Lolita – Vladimir Nabokov (1955)

Postado originalmente em 22 de julho de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/07/lolita-vladimir-nabokov-1955.html

Eu sei, feia pra cacete a foto. Mas não tenho câmera pra ficar tirando foto do meu livro e essa era a única disponível, da minha edição, no Pai Google.

Resenhar clássicos é uma coisa que eu sempre quis evitar. Digamos que o motivo principal da resenha é a divulgação, e Nabokov, principalmente em se tratando de Lolita, não precisa ser divulgado. Quando a resenha não tem por objetivo divulgar, mas analisar – território pelo qual eu já cambaleei com minhas resenhas -, sua obra também já foi dissecada por dezenas, centenas, de críticos, todos, possivelmente, muito mais competentes que eu. E isso não serve só para Lolita, mas qualquer outro clássico. Ainda assim, esse blog anda escasso de resenhas literárias justamente por causa dessa minha regra pessoal, então vou abrir uma exceção e escrever sobre Lolita. Mas que isso já sirva de aviso que a resenha se trata de uma breve opinião pessoal, um texto no mínimo vulgar – como diria o próprio Humbert Humbert -, feito sem pretensões analíticas e acadêmicas.

“Lolita, luz de minha vida, fogo de meus lombos. Meu pecado, minha alma. Lolita: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”. (O tão famoso e aclamado início.)

A começar pela sinopse – e gostaria de acrescentar ao leitor desse humilde blog que já estou cansado dessa estrutura de resenha: introdução/sinopse/x parágrafos de análise/veredicto; somente sigo com ele por não conhecer método melhor; por mim, largaria as resenhas, mas se o fizesse o blog morreria – talvez conhecida universalmente. Humbert Humbert é um russo de meia-idade, acadêmico, culto, poliglota, mas com uma fraqueza moral – as garotas que ele chama “nymphets” (ninfetas, apesar da minha edição não ter traduzido o termo). Há uma explicação para esse desvio, quando ele próprio era um menino, se apaixonou por uma garota de 12 anos, mas ela morreu antes que o amor dos dois fosse efetivado (embora ele tenha chegado perto algumas vez). Essa frustração da infância é a causa da sua obsessão adulta, ele argumenta, falando ao leitor como se falasse a um juiz. E desse ponto de partida, ele segue descrevendo sua história, seu primeiro casamento na Rússia, seus muitos problemas envolvendo psiquiatras, sua vinda aos EUA, seu encontro com Charlotte Haze, cuja filha, Dolores (Lô, Lola, Dolly, Lolita…), é o alvo principal da obra e a obsessão de Humbert. O resto do livro trata das tentativas de Humbert realizar seu romance com Lolita, mas pra saber o que se passa você vai ter que ler o livro.

“Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.” (O início em inglês, para referência.)

A primeira coisa que você precisa saber antes de atacar a leitura de Lolita é que Humbert Humbert é aquilo que chamamos de narrador não confiável, mais que isso, ele é o rei dos narradores não confiáveis. Ao longo da história, não só ele vai fazer uso de toda a espécie de artifício literário para desviar a cabeça do leitor do crime que ele descreve no livro (pedofilia, pra começar), ele vai tentar nos convencer de que suas atitudes não só não são tão graves, como também poderiam até ser vistas como corretas. E para isso ele vai lançar todo o tipo de referência acadêmica obscura, linguagem rebuscada e até mesmo vai mentir diretamente para o leitor, fazendo que, até o fim da obra, este não saiba exatamente no que acreditar. Puta merda, que livro bom.

“Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo”.

Agora, que o leitor dessa resenha não se intimide quando falo de linguagem rebuscada. Ela chega a ficar complicada em certos momentos, mas é proposital. O uso de termos e referências desconhecidas ou estrangeiras (ele, como professor de poesia francesa, usa termos franceses o tempo todo – muitas vezes não traduzidos na edição da Abril, de 1974) é propositalmente confuso, um jeito de diminuir a percepção do leitor e ao mesmo tempo encantá-lo, já que os termos não diminuem o tom poético da narrativa. Esse é o ponto forte de Lolita, o ritmo, o lirismo, a beleza da linguagem tão cuidadosamente esculpida por Nabokov. Lolita não é considerado um dos melhores livros da literatura sem motivo.

“Sou suficientemente orgulhoso de saber alguma coisa para ter a modéstia de admitir que não sei tudo”.

