Confissão no quarto 219 – parte 3 (final)

Parte 1: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/21/confissao-no-quarto-219-parte-1/

Parte 2: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/07/24/confissao-no-quarto-219-parte-2/

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Peguei o livro do chão e comecei a ler o texto. A letra era horrível, como se o autor tivesse a mão tão trêmula quanto a minha. Foi escrito às pressas, claramente. A primeira palavra poderia tanto ser um título quanto o destinatário de uma carta. Era o nome de uma mulher. Mas carta não poderia ser, exceto que o autor pretendesse enviar toda a bíblia à moça. Abria com um tom poético, mas estava em prosa. O tom, no entanto, não era fixo e sumia ao longo do texto. Aos poucos se tornava narrativa confessional, direta e realista, se referindo a alguém, à moça-título, como se a pedisse perdão.

Começava extremamente afetado, com mescla de formalismo antiquado e erotismo: Sonho com o dia que verei seus olhos em frente aos meus, olhos cor de terra e mel, olhos curiosos, olhos abertos, olhos vivos. Quero que me enterre com essa terra e me deixe enterrar-me em você. Se você é a terra, que eu seja o fogo, basta me olhar para abastecê-lo e ele nunca se apaga. Por-lhe-ei em merecido pedestal e me alimentarei de seu sexo como néctar divino que é, será meu templo, minha deusa, minha guia. Quero ver-lhe em gozo eterno, epiléptico, alcançarei sua divindade com minha torre de babel que fala e usa todas as línguas. Nessa passagem o autor dizia querer ver a moça, mas nas sessões diretas eles pareciam se conhecer, ou estar se conhecendo. Aí o erotismo desaparecia. A realidade podia ter atingido o autor. Apesar do estilo, podia ser bonito, aos olhos menos cínicos. Por que escrito em uma bíblia e abandonado no hotel?, não tinha como saber. Era irônico, vista a frase: Que esqueçamos cristo e nos entreguemos a dionísio, nos esfreguemos entre os lençóis, banhados de vinho e suor… Um pouco de heresia nunca faz mal, eu diria.

A perda do erotismo, contudo, não era brusca. Acontecia ainda de maneira poética, quando o autor se dava conta da realidade e decidia a analisar. Você me deixa pornográfico, garota, ele dizia, assumindo sua própria exaltação. Mas não pedia desculpas. Questionava a si mesmo e a ela se a causa de seu desejo era séria ou ímpeto juvenil, primeira pergunta que qualquer apaixonado deveria se perguntar, independente das circunstâncias. Ainda assim recusava que suas emoções fossem mantidas em silêncio e encerrava: Por que me envergonho dessas palavras, então, se são tão sinceras? Por que quero escondê-las e as julgo ilegíveis, indignas da beleza dos seus olhos? É uma vergonha universal dizer o que se sente com as exatas palavras, não sou o único. Também causa vergonha ouvir certas verdades. Eras e mais eras disfarçando sentimentos, diminuindo-os, por medo de sabe-se lá o quê, medo que se tire proveito da verdade, então chora-se pelo excesso de mentira. Por um instante, desejo ser diferente, desejo ir até você, minha musa, só para te dizer estas mesmas palavras, com cada vírgula e entonação. Ria de mim, se assim desejar, chama-me de louco, pois o sou, perdoa-me se te incomoda quando eu digo que quero te apreciar e satisfazer, que quero te vulgarizar e, quem sabe – no futuro, um dia –, te amar. É apenas a verdade. Primeiro o desejo, então a sua satisfação, e somente depois existe a possibilidade de amor. Concordava com cada palavra, ainda que sempre me constrangendo pelo estilo patético e extravagante.

Então, em um salto, o autor admitia frustração. Não com sua musa, essa ele se esforçava por compreender. Era frustração generalizada com a qual eu me identificava. Ele contava, nessa nova parte sem poesia, o que poderia ser um caso real, vagamente descrito. Até me senti envergonhado pela leitura daqueles trechos, eu era um estranho invasor das memórias alheias. Esqueci que eram linhas abandonadas a sabe-se lá quantos anos. Quantas pessoas já não haviam lido aquele texto? Quantos não ficaram sabendo daquele começo de tarde, daqueles minutos de conversa tímida e tensa? E pior, quantos não ficaram sabendo dos pensamentos íntimos do autor naquele momento, das tais inseguranças que, no texto, ele fazia questão de relatar da forma mais literal possível, sem os disfarces confortáveis do símbolo e da metáfora, da ficção e da poesia? Preferi não o parafrasear por medo de desconhecer o que estaria expondo, talvez só a última linha desse parágrafo, a mais chamativa e que resume tudo: Viro as costas e contemplo a Terra, que gira só para chegar sempre no mesmo lugar. Não é isso a vida? Repetição constante. Acordar, trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho, chegar em casa e perceber que é hora de dormir para que se possa acordar, trabalhar, seguir esse fluxo infinito com a ilusão de que o dia seguinte trará algo de melhor, algo que interromperá o ciclo. Mas quando algo de fato interrompe, como acontecia comigo, o sentimento é desconfortável. Não traz nenhuma felicidade e faz com que você se pergunte, então é isso? Será que vale a pena? Mas pensar em acabar com tudo e contemplar o nada é ainda mais terrível. Principalmente sabendo que o nada é apenas pessoal, a Terra seguirá sem você, girando da mesma forma, como sempre, como desde muito antes do seu nascimento. Por isso seguimos girando em círculos, como loucos iludidos.

O último parágrafo era outro pedido de perdão. Por tudo. Para a musa, para o autor, que precisava se autoperdoar pelas próprias ações e erros. Se arrependia por falar demais e criar expectativas inalcançáveis. Se enganar e ainda cobrar dos outros que não cumpriram com as impressões que ele errou em ter, para começo de conversa. Ego, ele repete diversas vezes. Todas as suas ações, quando analisadas com a devida sinceridade, não passavam de alimento para o ego. Até mesmo o texto que eu lia era apenas algo que ele poderia usar para demonstrar sua própria sensibilidade e visão de mundo – não é isso que todo o escritor faz? –, mas que não passa de masturbação. Masturbação intelectual, masturbação emocional, o que seja. É possível ser egocêntrico e se autodesprezar?, ele perguntava.

