Azul é a cor mais quente (La Vie d’Adèle: Chapitres 1 & 2) – Abdellatif Kechiche [2013]

Postado originalmente em 3 de outubro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/10/azul-e-cor-mais-quente-la-vie-dadele.html

Dos muitos subgêneros contidos na pornografia, um dos mais populares, e quisera eu ter as estatísticas necessárias para embasar essa minha afirmação, é o “lesbianismo” (entre aspas, pois raramente as mulheres envolvidas nesses filmes são de fato lésbicas). O tema também é bastante trabalhado no cinema não-pornô, embora com diferentes intenções. Isso, quero dizer, na maioria das vezes. Ironicamente ou não, a maioria dos filmes lançados sobre lésbicas são feitos por homens heterossexuais (novamente, queria eu ter uma lista exaustiva para poder embasar essa afirmação; por mais que eu tente puxar da minha memória exemplos, só me vem a mente Quarto em Roma e o filme do qual falo agora, mas prometo que existem mais, só me falta motivação de pesquisar, já que chances são que esse texto será lido por três pessoas, e três pessoas não são o suficiente para eu me importar) e, por consequência, as obras acabam saindo fetichistas, pra dizer o mínimo. Isso me fez enrolar até agora para assistir Azul é a Cor Mais Quente, adaptação dirigida por Abdellatif Kechiche, do quadrinho quase homônimo à versão brasileira (Le bleu est une couleur chaude – por que as versões americana e brasileira adicionaram o superlativo, eu não sei) de Julie Maroh. Nada contra filmes fetichistas ou pornografia, o problema é quando esse tipo de filme tem duração de quase três horas. Adianto aos leitores que minha primeira impressão estava errada. Nota: impressionante como, mesmo quando a versão brasileira acerta a tradução do nome, ela dá um jeito de errar.

Trata-se da história de Adèle (interpretada por Adèle Exarchopoulos, e o nome igual não é só uma coincidência, explicarei mais tarde – só pra constar, o nome da personagem no original é Clementine), uma adolescente entre seus 15 e 16 anos que descobre sua sexualidade. Na escola, as amigas dela a pressionam a sair com um rapaz que parece estar a fim dela. Ela vai e os dois vivem um relacionamento, mas Adèle não está satisfeita com ele. Ela se sente atraída por uma garota do seu grupo de amigas, mas é rejeitada. Então, em um bar de lésbicas, ela encontra Emma (Léa Seydoux), uma mulher de cabelo azul, um pouco mais velha, que estuda artes na faculdade e sonha em ser pintora. As duas começam um relacionamento intenso e que vai se tornando cada vez mais sério, até o ponto em que elas moram juntas. Ao redor desse relacionamento, o filme explora temas como tolerância, sexualidade e maturidade.

O que mais chamou atenção das pessoas que viram o filme, pelo que eu pude perceber, é o quão explícito ele é. O diretor prestou muita atenção nos detalhes durante as cenas de sexo para que elas pudessem parecer reais sem que as atrizes transassem de verdade. E foi isso que me fez acreditar que o filme seria fetichista. Isso e, supostamente, ele demorou dez dias para gravar uma das cenas de sexo. De qualquer forma, funciona. O realismo é suficiente para que a audiência sinta a intensidade entre as duas, sinta que existe paixão naquele relacionamento, como em qualquer “primeiro amor”.

Não foi só no sexo que Kechiche prezou pelo realismo. Outro motivo de polêmica nos bastidores desse filme foi ele ter exigido que elas aparecessem sem maquiagem em muitas das cenas, permitiu que elas apenas lessem o script uma vez e insistisse que elas esquecessem suas falas em troca de improviso; e filmaram a atriz Adèle enquanto ela estava fora do personagem, comendo ou dormindo no trem em direção ao local da filmagem. O realismo é tanto, que muitas vezes o tom do filme deu a impressão de se tratar de um documentário. Ah, e antes que eu me esqueça, eis a razão de ele ter mudado o nome da personagem Clementine para Adèle, mesmo nome da atriz; porque ela foi filmada durante as refeições ou enquanto dormia no trem em direção ao local de gravação e, nesses momentos, as pessoas não paravam de chamá-la de Adèle, então mudaram de uma vez o nome da personagem.

Há controvérsias com relação a essa forma de tratamento entre diretores e elenco, mas quem vai dizer que é errado quando funciona? Kubrick abusou emocionalmente de Shelley Duvall durante as filmagens de O Iluminado. Hitchcock era famoso por odiar atores e tratá-los como peças indesejadas mas necessárias para montar sua criação. No fim das contas, funciona. Atuar é uma profissão emocional, diferente de qualquer trabalho de escritório, as regras são outras. O objetivo do diretor é tirar justamente a emoção exata do seu ator em determinada cena, mesmo que para tanto seja necessário insultá-lo, isolá-lo, constrangê-lo, tudo para que o resultado final seja o melhor possível. Fazer isso ou não, cabe ao diretor decidir, mas eu não consigo discordar da atitude. Por consequência, a pressão mental e exigência física causada pela direção fez com que as emoções expressadas pelas atrizes fossem reais. Não próximas do real, não realistas, mas reais, e a diferença para espectador atento é perceptível. A Adèle atriz e a Adèle personagem se tornaram uma durante as quase três horas de filme. O mesmo pode ser dito sobre a Léa Seydoux.

