O cachimbo e a necessidade de parar*

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Marcel Duchamp ilustrando muito bem o que eu quero dizer com isso tudo.

Uma coisa que não é novidade pra ninguém é que vivemos um tempo estranho. Tudo é rápido e conectado, nada é o que um dia se acreditava ser (o que, pra maioria das coisas, até que é bom), e persiste uma sensação de perigo iminente e pressa, principalmente pressa. A tecnologia, que deveria nos ajudar a lidar com tudo isso e facilitar nossas vidas, acaba nos mimando. Um começo bastante sério para o que esse texto pretende tratar, comecei a perceber, mas não vejo isso como literatura, é só um blogue – meu padrão de qualidade vive atrapalhando minhas postagens e ideias. Mas é melhor eu não começar com as divagações tão cedo.

Falando em mimo, todas essas facilidades e “inovações” diárias me fazem pensar nessa cultura do entretenimento imediato que se instalou – acho que começou com a televisão, mas o YouTube nos levou ao extremo. Tudo tem que ser rápido e a nossa maneira. O que não se encaixa não merece atenção, é chato. Filmes precisam de cortes a cada cinco segundos e ação e explosões. Livros precisam “prender” o leitor com parágrafos curtos e linguagem “dinâmica”. De certa forma, se a televisão começou isso tudo mesmo, é irônico, porque o formato rígido da programação televisiva torna difícil a adaptação dessa mídia aos tempos de hoje, tanto que a internet a está absorvendo (Netflix, YouTube – repito).

Se eu dissesse que tudo isso não me atrai, estaria mentindo. Mas faço um esforço consciente para resistir. Acho perigosa a rendição ao entretenimento constante. É preguiçoso e não leva a lugar nenhum. Com o tempo foi ficando mais fácil e, ao aprender os truques dessa armadilha, deixou de ser tão atraente. Vez ou outra, sinto a necessidade de desligar o cérebro e me deixar levar pela velocidade do mundo, mas dura pouco – outra ironia? – e demora pra voltar. Ainda assim, com trabalho, planos e tudo mais que fazemos pra sobreviver, acho necessário parar. O entretenimento constante torna isso difícil. É difícil tirarmos um tempo para reflexão. Quietude, isso é o mais importante. A digitalização de tudo e toda a praticidade matou os velhos rituais que nos desaceleravam (se flutuo entre o nós e o eu é porque parte do que falo é geral e outra parte pessoal).  E, não bastasse, a vida profissional insiste em invadir, discretamente e com um sorriso no rosto, a pessoal – oferecendo espaços de lazer e todo tipo de incentivo para manter os funcionários ativos o máximo de horas por dia (assunto pra outro texto, quem sabe). Já é difícil ter tempo para essa quietude, esse momento de reflexão, e quando temos, somos atraídos para longe disso por todo o universo de entretenimento imediato que nos cerca e incentiva à distração, ao barulho e às luzes pulsantes.

O que me ajudou a fugir disso foi o cachimbo. Esse hábito novo me força a parar por duas horas pelo menos e me ajudou a recuperar a compreensão do prazer no ritual, na conexão verdadeira com um ato. Existe uma relação entre o fumante e seus cachimbos. Eles precisam ser descobertos de certa forma. Cada um age de um jeito, conforme seu tamanho, o tipo de material de que é feito (só tenho de briar, mas quem fuma em meerschaum sabe a diferença, assim como todos os outros tipos de material que podem ser transformados em cachimbo). É necessário atenção, paciência e tempo para aprender a lidar com um cachimbo, e os tabacos são a mesma coisa. O processo de verificar a umidade do tabaco, encher o cachimbo, acendê-lo, encontrar o ritmo da fumada para mantê-lo aceso sem que ele superaqueça: é um ritual, assim tratado pelos indígenas e segue até hoje, talvez sem os mesmos significados espirituais, que ainda não tive tempo, mas tenho o objetivo de estudar. Terminado o ritual – que cada vez fica mais simples -, pode-se sentar na poltrona e relaxar. Quem sabe ouvir um disco – ouvir, de fato, não só clicar duas vezes num media player enquanto se fuça a vida dos outros nas redes sociais ou se procura distrações -, ler um livro sem se preocupar com ritmo de leitura e se deixar levar pelas palavras enevoadas pela fumaça que dança pela sala, ou só pensar. Tem também o relaxamento químico da nicotina, que ajuda, mas não é tudo. Digam o que for dos perigos de fumar, mas tenho certeza que é mais saudável que se meter em um engarrafamento por horas (as fumaças do carro, mais tóxicas que de qualquer tipo de tabaco), encher a cara para esquecer o dia (álcool como compensação, ao invés de prazer), se trancar por horas num escritório se preocupando com mais e mais dinheiro e com o dinheiro dos outros. Saudável não é, de todo, mas acredito que ajuda a viver mais, um hábito desses, que te incentiva a parar e meditar, ou pelo menos viver melhor. Me lembra a história do Bertrand Russell, aquela em que ele exigiu um lugar na sessão de fumantes do avião – no tempo que isso existia -, do contrário ele não viajaria, se impedido de fumar seu cachimbo. O avião caiu e só sobreviveram aqueles que estavam na sessão de fumantes. Trágica a história, óbvio, mas que tem uma ironia nela, tem. E ele não morreu de câncer, apesar de ter levado um cachimbo na boca desde os 23 anos, se não me engano (pode ter sido desde os 21 ou 25).