É tão perfeito, que chega a ser frustrante. Essa foi a impressão que ele causou entre os críticos da época – quer dizer, depois de todo o choque causado pela pedofilia. Era sem precedentes um russo expatriado que escrevesse tão bem em segunda língua, sem pegar emprestado do estilo de nenhum outro autor escrevendo na época. Parafraseando uma entrevista de Orson Welles, todo o escritor americano pós-Hemingway tentou ser Hemingway, exceto Nabokov. Eu adiciono, toda uma geração de escritores pós-nabokovianos surgiu nos EUA: John Barth, Donald Barthelme, Thomas Pynchon, David Foster Wallace (todos estes, óbvio, não na temática, mas na linguagem expansiva e trabalhada ao extremo). O único termo para definir Nabokov é gênio, e eu quase decidi aposentar essa minha ideia de escrever ficção ao terminar de ler esse livro – só não aposentei porque sou muito cara de pau.

“Teve, acaso, uma precursora? Sim, teve-a, de fato. Na verdade, bem poderia não ter havido Lolita alguma, não houvesse eu amado, num certo verão, uma certa garotinha inicial. Num principado junto ao mar. Oh, quando? Cerca de tantos anos antes de Lolita ter nascido quantos contava eu naquele verão? Pode-se sempre esperar, de um criminoso, uma prosa de estilo extravagante”.

Uma coisa eu tenho que acrescentar de negativo. A minha edição é da Abril, lançada em 1974. A tradução a cargo de Brenno Silveira é excelente. Verdade que ele mantém diversos termos em inglês, julgando que o leitor os reconheceria, e não traduz nem em nota de rodapé os termos franceses – caso você não tenha nenhum conhecimento de inglês ou de francês e tenha essa edição para ler (uma edição comum em sebos e barata, por isso indico), leia com o google tradutor disponível. Além dessa inconsistência linguística, os erros de revisão estão por toda parte, principalmente letras trocadas, deixando claro que o revisor dormiu no trabalho. Não sei se isso é coisa da época, se os editores brasileiros eram mais relaxados na década de 70, mas fica feio um livro tão cuidadoso ao mesmo tempo tão errado. Lógico que isso não vai prejudicar a nota, mas tenham ciência disso caso peguem essa edição (que, repito, apesar dos erros, é recomendável pela precisão e fluidez). Se você sabe inglês, leia o original – é o que eu pretendo fazer no futuro próximo.

Nota: 5/5

Tabacos Dunhill

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Obrigado, tio Alfredo.

Todo fumante de cachimbo tem muito que agradecer a Alfred Dunhill, o velho cavalheiro inglês, especialista em tabacos e inventor, criador da marca Dunhill, hoje mais conhecida por seus artigos de luxo, mas que, nos velhos tempos, vendia os melhores tabacos da Inglaterra. Na época já havia o foco nos produtos de alta qualidade e acabamento, principalmente os cachimbos, mas não era tão ridículo quanto hoje. Basta vocês verem a imagem tão simpática do seu Alfred lá em cima, e o templo patético de ostentação abaixo.

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Digam o que for, acho ridículo. E, não bastasse, eles esconderam o tabaco. Uma vergonha.

Mas que têm de especial os tabacos da Dunhill? Antes de mais nada vou explicar para os não fumantes certo aspecto da “comunidade” cachimbeira. Essas marcas clássicas de tabaco são muito antigas. As receitas das misturas, mais ainda.  Sendo assim, quando analisamos misturas antigas de tabaco, é necessário encarar que ela não é como a original. Sim, vá a qualquer fórum de internet sobre cachimbo, a quantidade de senhores na casa dos 70 anos ruminando sobre como tudo era melhor antigamente é espantosa. E eles devem estar certos, não sei. Comecei a fumar cachimbo em 2015, perdi muita coisa. Nasci em 1991, porra, perdi quase tudo. Em que isso afeta a Dunhill? Afeta porque há décadas as misturas originais do Alfred deixaram de existir. Começando em 1981, a empresa Murray’s, parte da British American Tobacco, comprou os direitos de produção e distribuição das misturas da Dunhill. Aí houve a primeira grande mudança. Em meados de 2005, a Murray’s passou a produção  para a Orlik/Scandinavian Tobacco Group – que manteve algumas misturas, mas tirou de circulação tantas outras, foi um período mais instável (ou eu posso estar errado, cruzei com várias informações conflitantes na internet, é um mundo agitado esse dos cachimbos). Mas as misturas só voltaram a circulação em 2011, se não me engano, e até hoje eles anunciam relançamentos de misturas até então descontinuadas. Mesmo assim, tabaco é um troço vivo, uma planta. Nenhum lote é igual ao outro. O método de processamento hoje mudou, é mais industrializado (no caso da STG, outras empresas mantêm técnicas artesanais). Certos tabacos simplesmente não estão mais disponíveis (latakia síria, estou olhando pra você). Uma mistura enlatada em 2015 não é a mesma da enlatada em 1915. Além do mais, antigamente lojas de tabaco tinham “o especialista”, que fazia misturas personalizadas etc. Quase nada disso existe mais. Cabe ao fumante de cachimbo se contentar com o que existe hoje – …ou tentar mudar as coisas.

