2 livros da Joan Didion

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A principal razão de eu não gostar de listas, principalmente listas qualificando obras artísticas, é o caráter objetivo delas. Vejam bem, para se definir com certeza os 10 melhores de algo, é necessário que se conheça todo esse algo, o que na maioria dos casos é impossível. Quando blogues se dedicam a essa lista, então (blogueiro que, na maioria das vezes, não é exatamente qualificado pra esse tipo de serviço exaustivo), a lista de melhores poderia e deveria ser traduzida como “lista de x coisas que conheço sobre tema”. É o que vim fazer aqui. Li dois livros de uma autora e vim apresentá-la a vocês me baseando nesses dois livros (parcela mínima da obra completa dela). São os mais indicados para quem nunca leu Joan Didion? Não necessariamente. Nem sei dizer se são os melhores dela. Mas são livros excelentes e, se não são os melhores dela, são uma grande primeira impressão.

Antes de começar, uma observação: esses 2 livros nunca foram traduzidos, que eu saiba. Comprei importados na época que o dólar custava menos que dois reais. Hoje a situação é outra, mas, se não bastasse, considerando a isenção de tributos de importação para livros e valor desses livros em dólar, algo me leva a crer que as livrarias brasileiras que oferecem livros importados estão se aproveitando da situação. Esses dois livros, que me custaram cerca de 30 reais em 2011, hoje custam mais de 80, brochuras naquela qualidade medíocre das editoras americanas. Tem algo errado, mas mais errado é nenhuma editora brasileira ter se disposto a traduzir essas obras. Na verdade, traduções em geral da obra de Joan Didion são difíceis de encontrar. O ano do pensamento mágico e Noites azuis, os livros mais conhecidos dela, parecem estar esgotados há um bom tempo e nem sinal de reedição. Enfim, outra história, pra outra ocasião. Apenas demonstra mais a necessidade de falar sobre ela, porque se trata de uma autora um tanto negligenciada.

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Slouching Towards Bethlehem (Arrastando-se* a Belém) – 1968

Essa é a primeira coleção de ensaios jornalísticos que ela publicou, composta de textos publicados em várias revistas durante a década de 1960. Dividido em três partes (I. Lifestyles in the Golden Land; II. Personals; e III. Seven Places of Mind), o primeiro foca em descrições das maneiras que as pessoas viviam na época em Los Angeles, junto com perfis de celebridades (Howard Hughes, John Wayne, Joan Baez) e são os textos mais datados, como não poderia ser evitado. Mas são textos, parafraseando Capote, escritos em uma das melhores prosas dos EUA daquela geração até hoje. E os temas ainda carregam importância ao menos histórica.

Mas é nos textos pessoais que o livro se torna magnético. Textos sobre a escrita, sobre manter um bloco de notas (e analisar posteriormente os rabiscos codificados e seus significados), sobre moralidade, sobre o ato de voltar para casa e lidar com família após anos de separação. Estes são textos vulneráveis, sensíveis, mas nunca fracos. Como a própria escreve, a escrita é um ato hostil (sempre tentando forçar o argumento e sua validade ao leitor) e egocêntrico (uma pessoa com uma ideia não só boa o suficiente para ser gravada em papel, mas que deve ser distribuída e lida por todos), e ela é mestra em passar aquela sensação desconfortável ao leitor, de que há algo terrível à espreita.

A terceira são notas de viagens, relatos pessoais sobre lugares que ela foi, de onde ela veio. Talvez a que eu tenha achado mais fraca no livro (risco que se tem com coleções de textos), se é que é possível achar algo fraco na prosa de Didion. Um texto chato escrito por ela ainda é uma beleza de se ler, de se pronunciar mentalmente as sequências de palavras. E quando um dos textos é bom, nos faz lembrar da memória que existe na terra, coisa que tendemos a esquecer. Faz pensar em tudo que um lugar carrega de nossa existência e da dos outros.

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Play It As It Lays (Jogue Conforme as Cartas**) – 1970

Segundo romance escrito por Joan Didion, influenciado em peso pelas experiências dela em Los Angeles, inclusive no contato que ela, enquanto jornalista, teve com figuras de Hollywood. Assistimos fragmentos da vida de Maria (Mar-eye-a, ela faz questão de apontar) Wyeth, e a maneira que a sanidade dela a escapa. Após um monólogo interno que serve de prólogo e dá ao leitor uma ideia vaga de onde a história pretende levá-lo, o texto segue na terceira pessoa, sempre breve e mínimo, eficaz e brutal. Das dificuldades de lidar com o mundo de Hollywood enquanto mulher, até aborto, autodestruição e suicídio, esse é um romance grandioso e subestimado.

Em suma, e se escrevi demais, pule o texto mas leia essa frase, leia Joan Didion. Faz bem pra mente e pros olhos.

*Slouching é uma palavra difícil de traduzir, mais exato seria movendo-se preguiçosamente. Visto que se trata de um verso do “The Second Coming” (A Segunda Vinda) do W. B. Yeats, preferi seguir a tradução do Paulo Vizioli e usei arrastar-se para traduzir o verbo “to slouch”.

**Tradução livre, minha, que faz sentido ao se ler o livro. Também é a tradução literal da expressão “play it as it lays”, em referência tanto aos jogos de carta e à vida.

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2 comentários sobre “2 livros da Joan Didion

  1. Eu tenho uma dificuldade imensa com listas…
    Vez ou outra, me arrisco a fazer algumas, mas sei que elas são completamente mutáveis.
    Algo que falo no Yellow com certa frequência é que tenho dificuldade em escolher favoritos e é tanto por achar que não tenho o conhecimento necessário – inclusive o de simplesmente conhecer e não necessariamente ter a capacidade para analisar e avaliar – quanto por essa questão de achar que nossas listas de Top X mudarão com o tempo, com as vivências e isso é perfeitamente normal.
    Para você ter ideia, decidi fazer um Top 10 álbuns da minha vida. A lista tem dois títulos até o momento e três artistas que precisam entrar nela, mas não fui capaz de escolher os álbuns ainda!

    Bom, focando no assunto real do seu post, eu não conheço Joan Didion. Mas, pela sua “indignação” pela falta de títulos traduzidos, é de se imaginar que a coisa é boa. Fiz uma pesquisa breve e senti que já deveria conhecer Didion, mas vou me dar um desconto até pela ausência de traduções… De qualquer forma, vou tentar achar um dos livros e torcer para que caiba no bolso!

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    1. Apesar da impossibilidade de se fazer uma lista útil/confiável, é um tipo de postagem muito popular. Fiz uma no meu finado blog sobre bandas de rock contemporâneas, até hoje, 3 anos depois, meu post mais popular e que ainda recebe visitas diárias. É estranho. Não me arrependo da lista, mas quando vi o número de bandas tão boas quanto as listadas acabei descobrindo uma semana depois da postagem, vi que era uma bobagem.

      Nesse site tem uns ensaios dela pra ler: http://tetw.org/Joan_Didion
      Se você consegue ler online (eu tenho muita dificuldade pra textos longos), serve de amostra antes da compra. Vi na Amazon uns livros dela por 53 reais. Mais barato que isso, não tem. Na Estante Virtual dá pra achar alguns livros dela traduzidos, bem baratos (que nem sabia que tinham tradução), mas esgotados nas editoras desde o neolítico.

      Bem-vinda ao blogue, Lari, e volte sempre.

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