O Sol Também se Levanta (The Sun Also Rises) – Ernest Hemingway [1926]

Postado originalmente em 3 de dezembro de 2013: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2013/12/o-sol-tambem-se-levanta-sun-also-rises.html

Hoje eu descobri que tem um monte de resenha que eu podia jurar que tinha feito, mas não fiz. Coisa de memória, será? Estou tão velho? Por algum motivo, tinha toda a certeza que, em algum lugar nesse blog, havia um post sobre esse livro. É um dos meus favoritos, se não o próprio, afinal. Vi que não, quando, hoje, por volta do meio dia (meu horário de almoço), vi a nova capa que a Bertrand escolheu para o relançamento de O Sol Também se Levanta, que é o primeiro romance publicado por Ernest Hemingway, em 1926. A capa está no fim do post, assim como meu parecer sobre ela. Sabia que a Bertrand estava pra relançar toda a obra traduzida do Hemingway, mas, tendo visto a capa de O Velho e o Mar, achei que eles iam fazer um bom trabalho – não foi o caso. Esse toureiro aí mais parece o Liberace* versão “El Matador”. Sorte que eu já tenho minhas cópias em edição antiga e que só pretendo comprar os livros que ainda não tenho (assim como uns que já tenho) em edição importada, no idioma original. Mas eu deveria falar do livro por agora, não?

Era uma vez Jake Barnes. Ele é um jornalista americano, expatriado em Paris após a primeira guerra. (Por que Paris? Naqueles tempos, devido à taxa de câmbio, era uma cidade barata para se viver e era onde todas as pessoas interessantes estavam – James Joyce, T. S. Eliot, Picasso, Salvador Dali, Scott Fitzgerald etc. Hoje a situação é outra, a cidade é cara e pessoas tão interessantes já não existem, não nessas proporções.) Ele passa seus dias com os amigos, alguns deles artistas, todos boêmios, bebendo Pernod nos cafés e deixando a vida passar. Jake ama a duas vezes divorciada – informação relevante na década de 20 – Brett Ashley, mas, depois da guerra, ele já não podia demonstrar esse amor. Brett, portanto, é noiva de Mike Campbell, um homem de negócios totalmente quebrado, que sabe que sua noiva o trai com todo mundo, mas não se importa. Exceto quando é com Robert Cohn, um judeu (sim, o livro tem pontas de antissemitismo também), romancista medíocre, mas ótimo boxeador; Mike o despreza – não só Mike – e deixa isso claro sempre que pode, nem sempre com motivo. Em meio a essa tensão sexual, todos eles decidem viajar para Pamplona para assistir a corrida dos touros e para se embriagarem, logicamente. Lá conhecem o jovem toureiro Pedro Romero, o melhor em seu meio e, conforme descrito por Jake, um verdadeiro artista. Romero também se encanta por Brett e a leva consigo. É esse o clima do romance, uma sequência de conflitos reprimidos e, conforme os capítulos avançam, se aproximam de uma explosão.

O Sol Também se levanta é um ícone da literatura modernista. Mínimo em todos os aspectos, o livro definiu o que viria a se tornar o estilo do Hemingway, que o próprio descrevia como Iceberg. A teoria diz que, se um escritor conhece o suficiente de sua própria história, ele não terá o menor problema em esconder a maior parte de seu conteúdo do leitor, e este, por sua vez, se a escrita for de fato sincera, será capaz de sentir todo o conteúdo omitido.

Visto somente pela sua sinopse – ponta do iceberg -, O Sol Também Se Levanta é um livro superficial, sobre gente superficial, gastando suas vidas superficiais em autodestruição. Não é tão simples. Cada personagem representa um fator, e essa discussão já é antiga entre os críticos, na verdade. Jake pode ser o representante da maior “vítima” de seu tempo. Vindo da guerra, sem país e sem esperança, ele é privado até mesmo do amor por culpa de um ferimento, e isso ainda jovem. Todas as coisas que seu governo lhe dissera que viriam se eles ganhassem a guerra, bom, não vieram para ele. Ele apenas perdeu e chegou a um ponto em sua vida em que a vitória simplesmente não estava no horizonte ou sequer lhe era importante. Portanto ele desiste da única forma que realmente vale a pena, vivendo pelo hedonismo. Aproveitando o ambiente e as pessoas ao seu redor sem nunca se envolver com nada, nem consigo mesmo.

Cohn, o desprezado, é o único que não é veterano de guerra, por consequência, o único que ainda mantém algum sinal de idealismo inocente. Ele não é tão esperto, não tem confiança, não tem talento, nem é amado, mas é forte e vive dessa força, apesar de tudo.

Brett representa os valores da época. Representa o caminho para o qual estes pareciam estar se encaminhando e as consequências disso. E ela não é a única que representa isso, Jake, Mike e alguns de seus outros amigos também têm isso dentro deles. Mas Brett é mulher e, novamente, na década de 20, isso era grande coisa. A mulher não é mais a esposa/mãe/enfermeira, e assume uma forma mais “pré-hawksiana” (vindo do tipo de mulher que o diretor Howard Hawks passou a usar em seus filmes, algumas décadas depois desse livro) como mais um dos caras, tão bêbada e promíscua – apesar de eu detestar essa palavra, é a que melhor se encaixa – quanto os homens com quem ela convive. E sem um pingo de vergonha por isso.

O minimalismo da prosa é consequência desse estilo de vida, de certa maneira. A recusa pelos enfeites e pelos padrões estéticos do passado, a desconfiança perante os adjetivos, a brevidade e a velocidade. Tudo comparável à vida da chamada geração perdida, que só por esse nome já diz tudo. Os personagens desse livro, que é um suposto roman à clef (história real, com nomes trocados e só uma pitada saudável de ficção), são trágicos, consequências de tempos difíceis e sem esperança, gente sem adornos e romantismos e, muito menos, idealismos.

*Liberace – o rei do camarote original -,  porque eu sei que vocês não têm idade pra entender a referência do começo do texto. Eu também não tenho, mas minha cultura inútil extrapola os limites do aceitável. Me diz se não parece a foto da capa?
Toureiro: o membro perdido do Village People. Eu juro, vão abrir o túmulo do Hemingway e achar um novo tiro em seu crânio.

Não importa o quanto eu escreva, contudo, esse texto ainda não passa da superfície. O Sol Também Se Levanta é eterno justamente por isso. Pode ser lido várias vezes e estudado, e eu li somente uma vez e não foi ontem. Sei que perdi muita coisa e que em futuras leituras já prometidas eu voltarei a perder tantas coisas novas que eu só vou achar na terceira leitura, mas que nela vou perder ainda outras para uma quarta leitura. É um dos meus livros favoritos, nunca prometi imparcialidade nesse blog, e por isso eu indico a todos que tenham ficado curiosos com a resenha.

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