Mesmo assim, nomes iguais são usados apenas por familiaridade. Dunhill, como produtora de tabacos, há décadas não existe. Mas, principalmente entre os da velha guarda, é um nome que significa tabaco. E os nomes icônicos das misturas também guardam aquela nostalgia. Pronto, agora vocês sabem. Os nomes do passado são só isso, identidade. A receita exata já se perdeu há muito. Não é nem conveniente, nem possível, reviver essas receitas com exatidão.

O que é diferente entre os tabacos da Dunhill (STG) e os das outras marcas? Bom, eu diria que os da Dunhill são seguros. Eles, nesse aspecto, são perfeitos para os iniciantes. Os cortes são muito bem executados (o melhor ribbon cut que já vi é da Dunhill), as misturas são exatamente o que se espera da descrição. Raríssimas vezes um tabaco da Dunhill vai oferecer uma coisa e entregar outra. É uma experiência livre de surpresas – o que nem sempre é bom, mas é bom para os iniciantes. Até o grau de umidade nas latas costuma vir no ponto certo, facilitando a fumada, tornando tudo mais agradável. Para melhor compreensão do que cada mistura da Dunhill pode oferecer, vou fazer um resumo-avaliação das que já provei até hoje. Não é o catálogo inteiro, mas é a maior parte e pode servir de guia para quem está começando ou quem já fuma e tem curiosidade de conhecer algo da Dunhill ou quem não fuma e não quer fumar, mas tá aqui por achar engraçado uma pessoa de 25 anos falando de cachimbo em pleno 2016.

O método de avaliação que vou aplicar pretende medir sabor (a complexidade do sabor da mistura), força (qual a intensidade do sabor da mistura – sutil/médio/forte etc.), e teor da nicotina (se vai ou não te derrubar). A nota vai variar de 1 a 5. 1 sendo mais fraco, 5 sendo mais forte. Lembrando que a nota não mede qualidade. Uma nota 3 (média) pode ser excelente, justamente o que se espera para determinada mistura. E, se você for iniciante mesmo, sugiro que fique longe, por enquanto, das misturas nota 5 em nicotina.

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Royal Yatch não está na lista abaixo, já que ainda não fumei essa. Mas lendas a cercam dizendo que é a mistura mais forte em nicotina da Dunhill.

Early Morning Pipe: esse é considerado um bom tabaco para primeira vez. Eu acho, talvez, um pouco sutil demais. Uma mistura inglesa (virginias, orientais/turcos e latakia), os orientais dominam a fumada, mas são bem leves. Pessoalmente, quando fumei, achei quase sem gosto. É tabaco de qualidade, mas não é pra mim. Talvez me faltasse percepção na época pra captar as nuances. Talvez ele não tenha muito a oferecer. Muita gente gosta.

Força: 1  /  Sabor: 2,5  /  Nicotina: 1

Standard Mixture: irmão adulto do EMP. É uma mistura inglesa mais equilibrada, não necessariamente robusta, mas notável. Diria até que é mistura inglesa média padrão (vide nome). Perfeito feijão com arroz dos tabacos. Serve para qualquer hora de qualquer dia. Esse sim, eu consideraria o melhor para iniciantes,  para ensinar o que cada tabaco faz, embora eu ache meio aguado.

Força: 2,5  /  Sabor: 3  /  Nicotina: 2

Durbar: essa é a mistura balcânica da Dunhill. Por definição, os orientais conduzem e dominam a fumada. Considero mais saborosa essa mistura que as citadas até agora. Um pouco mais interessante, diferente. Tem um amargor típico dos tabacos orientais/turcos.

Força: 3  /  Sabor: 3,5  /  Nicotina: 3

London Mixture: aqui começa a “polêmica”. Há quem diga que esse tabaco é igual ao Standard, com um pouco mais de latakia. Eu discordo. Acho que é mais próximo do Durbar, com mais latakia. Ele tem o mesmo amargor, mas é tomado pelo enfumaçado da latakia de um jeito bem diferente do Standard e do Durbar. Gosto muito. Pretendo comprar outra lata desse um dia, dependendo da disponibilidade e do que mais estiver na minha lista.

Força: 3,5  /  Sabor: 3,5  /  Nicotina: 3

My Mixture 965: meu primeiro tabaco da Dunhill, se não me engano. Na época, lembro de ter me impressionado com a força. Hoje, ele é perfeito pra uma fumada de meio de tarde nos fins de semana, ou pra quando se quer encerrar um dia com algo forte, mas não muito, só o suficiente pra ser notado. Combina bem o defumado da latakia com o doce do black cavendish (folha de virginia curada, naturalmente açucarada). Bem equilibrada, excelente mistura inglesa para preparar o iniciante para uma futura incursão no mundo dos tabacos mais fortes.