Claro que você não precisa fumar um cachimbo pra parar. Faça aquilo que funciona pra você. Quem sabe arranjar uma vitrola, começar uma coleção de discos (é barato nos sebos). O ato de levar o disco à vitrola, botá-lo pra tocar, é um ritual. E não facilita fazer outras coisas ao mesmo tempo, como media players fazem. Livros, sem cachimbo, também ajudam. Um filme mais lento, meditativo, sempre faz bem; um Tarkóvski ou Bela Tarr. Se está ao seu alcance, visitar museus e realmente absorver as obras, senti-las. Porra, meditação é grátis, basta sentar no chão e se conectar ao universo – não importa se a ciência diz que funciona ou não, você para por um instante e se permite relaxar; mal não pode fazer. Se você não for dado aos tabacos, mas, dentre os paraísos artificiais, preferir o álcool, um bom uísque ou uma cerveja artesanal ou vinho ou conhaque (etc.) pode te dar esse tempo de quietude. Mas tenha certeza de que a bebida é um momento de prazer e atenção, e que você está se dedicando ao copo e o que ele te oferece, não tentando ficar bêbado o mais rápido possível. Principalmente, e digo por experiência, não beba pra esquecer ou relacione tristeza com bebida. Nenhum mal hábito combina com tristeza, na verdade, mesmo que faça você se sentir melhor. É uma associação perigosa, gera condicionamento e, quando você se dá conta, está usando da bebida como remédio mesmo ela já tendo se tornado a doença.

É a esse tipo de parar que eu me refiro. Exercícios de paciência, talvez. Voltando aos cachimbos, há quem ache que é necessário um cachimbo caríssimo, de marca, para uma boa fumada. A maior parte dos meus foram relativamente baratos, e dois deles são de marca desconhecida. No começo eles me deram trabalho. Deixavam um gosto estranho, a madeira esquentava muito rápido. Ao invés de largar os cachimbos, fui devagar, aprendi a lidar, pacientemente, com eles. Hoje estão tão bons quanto os mais caros. Mostra o quanto paciência e dedicação podem ser importantes. Se te parece que a frase anterior pode servir pra tudo, você está começando a captar a ideia desse texto.

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Don Julión comprende.

Parar, agora que tenho a chance de botar essa ideia em palavras, é mesmo um conceito abstrato, talvez algo que nem eu tenha conseguido compreender completamente (vejam que todos os exemplos de parar que dei envolvem fazer alguma coisa – apenas algo mais lento e que pede reflexão). Pode ser que seja tudo bobagem da minha cabeça. Sei bem de umas pessoas que não conseguem. A ideia de sentar num sofá e ler ou só respirar por uns minutos é torturante. Pessoas que precisam estar em movimento o tempo todo. Isso é perfeitamente aceitável. Apenas um outro jeito de ser. Não sei. Pode ser que a necessidade que eu sinto de parar, essas pessoas não sintam nunca. Precisaria passar uns dias na pele delas pra saber, o que é impossível. E criar vínculos mais profundos com objetos… não sei se é possível. Mas, em tempos de descartabilidade, é algo que muito me atrai nos cachimbos, a demanda por cuidado e tratamento. Livros são a mesma coisa. Largue uma biblioteca aos cuidados do tempo e as traças tomam conta. Discos são assim também, mofam. Pode ser questão de personalidade, vai ver gosto de coisas lentas e que requerem cuidado e tempo e paciência. Por isso, quando fumei um cachimbo pela primeira vez, fui tomado pelo ritual e só quis aprender mais e me aprofundar.

