Sobre a ética no restaurante self-service

Originalmente postado em 28 de novembro de 2012: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2012/11/sobre-etica-no-restaurante-self-service.html

Moro sozinho desde o meio de meus dezessete anos, quando comecei a faculdade em uma cidade distante de minha terra natal. Como todos aqueles que já passaram por essa nobre experiência, tive algumas dificuldades em meus primeiros anos. Nunca tive qualquer habilidade para trabalhos manuais ou domésticos, não tenho coordenação motora, senso de direção ou equilíbrio  se não bastasse, tampouco sei cozinhar. Eu sozinho em um quarto-e-sala no meio de uma terra desconhecida seria a receita para o desastre. Mas eu sobrevivi. Trabalhei pra caralho pra conseguir comer em restaurantes por quilo (self-service) da pior categoria e lavar roupa em lavanderias amigáveis com universitários (que oferecem desconto). Com isso, devo dizer que não foi sofrimento algum – foi até bem confortável. Tentei aprender o básico da vida domesticada, mas não é pra mim.

A escola em que fiz ensino médio era consciente da possibilidade de seus alunos saírem da cidade após a formatura, por isso ofereceu, “gratuitamente” – inclusas na mensalidade o aluno frequentando ou não, porque ninguém é Madre Teresa -, aulas de culinária, adaptadas de modo que até o maior dos imbecis seria capaz de aprender qualquer coisa. Esse era justamente o problema, a maior parte dos alunos eram imbecis (incluo-me nessa). Some isso ao fato da aula ser “grátis” – convenhamos, é difícil levar algo que não te fere o bolso a sério -, poucos saíram de lá com qualquer conhecimento. Os alunos que já sabiam cozinhar usavam aqueles que não sabiam para fazer o trabalho desagradável, cortar cebolas, descascar batatas, picar cenoura, alho e por aí vai – era o que eu fazia; não era minha vontade, mas os olhos verdes da moça que me pedia para fazer esse serviço me hipnotizavam. Então, na hora de cozinhar de verdade, algum imbecil, que podia bem ser eu mesmo, gritava: – Truco! – e nos reuníamos à mesa até que servissem o prato magicamente pronto. Foi uma bela perda de tempo, mas a culpa foi toda minha.

Só que esse texto não é sobre culinária e sim sobre restaurantes. Em Itajaí, devo dizer que me tornei uma espécie de pioneiro do paladar. Um restaurateur da classe operária, por assim dizer. Almocei em basicamente todos os restaurantes self-service da cidade, conheci os padrões, as combinações diárias, variações semanais, preço por quilo, acompanhei as mudanças, frequentei inaugurações, fiz indicações e resenhas verbais, descobri os melhores horários para evitar filas e como conseguir uma mesa independente da situação, além de realizar breves análises sociológicas sobre o tipo de ser humano que frequenta esses ambientes.  Isso me permitiu desenvolver uma espécie de código de ética. Não etiqueta, etiqueta é para senhoras frescas que dedicam a vida a segregar garfos e facas enquanto ingerem uma refeição do tamanho do meu punho subdividida em cinco pratos. Não é sobre isso que esse texto trata, mas sim sobre normas de comportamento social, não escritas em legislação, mas que deveriam sujeitar à punição o sujeito que as quebra.

Peço que o leitor visualize uma fila de quilo ao meio-dia e quinze. Sim, meio-dia e quinze, não meio-dia em ponto. Meio-dia em ponto é quando os funcionários dos grandes prédios comerciais estão se matando por um espaço no elevador (que por sua vez será o tema de minha próxima história), os quilos ainda não estão lotados nesse horário (lembrando que esse guia somente é válido para Itajaí e cidades de tamanho igual ou menores). Os quinze minutos são um detalhe essencial, pois é quando as pessoas começam a chegar em manadas aos restaurantes; quando a fila começa a sair do restaurante e tomar conta das ruas. É nesse tipo de situação que se baseiam as primeiras regras:

Regra 1: Nunca vá até um conhecido bater papo só para furar a fila.
Isso acontece com uma frequência assustadora. Um cretino decide conversar com aquele amigo do colegial que ele não vê faz dez anos. Por acaso, o tal amigo está quase alcançando a pilha de pratos em frente à comida. Ele não quer falar com o amigo, nem se lembra dele. O único objetivo do cretino é entrar na frente de todos. Não se intimide de constranger uma pessoa assim, mesmo que para isso seja necessário incitar um linchamento. Gente assim merece a cadeira elétrica.
Regra 2: É proibido guardar lugar. Se uma pessoa não está com você na fila, ela não está na fila.
Regra 3: Mantenha uma distância razoável da pessoa em sua frente, mas não deixe que uma distância maior que um braço se abra. Use o bom senso, do contrário pode-se considerar que você abandonou a fila.
Regra 4: Sempre pegue o prato do topo da pilha.

Essas são as regras da fila. Deve ter mais coisa, mas isso pode ser revisado um dia. Vamos avançar para o principal. Você não está mais na fila, tem um prato e talheres em mãos. Chegou a hora de se servir.