Força: 3,5  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 3

Nightcap: e falando em tabaco forte, lendas cercam essa mistura. Bem forte em latakia, extremamente defumado, com uma leve picância causada pelo perique, essa é a mistura inglesa que vai te dizer se você ama latakia ou odeia. Muito se diz sobre seu grau de nicotina, mas acho que é lenda. Em resenhas de internet, não raro se vê alguém dizendo: “fumei nightcap uma vez; quando acordei, estava pelado em cima de uma estátua numa praça do centro da cidade.” Não é nem de perto tão forte. Não indico para os iniciantes, mas, se você já conhece tabaco de cachimbo , teve seu batismo na latakia, vá em frente sem medo. Se está migrando dos cigarros, provavelmente não vai te derrubar tampouco. É um dos melhores tabacos pra encerrar o dia. E de fato encerra. O sabor é suficientemente forte para tomar conta da sua boca e invadir quaisquer fumadas posteriores.*

Força: 5  /  Sabor: 5  /  Nicotina: 3,5

Dunhill Flake: virginia pura, e talvez, dentre os flakes de virginia, o mais equilibrado (para entender melhor a composição e outros termos, vá no meu primeiro post sobre cachimbo e tabaco, lá faço um apanhado geral para os não-iniciados). No espectro da variedade de sabores da virginia, desde a grama recém-cortada até terra, Dunhill Flake oferece um pouco de cada. Nem leve, nem forte. Enfim, tem gosto de tabaco. Pra mim, esse é o gosto que define o que é “tabaco”. Doce na medida certa, com um toque de mel, esse tabaco é uma maravilha num dia quente. Tende a morder minha língua, no entanto, não importa quão devagar eu fume.

Força: 3  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 3

Elizabethan Mixture: como eu gosto desse vaper (virginia + perique). Colocaria facilmente no meu top 5 e está entre os tabacos que prefiro ter em estoque, se possível. Tem um sabor de damasco, pão de centeio, figo, mais um toque de pimenta que completa a coisa toda. É uma mistura fantástica, mas, devo admitir, não para os fracos de coração. Devo estar desenvolvendo uma tolerância foda pra nicotina, porque hoje ela já não me afeta tanto, mas no começo era uma relação de amor e ódio entre mim e dona Elizabethan. Hoje é só amor mesmo. Só requer técnica, porque ele queima rápido e vai maltratar os descuidados.

Força: 3  /  Sabor: 4  /  Nicotina: 4

Não mencionei aroma porque não sou capaz de julgar. Precisaria de alguém vivendo comigo pra me dizer se o cheiro é ou não suportável, mas, em geral, evito fumar quando tenho gente em casa. Como gosto do aroma de tabaco queimando, minha opinião não deve ser levada em conta por não-fumantes. É diferente do cigarro. Parece mais… puro. É difícil descrever.

Mas não tenho só elogios. Uma coisa nessa vida de álcoois e tabacos que aprendi foi: quanto mais perfeito, mais industrializado. Com o passar das latas e conforme se vai conhecendo outras marcas, a Dunhill acaba ficando sem personalidade. Claro, sempre vai haver espaço na minha rotação para as misturas deles, pelo menos para mim. A “perfeição” deles, por acaso, funciona. Só que, por algum motivo, sinto mais atração por aqueles cortes que parecem feitos a mão. Misturas que foram desenvolvidas para agradar ao especialista, não ao público. Enfim, detalhes, detalhes. Nem sempre Dunhill foi sinônimo de grande indústria, talvez seja apenas consequências dos tempos modernos. Mas estou devaneando, isso é assunto pra outro texto.

*Então tive oportunidade de fumar uma lata de Nightcap envelhecida 2 anos. Mudou completamente. Tabaco é uma coisa viva mesmo. A latakia, como é normal com o tempo, perdeu a intensidade, arredondou, ficou mais sutil. Os orientais e o perique dominaram a fumada. O perique principalmente, apimentou e bem a mistura. E a nicotina, puta que o pariu, fazia tempo que uma fumada não me derrubava desse jeito – um belo dum coice. Lá pelo fim a latakia deu as caras, somou aquele toque de couro e fumaça ao sabor. São esses breves prazeres sensoriais que fazem esse mal-hábito valer a pena.

