou na postagem original.

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