É comum que filmes mais “artísticos” se deixem levar por um conceito sobre a história em si ou sobre os personagens. Os conceitos trabalhados em Azul é a cor mais quente são complexos no mínimo. Em uma determinada cena, Emma expõe suas pinturas para um grupo de amigos e artistas em um jantar. Os presentes então começam a discutir sexualidade e a diferença da percepção do prazer entre os sexos, e essa discussão na minha opinião foi fascinante, principalmente porque o filme tenta passar a ideia em cenas. A questão do compromisso e dependência entre casais também é bem exposta, com a profundidade necessária. Isso sem falar da óbvia questão da autoaceitação e aceitação perante a sociedade, essa tratada com muito mais sutileza. Mesmo assim, o forte do filme, o que vai te fazer ficar sem piscar durante as três horas, é a humanidade das personagens. Esse não é um filme abstrato como tantos no seu meio.

O mais importante foi que, aquilo que começou como uma garota descobrindo sua sexualidade e se identificando lésbica, logo se tornou apenas uma história de amor. Não uma história de amor “com lésbicas”. Isso foi o principal, do contrário o filme teria caído no já descrito fetichismo. No fim das contas, é isso que a sociedade teria que entender sobre o homossexualismo, que não é nada além de duas pessoas se amando. Por acaso essas pessoas são do mesmo sexo, mas isso não importa, não faz do amor entre os dois diferentes, muito menos teria de fazer o filme diferente. Ser possível assistir Azul é a cor mais quente e, no meio do caminho, esquecer que se tratam de lésbicas e poder vê-las apenas como um casal, foi o que me fez ver além da qualidade do filme, mas também sua relevância na história do cinema.

O vôo da madrugada – Sérgio Sant’anna [2004]

Vi no Youtube não faz tanto tempo um trecho curto de um debate sobre o mercado editorial entre Daniel Pellizzari e Antônio Xerxenesky; um, autor já resenhado nas bandas do finado blogue – podendo o texto migrar pra cá eventualmente -, outro, cuja coletânea de contos A página assombrada eu tenho, mas não li. Em determinado momento, Xerxenesky diz que o conto é a nova poesia, ninguém lê contos. Espera, tem acento em Xerxenesky? (pausa para Google) Não, mas o nome do livro é A página assombrada por fantasmas; pronto, corrigido. Ele está certo. Romances são bem universais entre leitores. A poesia, depois do Toda poesia, do Leminski, reviveu ou pelo menos deu cria, gerando edições similares para Ana C. e Waly Salomão. O conto morreu e permanece morto. É uma pena. Despertei para o conto só depois de um ano de leitura séria na minha vida, graças ao ou por culpa de Dublinenses, do Joyce. Não podia ser mais clichê da minha parte, mas convenhamos que é uma puta coletânea. Pulei dele para Hemingway, Carver, Bolaño. Então peguei um livro do Sérgio Sant’anna ano passado e me prendi no estilo. O vôo da madrugada (mantendo a velha ortografia em respeito à edição) ganhou o Jabuti de sua categoria em 2004 (pode ter sido em 2005, não sei como funciona a premiação especificamente). Disse isso na minha resenha do Carver, mas vou repetir já que é raro que meus leitores sejam completistas. Poderia fazer uma resenha para cada conto, até o mais curto, que consiste de uma folha apenas, e seriam todas longas como quaisquer outras das minhas resenhas. Mas não o farei, haja tempo. Vou mesclar tudo e, por conseqüência, fazer uma resenha superficial que, esperançosamente, alimentará a curiosidade dos meus três leitores e meio.

São dezesseis narrativas divididas em três partes. A primeira consiste de doze contos. Um não poderia ser mais variado que o outro. Cheios de brincadeiras metalinguísticas (ou deveria dizer metalingüísticas, mantendo a consistência da velha ortografia em homenagem ao título da edição, antiga porém viva? Farei isso, a pergunta foi retórica), indo de temas como o incesto, fantasmas (e atração sexual por um fantasma), fragmentos autobiográficos (ou não?) analisando a mente do contista (do contista real ou fictício?), uma análise da voz que te chama para a morte, uma conversa entre uma mulher e seu psicanalista, mais autobiografia (ou não), mais sobre a sedução da morte. Não se enganem leitores, essas não são sinopses, muito menos análises. São palavras que definem ou não os temas. Não definem, são muito rasas para definirem qualquer coisa, mas podem ser como palavras-chave. Os contos em si fazem o leitor pensar cada um dos vários significados que eles carregam. Fazem o leitor pensar no que é ficção também e qual seu papel.