Sobre a ética no restaurante self-service

Originalmente postado em 28 de novembro de 2012: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2012/11/sobre-etica-no-restaurante-self-service.html

Moro sozinho desde o meio de meus dezessete anos, quando comecei a faculdade em uma cidade distante de minha terra natal. Como todos aqueles que já passaram por essa nobre experiência, tive algumas dificuldades em meus primeiros anos. Nunca tive qualquer habilidade para trabalhos manuais ou domésticos, não tenho coordenação motora, senso de direção ou equilíbrio  se não bastasse, tampouco sei cozinhar. Eu sozinho em um quarto-e-sala no meio de uma terra desconhecida seria a receita para o desastre. Mas eu sobrevivi. Trabalhei pra caralho pra conseguir comer em restaurantes por quilo (self-service) da pior categoria e lavar roupa em lavanderias amigáveis com universitários (que oferecem desconto). Com isso, devo dizer que não foi sofrimento algum – foi até bem confortável. Tentei aprender o básico da vida domesticada, mas não é pra mim.

A escola em que fiz ensino médio era consciente da possibilidade de seus alunos saírem da cidade após a formatura, por isso ofereceu, “gratuitamente” – inclusas na mensalidade o aluno frequentando ou não, porque ninguém é Madre Teresa -, aulas de culinária, adaptadas de modo que até o maior dos imbecis seria capaz de aprender qualquer coisa. Esse era justamente o problema, a maior parte dos alunos eram imbecis (incluo-me nessa). Some isso ao fato da aula ser “grátis” – convenhamos, é difícil levar algo que não te fere o bolso a sério -, poucos saíram de lá com qualquer conhecimento. Os alunos que já sabiam cozinhar usavam aqueles que não sabiam para fazer o trabalho desagradável, cortar cebolas, descascar batatas, picar cenoura, alho e por aí vai – era o que eu fazia; não era minha vontade, mas os olhos verdes da moça que me pedia para fazer esse serviço me hipnotizavam. Então, na hora de cozinhar de verdade, algum imbecil, que podia bem ser eu mesmo, gritava: – Truco! – e nos reuníamos à mesa até que servissem o prato magicamente pronto. Foi uma bela perda de tempo, mas a culpa foi toda minha.

Só que esse texto não é sobre culinária e sim sobre restaurantes. Em Itajaí, devo dizer que me tornei uma espécie de pioneiro do paladar. Um restaurateur da classe operária, por assim dizer. Almocei em basicamente todos os restaurantes self-service da cidade, conheci os padrões, as combinações diárias, variações semanais, preço por quilo, acompanhei as mudanças, frequentei inaugurações, fiz indicações e resenhas verbais, descobri os melhores horários para evitar filas e como conseguir uma mesa independente da situação, além de realizar breves análises sociológicas sobre o tipo de ser humano que frequenta esses ambientes.  Isso me permitiu desenvolver uma espécie de código de ética. Não etiqueta, etiqueta é para senhoras frescas que dedicam a vida a segregar garfos e facas enquanto ingerem uma refeição do tamanho do meu punho subdividida em cinco pratos. Não é sobre isso que esse texto trata, mas sim sobre normas de comportamento social, não escritas em legislação, mas que deveriam sujeitar à punição o sujeito que as quebra.

Peço que o leitor visualize uma fila de quilo ao meio-dia e quinze. Sim, meio-dia e quinze, não meio-dia em ponto. Meio-dia em ponto é quando os funcionários dos grandes prédios comerciais estão se matando por um espaço no elevador (que por sua vez será o tema de minha próxima história), os quilos ainda não estão lotados nesse horário (lembrando que esse guia somente é válido para Itajaí e cidades de tamanho igual ou menores). Os quinze minutos são um detalhe essencial, pois é quando as pessoas começam a chegar em manadas aos restaurantes; quando a fila começa a sair do restaurante e tomar conta das ruas. É nesse tipo de situação que se baseiam as primeiras regras:

Regra 1: Nunca vá até um conhecido bater papo só para furar a fila.
Isso acontece com uma frequência assustadora. Um cretino decide conversar com aquele amigo do colegial que ele não vê faz dez anos. Por acaso, o tal amigo está quase alcançando a pilha de pratos em frente à comida. Ele não quer falar com o amigo, nem se lembra dele. O único objetivo do cretino é entrar na frente de todos. Não se intimide de constranger uma pessoa assim, mesmo que para isso seja necessário incitar um linchamento. Gente assim merece a cadeira elétrica.
Regra 2: É proibido guardar lugar. Se uma pessoa não está com você na fila, ela não está na fila.
Regra 3: Mantenha uma distância razoável da pessoa em sua frente, mas não deixe que uma distância maior que um braço se abra. Use o bom senso, do contrário pode-se considerar que você abandonou a fila.
Regra 4: Sempre pegue o prato do topo da pilha.

Essas são as regras da fila. Deve ter mais coisa, mas isso pode ser revisado um dia. Vamos avançar para o principal. Você não está mais na fila, tem um prato e talheres em mãos. Chegou a hora de se servir.