Era com premonição que o texto terminava. Mais provável é que escreverei um novo texto falando sobre este texto e como ele não passa de uma sequência de autopiedades e vou me arrepender de tê-lo mostrado para qualquer um, principalmente a você. Enquanto eu terminava a leitura, via outro mosquito fazer sombra ao passar ao meu lado. Por um instante, me esqueci de tudo que li. Fechei a bíblia e voltei à caça. Estava na cabeceira marrom da cama, camuflado, mas eu o via. Com uma porrada sagrada ele se desmanchou como seu parente. Agora eram duas marcas de sangue na contracapa do livro.

Precisava de outra bebida. Ainda eram nove da noite e o bar do hotel estava aberto, embora ninguém o frequentasse. Pedi outro uísque ao garçom, que já me olhava com suspeita, mas não fazia perguntas. Trouxe a bíblia comigo. Mostrei o texto a ele e perguntei se ele sabia de quem era.

Não sei, nunca vi isso antes.

Ninguém nunca te mostrou isso?

Não, acho que não. Você quer que eu troque a bíblia do seu quarto? Acho que posso fazer isso e me livrar dessa daí.

Não. Não tem problema, pelo contrário, só queria saber se vocês sabiam de alguém que se hospedou aqui e pudesse ter escrito isso.

Não, não que eu saiba. Pode ser que um escritor tenha passado um tempo aqui, mas que tenha rabiscado nas coisas, disso nunca ouvi falar.

Terminei minha dose e ele perguntou se queria outra. Na verdade eu queria, mas achei melhor dizer não. Ainda tinha que acordar naquela madrugada. Voltei para o quarto, agora certo de que todos os mosquitos estavam mortos – levantei a procura de um, matei dois. Estava errado, mal deitei a cabeça, já ouvia os zumbidos. Acendi a luz e vi os pontos pretos em fuga. Peguei de novo minha arma e olhei ao redor – nada. Andei um pouco pelo quarto. Vi a mancha na cortinha branca. Observei de perto e achei o mosquito. Acertei para matar, e agora eram três manchas de sangue na contracapa. Agora poderia dormir em paz, pensei, mas ainda encontrei outro me esperando em cima do colchão. Este nem teve tempo de fugir e me dar o trabalho de o caçar. Quatro manchas na contracapa e uma no colchão, sobre a qual eu dormi após dar uma segunda lida no texto. Pensei em o guardar comigo, arrancar as páginas do livro, mas seria egoísta impedir outras pessoas de cruzarem com ele, tampouco queria destruir a bíblia do hotel. Aquela leitura, de qualidade ou não, cumpriu seu papel comigo. Não me confortou, mas me fez perceber que outros sofriam que nem eu, que outros também se odiavam apesar de se sentirem completos egomaníacos. Se odiavam justamente por isso, por terem que viver dentro deles mesmos sem descanso e só terem a si a si a si o tempo todo.

Três horas de sono apenas, mas não podia fazer nada. Tinha o voo de volta para pegar. Tinha que voltar para casa, almoçar, depois ir ao trabalho – com o diferencial que agora teria os resultados bem-sucedidos da viagem para exibir, como se fossem servir para alguma coisa, como se tivessem significado real. No fim do dia, após o expediente, ia voltar para casa e perceber que o dia acabou e tinha que ir para cama para acordar no dia seguinte e ir ao trabalho e ao meio-dia sair para almoçar e voltar logo depois e trabalhar até o fim do expediente quando eu voltaria para casa e me daria conta de que o dia acabava e em círculos daria voltas infinitamente, agora sem a ilusão de algo melhor e sem a ilusão de que a destruição do ciclo que parecia me escravizar me traria qualquer liberdade.

Confissão no quarto 219 – parte 2

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A exata meia hora do sono mais profundo, escutei um zumbido se aproximar, cauteloso, do meu ouvido. Me dei conta do barulho e levantei me estapeando. Agora era o braço esquerdo que coçava e queimava, ainda mais que o dedo. Acendi as luzes, mas nem sinal do canalha, que eu estava certo ser o mesmo do restaurante. Tão certo quanto os garçons estavam rindo de mim. Sabia que só poderia dormir de novo sobre o cadáver daquele inseto, Nêmesis. Busquei o controle remoto e liguei a televisão – o que há anos eu não fazia, falando em quebra de rotinas. Passava os canais como um maníaco, pensando que, independente do que passasse, algo melhor existia logo no canal ao lado e eu estava perdendo – motivo que, em primeiro lugar, fez eu me livrar da minha televisão. Olhei para a mão que segurava o controle, ela tremia. Bem de leve, mas tremia. Meu chefe me disse uma coisa, mais cedo naquela mesma semana. Estava separando uns papéis e ele comentou que minha mão estava tremendo. Disse que era porque estava embaralhado com os papéis, eram muitos, me faltava coordenação para os separar sem que um ficasse preso no outro. Ele não acreditou e pediu que eu esticasse as mãos no ar. As duas tremiam igual. Vai procurar um médico, ele sugeriu, isso é coisa de sistema nervoso, muito perigoso. Isso fez sumirem quaisquer chances de minhas mãos atingirem estabilidade.

