Coltrane – Paolo Parisi [2015]

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Capa fazendo referência ao álbum Blue Train. Uma boa primeira impressão.

A nova versão desse blogue já tem alguns meses de vida e ainda não falei nada sobre música. Que errado. Então vou fazer uma combinação de duas coisas que raramente passam por aqui: música e história em quadrinho. Li poucas HQs na vida, dá pra contar nos dedos quantas. Mas noutro dia estava na livraria local, fazendo meus rituais de busca e seleção, e me deparei com uma lombada em que estava escrito Coltrane. Gosto de jazz. Coltrane é uma das poucas experiências religiosas na minha vida. Comprei sem pensar duas vezes.

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Hesito em chamar a história que esses quadrinhos contam biografia. Tá mais pra homenagem. Ficou claro logo no início que Paolo Parisi é da irmandade, que tem Trane no coração, e, com essa narrativa, quis apenas demonstrar seu amor pela música desse santo. Vejam, biografias existem aos montes, mas costumam carregar aquela frieza da pesquisa. Enquanto, para esta HQ, houve pesquisa, claro, mas a liberdade de conteúdo torna a obra mais íntima. Íntima tanto na maneira em que o conteúdo é apresentado ao leitor, quanto na construção do livro.

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Com isso eu quero dizer que o livro não tem exatamente começo meio e fim. Não é aquilo que se espera: John Coltrane nasceu em Hamlet, Carolina do Norte, 23 de setembro de 1926 etc. etc. sequências de eventos até a morte. Ao invés, é dividido em quatro partes homônimas às partes do disco A Love Supreme, o mais famoso do Coltrane. Nessas partes, são narradas diversos fragmentos da vida do músico. Seu início na música, sua participação nas gravações de Miles Davis, contribuições com Thelonious Monk e Duke Ellington, as diferentes formações de sua banda e metamorfoses estilísticas. Nem tudo, no entanto é música, ele também mostra o envolvimento dele com causas sociais, especialmente na luta contra a segregação e o racismo americano.

Os fragmentos não estão em ordem e pulam de um período no tempo para outro sem aviso. O que pode parecer desorganizado, mas flui muito bem. Não tem narração. Na maior parte das vezes temos uma notificação de local e tempo, alguns diálogos, mas o foco é na imagem. E esse é um problema que tive com o livro. Com tanto destaque na ilustração, o traço não chama muito a atenção. É realista, preto e branco. Parecem fotos desenhadas. Bons, mas a paixão, que parece ter sido o combustível do projeto, não é traduzida no resultado final. É bastante monótono e imagino que inacessível para aqueles que não tem uma relação próxima com o músico.

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Outro fator que me impede de recomendar o livro para o público geral é que ele foca nos momentos mais dramáticos da vida de Coltrane (como toda biografia), mas sem grande contextualização. Quem conhece fica satisfeito lendo as cenas conhecidas da vida do músico mesmo que não se impressione com a forma de apresentação dessas cenas, mas quem é “leigo” não tem como compreender o que está acontecendo sem pesquisar um pouco a vida do Coltrane na internet. Pra um trabalho tão focado na homenagem, é quase anticlimático que ele seja tão básico, tão sem sal. Isso até destoa com a obra de Coltrane, famosa pela invenção e falta de limites criativos.

Não é um livro ruim, mas está longe de ser necessário. Provavelmente mais importante para o autor, que realizou sua homenagem, que para qualquer leitor, fã de Coltrane ou não. A impressão que ficou da leitura foi bem mediana, até a última parte. Foi o fim que fez a coisa toda valer a pena. Como em A Love Supreme, termina com uma poesia (o texto em que a música foi baseada) acompanhando o fim da vida de Coltrane, sua última entrevista, seu enterro. Essa foi a parte mais tocante. Se isso te atrai como me atraiu, leia, não há nada a perder. O que não posso deixar de indicar são os discos de Coltrane. E aqui vão os discos:

John Coltrane – My Favorite Things (1961): https://www.youtube.com/watch?v=YHVarQbNAwU

John Coltrane – A Love Supreme (1965): https://www.youtube.com/watch?v=p3L-gL4XmjM

John Coltrane – Giant Steps (1959): https://www.youtube.com/watch?v=xr0Tfng9SP0

Thelonious Monk & John Coltrane (1957): https://www.youtube.com/watch?v=W2ZFdJEPi2Y

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