Regra 5: Não pense. Você sabe o que é a comida, pegue-a ou deixe-a. Tem dezenas de pessoas famintas atrás de você, respeite isso. Se você não respeita as pessoas, respeite a fome. A comida não vai falar com você, nem muito menos vir andando ao seu prato, se quiser decidir vá ao restaurante à la carte e pague por esse privilégio.
Regra 6: Não devolva a comida. Tocou seu prato, é seu, ponto final.
Regra 7: Não olhe pra trás. Se você deixou passar alguma comida específica e uns passos a frente mudou de ideia – tarde demais. Siga em frente com a vida ou volte para o fim da fila.

Regra 8: A comida disponível não é só sua, ela tem que alimentar toda a fila até a reposição. Limite seus instintos animais. Não carregue consigo todos os doze filés de frango. Em uma utopia, a quantidade de comida seria regulada.

Na hora de pesar e escolher a bebida:

Regra 9: São três etapas simples – pôr o prato na balança, pesar, retirar o prato da balança. Não é tão difícil.
Regra 10: Pense na bebida enquanto estiver na fila, depois disso, siga a regra 5.

Regra 11: Em todas as etapas, mantenha movimento. Essa é a chave para todas as filas – se é possível seguir, siga.

Essa parte é delicada. Escolher a mesa.

Regra 12: Nenhuma das mesas tem um prêmio escondido debaixo da cadeira. Não tem porque passar horas de pé pensando, se você vir uma mesa vazia, pegue-a.
Regra 13: Não deixe sua carteira, capacete de moto, celular ou qualquer outro pertence em uma mesa, enquanto estiver na fila. Em uma utopia, esses itens seriam considerados abandonados e passariam a pertencer àquele que pegasse a mesa primeiro.
Regra 14: Você está sozinho ou com um acompanhante, fique longe das mesas para quatro pessoas, exceto que essas sejam as únicas disponíveis.
Regra 15: As cadeiras vazias de sua mesa podem e devem ser ocupadas por qualquer um, caso todas as mesas estiverem cheias.
Regra 16: Se o restaurante estiver cheio e você tiver que se sentar com um desconhecido, peça permissão.
Regra 17: Quando uma pessoa pedir permissão para se sentar com você e o restaurante estiver cheio – aceite. Sim, toda essa comunicação é só formalidade, mas é o que nos mantém civilizados.
Regra 18: Nunca se sente com um desconhecido se ainda houver uma mesa vazia.
Regra 19: O primeiro a pegar a mesa é seu dono até que este termine sua refeição.
Regra 20: Evite conversas ou mesmo contato visual com o dono da mesa.
Regra 21: Ao dono da mesa é reservado o direito de ignorar qualquer um que a ele dirija a palavra.

Regra 22: Se seu prato e sua bebida estão vazios. Saia. Vá para casa, vá para o trabalho, vá para a rua, vá para a puta que te pariu, mas desocupe a mesa.

Acho que é o suficiente. Cobre os principais momentos, da fila até o fim da refeição. O código não é fixo e, a todo o momento, algo pode ser adicionado a ele. Retirado, somente se seguido de devida argumentação. Sigam as regras e até a próxima.

Poesia 12

é ou não é?

espanto a mosca que pousa em meu braço com um tapa e penso ela é real

o sol que me bate e me queima e bloqueia minha visão é real

meu apartamento e o chão que piso

tudo muito real

a mosca tenta alcançar a luz do sol e bate no vidro

uma vez duas três quatro vezes cada vez mais rápido e cai

por que estaria o nada em meu caminho? diz seu zumbido final

para ela o vidro não era real

o que significa tudo isso?

se somos montes de átomos interpretados

real não existe

é tudo imagem cerebral e representação

tudo é o nada e nada é todas as coisas

eu sou todas as coisas e nada

meu vizinho sou eu e nada

meu apartamento sou eu e nada

somos tudo o mesmo todo e nada

esse real doido e inventado que a todos engana

dando impressão de sentido

é o todo e o nada

O Estrangeiro – o livro de Albert Camus (L’étranger, 1942) e o filme de Luchino Visconti (Lo straniero, 1967)

Postado originalmente em 19 de junho de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/06/o-estrangeiro-o-livro-de-albert-camus-e.html

O Estrangeiro, de 1942, é um dos meus livros favoritos. Li faz alguns anos, antes da criação do blog, e por isso nunca escrevi uma resenha ou falei qualquer coisa sobre ele. Principalmente porque é um livro de conceitos complexos. O enredo é o que menos importa, são as teorias filosóficas que Albert Camus insere no contexto desse enredo que realmente interessam. Não significa que a história seja fraca. Não é, e a prosa febril e precisa de Camus insere o leitor por completo na mente conturbada de Mersault. Quando fiquei sabendo que o grande diretor italiano, Luchino Visconti, havia adaptado esse livro em filme em 1967, precisei ver o resultado. Até porque ele é estrelado por Marcelo Mastroianni (lenda do cinema italiano devido aos seus trabalhos com Fellini) e, talvez minha atriz favorita, já no Hall da Fama de menções do Delirium Scribens, pela qual eu carrego uma tara de longa data, Anna Karina.