Achei um canal. Nunca tinha ouvido falar dele. Aparentemente era brasileiro e dedicado à arte, em todas as suas formas, vinte e quatro horas. Passava um breve documentário sobre Cartier-Bresson. Não entendia nada de fotografia, nem tinha planos de aprender, mas parecia interessante. Era uma pena que, após algumas frases em francês, com legenda em português, que não faziam muito sentido separadas do contexto, mas soavam filosóficas para cacete – mais pelo idioma –, e algumas fotos de Paris, começaram a rodar os créditos. Em seguida, uma escritora jovem brasileira falava sobre seu novo romance, parecia interessante, mas minha cachalote branca apareceu, pousada na parede. Dei um tapa nela, mas ela esquivou – sim, ela, li em algum lugar que os únicos mosquitos que sugam sangue são fêmeas –, e se pôs a flutuar sobre mim a uma altura fora do meu alcance, como se tivesse me medido por antecedência, então me cegou voando em direção à luz, finalmente sumindo sob as sombras.

Agarrei de novo o controle remoto. Passava outro documentário, dessa vez sobre Helmut Newton, mas a narração continuava em francês. Falava sobre o intenso erotismo de suas fotos relativamente simples. A foto se chamava Arielle depois de cortar o cabelo. Uma mulher sardenta, de braços cruzados, cabelos curtos emoldurando seu rosto, de seios expostos. Percebi quão pouco valor dei às sardas durante minha vida. O que seria da arte sem a nudez e o sexo? Tem coisa mais inspiradora que o corpo feminino despido, com todas as suas formas e delicadezas? Não, por isso nenhum movimento artístico casto poderia ser levado a sério nos dias de hoje.

Enquanto aumentava o volume, pensei na tremedeira, o que a ativou, causando um espasmo que começou no meu cotovelo e atravessou todo o antebraço, derrubando o controle remoto no espaço estreito entre a parede e a cama. Desisti e usei o interruptor ao lado da cama para desligar a televisão. Eram dois interruptores. Antes, apertei o errado e liguei o ar-condicionado, então corrigi e desliguei os dois aparelhos.

Olhava para todos os lados, para o teto, para as paredes, paranoico, como se cada sombra fosse aquilo que, não era um predador feroz, era apenas um mosquito. Um mosquito que, por esquecimento, quem sabe, pousou novamente na parede. Devagar, abri a gaveta do criado-mudo ao meu lado. Uma bíblia, somente o novo testamento, e uma lista telefônica. A bíblia, embora menor, logo menos gratificante, seria mais eficaz, rápida, de capa dura. Em movimentos suaves e discretos, tirei a bíblia da gaveta e a acertei na parede. Com a fúria das minhas frustrações, golpeei o mosquito, que virou uma massa preta e vermelha na parede. Meu dedão, mal posicionado, acertou a parede também. Soltei o livro. Ele se abriu, no chão, não em uma passagem edificante, mas de modo a expor a guarda e a folha de guarda, esta, quase virando. Ambas estavam escritas, do começo ao fim, com caneta azul.

***

Lembram que comecei a postar um conto aqui? Não? Então aqui a parte um:

https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/21/confissao-no-quarto-219-parte-1/

Demorou porque decidi revisar a coisa toda mais uma vez. É a vida. Talvez surjam mais contos por aqui.

Alguns poemas traduzidos de Ron Padgett*

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Quem me acompanha há algum tempo já deve ter esbarrado pelo menos uma vez com um dos meus comentários sobre o quanto gosto dos filmes do Jim Jarmusch. Vi quase tudo, é um dos meus cineastas favoritos – arriscaria dizer que é “o” favorito – e sempre fico ansioso pra ver o próximo lançamento – que vem a cada 3, 4 anos. E esse ano terá um filme novo dele, que Cannes já está recebendo como o melhor deles. Sim, mal posso esperar pra ver. Paterson, nome do filme, é um motorista e poeta, ele vive com a mulher em Paterson, Nova Jersey. Isso é tudo que eu sei. Isso, e que os poemas de Paterson foram escritos pelo poeta contemporâneo favorito do Jarmusch, sim, o cara do título da postagem, Ron Padgett. Fui atrás e gostei muito de tudo que li. Tanto que decidi traduzir uns pra vocês, assim, na maior cara de pau. Então aí vai, junto da fonte e texto em inglês.

Esquina do Café

As grandes tigelas de café nos cafés da manhã na França,
as pesadas xícaras de porcelana nos velhos diners¹ americanos,
os copos de plástico marrom descartáveis nas recepções de motel,

a sensação de que você há de beber a xícara toda,
o leve ressentimento que você sente por se sentir assim,
o ponderar por que você o faz então,

a gratidão por alguém fazer o café,
a decisão de não tomar o terceiro refil grátis,
a surpresa de uma xícara de café muito ruim,

como costumava custar cinco centavos, então sete centavos, então dez,
e agora pode ir de sessenta até três e setenta e cinco,
às vezes um pouco mais por descafeinado,

a impressão seca marrom na borda da xícara,
o restinho deixado no fundo,
o resto chapinhando dentro de você,

mandando seu estímulo por tubos
no seu corpo, olá, vamos, tamos atrasados, tá
com as chaves, meu deus não acho a carteira

¹: diner poderia ser restaurante, mas é tão tradicionalmente americano o formato do restaurante, tão específico, preferi deixar diner.

Mir¹
— Não há sinônimo para sinônimo.

No shtetl²,
apenas o cacarejar
de dois galos
que soa igual.

Eu bato no balde d’água,
azul sob a luz da manhã,
embora, pra dizer a verdade
sou azul sob qualquer luz,

um poroso azul real.
Nosso vilarejo não voa
pelos ares – ele está
pregado ao chão

e nós seguramos firme –
uns aos outros, às árvores,
às portas do chalé, ao que for,
e cantamos nossa cantiga local:

Oh os gatos e as nascentes!
Oh os cães e as fontes!
Oh! Oh! Oh!

Isto é por isso

O que vou comer no café da manhã?
Eu queria era ter ameixas
como as do poema de Williams.
Ele pediu perdão a sua esposa
por comê-las
mas o que ele não
fez foi pedir perdão aos
que leriam seu poema
e também não seriam capazes de comê-las.
É por isso que eu gosto do poema dele
quando não estou com fome.
Agora mesmo eu não gosto dele
ou do poema dele. Isto é só
para dizer isso.