Estou mesmo divagando e contornando assuntos sem chegar a lugar nenhum dessa vez, não é? Acho que a mudança pro WordPress, por algum motivo misterioso, me deu liberdade (totalmente interna – “meus leitores” nunca tomaram parte na forma do conteúdo, ninguém nunca se importou tanto) de fazer esses textos mais largados, como lascas arrancadas direto da vida. Uma espécie de exercício pros dedos. Manter um blogue também se encaixa nessa minha lista de atividades reflexivas, acabei de perceber. Escrever em geral, seja mantendo um diário, organizando as ideias, até coisas mais… públicas, por assim dizer. Um jeito de encerrar isso é dizer que, se você se identificou de alguma forma com a necessidade de parar, sugiro que experimente usando esses métodos que descrevi. Quem sabe se aprofundar nos seus hobbies, procurar novos. Ou só refletir. Acho que ainda é valiosa a citação em “Le Petit Soldat”, do Godard, de 1963, que diz, mais ou menos: o tempo da ação terminou, começou o tempo da reflexão. Acho que, se ele dizia que o tempo da reflexão havia começado então, na década de 1960, nunca de fato se deu esse começo. Ficou como ideia, como ideal, nunca posto em prática. Mas nunca é tarde, nem 4 décadas depois.

jeanlucgodard1

*Percebi tarde demais a ambiguidade no parar do título. Não tenho, ainda, intenção de parar com o cachimbo. Poderia mudar para algo como “necessidade de reflexão”, mas é tão pretensioso e não passa a ideia completa. Parar, ambígua que possa ser, é a palavra certa.

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3 comentários sobre “O cachimbo e a necessidade de parar*

  1. Rafa!!!
    O título é mesmo bastante ambíguo. Fui atraída por ele, inclusive. Pensei que você fosse parar com o cachimbo, mas, pelo visto, isso não acontecerá tão cedo.
    Gostei muito do texto. Gosto da forma como você escreve.
    É uma reflexão importante essa que você propôs. Durante a leitura percebi que faz tempo que não paro, que estou sempre fazendo alguma coisa, na correria do dia-a-dia.
    Gostei de ter parado para te ler. Foi um tempo bem investido.
    Abraços.

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    1. Olha, pararia se eu não tivesse notado uma melhora na forma que eu enxergo a vida desde que comecei. Futuros riscos à saúde de lado, esse foi um hábito que me fez bem. Mas, como eu sempre coloco quando falo de tabaco ou de bebida, não indico a ninguém começar.

      É claro, às vezes não dá pra parar desse jeito. Mas é bom procurar esses momentos. Ter certeza de aproveitá-los, quando eles surgem. É um exercício, ironicamente.

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  2. Te compreendo 100% e concordo 100% também. Eu sempre tento me dedicar às coisas que eu gosto sem distrações, sejam entretenimentos ou só alguma onda ruim da vida, você sabe. E não gosto de fazer as coisas mais ou menos e nem acho que dá. Atividades, hobbies, sei lá como podem se chamar, que requerem tempo e paciência, se você não tem o tempo e a paciência, melhor nem começar pra não estragar.
    Só fico na dúvida se isso é coisa da personalidade ou da nossa disposição pra fazer mesmo. Tenho uma amiga que é super “aventureira” e elétrica e sempre criticou esses meus habitos de ler ou de sair pra ver um filme. É coisa que ela nunca teve paciência de fazer, desde a adolescência. Essa no caso é minha melhor amiga, desde a escola. Não sei como conseguimos manter uma amizade por tanto tempo, aliás! hahaha

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