Primeiro uma breve sinopse. A mãe de Mersault (Marcelo Mastroianni), um pied-noir (literalmente, pé preto, francês que vive na Argélia dos tempos de colônia), morreu. Ela já vivia na casa de repouso há alguns anos e cada vez mais eles se afastavam. Mersault não tinha condições de mantê-la em sua casa com todos os cuidados que sua idade exigia. Além do mais, ela também se sentia muito solitária em casa o tempo todo. A casa de repouso era a decisão acertada para os dois, ele acreditava. Justificativas insuficientes para os supervisores da casa, que desde início se mostravam suspeitos de Mersault, por não chorar e fumar perante o caixão.

“Antes de deixar o escritório para almoçar, lavei as mãos. Ao meio-dia, isso me dá prazer. À tarde, nem tanto, porque a toalha que usamos está toda molhada: serviu durante todo o dia. Certa vez, fiz uma observação a esse respeito ao patrão. Respondeu-me que achava isto lamentável, mas que se tratava, ainda assim, de um detalhe sem importância.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

 Nem vinte e quatro horas depois do enterro, ele já reencontra uma antiga companheira de trabalho, Marie (Anna Karina) e ele logo a apresenta a sua baguete. Ele tenta ajudar um amigo que se meteu em encrenca após agredir a esposa, o que os coloca na mira de uns árabes. Merda acontece, e agora você vai ler o livro ou ver o filme. Sugiro que leia o livro, logo explico meus motivos.

Comecemos pelos conceitos, já que eles são pelo menos oitenta porcento do livro. A principal característica da filosofia de Camus é que a existência humana é um absurdo. Que, de fato, após a morte de Deus (que ele assume morto, mas na verdade quer dizer que, tanto vivo quanto morto, não faz diferença), a vida não tem um sentido objetivo. As coisas apenas são e, portanto, decisões não importam. Mersault, sendo assim, é indiferente ao longo do filme. Seu chefe lhe oferece uma oportunidade de emprego em Paris, ele diz que não é importante. Sua namorada pergunta se ele vai casar com ela, ele diz que pode ser, mas não importa. Sua mãe morre, ele não consegue se abalar emocionalmente, afinal ninguém vive para sempre mesmo.

Quando nos vestimos na praia, Marie olhava-me com olhos brilhantes. Beijei-a. A partir desse momento, não falamos mais. Apertei-a contra mim, e tivemos pressa de encontrar um ônibus, de voltar, de ir para a minha casa e de nos atirarmos na minha cama. Tinha deixado a janela aberta, e era bom sentir a noite de verão escorrer por nossos corpos bronzeados.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

A sociedade, por outro lado, não funciona dessa maneira. Independentemente das coisas fazerem sentido ou não, seres humanos têm dificuldade em encarar o absurdo, inventando razões que justifiquem suas próprias existências (seja Deus, fama, poder, dinheiro, entretenimento etc.). Quando um homem como Mersault aparece, vê as coisas como elas são e decide viver cara a cara com o absurdo, ele se torna um estrangeiro. A palavra não vem no seu sentido pátrio, mas social. Claramente, Mersault sofre as consequências de uma vida de estrangeiro. O título também remete ao estrangeiro que Mersault mata, mas acredito que não seja o foco.

Deixando claro que o absurdo não significa que a vida não vale a pena ser vivida. Isso não é bem discutido em O Estrangeiro, e sim no ensaio O Mito de Sísifo, no qual Camus já começa dizendo que o maior problema filosófico da humanidade é o suicídio. Mais tarde é feita uma analogia entre a punição de Sísifo e a existência humana, sendo a rebelião a melhor resposta – viver de qualquer forma, e, principalmente, viver em liberdade. Mais ou menos isso, não sou acadêmico de filosofia, nem especialista em Camus. Se você realmente tem interesse nesses conceitos, sugiro que leia os livros e busque alguns documentários interessantes no Youtube, eles podem te explicar bem melhor que eu.

“Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.” (Trecho de O Mito de Sísifo.)