[http://jacketmagazine.com/27/padg.html – todos os 3 primeiros]

Depois de Reverdy¹

Eu nunca mais iria querer ver seu triste rosto de novo
Suas bochechas e seu cabelo ventoso
Eu fui por todo o país
Sob esse úmido pica pau
Dia e noite
Sob o sol e a chuva
Agora estamos face a face
O que se pode dizer pra minha face
Uma vez descansei encostado numa árvore
Por tanto tempo que
Fiquei preso a ela
Esse tipo de amor é terrível
¹ Pierre Reverdy (1889 – 1960): poeta surrealista francês, que não conhecia até então, considerado um dos mais influentes de seu período.

[http://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57232]

Como ser perfeito

Durma bem.

Não dê conselhos.

Cuide bem dos dentes e gengivas

Não tenha medo de nada além do seu controle. Não tenha medo, por exemplo, que o prédio vai desabar enquanto você dorme, ou que alguém que você ama vá morrer de repente.

Coma uma laranja todas as manhãs.

Seja amigável. Isso vai te ajudar a ser feliz.

Aumente seu batimento cardíaco para 120 batidas por minuto por 20 minutos seguidos quatro ou cinco vezes por semana fazendo algo que te agrade.

Tenha esperanças por tudo. Não espere nada.

Cuida das coisas próximas primeiro. Limpe seu quarto antes de salvar o mundo. Então salve o mundo.

Saiba que o desejo por ser perfeito é provavelmente uma expressão velada de outro desejo – o de ser amado, talvez, ou de não morrer.

Faça contato visual com uma árvore.

Seja cético com todas as opiniões, mas tente ver algum valor em cada uma delas.

Vista-se de modo a agradar tanto você quanto aqueles a seu redor.

Não fale rápido.

Aprenda algo todos os dias. (Dzien dobre!¹)

Seja bom com as pessoas antes de elas terem um motivo para se comportarem mal.

Não fique bravo com nada por mais de uma semana mas não esqueça do que te deixou bravo. Segure a raiva a um braço de distância e olhe pra ela, como se fosse uma bola de vidro. Então a adicione a sua coleção de bolas de vidro.

Seja leal.

Vista sapatos confortáveis.

Escolha suas atividades de modo que elas demonstrem um equilíbrio agradável e variedade.

Seja gentil com os idosos, mesmo quando eles são abrasivos. Quando você envelhecer, seja gentil com os jovens. Não lance sua bengala neles quando eles te chamarem de Vô. Eles são seus netos!

More com um animal.

Não perca muito tempo com grandes grupos de pessoas.

Se você precisar de ajuda, peça.

Exercite boa postura até ela se tornar natural.

Se alguém assassinar seu filho, arranje uma escopeta e exploda a cabeça dele.

Planeje o dia de modo a nunca ter que se apressar.

Demonstre sua gratidão às pessoas que fazem coisas por você, mesmo que você tenha pagado, mesmo que os favores sejam indesejados.

Não desperdice dinheiro que você poderia doar aos que precisam.

Espere que a sociedade seja defeituosa. Então chore quando descobrir que ela é muito mais defeituosa do que você havia imaginado.

Quando você pegar algo emprestado, devolva em condição ainda melhor.

O máximo possível, use objetos de madeira ao invés de plástico ou metal.

Olha lá aquele pássaro.

Após o jantar, lave a louça.

Acalme-se.

Visite países estrangeiros, exceto aqueles cujos habitantes expressaram desejo de te matar.

Não espere que seus filhos te amem, para que eles possam te amar, se assim quiserem.

Medite sobre o espiritual. Então vá um pouco além, se tiver vontade.O que há no exterior (interior)?

Cante, de vez em quando.

Seja pontual, mas caso se atrase não dê longas e detalhas desculpas.

Não seja muito autocrítico ou muito autocongratulatório.

Não ache que progresso exista. Não existe.

Suba as escadas.

Não pratique canibalismo.

Imagine o que você gostaria de ver acontecendo, então não faça nada para tornar isso impossível.

Tire o telefone do gancho pelo menos duas vezes por semana.

Mantenha as janelas limpas.

Extirpe-se de todos os traços de ambição pessoal.

Não use a palavra extirpar com muita frequência.

Perdoe seu país de tanto em tanto tempo. Se isso não for possível, vá para um outro.

Se estiver cansado, descanse.

Cultive alguma coisa.

Não vagueie pelas estações de trem murmurando, “Nós vamos todos morrer!”

Conte entre seus verdadeiros amigos gente de vários estágios da vida.

Aprecie os prazeres simples, como o prazer de mastigar, o prazer da água morna correndo pelas suas costas, o prazer da brisa fresca, o prazer de pegar no sono.

Não exclame, “Como a tecnologia é maravilhosa!”

Aprenda a alongar seus músculos. Alongue-os todos os dias.

Não fique deprimido por envelhecer. Isso só vai fazer que você se sinta mais velho. O que é deprimente.

Faça uma coisa de cada vez.

Se você queimar seu dedo, bote-o em água fria imediatamente. Se você acertar seu dedo com um martelo, deixe sua mão no ar por vinte minutos. Você ficará surpreso com os poderes curativos do frio e da gravidade.

Aprenda a assobiar em um volume ensurdecedor.

Fique calmo na crise. Quanto mais crítica a situação, mas calmo você deve estar.

Desfrute do sexo, mas não fique obcecado com ele. Exceto por breves períodos na sua adolescência, juventude, meia idade, e velhice.

Contemple o oposto de todas as coisas.

Se você for tomado pelo medo de que nadou longe demais oceano adentro, vire e volte ao bote salva-vidas.

Mantenha viva sua criança interior.

Responda prontamente às cartas. Use selos atraentes, como aquele do tornado.

Chore de quando em quando, mas só quando sozinho. Então aprecie o quão melhor você se sente. Não se envergonhe por se sentir melhor.