Regra 5: Não pense. Você sabe o que é a comida, pegue-a ou deixe-a. Tem dezenas de pessoas famintas atrás de você, respeite isso. Se você não respeita as pessoas, respeite a fome. A comida não vai falar com você, nem muito menos vir andando ao seu prato, se quiser decidir vá ao restaurante à la carte e pague por esse privilégio.
Regra 6: Não devolva a comida. Tocou seu prato, é seu, ponto final.
Regra 7: Não olhe pra trás. Se você deixou passar alguma comida específica e uns passos a frente mudou de ideia – tarde demais. Siga em frente com a vida ou volte para o fim da fila.

Regra 8: A comida disponível não é só sua, ela tem que alimentar toda a fila até a reposição. Limite seus instintos animais. Não carregue consigo todos os doze filés de frango. Em uma utopia, a quantidade de comida seria regulada.

Na hora de pesar e escolher a bebida:

Regra 9: São três etapas simples – pôr o prato na balança, pesar, retirar o prato da balança. Não é tão difícil.
Regra 10: Pense na bebida enquanto estiver na fila, depois disso, siga a regra 5.

Regra 11: Em todas as etapas, mantenha movimento. Essa é a chave para todas as filas – se é possível seguir, siga.

Essa parte é delicada. Escolher a mesa.

Regra 12: Nenhuma das mesas tem um prêmio escondido debaixo da cadeira. Não tem porque passar horas de pé pensando, se você vir uma mesa vazia, pegue-a.
Regra 13: Não deixe sua carteira, capacete de moto, celular ou qualquer outro pertence em uma mesa, enquanto estiver na fila. Em uma utopia, esses itens seriam considerados abandonados e passariam a pertencer àquele que pegasse a mesa primeiro.
Regra 14: Você está sozinho ou com um acompanhante, fique longe das mesas para quatro pessoas, exceto que essas sejam as únicas disponíveis.
Regra 15: As cadeiras vazias de sua mesa podem e devem ser ocupadas por qualquer um, caso todas as mesas estiverem cheias.
Regra 16: Se o restaurante estiver cheio e você tiver que se sentar com um desconhecido, peça permissão.
Regra 17: Quando uma pessoa pedir permissão para se sentar com você e o restaurante estiver cheio – aceite. Sim, toda essa comunicação é só formalidade, mas é o que nos mantém civilizados.
Regra 18: Nunca se sente com um desconhecido se ainda houver uma mesa vazia.
Regra 19: O primeiro a pegar a mesa é seu dono até que este termine sua refeição.
Regra 20: Evite conversas ou mesmo contato visual com o dono da mesa.
Regra 21: Ao dono da mesa é reservado o direito de ignorar qualquer um que a ele dirija a palavra.

Regra 22: Se seu prato e sua bebida estão vazios. Saia. Vá para casa, vá para o trabalho, vá para a rua, vá para a puta que te pariu, mas desocupe a mesa.

Acho que é o suficiente. Cobre os principais momentos, da fila até o fim da refeição. O código não é fixo e, a todo o momento, algo pode ser adicionado a ele. Retirado, somente se seguido de devida argumentação. Sigam as regras e até a próxima.

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Um comentário sobre “Sobre a ética no restaurante self-service

  1. Acho que nunca tinha lido esse seu texto. É tão a sua cara, mas tão a sua cara hahaha
    Concordo com todas as regras que você listou. Principalmente a sobre guardar lugar. Isso é ridículo demais, ainda mais se é um restaurante pequeno que fica cheio e etc. Todo mundo uma hora vai conseguir sentar e almoçar se tudo funcionar bem. E se não funciona, a culpa é do restaurante também que não avisa se está muito lotando quando claramente não suporta toda aquela lotação. Isso já aconteceu comigo algumas vezes. Tem lugares que simplesmente não conseguem fornecer a estrutura pra tanta gente e fica insuportável. Eu sei que a gente é que tem que virar as costas e escolher outro, mas… sei lá, tem lugares aqui que enfiam mil mesas e cadeiras num espaço que não dava praquilo tudo e o ambiente fica insuportável. Mesmo assim, em alguns casos, dependendo da região, é o único restaurante acessível, então ficamos sem opções.
    Enfim, a única observação que eu faria sobre suas regras é que, apesar de saber que o horário de almoço é curto e que tem muita gente com pressa, eu não gosto de correr pra escolher a comida. Tem um restaurante que costumo ir sempre que varia muito o cardápio e tem pratos diferentes. E eles anotam o que é o prato num adesivo bem pequeno. Eu não me sinto na obrigação de fazer tudo com pressa, até porque eu tô pagando, as vezes nem tão barato, então tenho o direito de não correr se eu não quero, assim como a pessoa que tá com pressa tem o direito de estar apressada. Quando percebo que a pessoa atrás de mim tá impaciente, eu falo que ela pode me passar se quiser. E nunca tive problemas com isso. Acho que tudo depende da educação das pessoas… e é por isso que geralmente as coisas não funcionam bem.

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