A parte dois é apenas uma narrativa. Chega a ser novela? Deixarei essas definições para os críticos e professores, isso aqui é apenas um blogue, uma indicação de amigo, um amigo que vocês não conhecem nem nunca viram nem sequer verão. O gorila, é título. Um homem, que se identifica como Gorila, faz ligações para mulheres aleatórias. Crime?, piada?, assédio?, insulto? Cada leitor pensa uma coisa, da mesma forma que cada personagem-alvo pensou uma coisa. Os papéis se invertem, vítima se torna criminoso (ou não). A narrativa é experimental. Parte diálogo, com pausas de poesia e ensaio, roteiro de tevê, trama policial. A novela faz um pouco de tudo. Sugiro ao leitor, nesse ponto, uma pausa para reflexão. Leia outra coisa antes de ir à parte três. Um conto de outro autor, talvez. Não dê muito tempo à pausa, contudo. Pense na novela. Melhor dizendo, faça uma pausa a cada narrativa e reflita sobre ela. Isso serve para toda boa coleção de contos.

Chegamos à parte três e é possível que você ainda esteja me lendo. É possível que você tenha deixado de ler quando soube que se tratava de um livro de contos. Se você for um tipo especial de idiota, é possível que você tenha deixado de ler quando soube se tratar de um livro nacional. Cada qual com sua opinião. Não se preocupem com o tipo especial de idiota, ele não está mais aqui para ser ofendido. É na terceira parte, intitulada Três textos do olhar (e você adivinhe em quantas narrativas essa parte se divide), que os limites entre a narrativa, o conto e o ensaio crítico se quebram. Uma mulher nua em um quadro se torna razão de uma análise sobre a nudez e, ao mesmo tempo, personagem do seu próprio espaço, que pode ser conto ou crítica, tanto faz. Então no segundo conto, por meio de uma fotografia, somos transportados para outro tempo, outros costumes. Mulher fotografada se torna personagem de uma história fictícia, modelo para um jovem pintor não existente que a apresenta às obras de Schiele e se transforma. A arte, no segundo conto, liberta mentes e transforma uma boa mulher de família esposa fiel em adúltera, o que não importa, já que a história não é real (ou é? Será que importa? Nada no livro é real, então que importa a vida presumida de uma mulher fotografada no Brasil da década de 20?). No terceiro, o alvo dos conto-críticas são as meninas de Balthus, como se pode presumir pelo título Contemplando as meninas de Balthus. Histórias criadas usando de combustível as sensações causadas pelas artes visuais, aproximando cada vez mais esta arte da literatura – como parece ser a tendência literária dos autores mais inventivos hoje em dia.

Nada é perfeito. Das dezesseis narrativas, decerto algumas vão agradar e outras não. Fui tocado de certa maneira por todas, umas com mais intensidade outras com menos. Mas da mesma forma que as mulheres do Gorila interpretaram os telefonemas dele de formas diferentes, vocês interpretaram os contos de formas diferentes. Os seus favoritismos podem ou não ser iguais aos meus. Você pode não gostar de nenhum ou de todos. Ele ali pode gostar da primeira parte. Ela da terceira. O tipo especial de idiota já não está mais aqui. Eu indico a leitura. Você faça o que bem entender.

Pintura para principiantes #1 – Introdução e Edward Hopper

Postado originalmente em 1 de agosto de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/08/pintura-para-principiantes-1-introducao.html

 

Essa é a estreia de uma coluna nova aqui no Delirium Scribens. Nela falarei de pinturas. Quais minhas credenciais para falar desse assunto? As mesmas que tenho para falar de cinema, literatura e música – absolutamente nenhuma. Talvez possa até dizer que tenho menos moral para falar de pintura que qualquer uma dessas outras artes, porque ao menos com as outras eu tenho experiência de contato e/ou experiência prática. Logo aviso que não esperem aqui uma análise complexa ou exata da vida e obra de diversos artistas, apenas uma introdução superficial para você, que assim como eu, não sabe nada de pintura, mas gostaria de saber.

Como não entendo sobre a técnica da pintura ainda (talvez aprenda com o tempo, talvez não), não me meterei a falar sobre isso, sobre o estilo das pinceladas e outros detalhes que um crítico de arte competente definitivamente perceberia. Por outro lado falarei daquilo que creio ser realmente importante, o que uma pintura causa internamente, quais sentimentos elas trazem a tona, como uma pintura pode afetar seu espectador. Além disso, pretendo falar um ou dois breves parágrafos sobre a vida do pintor em questão, não com fins biográficos, mas para contextualizá-lo na história. Como meu foco é e sempre será a literatura por aqui, vou apontar que a pintura pode ensinar muito a um autor sobre descrição, a importação do que é descrito, do cenário, dos destaques, da luz. Tudo isso está na literatura. E, notem, a maior parte dos grandes autores contemporâneos têm grande ligação com as artes plásticas. Então essas artes andam de mãos dadas. Esse tipo de postagem aqui está longe de ser um estranho no ninho.

