Tabacos Dunhill

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Obrigado, tio Alfredo.

Todo fumante de cachimbo tem muito que agradecer a Alfred Dunhill, o velho cavalheiro inglês, especialista em tabacos e inventor, criador da marca Dunhill, hoje mais conhecida por seus artigos de luxo, mas que, nos velhos tempos, vendia os melhores tabacos da Inglaterra. Na época já havia o foco nos produtos de alta qualidade e acabamento, principalmente os cachimbos, mas não era tão ridículo quanto hoje. Basta vocês verem a imagem tão simpática do seu Alfred lá em cima, e o templo patético de ostentação abaixo.

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Digam o que for, acho ridículo. E, não bastasse, eles esconderam o tabaco. Uma vergonha.

Mas que têm de especial os tabacos da Dunhill? Antes de mais nada vou explicar para os não fumantes certo aspecto da “comunidade” cachimbeira. Essas marcas clássicas de tabaco são muito antigas. As receitas das misturas, mais ainda.  Sendo assim, quando analisamos misturas antigas de tabaco, é necessário encarar que ela não é como a original. Sim, vá a qualquer fórum de internet sobre cachimbo, a quantidade de senhores na casa dos 70 anos ruminando sobre como tudo era melhor antigamente é espantosa. E eles devem estar certos, não sei. Comecei a fumar cachimbo em 2015, perdi muita coisa. Nasci em 1991, porra, perdi quase tudo. Em que isso afeta a Dunhill? Afeta porque há décadas as misturas originais do Alfred deixaram de existir. Começando em 1981, a empresa Murray’s, parte da British American Tobacco, comprou os direitos de produção e distribuição das misturas da Dunhill. Aí houve a primeira grande mudança. Em meados de 2005, a Murray’s passou a produção  para a Orlik/Scandinavian Tobacco Group – que manteve algumas misturas, mas tirou de circulação tantas outras, foi um período mais instável (ou eu posso estar errado, cruzei com várias informações conflitantes na internet, é um mundo agitado esse dos cachimbos). Mas as misturas só voltaram a circulação em 2011, se não me engano, e até hoje eles anunciam relançamentos de misturas até então descontinuadas. Mesmo assim, tabaco é um troço vivo, uma planta. Nenhum lote é igual ao outro. O método de processamento hoje mudou, é mais industrializado (no caso da STG, outras empresas mantêm técnicas artesanais). Certos tabacos simplesmente não estão mais disponíveis (latakia síria, estou olhando pra você). Uma mistura enlatada em 2015 não é a mesma da enlatada em 1915. Além do mais, antigamente lojas de tabaco tinham “o especialista”, que fazia misturas personalizadas etc. Quase nada disso existe mais. Cabe ao fumante de cachimbo se contentar com o que existe hoje – …ou tentar mudar as coisas.

Mesmo assim, nomes iguais são usados apenas por familiaridade. Dunhill, como produtora de tabacos, há décadas não existe. Mas, principalmente entre os da velha guarda, é um nome que significa tabaco. E os nomes icônicos das misturas também guardam aquela nostalgia. Pronto, agora vocês sabem. Os nomes do passado são só isso, identidade. A receita exata já se perdeu há muito. Não é nem conveniente, nem possível, reviver essas receitas com exatidão.

O que é diferente entre os tabacos da Dunhill (STG) e os das outras marcas? Bom, eu diria que os da Dunhill são seguros. Eles, nesse aspecto, são perfeitos para os iniciantes. Os cortes são muito bem executados (o melhor ribbon cut que já vi é da Dunhill), as misturas são exatamente o que se espera da descrição. Raríssimas vezes um tabaco da Dunhill vai oferecer uma coisa e entregar outra. É uma experiência livre de surpresas – o que nem sempre é bom, mas é bom para os iniciantes. Até o grau de umidade nas latas costuma vir no ponto certo, facilitando a fumada, tornando tudo mais agradável. Para melhor compreensão do que cada mistura da Dunhill pode oferecer, vou fazer um resumo-avaliação das que já provei até hoje. Não é o catálogo inteiro, mas é a maior parte e pode servir de guia para quem está começando ou quem já fuma e tem curiosidade de conhecer algo da Dunhill ou quem não fuma e não quer fumar, mas tá aqui por achar engraçado uma pessoa de 25 anos falando de cachimbo em pleno 2016.