Não inale fumaça.

Respire fundo.

Não banque o esperto com um policial.

Não saia da calçada até ter certeza que você pode atravessar a rua. Da calçada você pode estudar os pedestres que estão presos em meio ao tráfico enlouquecido e urrante.

Seja bom.

Caminhe por ruas diferentes.

De costas.

Lembre-se da beleza, que  existe, e da verdade, que não existe. Note que a ideia de verdade é tão poderosa quanto a ideia de beleza.

Fique fora da cadeia.

Mais tarde na vida, se torne um místico.

Use pasta de dentes Colgate com a nova fórmula de Controle do Tártaro.

Visite amigos e conhecidos no hospital. Se achar que é hora de ir embora, vá.

Seja honesto consigo mesmo, diplomático com os outros.

Não enlouqueça muito. É perda de tempo.

Leia e releia grandes livros.

Cave um buraco com uma pá.

No inverno, antes de ir pra cama, umidifique seu quarto.

Saiba que as únicas coisas perfeitas são um jogo de 300 pontos no boliche e um jogo de 27-rebatidas, 27-foras no baseball.

Beba bastante água. Quando perguntado o que gostaria de beber, diga, “Água, por favor.”

Pergunte “Aonde fica o banheiro?” mas não “Onde é que eu posso urinar?”

Seja gentil com objetos físicos.

Começando aos quarenta, faça um exame “físico” completo a cada tantos anos com um médico que você confie e com quem você se sinta confortável.

Não leia os jornais mais de uma vez por ano.

Aprenda a dizer “olá”, “obrigado”, e “palitinhos” em mandarim.

Arrote e peide, mas quietamente.

Seja especialmente cordial com estrangeiros.

Assista peças de teatro de fantoches e imagine que você é uma das personagens. Ou todas elas.

Leve o lixo pra fora.

Ame a vida.

Dê dinheiro trocado.

Quando tiver tiroteio na rua, não vá pra perto da janela.

¹ Bom dia! em polonês. Embora a grafia esteja errada, devia ser “dobry”. Mantive o original por razões óbvias – que vocês aprendam algo hoje também.

[http://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/57243]

Tá, mas quem é Ron Padgett? Não tem muito da vida dele por aí. Ele é só um poeta de Oklahoma, que foi viver em Nova York, e se mesclou com a vanguarda da poesia de lá, inclusive os beats, entre outros poetas de diferentes movimentos. Hoje ele dá aulas, como a maior parte dos poetas que perduram e precisam virar acadêmicos pra pagar as contas. Ele também trabalhou de editor e traduziu gente como Apollinaire e Blaise Cendrars. [http://www.ronpadgett.com/]

Obs.: esse é a tradução de um  poeta do que pode virar uma série de traduções aqui no blogue. Tenho planejado isso faz tempo, fiz uns testes com Frank O’Hara e Raymond Carver, no finado blogue, pode ser que se realize aqui. Por enquanto a lista contém: Robert Pinsky, Frank O’Hara (mais dele), Anne Sexton, Eileen Myles, Roberto Bolaño, Bob Kaufman, além de aceitar sugestões – com critérios. Isso é pra amanhã? Não, não tenho data, o próximo pode vir só ano que vem.

*Essas traduções não devem ser levadas tão a sério. São, da minha parte, um exercício, tanto de língua estrangeira e tradução, quanto de escrita. Ao mesmo tempo, publicando aqui o resultado desses exercícios, posso apresentar a vocês poetas interessantes. É só isso, não tenho direito algum sobre a obra traduzida ou  credenciais (pesquisa, conhecimento; aqui não falo de títulos) para traduzir quem quer que seja profissionalmente.

Poesia 14

embarque

gigante de metal, majestoso,

carrega seus criadores além do horizonte desconhecido,

passeia, diverte, distrai, flutua,

luta contra a natureza que com rajadas de vento e água te empurra de seu domínio,

força mecânica explorando e apavorando aqueles que não te entendem,

nativos que sentem sua invasão, rastejando com velocidade deixando bolhas e leves 

tremores,

passa por cima desse mundo, sem visão e sem mente.

ao longe, braços abanam, espalhando lágrimas e despedidas

retribuídas pelos que se encontram por cima de ti e te controlam,

razão do seu existir.

você é metal e não sabe de nada disso, apenas é, essa é sua função.

não sabe das explosões que comemoram sua partida nem da inspiração que você traz

àqueles que ficam, ó grande besta.

viaja sem saber até outro porto qualquer e depois volta e vai de novo

até que sua lata não aguente mais as pancadas da natureza que resiste as suas agressões

e você cai ou te derrubam e outra entra em seu lugar.

Espíritos de Gelo – Raphael Draccon [2011]

Postado originalmente em 24 de fevereiro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/espiritos-de-gelo-raphael-draccon-2011.html

Truman Capote costumava separar autores entre os que escreviam e os que digitavam – ou seria datilografavam, na época? -, de um lado aqueles que se esforçavam pra desenvolver um estilo e moldar frases cuidadosamente, do outro aqueles que só batiam palavras em sequência pra de alguma maneira inventar uma história. Verdade que, quando disse isso, Capote se referia a Jack Kerouac, o que foi injusto, visto que Kerouac, embora usasse vírgulas e adjetivos excessivamente, tinha uma poética e ritmo próprios. Em Espíritos de Gelo, Raphael Draccon – um dos autores da minha lista de leituras em busca de compreender a literatura brasileira contemporânea -, não escreve, digita; creio eu que com os pés.