O primeiro a ser tratado nessa nova coluna é Edward Hopper. Por quê? Ora, foi ele quem fez com que eu me interessasse por pintura. Sim, meu interesse é que regerá as futuras colunas, não cronologia ou grau importância. Repetirei para que não haja dúvidas, minhas finalidade aqui não é acadêmica, é apenas divulgação cultural, um jeito bacana de gerar interesse sobre esse assunto nas pessoas.

Nascido em Nova York, 1882, Edward Hopper ficou conhecido pelas suas pinturas altamente influenciadas pelo impressionismo francês. Seu principal cenário foi o cotidiano, os cenários comuns dos Estados Unidos, a “natureza urbana” – por assim dizer, como se isso fizesse qualquer sentido. São pinturas reais, que capturam as diferentes emoções do dia-a-dia, da simplicidade da vida, da solidão e tédio do que viria a se tornar o “sonho americano”.

Summer Interior (1909)

Um dos meus favoritos por algum motivo. Tem algo de misterioso nessa mulher largada no chão do quarto, durante o dia, o rosto escurecido, a cabeça baixa. É uma figura melancólica, solitária. O quadro emana um erotismo desesperado. O espectador se vê obrigado a imaginar o que aconteceu de tão desconsolador.

Night Windows (1928)

Tanto na pintura anterior quanto nessa – muito mais nessa -, o espectador tem um ponto de vista distante da cena, voyeurístico. Dessa vez, além de imaginar quem é a mulher e o que ela faz, se é levado a imaginar quem é que a assiste. É uma invasão da intimidade, praticamente. Um ponto de destaque na obra do Edward Hopper é a forma que ele trabalhava as luzes e sombras. O efeito da luz no exterior do prédio é muito interessante, e a noção de movimento que a cortina passa flutuando para fora do apartamento por causa do vento. De novo a solidão se faz presente.

Early Sunday Morning (1930)

O cenário comercial da cidade pela manhã. Isso eu li no site “edwardhopper.net” – referência para quase todas as informações biográficas desse texto -, o título original da pintura não mencionava “Domingo”, ou seja, a pintura pode ser interpretada como uma referência a depressão econômica em 1929, com as lojas fechadas e a falta de vida no centro comercial.

Sun in an Empty Room (1963)

Essa é uma pintura curiosa. Não há nada nela, e por isso mesmo todos os temas comuns nas pinturas dele estão presentes. É uma imagem solitária o trecho da casa vazio, o sol entrando pela janela. Novamente o jogo de luzes e sombras. O mistério da observação do cenário desconhecido.

Automat (1927)

Essa é uma pintura famosa dele. A mulher sozinha no café, bem-vestida e maquiada, no meio da noite. Não se sabe se ela está voltando de algum lugar, indo para algum lugar. Novamente não se sabe quem a observa. Em 1927, pernas a mostra não eram exatamente aceitas, então há uma sensualidade na forma que as pernas sob a mesa estão mais iluminadas que o resto do quadro. O detalhe da fileira de lâmpadas refletidas na vidraça é genial. Uma das minhas favoritas.

Nighthawks (1942

Tá, essa é a pintura mais famosa dela. Foi ela que fez eu me interessar por pintura. Conheci por meio de um disco, na verdade, Nighthawks at the Dinner, do Tom Waits – que eu já resenhei aqui (no finado blog, um dia aparece aqui) e sugiro que todos ouçam. Novamente, tem algo nela. A solidão da noite, as figuras avulsas tomando café; um homem sozinho (próprio Hopper de costas, servindo de modelo), um casal (possivelmente), juntos mas não exatamente, e o garçom ali, talvez ouvindo alguma coisa ou só seguindo com seu trabalho. É uma cena cheia de tédio, de novo assistida de longe, talvez por um passante na esquina. Um momento da madrugada – imagino que seja madrugada, pois não tem mais ninguém por perto. Eu realmente gosto dessa pintura.

Assim termina a primeira coluna sobre pintura. Uma curiosidade, também lida no edwardhopper.net foi que, no fim da carreira, ele perdeu a popularidade por causa do crescimento do expressionismo abstrato, Jackson Pollock, por exemplo, por isso ele será o próximo alvo dessa coluna, que será escrita sei lá eu quando. Raramente peço feedback por aqui, costumo fazer aquilo que me interessa, mas gostaria de saber o que meus dois leitores e meio pensam. Gostaram disso? Se interessam por pintura? Acharam a obra do Edward Hopper interessante? Essas perguntas de sempre.