O método de avaliação que vou aplicar pretende medir sabor (a complexidade do sabor da mistura), força (qual a intensidade do sabor da mistura – sutil/médio/forte etc.), e teor da nicotina (se vai ou não te derrubar). A nota vai variar de 1 a 5. 1 sendo mais fraco, 5 sendo mais forte. Lembrando que a nota não mede qualidade. Uma nota 3 (média) pode ser excelente, justamente o que se espera para determinada mistura. E, se você for iniciante mesmo, sugiro que fique longe, por enquanto, das misturas nota 5 em nicotina.

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Royal Yatch não está na lista abaixo, já que ainda não fumei essa. Mas lendas a cercam dizendo que é a mistura mais forte em nicotina da Dunhill.

Early Morning Pipe: esse é considerado um bom tabaco para primeira vez. Eu acho, talvez, um pouco sutil demais. Uma mistura inglesa (virginias, orientais/turcos e latakia), os orientais dominam a fumada, mas são bem leves. Pessoalmente, quando fumei, achei quase sem gosto. É tabaco de qualidade, mas não é pra mim. Talvez me faltasse percepção na época pra captar as nuances. Talvez ele não tenha muito a oferecer. Muita gente gosta.

Força: 1  /  Sabor: 2,5  /  Nicotina: 1

Standard Mixture: irmão adulto do EMP. É uma mistura inglesa mais equilibrada, não necessariamente robusta, mas notável. Diria até que é mistura inglesa média padrão (vide nome). Perfeito feijão com arroz dos tabacos. Serve para qualquer hora de qualquer dia. Esse sim, eu consideraria o melhor para iniciantes,  para ensinar o que cada tabaco faz, embora eu ache meio aguado.

Força: 2,5  /  Sabor: 3  /  Nicotina: 2

Durbar: essa é a mistura balcânica da Dunhill. Por definição, os orientais conduzem e dominam a fumada. Considero mais saborosa essa mistura que as citadas até agora. Um pouco mais interessante, diferente. Tem um amargor típico dos tabacos orientais/turcos.

Força: 3  /  Sabor: 3,5  /  Nicotina: 3

London Mixture: aqui começa a “polêmica”. Há quem diga que esse tabaco é igual ao Standard, com um pouco mais de latakia. Eu discordo. Acho que é mais próximo do Durbar, com mais latakia. Ele tem o mesmo amargor, mas é tomado pelo enfumaçado da latakia de um jeito bem diferente do Standard e do Durbar. Gosto muito. Pretendo comprar outra lata desse um dia, dependendo da disponibilidade e do que mais estiver na minha lista.

Força: 3,5  /  Sabor: 3,5  /  Nicotina: 3

My Mixture 965: meu primeiro tabaco da Dunhill, se não me engano. Na época, lembro de ter me impressionado com a força. Hoje, ele é perfeito pra uma fumada de meio de tarde nos fins de semana, ou pra quando se quer encerrar um dia com algo forte, mas não muito, só o suficiente pra ser notado. Combina bem o defumado da latakia com o doce do black cavendish (folha de virginia curada, naturalmente açucarada). Bem equilibrada, excelente mistura inglesa para preparar o iniciante para uma futura incursão no mundo dos tabacos mais fortes.

