Like Someone In Love (Um Alguém Apaixonado) – Abbas Kiarostami [2012]

apaixonado

O título do filme é em inglês, ele foi filmado em Tóquio, os atores são japoneses e falam japonês durante o filme, a produção é francesa e o diretor é iraniano. Antes mesmo de assisti-lo, já tinha sido levado pelo filme só por causa dessa variedade de nacionalidades entre as partes envolvidas para sua criação. Essas mesclas culturais são sempre interessantes. E tem mais, vocês já ouviram algum metido a intelectual dizer por aí que só assiste filmes iranianos como se isso fosse um certificado de cultura? Então, é por causa do Kiarostami. Foi ele que, mais ou menos, botou o Irã no mapa do cinema, começando na década de 70. Por isso eu digo, não se deixem intimidar pelo metido*, cinema iraniano pode mesmo ser bom.

Akiko (Rin Takanashi, que, de acordo com IMDB, fez um papel em uma das várias temporadas de Super Sentai, a versão original do que aqui no ocidente é chamado de Power Rangers. Chupa essa, intelectual que não aceita quando a cultura pop encosta na sua sobrancelha elevada, Kiarostami agora tem uma ligação direta com Power Rangers) é prostituta. O cafetão dela, que tem como base um bar,  quer que ela, especificamente ela, atenda um senhor, cliente muito especial para ele. Não explica os motivos, mas diz que, quando ela o ver, entenderá. Ela se recusa, diz que a avó está em Tóquio para a visitar e ela tem que ver a velha àquela noite porque, sabe como é, vai saber quanto tempo ela ainda tem. O cafetão insiste, ela continua recusando, ele pede para que ela pense no assunto. No táxi, indo até o ponto em que sua vó a está esperando, ouve novamente a mensagem que a senhora a deixou no celular. Ela dizia ter visto a foto de uma garota em um panfleto, muito parecida com Akiko, mas que com certeza não se tratava dela. Envergonhada, Akiko prefere seguir à casa de seu cliente que rever a avó. O senhor (Tadashi Okuno, que pra minha surpresa não trabalhou em quase nada além disso) é um velho tradutor, escritor e professor de sociologia (matéria que Akiko estuda na faculdade). Não quer sexo, até porque, como dizia o Sílvio Santos: a pipa do vovô não sobe mais, a pipa do vovô não sobe mais, apesar de fazer muita força, o vovô foi passado pra trás (ele tentou dar uma empinadinha, a pipa não deu nem uma subidinha – tá bom, chega). Ele só quer companhia, uma conversa, um jantar.

No dia seguinte, o velho leva a moça à faculdade e descobre que o namorado dela (Ryô Kase, de Cartas Para Iwo Jima) é ciumento e agressivo. Ele para Akiko na porta da escola e faz uma cena. Vai até o carro do velho e imagina que ele é vô de Akiko, não cliente, e o velho segue com o jogo para proteger o segredo da garota. Mas nem tudo é perfeito nessa vida, então agora vocês que vejam o filme.

É impressionante como, em uma hora e quarenta de filme, quase nada acontece. Todo o enredo se passa em dois dias. Ainda, o ritmo não é arrastado, como às vezes é de se esperar nesse tipo de filme. Em determinado momento, fui ver quanto tempo tinha passado, crente de que não tinha chegado à primeira hora do filme, e já estava nos quinze minutos finais. Isso porque o nada que acontece não é chato. Os detalhes presentes na filmagem do Kiarostami são fascinantes para os olhos. Desde a primeira cena, em que Akiko tenta despistar o namorado por telefone, dizendo estar em uma cafeteria quando na verdade ela está a espera do cafetão – trocadilho intencional e de minha autoria, não precisa agradecer, Kiarostami – em seu bar, ela não  esta visível para o espectador que só ouve a sua voz e não sabe dizer quem ela é ou qual a importância do personagem ainda. Ao invés disso, o espectador é imerso naquele vai e vem do bar, naquilo que Akiko está vendo.

O filme inteiro é silêncioso – sem música, com exceção da cena em que o velho encontra Akiko e ele bota “Like Someone In Love” pra tocar na vitrola -, tem uma atmosfera tensa – no sentido de que o espectador é levado a acreditar que algo errado vai acontecer a qualquer momento -, mas ao mesmo tempo de rara harmonia. É um filme muito japonês. A simplicidade do enredo e o foco nas imagens e cores das paisagens remeteram, na minha visão, aos haicais – e a conexão entre a poesia e os filmes do Kiarostami já são bem conhecidas pelo público. Uma cena, por exemplo, mostra a cidade vista pelo reflexo no para-brisa do carro do velho, então, aos poucos, a imagem real da cidade se apresenta. O enredo em si, também tem um tom nipônico, visto que ele, quase acidentalmente – já que isso nunca é mencionado, sou eu que estou interpretando agora -, trata de gerações. Do contraste entre o velho – pacífico, acadêmico, sábio – e o namorado de Akiko – agressivo, rejeitou os estudos desde cedo, impulsivo, apesar de ter um lado bem intencionado. Vale apontar que a cultura japonesa é conhecida por valorizar conhecimento e autocontrole.

Um Alguém Apaixonado é um daqueles filmes que parecem ter mais conteúdo fora do seu enredo do que dentro. É possível perceber um pouco da invasão ocidental no oriente, a questão já apresentada das gerações, uma discussão muito interessante sobre a questão do compromisso e do que é amor. Nós nunca sabemos nada dos personagens fora do que eles são no momento em que o filme acontece. Por que Akiko, que parece ser uma jovem tão normal, se prostitui? Por que ela mantém o relacionamento com o cara agressivo? Por que o cara continua com Akiko se ela só lhe causa preocupação e sofrimento? Por que, principalmente, ela continua com ele se ele é possessivo e não controla suas tendências agressivas? Qual a história daquele senhor? Não espere resposta pra nenhuma dessas perguntas. Até porque não interessa. É só uma história afinal, simples, breve, mas muito bem contada, como um conto de Raymond Carver (nada a ver com o filme, só me veio na cabeça). Eu gostei e quero conhecer mais do Abbas Kiarostami**.

*Pior que esse pseudointelectual, só o anti-intelectual repete constantemente essa piada como se tivesse orgulho da própria ignorância.

**Repostagem para não deixar o falecimento do diretor passar batido, esse que foi um dos mais importantes e icônicos da história do cinema. Esse foi o primeiro e único que vi dele, e o último de ficção do diretor.

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