Começa com o protagonista sem nome, mas que apelidarei de Narciso, acorrentado em uma sala suja, escura e misteriosa. Ele é interrogado por um baixinho vestido com uma camiseta do Black Sabbath – sem nenhum motivo aparente, só uma das milhões de referências gratuitas do livro – que comanda dois torturadores vestidos com trajes sadomasoquistas – sem motivo também, só mais uma referência, dessa vez ao Gimp, de Pulp Fiction, provavelmente.  Eles encontram Narciso em uma banheira de gelo, com um rasgo no abdômen, e o levam pra ser torturado porque eles precisam saber o motivo de ele estar naquela situação. O problema é que ele não se lembra. Os três patetas decidem que a amnésia foi causada por trauma e só outro trauma maior pode reativar essas memórias tão importantes. Gostaria, então, de dramatizar aqui como o baixinho descobre a primeira informação:

Baixinho: acho que você não gosta de mulher.
Narciso: gosto sim!
B: não sei, tô achando que tu é viado.
N: não sou.
B: é sim
N: sou não!
B: é sim.
N: sou nããão!!!
B: é sim.
N: sou não! Eu tenho namorada e o nome dela é Mariana e ela é mais bonita que todas as mulheres que você já conheceu, tá?, seu arrombado!!!

Tá certo, eu inventei esse diálogo – exceto pelo arrombado -, mas a ideia é a mesma. E o pior, o protagonista tem 27 anos – eu acho, minhas memórias desse livro estão sumindo iguais as de Narciso, deve ter sido trauma da leitura.

Falando em Narciso, vamos tentar definir esse cara. Ele teve um pai distante, mas isso não abalou sua criação, muito embora o fato dele ter tocado umas na adolescência ouvindo os gemidos das mulheres com quem seu pai transava seja um caso freudiano – essa possibilidade de distúrbio nunca é aprofundada pelo autor, mas por si só já é uma premissa melhor que a do livro.  Conforme ele foi crescendo, foi se tornando um playboy padrão, indo pra academia, gastando dinheiro do papai, fodendo todas as mulheres do mundo etc. Aí o pai morreu, os negócios não especificados do pai – sabe como é esse mundo dos negócios genéricos feito exclusivamente pra criar personagens ricos sem nunca ter que explicar a fonte da riqueza – são passados pra ele, mas ele é moleque e não conseguiu aguentar a pressão. Até aí tá mais pra uma premonição do futuro do Thor Batista, menos o atropelamento/assassinato.

Se você ler o livro, vai ver que Narciso é possessivo, por vezes machista, infantil, sem graça – apesar de tentar e muito ser engraçado, voltarei nesse ponto mais tarde – e um babaca completo; o pior disso tudo, não acho que intencionalmente. Talvez o protagonista tenha sido moldado pra incomodar um pouco (se machistas, infantis, sem graça, existem, eles podem ser retratados na literatura), mas acho difícil que o objetivo fosse “intragavelmente desagradável”. Sem falar que o apelido que dei a ele não foi sem motivo, o cara é obcecado com ele mesmo. Mas, apesar de se amar, é extremamente inseguro, seja ficando irritadinho sempre que insinuam que ele é gay ou deixando bem claro que não reparou nos homens ao descrever determinada cena, seja quanto a sua relação com Mariana.

Raphael Draccon simplesmente não consegue criar uma voz pro seu personagem que condiga com seu estilo de vida. O narrador é ocupado, vive em balada, academia – se gaba da sua própria aparência mais vezes do que recomendado pra um livro em primeira pessoa -, parece se achar um cara genial e vivido, embora essa vivência e genialidade nunca se manifestem em suas ações ou falas. Mesmo com tanto acontecendo em sua vida, ele conseguiu acumular um conhecimento enciclopédico de referências nerds, que ele próprio despreza, já que em determinados momentos, tira sarro desses mesmos nerds. Fica claro que o narrador, por mais que seja em primeira pessoa, é apenas o Draccon falando pelo personagem. Narciso não tem nome, não tem voz própria; pobre Narciso, o fantoche narcisista.

O que me leva a outro problema, o número obsceno de referências à cultura pop. Contei umas três por página, todas extremamente variadas pra saírem de uma mente não-nerd, indo de X-Men a Crepuscúlo, passando por Supernatural, Senhor dos Anéis, e essas são só as diretas. O que torna tudo muito repetitivo já que pra 90% das descrições ele usa o comparativo “como” e geralmente a coisa descrita é comparada a uma referência pop.

Existe uma função pra referência à cultura pop na literatura e em todas as outras formas de arte. A mais comum é aprofundar um personagem, dá-lo gostos, preferências, conhecimento de mundo. Outras vezes pode servir pra auxiliar na criação do mundo, desenvolver uma atmosfera bacana. Espíritos de Gelo não as usa em nenhuma dessas maneiras. A referência à cultura pop nesse livro é pra, pura e simplesmente, forçar uma relação com o leitor. O desavisado lendo o livro esbarra com uma referência que ele conhece ou gosta e, pronto, está feita a identificação. Como o narrador desse livro atira pra todos os lados, obviamente acerta alguém, mas nunca de maneira profunda. Esse é outro problema do uso excessivo de um artifício, com o passar das páginas e toda a repetição, fica batido, previsível e perde a força, até mesmo, de identificação.

Esse não é o único artifício de que Draccon, como qualquer escritor amador, abusa. Ele também gosta de separar frases em parágrafos de sentença única pra enfatizar certas coisas. Mas ele enfatiza algo de relevante?

Não.

Nunca.

Mesmo.

Desse jeito, assim, sem exagero.

Muitas vezes.

Por capítulo.

E.

Os.

Capítulos.

São curtos.

P.

R.

A.

Caralho.

Irrita, não é? Eu sei, também quis jogar a porra do livro pela janela antes de chegar na página 60. Mas eu gastei dinheiro com ele. Pouco, claro. Se o livro custasse muito mais de 10 mangos eu não comprava. Se pelo menos fosse só isso, mas, não, a revisão também é abaixo da média pra uma editora de porte respeitável como a Leya. Erros de vírgula, concordância, ortografia. Todos perfeitamente evitáveis, se o livro tivesse sido lido mais de uma vez pelo editor (entendo, é difícil, mas é o trabalho do cara). Isso sem falar das coisas que não estão erradas, mas estão mal escritas. Muitas vezes me perguntei que porra o editor estava fumando pra deixar certos trechos passarem.

