Azul é a cor mais quente (La Vie d’Adèle: Chapitres 1 & 2) – Abdellatif Kechiche [2013]

Postado originalmente em 3 de outubro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/10/azul-e-cor-mais-quente-la-vie-dadele.html

Dos muitos subgêneros contidos na pornografia, um dos mais populares, e quisera eu ter as estatísticas necessárias para embasar essa minha afirmação, é o “lesbianismo” (entre aspas, pois raramente as mulheres envolvidas nesses filmes são de fato lésbicas). O tema também é bastante trabalhado no cinema não-pornô, embora com diferentes intenções. Isso, quero dizer, na maioria das vezes. Ironicamente ou não, a maioria dos filmes lançados sobre lésbicas são feitos por homens heterossexuais (novamente, queria eu ter uma lista exaustiva para poder embasar essa afirmação; por mais que eu tente puxar da minha memória exemplos, só me vem a mente Quarto em Roma e o filme do qual falo agora, mas prometo que existem mais, só me falta motivação de pesquisar, já que chances são que esse texto será lido por três pessoas, e três pessoas não são o suficiente para eu me importar) e, por consequência, as obras acabam saindo fetichistas, pra dizer o mínimo. Isso me fez enrolar até agora para assistir Azul é a Cor Mais Quente, adaptação dirigida por Abdellatif Kechiche, do quadrinho quase homônimo à versão brasileira (Le bleu est une couleur chaude – por que as versões americana e brasileira adicionaram o superlativo, eu não sei) de Julie Maroh. Nada contra filmes fetichistas ou pornografia, o problema é quando esse tipo de filme tem duração de quase três horas. Adianto aos leitores que minha primeira impressão estava errada. Nota: impressionante como, mesmo quando a versão brasileira acerta a tradução do nome, ela dá um jeito de errar.

Trata-se da história de Adèle (interpretada por Adèle Exarchopoulos, e o nome igual não é só uma coincidência, explicarei mais tarde – só pra constar, o nome da personagem no original é Clementine), uma adolescente entre seus 15 e 16 anos que descobre sua sexualidade. Na escola, as amigas dela a pressionam a sair com um rapaz que parece estar a fim dela. Ela vai e os dois vivem um relacionamento, mas Adèle não está satisfeita com ele. Ela se sente atraída por uma garota do seu grupo de amigas, mas é rejeitada. Então, em um bar de lésbicas, ela encontra Emma (Léa Seydoux), uma mulher de cabelo azul, um pouco mais velha, que estuda artes na faculdade e sonha em ser pintora. As duas começam um relacionamento intenso e que vai se tornando cada vez mais sério, até o ponto em que elas moram juntas. Ao redor desse relacionamento, o filme explora temas como tolerância, sexualidade e maturidade.

O que mais chamou atenção das pessoas que viram o filme, pelo que eu pude perceber, é o quão explícito ele é. O diretor prestou muita atenção nos detalhes durante as cenas de sexo para que elas pudessem parecer reais sem que as atrizes transassem de verdade. E foi isso que me fez acreditar que o filme seria fetichista. Isso e, supostamente, ele demorou dez dias para gravar uma das cenas de sexo. De qualquer forma, funciona. O realismo é suficiente para que a audiência sinta a intensidade entre as duas, sinta que existe paixão naquele relacionamento, como em qualquer “primeiro amor”.

Não foi só no sexo que Kechiche prezou pelo realismo. Outro motivo de polêmica nos bastidores desse filme foi ele ter exigido que elas aparecessem sem maquiagem em muitas das cenas, permitiu que elas apenas lessem o script uma vez e insistisse que elas esquecessem suas falas em troca de improviso; e filmaram a atriz Adèle enquanto ela estava fora do personagem, comendo ou dormindo no trem em direção ao local da filmagem. O realismo é tanto, que muitas vezes o tom do filme deu a impressão de se tratar de um documentário. Ah, e antes que eu me esqueça, eis a razão de ele ter mudado o nome da personagem Clementine para Adèle, mesmo nome da atriz; porque ela foi filmada durante as refeições ou enquanto dormia no trem em direção ao local de gravação e, nesses momentos, as pessoas não paravam de chamá-la de Adèle, então mudaram de uma vez o nome da personagem.

Há controvérsias com relação a essa forma de tratamento entre diretores e elenco, mas quem vai dizer que é errado quando funciona? Kubrick abusou emocionalmente de Shelley Duvall durante as filmagens de O Iluminado. Hitchcock era famoso por odiar atores e tratá-los como peças indesejadas mas necessárias para montar sua criação. No fim das contas, funciona. Atuar é uma profissão emocional, diferente de qualquer trabalho de escritório, as regras são outras. O objetivo do diretor é tirar justamente a emoção exata do seu ator em determinada cena, mesmo que para tanto seja necessário insultá-lo, isolá-lo, constrangê-lo, tudo para que o resultado final seja o melhor possível. Fazer isso ou não, cabe ao diretor decidir, mas eu não consigo discordar da atitude. Por consequência, a pressão mental e exigência física causada pela direção fez com que as emoções expressadas pelas atrizes fossem reais. Não próximas do real, não realistas, mas reais, e a diferença para espectador atento é perceptível. A Adèle atriz e a Adèle personagem se tornaram uma durante as quase três horas de filme. O mesmo pode ser dito sobre a Léa Seydoux.

É comum que filmes mais “artísticos” se deixem levar por um conceito sobre a história em si ou sobre os personagens. Os conceitos trabalhados em Azul é a cor mais quente são complexos no mínimo. Em uma determinada cena, Emma expõe suas pinturas para um grupo de amigos e artistas em um jantar. Os presentes então começam a discutir sexualidade e a diferença da percepção do prazer entre os sexos, e essa discussão na minha opinião foi fascinante, principalmente porque o filme tenta passar a ideia em cenas. A questão do compromisso e dependência entre casais também é bem exposta, com a profundidade necessária. Isso sem falar da óbvia questão da autoaceitação e aceitação perante a sociedade, essa tratada com muito mais sutileza. Mesmo assim, o forte do filme, o que vai te fazer ficar sem piscar durante as três horas, é a humanidade das personagens. Esse não é um filme abstrato como tantos no seu meio.

O mais importante foi que, aquilo que começou como uma garota descobrindo sua sexualidade e se identificando lésbica, logo se tornou apenas uma história de amor. Não uma história de amor “com lésbicas”. Isso foi o principal, do contrário o filme teria caído no já descrito fetichismo. No fim das contas, é isso que a sociedade teria que entender sobre o homossexualismo, que não é nada além de duas pessoas se amando. Por acaso essas pessoas são do mesmo sexo, mas isso não importa, não faz do amor entre os dois diferentes, muito menos teria de fazer o filme diferente. Ser possível assistir Azul é a cor mais quente e, no meio do caminho, esquecer que se tratam de lésbicas e poder vê-las apenas como um casal, foi o que me fez ver além da qualidade do filme, mas também sua relevância na história do cinema.

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