Força: 3,5  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 3

Nightcap: e falando em tabaco forte, lendas cercam essa mistura. Bem forte em latakia, extremamente defumado, com uma leve picância causada pelo perique, essa é a mistura inglesa que vai te dizer se você ama latakia ou odeia. Muito se diz sobre seu grau de nicotina, mas acho que é lenda. Em resenhas de internet, não raro se vê alguém dizendo: “fumei nightcap uma vez; quando acordei, estava pelado em cima de uma estátua numa praça do centro da cidade.” Não é nem de perto tão forte. Não indico para os iniciantes, mas, se você já conhece tabaco de cachimbo , teve seu batismo na latakia, vá em frente sem medo. Se está migrando dos cigarros, provavelmente não vai te derrubar tampouco. É um dos melhores tabacos pra encerrar o dia. E de fato encerra. O sabor é suficientemente forte para tomar conta da sua boca e invadir quaisquer fumadas posteriores.*

Força: 5  /  Sabor: 5  /  Nicotina: 3,5

Dunhill Flake: virginia pura, e talvez, dentre os flakes de virginia, o mais equilibrado (para entender melhor a composição e outros termos, vá no meu primeiro post sobre cachimbo e tabaco, lá faço um apanhado geral para os não-iniciados). No espectro da variedade de sabores da virginia, desde a grama recém-cortada até terra, Dunhill Flake oferece um pouco de cada. Nem leve, nem forte. Enfim, tem gosto de tabaco. Pra mim, esse é o gosto que define o que é “tabaco”. Doce na medida certa, com um toque de mel, esse tabaco é uma maravilha num dia quente. Tende a morder minha língua, no entanto, não importa quão devagar eu fume.

Força: 3  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 3

Elizabethan Mixture: como eu gosto desse vaper (virginia + perique). Colocaria facilmente no meu top 5 e está entre os tabacos que prefiro ter em estoque, se possível. Tem um sabor de damasco, pão de centeio, figo, mais um toque de pimenta que completa a coisa toda. É uma mistura fantástica, mas, devo admitir, não para os fracos de coração. Devo estar desenvolvendo uma tolerância foda pra nicotina, porque hoje ela já não me afeta tanto, mas no começo era uma relação de amor e ódio entre mim e dona Elizabethan. Hoje é só amor mesmo. Só requer técnica, porque ele queima rápido e vai maltratar os descuidados.

Força: 3  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 4

Não mencionei aroma porque não sou capaz de julgar. Precisaria de alguém vivendo comigo pra me dizer se o cheiro é ou não suportável, mas, em geral, evito fumar quando tenho gente em casa. Como gosto do aroma de tabaco queimando, minha opinião não deve ser levada em conta por não-fumantes. É diferente do cigarro. Parece mais… puro. É difícil descrever.

Mas não tenho só elogios. Uma coisa nessa vida de álcoois e tabacos que aprendi foi: quanto mais perfeito, mais industrializado. Com o passar das latas e conforme se vai conhecendo outras marcas, a Dunhill acaba ficando sem personalidade. Claro, sempre vai haver espaço na minha rotação para as misturas deles, pelo menos para mim. A “perfeição” deles, por acaso, funciona. Só que, por algum motivo, sinto mais atração por aqueles cortes que parecem feitos a mão. Misturas que foram desenvolvidas para agradar ao especialista, não ao público. Enfim, detalhes, detalhes. Nem sempre Dunhill foi sinônimo de grande indústria, talvez seja apenas consequências dos tempos modernos. Mas estou devaneando, isso é assunto pra outro texto.

*Então tive oportunidade de fumar uma lata de Nightcap envelhecida 2 anos. Mudou completamente. Tabaco é uma coisa viva mesmo. A latakia, como é normal com o tempo, perdeu a intensidade, arredondou, ficou mais sutil. Os orientais e o perique dominaram a fumada. O perique principalmente, apimentou e bem a mistura. E a nicotina, puta que o pariu, fazia tempo que uma fumada não me derrubava desse jeito – um belo dum coice. Lá pelo fim a latakia deu as caras, somou aquele toque de couro e fumaça ao sabor. São esses breves prazeres sensoriais que fazem esse mal-hábito valer a pena.

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