Admito que a coisa começa a ficar interessante quando a história do templo do sexo tântrico começa a se desenvolver. Muitos conceitos poderiam ter sido trabalhados ali, desde o ciúme até a relação entre espiritualidade e repressão sexual. Mas o narrador é um idiota, então nada disso é falado e todo o potencial vai pela descarga, sendo somente arranhado na superfície; e o sexo é narrado numa prosa digna de E. L. James. Só várias releituras de Trópico de Câncer pra me exorcizar dessa desgraça.

Cristo, a estupidez de Narciso é insuperável. Ele atrapalha o andamento da história com seu vocabulário simplório (cheio de “maldito”s e “desgraçado”s, como num filme dublado; leva umas 40 páginas pro autor perceber que ele pode escrever um palavrão sem problema), assim atrapalha toda atmosfera que o livro poderia querer passar ao leitor. Não sei se o objetivo era fazer uma história de terror (não dá medo, principalmente quando o narrador passa a maior parte das cenas de tortura tirando sarro dos torturadores ou fazendo referências nerds durante seu próprio sofrimento), se era comédia (a não ser que sua idade mental seja de 13 anos, não tem graça), ou se era suspense (é previsível).

Não vou dar spoilers. Eu queria. Faria de tudo pra impedir as pessoas de lerem esse livro, inclusive estragar o final. Mas parte do meu código de ética de crítico exige que eu sempre deixe uma brecha pra que o leitor procure o livro e tome suas próprias conclusões, afinal, por mais objetivo que eu ache que estou sendo, o livro não foi feito pra mim, não sou o público-alvo. Talvez você seja, talvez você me ache um filho duma puta por estar escrevendo tudo isso, é seu direito. Eu estou pouco me fodendo pra você, é meu direito. Mas a primeira parte do final (o culpado pelo caso da banheira), eu descobri logo no início. Só não previ o twist à M. Night Shyamalan que ele tirou do cu nas últimas páginas, porque foi uma merda de tentativa de enfiar sobrenatural no livro (porque TERROR!), então não fazia questão nenhuma de ter adivinhado mesmo.

Espíritos de Gelo é um livro amador. Se eu não tivesse feito o dever de casa e pesquisado um pouco sobre o autor antes de fazer a resenha, teria achado que era seu primeiro livro. Na verdade é o quarto, o que só piora as coisas. Faria mais sentido se o livro fosse um primeiro rascunho escrito por um moleque de 15 anos que acabou de ler Stephen King e acreditou que também podia escrever um romance (pegando emprestado inclusive o hábito do King de forçar os finais e estragar tudo – até quando o tudo já não é lá essas coisas). Pra finalizar, um recado: Draccon, não é porque você escreve pra pré-adolescentes, que você precisa escrever como um. Tome nota disso e parta pro seu próximo livro, já que, se Paulo Coelho não parou, parar você não vai.

ritual

você assiste o homem desesperançado se abrir com uma caneta em uma operação ritualística do espírito, se perguntando por que disso, quando a dor se transfere às suas entranhas sem nunca abandonar o operado – multiplicando e espalhando, somente. ninguém sabe o porquê disso. nem ele. é uma dor fútil, desnecessária, insuportável, tão difícil de conter e nunca deveria envolver outras pessoas, e ele próprio sabe. sabe que não devia se abrir dessa maneira, sabe que coisas ruins acontecem quando ele se abre e que sentimentos são gnomos irracionais da infelicidade. que existe uma gaiola na alma, especial para esses bastardos que se escondem atrás dos olhos. que a chave está à mão, mas não deve ser tocada jamais. ele vai, alcança a chave e, não só libera os animais, os expõe – em e ao público. a verdade sobre os demoninhos é que eles não são de proveta, nascem de outras pessoas, e que nunca se deve mostrá-los as suas mães. tudo bem para um público – são todos cegos de qualquer forma –, mas nunca os devolva à origem. ele fez isso uma, duas, talvez três – dessa última nem tem certeza – os putos se perdem com esse tipo de exposição. é tortura, eu digo, tortura, quando essas mães rejeitam os filhos, principalmente porque elas não pedem por eles, nem sabem como eles surgiram. é crime de várias vítimas mas sem culpado e o condenado aqui vive para escrevê-los, acha que os gnomos emocionais se acalmam assim. um tolo perdido de fato. alguém deveria ensiná-lo tudo isso, a manter suas gaiolas trancadas. agora deve ter aprendido, e para seu próximo número escreverá: o melhor é sentir desejo pelo que se sente desprezo.

Bored To Death (2009-2011) – Resenha de uma série cancelada e subestimada

Postado originalmente em 7 de junho de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/06/bored-to-death-2009-2011-resenha-de-uma.html

Momento raro aqui no Delirium Scribens, eu indicando uma série (ok, essa encarnação do blogue não viveu o suficiente para que sejam percebidas raridades, mas não esperam muitas postagens sobre séries após esta). A cada tantos meses eu toco nesse assunto, falo um pouco das que eu assisto, mas sempre de modo geral e sem muita análise – e agora mesmo não tô vendo nenhuma. Dessa vez farei uma resenha específica sobre a já cancelada Bored to Death. Mas Raphael, se já foi cancelada, a série é boa mesmo? É. Se você visita esse blog a tempo o suficiente e em quaisquer das encarnações, já deveria saber que uma indicação minha é praticamente uma garantia, então relaxe, leia o texto e depois procure pelo menos os primeiros episódios só pra verificar o quanto eu estou certo (2 anos de existência – 4 agora -, é hora de dar férias à humildade nesse blog; 90% da credibilidade vem da falsa autoridade, então vamos lá).