O cachimbo e a necessidade de parar*

ab028330eb4be12051a372519a863e41
Marcel Duchamp ilustrando muito bem o que eu quero dizer com isso tudo.

Uma coisa que não é novidade pra ninguém é que vivemos um tempo estranho. Tudo é rápido e conectado, nada é o que um dia se acreditava ser (o que, pra maioria das coisas, até que é bom), e persiste uma sensação de perigo iminente e pressa, principalmente pressa. A tecnologia, que deveria nos ajudar a lidar com tudo isso e facilitar nossas vidas, acaba nos mimando. Um começo bastante sério para o que esse texto pretende tratar, comecei a perceber, mas não vejo isso como literatura, é só um blogue – meu padrão de qualidade vive atrapalhando minhas postagens e ideias. Mas é melhor eu não começar com as divagações tão cedo.

Falando em mimo, todas essas facilidades e “inovações” diárias me fazem pensar nessa cultura do entretenimento imediato que se instalou – acho que começou com a televisão, mas o YouTube nos levou ao extremo. Tudo tem que ser rápido e a nossa maneira. O que não se encaixa não merece atenção, é chato. Filmes precisam de cortes a cada cinco segundos e ação e explosões. Livros precisam “prender” o leitor com parágrafos curtos e linguagem “dinâmica”. De certa forma, se a televisão começou isso tudo mesmo, é irônico, porque o formato rígido da programação televisiva torna difícil a adaptação dessa mídia aos tempos de hoje, tanto que a internet a está absorvendo (Netflix, YouTube – repito).

Se eu dissesse que tudo isso não me atrai, estaria mentindo. Mas faço um esforço consciente para resistir. Acho perigosa a rendição ao entretenimento constante. É preguiçoso e não leva a lugar nenhum. Com o tempo foi ficando mais fácil e, ao aprender os truques dessa armadilha, deixou de ser tão atraente. Vez ou outra, sinto a necessidade de desligar o cérebro e me deixar levar pela velocidade do mundo, mas dura pouco – outra ironia? – e demora pra voltar. Ainda assim, com trabalho, planos e tudo mais que fazemos pra sobreviver, acho necessário parar. O entretenimento constante torna isso difícil. É difícil tirarmos um tempo para reflexão. Quietude, isso é o mais importante. A digitalização de tudo e toda a praticidade matou os velhos rituais que nos desaceleravam (se flutuo entre o nós e o eu é porque parte do que falo é geral e outra parte pessoal).  E, não bastasse, a vida profissional insiste em invadir, discretamente e com um sorriso no rosto, a pessoal – oferecendo espaços de lazer e todo tipo de incentivo para manter os funcionários ativos o máximo de horas por dia (assunto pra outro texto, quem sabe). Já é difícil ter tempo para essa quietude, esse momento de reflexão, e quando temos, somos atraídos para longe disso por todo o universo de entretenimento imediato que nos cerca e incentiva à distração, ao barulho e às luzes pulsantes.

O que me ajudou a fugir disso foi o cachimbo. Esse hábito novo me força a parar por duas horas pelo menos e me ajudou a recuperar a compreensão do prazer no ritual, na conexão verdadeira com um ato. Existe uma relação entre o fumante e seus cachimbos. Eles precisam ser descobertos de certa forma. Cada um age de um jeito, conforme seu tamanho, o tipo de material de que é feito (só tenho de briar, mas quem fuma em meerschaum sabe a diferença, assim como todos os outros tipos de material que podem ser transformados em cachimbo). É necessário atenção, paciência e tempo para aprender a lidar com um cachimbo, e os tabacos são a mesma coisa. O processo de verificar a umidade do tabaco, encher o cachimbo, acendê-lo, encontrar o ritmo da fumada para mantê-lo aceso sem que ele superaqueça: é um ritual, assim tratado pelos indígenas e segue até hoje, talvez sem os mesmos significados espirituais, que ainda não tive tempo, mas tenho o objetivo de estudar. Terminado o ritual – que cada vez fica mais simples -, pode-se sentar na poltrona e relaxar. Quem sabe ouvir um disco – ouvir, de fato, não só clicar duas vezes num media player enquanto se fuça a vida dos outros nas redes sociais ou se procura distrações -, ler um livro sem se preocupar com ritmo de leitura e se deixar levar pelas palavras enevoadas pela fumaça que dança pela sala, ou só pensar. Tem também o relaxamento químico da nicotina, que ajuda, mas não é tudo. Digam o que for dos perigos de fumar, mas tenho certeza que é mais saudável que se meter em um engarrafamento por horas (as fumaças do carro, mais tóxicas que de qualquer tipo de tabaco), encher a cara para esquecer o dia (álcool como compensação, ao invés de prazer), se trancar por horas num escritório se preocupando com mais e mais dinheiro e com o dinheiro dos outros. Saudável não é, de todo, mas acredito que ajuda a viver mais, um hábito desses, que te incentiva a parar e meditar, ou pelo menos viver melhor. Me lembra a história do Bertrand Russell, aquela em que ele exigiu um lugar na sessão de fumantes do avião – no tempo que isso existia -, do contrário ele não viajaria, se impedido de fumar seu cachimbo. O avião caiu e só sobreviveram aqueles que estavam na sessão de fumantes. Trágica a história, óbvio, mas que tem uma ironia nela, tem. E ele não morreu de câncer, apesar de ter levado um cachimbo na boca desde os 23 anos, se não me engano (pode ter sido desde os 21 ou 25).