Essa é a principal qualidade do livro e o que faz com que valha a pena lê-lo. A capacidade de Camus de inserir na cabeça do leitor todos esses conceitos e questionamentos em uma prosa literária de altíssima qualidade, leve e clara. Por ser considerado um clássico, só o nome do livro pode intimidar alguns leitores, mas eu digo que isso é bobagem, qualquer pessoa com alguma bagagem literária pode ler e entender, não só O Estrangeiro, como a maior parte da obra de Camus.

Agora ao filme. Existem várias formas de se adaptar um livro para o cinema. Uma delas é quando um diretor realmente gosta de um livro e tenta ser fiel a ele, mas devido às diferenças de formato entre as artes, é obrigado a fazer algumas edições, arrancar cenas, acrescentar outras, para que tudo faça sentido em apenas noventa ou cento e vinte minutos; essa é a mais popular. A que eu mais gosto é quando um diretor pega uma obra e, ao invés de fazê-la em filme, faz uma obra diferente, interpretando o livro e acrescentando a voz própria do diretor. Nesse caso, o filme vira uma história sobre a relação de um leitor com o livro adaptado, o que é sempre interessante. São raros esses casos, Godard fez isso no começo da carreira, por exemplo. Então vem o mais arriscado, o caso desse filme, que tenta encenar o livro, cena por cena, em filme. O risco fica na extensão que o filme pode tomar (O Estrangeiro não teve esse problema, já que o livro tem oitenta e poucas páginas – edição de bolso) e na possibilidade de se questionar qual a necessidade do filme, afinal, se ele não traz nada de novo, por que fazer? Existe mais um caso, mas esse é desprezível e, infelizmente, muito comum. São os filmes sobre livros de alta popularidade, feitos por grandes produtoras, com orçamentos milionários. Filmes em que não se há interesse na obra adaptada, apenas interesse no lucro que ele pode trazer. Nem vale a pena falar desses casos.

“Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar. De certo modo, isto era uma vantagem.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

O Estrangeiro, de Luchino Visconti, tem apenas um momento diferente do livro, o começo. A primeira cena busca puxar o interesse do espectador mostrando Mersault sendo levado até a delegacia, algemado – uma cena da segunda metade do livro. Só depois disso é que acompanhamos o enterro e todas as outras cenas. Os diálogos são muito parecidos com o livro e, da mesma maneira, quase ausentes. Em algumas cenas, até existe narração igual a do livro. Isso fez que me questionasse da necessidade daquilo. Eu já havia lido o livro afinal. Vê-lo com Anna Karina ajudava, mas não fazia do filme “necessário”, por assim dizer.

Certamente, é bem atuado, o que já vale alguma atenção. Um problema que eu vi foi que o filme é restaurado. Supostamente, a família Camus foi contrária ao filme, dizendo que não interpretava bem a obra de origem (não entendi porque, visto que são exatamente iguais, mas…), o que dificultou a sobrevivência do filme com o passar do tempo. Isso prejudicou muito a qualidade de som, o que é muito ruim, considerando que a trilha sonora original tem momentos risíveis de inadequação, transformando uma obra atmosférica em um suspense barato.

“Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo.” (Trecho de O Estrangeiro, ed. BestBolso.)

Não ajuda também que Anna Karina tenha, provavelmente, sido dublada. Fiz uma pesquisa para ver se a informação procedia, não encontrei nada. Na verdade, todos os filmes italianos da época são dublados, mas pelos próprios atores. A impressão que tive no caso da Anna Karina foi que não era a voz dela – sim, reconheço facilmente a voz dela. Encontrei que Anna, dinamarquesa de nascença, mas que passou boa parte da vida na França, é também fluente em italiano, o que vai contra o meu argumento. O maior problema é que a voz dela nesse filme está completamente fora de entonação (o tom e a expressão facial dela não faziam sentido), e ela falava muito rápido, quase de maneira apressada. Talvez tenha sido durante a restauração. De qualquer forma, é uma pena. A voz dela distrai muito durante o filme, e não é uma distração positiva.

Em geral, o trabalho é muito bem filmado. A atuação compensa os problemas de percurso e danos causados pela idade do filme, e a história em si é muito interessante e fielmente recontada. Indico àqueles que não leram o livro, porém a esses indico mais a leitura. Se você leu o livro e, assim como eu, gosta dele e de cinema clássico italiano, vale a pena dar uma olhada. Não se trata bem de uma pérola, mas não é nenhum desastre. O livro, contudo, é de fato um clássico insubstituível, tanto da literatura, quanto da filosofia.

Notas:
Livro – 5/5
Filme – 3,5/5

Poesia 11

pintura viva através do vidro, em quatro haicai

I

minha janela,

quadro de inspiração

maior e único.

II

água celeste,

molha a cidade fria e

os rostos vazios.

III

Ao longe viaja,

besta de aço nas ondas.

adeus, ela uiva.

IV

gotas lutando

para não escorregar

da janela e cair