O Estrangeiro – o livro de Albert Camus (L’étranger, 1942) e o filme de Luchino Visconti (Lo straniero, 1967)

Postado originalmente em 19 de junho de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/06/o-estrangeiro-o-livro-de-albert-camus-e.html

O Estrangeiro, de 1942, é um dos meus livros favoritos. Li faz alguns anos, antes da criação do blog, e por isso nunca escrevi uma resenha ou falei qualquer coisa sobre ele. Principalmente porque é um livro de conceitos complexos. O enredo é o que menos importa, são as teorias filosóficas que Albert Camus insere no contexto desse enredo que realmente interessam. Não significa que a história seja fraca. Não é, e a prosa febril e precisa de Camus insere o leitor por completo na mente conturbada de Mersault. Quando fiquei sabendo que o grande diretor italiano, Luchino Visconti, havia adaptado esse livro em filme em 1967, precisei ver o resultado. Até porque ele é estrelado por Marcelo Mastroianni (lenda do cinema italiano devido aos seus trabalhos com Fellini) e, talvez minha atriz favorita, já no Hall da Fama de menções do Delirium Scribens, pela qual eu carrego uma tara de longa data, Anna Karina.

Primeiro uma breve sinopse. A mãe de Mersault (Marcelo Mastroianni), um pied-noir (literalmente, pé preto, francês que vive na Argélia dos tempos de colônia), morreu. Ela já vivia na casa de repouso há alguns anos e cada vez mais eles se afastavam. Mersault não tinha condições de mantê-la em sua casa com todos os cuidados que sua idade exigia. Além do mais, ela também se sentia muito solitária em casa o tempo todo. A casa de repouso era a decisão acertada para os dois, ele acreditava. Justificativas insuficientes para os supervisores da casa, que desde início se mostravam suspeitos de Mersault, por não chorar e fumar perante o caixão.

“Antes de deixar o escritório para almoçar, lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que usamos está toda molhada: serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda assim, de um detalhe sem importância.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

 Nem vinte e quatro horas depois do enterro, ele já reencontra uma antiga companheira de trabalho, Marie (Anna Karina) e ele logo a apresenta a sua baguete. Ele tenta ajudar um amigo que se meteu em encrenca após agredir a esposa, o que os coloca na mira de uns árabes. Merda acontece, e agora você vai ler o livro ou ver o filme. Sugiro que leia o livro, logo explico meus motivos.

Comecemos pelos conceitos, já que eles são pelo menos oitenta porcento do livro. A principal característica da filosofia de Camus é que a existência humana é um absurdo. Que, de fato, após a morte de Deus (que ele assume morto, mas na verdade quer dizer que, tanto vivo quanto morto, não faz diferença), a vida não tem um sentido objetivo. As coisas apenas são e, portanto, decisões não importam. Mersault, sendo assim, é indiferente ao longo do filme. Seu chefe lhe oferece uma oportunidade de emprego em Paris, ele diz que não é importante. Sua namorada pergunta se ele vai casar com ela, ele diz que pode ser, mas não importa. Sua mãe morre, ele não consegue se abalar emocionalmente, afinal ninguém vive para sempre mesmo.

Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, não falamos mais. Apertei-a contra mim, e tivemos pressa de encontrar um ônibus, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de verão escorrer por nossos corpos bronzeados.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

A sociedade, por outro lado, não funciona dessa maneira. Independentemente das coisas fazerem sentido ou não, seres humanos têm dificuldade em encarar o absurdo, inventando razões que justifiquem suas próprias existências (seja Deus, fama, poder, dinheiro, entretenimento etc.). Quando um homem como Mersault aparece, vê as coisas como elas são e decide viver cara a cara com o absurdo, ele se torna um estrangeiro. A palavra não vem no seu sentido pátrio, mas social. Claramente, Mersault sofre as consequências de uma vida de estrangeiro. O título também remete ao estrangeiro que Mersault mata, mas acredito que não seja o foco.

Deixando claro que o absurdo não significa que a vida não vale a pena ser vivida. Isso não é bem discutido em O Estrangeiro, e sim no ensaio O Mito de Sísifo, no qual Camus já começa dizendo que o maior problema filosófico da humanidade é o suicídio. Mais tarde é feita uma analogia entre a punição de Sísifo e a existência humana, sendo a rebelião a melhor resposta – viver de qualquer forma, e, principalmente, viver em liberdade. Mais ou menos isso, não sou acadêmico de filosofia, nem especialista em Camus. Se você realmente tem interesse nesses conceitos, sugiro que leia os livros e busque alguns documentários interessantes no Youtube, eles podem te explicar bem melhor que eu.

“Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.” (Trecho de O Mito de Sísifo.)

Essa é a principal qualidade do livro e o que faz com que valha a pena lê-lo. A capacidade de Camus de inserir na cabeça do leitor todos esses conceitos e questionamentos em uma prosa literária de altíssima qualidade, leve e clara. Por ser considerado um clássico, só o nome do livro pode intimidar alguns leitores, mas eu digo que isso é bobagem, qualquer pessoa com alguma bagagem literária pode ler e entender, não só O Estrangeiro, como a maior parte da obra de Camus.

Agora ao filme. Existem várias formas de se adaptar um livro para o cinema. Uma delas é quando um diretor realmente gosta de um livro e tenta ser fiel a ele, mas devido às diferenças de formato entre as artes, é obrigado a fazer algumas edições, arrancar cenas, acrescentar outras, para que tudo faça sentido em apenas noventa ou cento e vinte minutos; essa é a mais popular. A que eu mais gosto é quando um diretor pega uma obra e, ao invés de fazê-la em filme, faz uma obra diferente, interpretando o livro e acrescentando a voz própria do diretor. Nesse caso, o filme vira uma história sobre a relação de um leitor com o livro adaptado, o que é sempre interessante. São raros esses casos, Godard fez isso no começo da carreira, por exemplo. Então vem o mais arriscado, o caso desse filme, que tenta encenar o livro, cena por cena, em filme. O risco fica na extensão que o filme pode tomar (O Estrangeiro não teve esse problema, já que o livro tem oitenta e poucas páginas – edição de bolso) e na possibilidade de se questionar qual a necessidade do filme, afinal, se ele não traz nada de novo, por que fazer? Existe mais um caso, mas esse é desprezível e, infelizmente, muito comum. São os filmes sobre livros de alta popularidade, feitos por grandes produtoras, com orçamentos milionários. Filmes em que não se há interesse na obra adaptada, apenas interesse no lucro que ele pode trazer. Nem vale a pena falar desses casos.

“Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

O Estrangeiro, de Luchino Visconti, tem apenas um momento diferente do livro, o começo. A primeira cena busca puxar o interesse do espectador mostrando Mersault sendo levado até a delegacia, algemado – uma cena da segunda metade do livro. Só depois disso é que acompanhamos o enterro e todas as outras cenas. Os diálogos são muito parecidos com o livro e, da mesma maneira, quase ausentes. Em algumas cenas, até existe narração igual a do livro. Isso fez que me questionasse da necessidade daquilo. Eu já havia lido o livro afinal. Vê-lo com Anna Karina ajudava, mas não fazia do filme “necessário”, por assim dizer.

Certamente, é bem atuado, o que já vale alguma atenção. Um problema que eu vi foi que o filme é restaurado. Supostamente, a família Camus foi contrária ao filme, dizendo que não interpretava bem a obra de origem (não entendi porque, visto que são exatamente iguais, mas…), o que dificultou a sobrevivência do filme com o passar do tempo. Isso prejudicou muito a qualidade de som, o que é muito ruim, considerando que a trilha sonora original tem momentos risíveis de inadequação, transformando uma obra atmosférica em um suspense barato.

“Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

Não ajuda também que Anna Karina tenha, provavelmente, sido dublada. Fiz uma pesquisa para ver se a informação procedia, não encontrei nada. Na verdade, todos os filmes italianos da época são dublados, mas pelos próprios atores. A impressão que tive no caso da Anna Karina foi que não era a voz dela – sim, reconheço facilmente a voz dela. Encontrei que Anna, dinamarquesa de nascença, mas que passou boa parte da vida na França, é também fluente em italiano, o que vai contra o meu argumento. O maior problema é que a voz dela nesse filme está completamente fora de entonação (o tom e a expressão facial dela não faziam sentido), e ela falava muito rápido, quase de maneira apressada. Talvez tenha sido durante a restauração. De qualquer forma, é uma pena. A voz dela distrai muito durante o filme, e não é uma distração positiva.

Em geral, o trabalho é muito bem filmado. A atuação compensa os problemas de percurso e danos causados pela idade do filme, e a história em si é muito interessante e fielmente recontada. Indico àqueles que não leram o livro, porém a esses indico mais a leitura. Se você leu o livro e, assim como eu, gosta dele e de cinema clássico italiano, vale a pena dar uma olhada. Não se trata bem de uma pérola, mas não é nenhum desastre. O livro, contudo, é de fato um clássico insubstituível, tanto da literatura, quanto da filosofia.

Notas:
Livro – 5/5
Filme – 3,5/5

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