Claro que você não precisa fumar um cachimbo pra parar. Faça aquilo que funciona pra você. Quem sabe arranjar uma vitrola, começar uma coleção de discos (é barato nos sebos). O ato de levar o disco à vitrola, botá-lo pra tocar, é um ritual. E não facilita fazer outras coisas ao mesmo tempo, como media players fazem. Livros, sem cachimbo, também ajudam. Um filme mais lento, meditativo, sempre faz bem; um Tarkóvski ou Bela Tarr. Se está ao seu alcance, visitar museus e realmente absorver as obras, senti-las. Porra, meditação é grátis, basta sentar no chão e se conectar ao universo – não importa se a ciência diz que funciona ou não, você para por um instante e se permite relaxar; mal não pode fazer. Se você não for dado aos tabacos, mas, dentre os paraísos artificiais, preferir o álcool, um bom uísque ou uma cerveja artesanal ou vinho ou conhaque (etc.) pode te dar esse tempo de quietude. Mas tenha certeza de que a bebida é um momento de prazer e atenção, e que você está se dedicando ao copo e o que ele te oferece, não tentando ficar bêbado o mais rápido possível. Principalmente, e digo por experiência, não beba pra esquecer ou relacione tristeza com bebida. Nenhum mal hábito combina com tristeza, na verdade, mesmo que faça você se sentir melhor. É uma associação perigosa, gera condicionamento e, quando você se dá conta, está usando da bebida como remédio mesmo ela já tendo se tornado a doença.

É a esse tipo de parar que eu me refiro. Exercícios de paciência, talvez. Voltando aos cachimbos, há quem ache que é necessário um cachimbo caríssimo, de marca, para uma boa fumada. A maior parte dos meus foram relativamente baratos, e dois deles são de marca desconhecida. No começo eles me deram trabalho. Deixavam um gosto estranho, a madeira esquentava muito rápido. Ao invés de largar os cachimbos, fui devagar, aprendi a lidar, pacientemente, com eles. Hoje estão tão bons quanto os mais caros. Mostra o quanto paciência e dedicação podem ser importantes. Se te parece que a frase anterior pode servir pra tudo, você está começando a captar a ideia desse texto.

con-pipa-en-su-biblioteca-sentado
Don Julión comprende.

Parar, agora que tenho a chance de botar essa ideia em palavras, é mesmo um conceito abstrato, talvez algo que nem eu tenha conseguido compreender completamente (vejam que todos os exemplos de parar que dei envolvem fazer alguma coisa – apenas algo mais lento e que pede reflexão). Pode ser que seja tudo bobagem da minha cabeça. Sei bem de umas pessoas que não conseguem. A ideia de sentar num sofá e ler ou só respirar por uns minutos é torturante. Pessoas que precisam estar em movimento o tempo todo. Isso é perfeitamente aceitável. Apenas um outro jeito de ser. Não sei. Pode ser que a necessidade que eu sinto de parar, essas pessoas não sintam nunca. Precisaria passar uns dias na pele delas pra saber, o que é impossível. E criar vínculos mais profundos com objetos… não sei se é possível. Mas, em tempos de descartabilidade, é algo que muito me atrai nos cachimbos, a demanda por cuidado e tratamento. Livros são a mesma coisa. Largue uma biblioteca aos cuidados do tempo e as traças tomam conta. Discos são assim também, mofam. Pode ser questão de personalidade, vai ver gosto de coisas lentas e que requerem cuidado e tempo e paciência. Por isso, quando fumei um cachimbo pela primeira vez, fui tomado pelo ritual e só quis aprender mais e me aprofundar.