A história de Bored to Death gira em torno do escritor Jonathan Ames (Jason Schwartzman). Ele tem trinta anos, publicou seu primeiro romance “hard-boiled” considerado razoável pela crítica. Sua namorada acaba de o abandonar (o piloto começa com ela de mudança) porque ele bebe demais e fuma muita maconha, embora ele esteja tentando diminuir seu consumo, restringindo o álcool apenas ao vinho branco. Sozinho e com bloqueio criativo para o seu segundo romance, ele coloca um anúncio na internet oferecendo seus serviços como detetive particular – ele não é licenciado, por isso faz um preço acessível. Além disso, ele tem que considerar os problemas pessoais do seu amigo cartunista, Ray Hueston (Zach Galifianakis), que vive as custas da namorada (outro relacionamento instável), Leah (Heather Burns), enquanto seu quadrinho, Super Ray (um super herói que tem como poder sua rola gigante), não consegue publicação; e George Christopher (Ted Danson), editor e colunista de uma revista em decadência, maconheiro nas horas vagas, autoproclamado “sexualmente fora de controle, vivendo como um deus demente” desde a década de 60, e que oferece uns bicos de jornalista e uma figura paterna a Jonathan.

Participação do diretor Jim Jarmusch.

Foi um escritor chamado Jonathan Ames quem criou e escreveu os roteiros dessa série, mas eu não sei até que ponto ela é autobiográfica. Como escritor, Jonathan Ames publicou alguns livros de mistério e outros tantos de memórias e crônicas humorísticas – nada que eu tenha lido para opinar contra ou a favor. Mas isso não importa, o que mais me chamou atenção na série foi a criatividade do enredo em geral e o desenvolvimento psicológico de cada personagem.

A personalidade de Jonathan é ironicamente oposta a dos típicos detetives dos livros Hard-Boiled (Raymond Chandler, Dashiell Hemmett, por exemplo, frequentemente citados na série). Ele é inseguro, fisicamente fraco, frequentemente chapado, cheio de problemas emocionais, à Woody Allen. Mesmo assim ele aceita os casos que ele passa a receber e, como uma pessoa normal, sofre para resolvê-los. No começo coisas corriqueiras, como uma alcoólatra que quer saber se o namorado a está traindo, até coisas mais complicadas, como um russo ex-presidiário que quer reencontrar uma mulher que ele amava, mas é envolvida com a máfia. Falando assim, nem parece engraçado, mas é aí que está o humor dessa série. A comédia é sempre muito discreta e tão inserida no roteiro que espectador quase não percebe que “aquilo é engraçado”. Raramente você vai morrer de rir com uma piada, ao invés disso o episódio inteiro funciona como um momento cômico, capaz de prender a atenção do começo ao fim, tanto com o enredo central, quanto os secundários e terciários inseridos no capítulo.

No fim das contas, os casos de detetive, que deveriam ser tão inusitados, acabam se tornando normais, não só para os personagens como para quem assiste, o que por si só já é engraçado. Jonathan nunca se torna Philip Marlowe, mas ele aprende alguns truques, e é divertido acompanhar esse desenvolvimento.

Outro motivo que me fez indicar essa série e não qualquer outra é que, como a maior parte das pessoas que me visitam têm o hábito da leitura, os personagens da série também, então ela é cheia de referências (desde os clássicos da narrativa policial até Samuel Beckett) literárias, cinematográficas, musicais e psicanalíticas. O próprio clima dos episódios seguem um ritmo, por vezes satírico, sem nunca pesar a mão, de um filme noir. Temos femmes fatales, interrogatórios, tiroteios, perseguições, tudo no ambiente urbano comum da classe média de Nova York.

Durante as três temporadas, todos os três personagens recorrentes ganham seu desenvolvimento e histórias próprias ao redor da história de Jonathan – que às vezes perde importância perante as necessidades psicopatológicas dos seus amigos. Falando de problemas psicológicos dessa maneira, mais parece um drama, mas são esses problemas que geram a comédia. O humor, de estrutura mais próxima da anedota que da piada, é baseado em observações do absurdo cotidiano, na sexualidade – principalmente perversões – dos personagens, no uso de drogas, nas decisões erradas, na autodepreciação e em questões mais filosóficas, como a mortalidade. Os personagens são todos deslocados e alheios as suas próprias vidas, buscando distração, seja se fingindo de detetive, se fingindo de super-herói, ou relembrando o passado em uma nuvem de Cannabis. Isso os torna suficientemente relacionáveis para que a série se sustente, apesar da comédia discreta e por vezes propositalmente obscurecida.

Agora você deve estar dizendo, sim, tio Rapha, você tem razão mais uma vez, eu quero ver essa série, mas e o final? Se ela foi cancelada no meio do caminho, será que o fim não é frustrante demais? Mais ou menos. Eu não considero o fim de todo satisfatório, até porque os acontecimentos da última temporada abrem espaço para continuações. Mas não chega a ser frustrante, já que não termina em “cliffhanger”, nem deixa nada de muito importante sem resolução. É como um livro de final aberto (coincidentemente, Jonathan, o personagem, diz gostar de deixar os finais dos livros dele em aberto – ou talvez não seja coincidência…), terminou, mas sempre dá pra explorar um pouco mais, desenvolver novas histórias, coisas assim. Esse tipo de livro deixa a conclusão a cargo do leitor; o fim dessa série é a mesma coisa. E essa foi só a minha impressão, talvez você assista e ache o final perfeito, principalmente se você assisti-la já sabendo que ela termina do nada (eu comecei a acompanhar em 2009, então vi o cancelamento de perto). Se você gosta de comédias, histórias com clima noir, mistérios – mesmo que satíricos – e bons personagens, provavelmente vai gostar da série também. Pelo menos não vai te tomar muito tempo, são só 8 episódios por temporada – por ser da HBO – de 25 minutos cada.

Obs.: se alguém decidir assistir ou já conhecer ou ver e gostar, avise. Até agora só sei da Carol e dum cidadão que comentou na postagem original.