Estou mesmo divagando e contornando assuntos sem chegar a lugar nenhum dessa vez, não é? Acho que a mudança pro WordPress, por algum motivo misterioso, me deu liberdade (totalmente interna – “meus leitores” nunca tomaram parte na forma do conteúdo, ninguém nunca se importou tanto) de fazer esses textos mais largados, como lascas arrancadas direto da vida. Uma espécie de exercício pros dedos. Manter um blogue também se encaixa nessa minha lista de atividades reflexivas, acabei de perceber. Escrever em geral, seja mantendo um diário, organizando as ideias, até coisas mais… públicas, por assim dizer. Um jeito de encerrar isso é dizer que, se você se identificou de alguma forma com a necessidade de parar, sugiro que experimente usando esses métodos que descrevi. Quem sabe se aprofundar nos seus hobbies, procurar novos. Ou só refletir. Acho que ainda é valiosa a citação em “Le Petit Soldat”, do Godard, de 1963, que diz, mais ou menos: o tempo da ação terminou, começou o tempo da reflexão. Acho que, se ele dizia que o tempo da reflexão havia começado então, na década de 1960, nunca de fato se deu esse começo. Ficou como ideia, como ideal, nunca posto em prática. Mas nunca é tarde, nem 4 décadas depois.

jeanlucgodard1

*Percebi tarde demais a ambiguidade no parar do título. Não tenho, ainda, intenção de parar com o cachimbo. Poderia mudar para algo como “necessidade de reflexão”, mas é tão pretensioso e não passa a ideia completa. Parar, ambígua que possa ser, é a palavra certa.

2 livros da Joan Didion

screen-shot-2015-05-22-at-3-00-10-pm

A principal razão de eu não gostar de listas, principalmente listas qualificando obras artísticas, é o caráter objetivo delas. Vejam bem, para se definir com certeza os 10 melhores de algo, é necessário que se conheça todo esse algo, o que na maioria dos casos é impossível. Quando blogues se dedicam a essa lista, então (blogueiro que, na maioria das vezes, não é exatamente qualificado pra esse tipo de serviço exaustivo), a lista de melhores poderia e deveria ser traduzida como “lista de x coisas que conheço sobre tema”. É o que vim fazer aqui. Li dois livros de uma autora e vim apresentá-la a vocês me baseando nesses dois livros (parcela mínima da obra completa dela). São os mais indicados para quem nunca leu Joan Didion? Não necessariamente. Nem sei dizer se são os melhores dela. Mas são livros excelentes e, se não são os melhores dela, são uma grande primeira impressão.

Antes de começar, uma observação: esses 2 livros nunca foram traduzidos, que eu saiba. Comprei importados na época que o dólar custava menos que dois reais. Hoje a situação é outra, mas, se não bastasse, considerando a isenção de tributos de importação para livros e valor desses livros em dólar, algo me leva a crer que as livrarias brasileiras que oferecem livros importados estão se aproveitando da situação. Esses dois livros, que me custaram cerca de 30 reais em 2011, hoje custam mais de 80, brochuras naquela qualidade medíocre das editoras americanas. Tem algo errado, mas mais errado é nenhuma editora brasileira ter se disposto a traduzir essas obras. Na verdade, traduções em geral da obra de Joan Didion são difíceis de encontrar. O ano do pensamento mágico e Noites azuis, os livros mais conhecidos dela, parecem estar esgotados há um bom tempo e nem sinal de reedição. Enfim, outra história, pra outra ocasião. Apenas demonstra mais a necessidade de falar sobre ela, porque se trata de uma autora um tanto negligenciada.

41ulaipzwsl-_sx332_bo1204203200_

Slouching Towards Bethlehem (Arrastando-se* a Belém) – 1968

Essa é a primeira coleção de ensaios jornalísticos que ela publicou, composta de textos publicados em várias revistas durante a década de 1960. Dividido em três partes (I. Lifestyles in the Golden Land; II. Personals; e III. Seven Places of Mind), o primeiro foca em descrições das maneiras que as pessoas viviam na época em Los Angeles, junto com perfis de celebridades (Howard Hughes, John Wayne, Joan Baez) e são os textos mais datados, como não poderia ser evitado. Mas são textos, parafraseando Capote, escritos em uma das melhores prosas dos EUA daquela geração até hoje. E os temas ainda carregam importância ao menos histórica.

Mas é nos textos pessoais que o livro se torna magnético. Textos sobre a escrita, sobre manter um bloco de notas (e analisar posteriormente os rabiscos codificados e seus significados), sobre moralidade, sobre o ato de voltar para casa e lidar com família após anos de separação. Estes são textos vulneráveis, sensíveis, mas nunca fracos. Como a própria escreve, a escrita é um ato hostil (sempre tentando forçar o argumento e sua validade ao leitor) e egocêntrico (uma pessoa com uma ideia não só boa o suficiente para ser gravada em papel, mas que deve ser distribuída e lida por todos), e ela é mestra em passar aquela sensação desconfortável ao leitor, de que há algo terrível à espreita.

A terceira são notas de viagens, relatos pessoais sobre lugares que ela foi, de onde ela veio. Talvez a que eu tenha achado mais fraca no livro (risco que se tem com coleções de textos), se é que é possível achar algo fraco na prosa de Didion. Um texto chato escrito por ela ainda é uma beleza de se ler, de se pronunciar mentalmente as sequências de palavras. E quando um dos textos é bom, nos faz lembrar da memória que existe na terra, coisa que tendemos a esquecer. Faz pensar em tudo que um lugar carrega de nossa existência e da dos outros.

41coacculwl

Play It As It Lays (Jogue Conforme as Cartas**) – 1970

Segundo romance escrito por Joan Didion, influenciado em peso pelas experiências dela em Los Angeles, inclusive no contato que ela, enquanto jornalista, teve com figuras de Hollywood. Assistimos fragmentos da vida de Maria (Mar-eye-a, ela faz questão de apontar) Wyeth, e a maneira que a sanidade dela a escapa. Após um monólogo interno que serve de prólogo e dá ao leitor uma ideia vaga de onde a história pretende levá-lo, o texto segue na terceira pessoa, sempre breve e mínimo, eficaz e brutal. Das dificuldades de lidar com o mundo de Hollywood enquanto mulher, até aborto, autodestruição e suicídio, esse é um romance grandioso e subestimado.

Em suma, e se escrevi demais, pule o texto mas leia essa frase, leia Joan Didion. Faz bem pra mente e pros olhos.

*Slouching é uma palavra difícil de traduzir, mais exato seria movendo-se preguiçosamente. Visto que se trata de um verso do “The Second Coming” (A Segunda Vinda) do W. B. Yeats, preferi seguir a tradução do Paulo Vizioli e usei arrastar-se para traduzir o verbo “to slouch”.

**Tradução livre, minha, que faz sentido ao se ler o livro. Também é a tradução literal da expressão “play it as it lays”, em referência tanto aos jogos de carta e à vida.

Andei lendo uns livros aí… #1

Seguindo a linha da postagem “Andei vendo uns filmes aí”, esses são os livros que li por esses dias:

O MESTRE E A MARGARIDA (1966) – MIKHAIL BULGÁKOV

22028684

Arriscaria dizer que Bulgákov é um dos únicos escritores russos que sabe rir. Mas apesar do humor contido nessa sátira, dá pra notar uma certa amargura em cada crítica. Em O Mestre e a Margarida, Woland (o diabo em pessoa) e sua equipe surgem em Moscou, na União Soviética, e transformam a vida das pessoas com as quais eles cruzam em caos (dependendo de como eles são tratados). Esse é um romance magnífico em todos os sentidos. Ao mesmo tempo que poderia servir como uma definição de dicionário para a palavra “romance” e ter tudo que se espera dessa forma literária, ele é bastante experimental, brincando com a fantasia e o surrealismo. Como uma mescla de duas tradições literárias, a típica russa e a da crescente vanguarda (na época) localizada na França. Um dos melhores livros que já li.

Leia sinopse e trecho aqui: http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=750

JUNKY (1953) – WILLIAM S. BURROUGHS

13320_gg1

Junky é um romance autobiográfico de uma das grandes figuras da geração beat, William S. Burroughs. Pra quem não sabe, antes de se tornar um grande escritor e depois um ícone/guru da contra-cultura, ele foi viciado em heroína/ópio ou, como o livro coloca, junk. Como todo o livro em linguagem coloquial e, principalmente, em linguagem coloquial de um período específico, a tradução ficou estranha em alguns pontos. Com certeza o tradutor só escolheu a melhor opção possível, Reinaldo Moraes não é nenhum amador, mas não deixa de ficar estranho, até antiquado, em muitos períodos. Sobre a história em si, bastante esclarecedora. Uma visão interna do mundo vício, sem mitos do governo, sem exageros ou reduções típicos dos escritores que se metem a falar de droga sem vivência. Importante retrato do estilo de vida dos “marginais” (pessoas excluídas do sonho americano) da época.

http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13320

RABO DE BALEIA (2012) – ALICE SANT’ANNA

alice2

Uma das poetas jovens publicadas pela finada Cosac Naify (ainda não superei). Que livro bom. Vou ser breve falando desse livro porque é muito difícil resenhar um livro de poesias. Não é uma coisa só, exceto que seja um livro de uma poesia só, o que não é o caso. Cada poesia tem sua personalidade e pede por uma resenha individual. Fala sobre tantos temas, da sensação de ser estrangeiro (literal e figurativamente), senti um tom de solidão, de procura e experiência. É curto, mas você vai se pegar relendo várias das poesias. Não consegui acessar o site da Cosac Naify (faleceu com a editora, ao que parece), por isso não vai dar pra deixar o link aqui, mas ele ainda está disponível em livrarias por aí (que não linkarei porque todos conhecem e prefiro não fazer indicações de livrarias, só de livros). Por outro lado, vou deixar o antigo blog da poeta, hoje abandonado, mas que contém umas poesias do livro e outras mais antigas, pra vocês terem uma ideia do que os espera.

http://adobradura.blogspot.com.br/

Até a próxima.