Dois filmes do Jacques Tati

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Vindo direto da minha sempre crescente lista de diretores que preciso conhecer, esse fim de semana vi dois filmes do Jacques Tati: Mon Oncle (Meu Tio, 1958) e Playtime (Playtime – Tempo de Diversão, 1967), os mais aclamados do diretor francês que foi, logo no começo da carreira, comparado à Chaplin. Ao contrário de Chaplin, Tati dirigiu poucos filmes, apenas 5 longas em um período de 22 anos, mas estão entre os filmes mais cuidadosos e bem feitos da história do cinema.

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Falemos dos filmes na ordem em que os assisti, que apenas por acaso foi cronológica (pulando o primeiro filme – As férias de Sr. Hulot, que verei logo). Mon Oncle é sobre o sobrinho de Monsieur Hulot (interpretado pelo próprio Tati, que escreveu e dirigiu todos os filmes do personagem, e, reza a lenda, ele tinha uma certa obsessão por controle, que transparece na perfeição geral do filme), mais exatamente a relação entre o menino e seu tio. Ou pelo menos é o que a sinopse diz. O filme não trata tanto desse assunto, na verdade os dois aparecem juntos em poucas cenas.

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A primeira coisa que o não-iniciado em Tati precisa saber é que seus filmes não focam em narrativa. Existe história, mas ela é bastante rasa, e o que prende o espectador ao filme é o movimento, a, literal, magia do cinema. Meu Tio, por exemplo, apesar de ser sobre a relação de Hulot com seu sobrinho, foca em diversas outras coisas que obscurecem o tema título. O menino, para começar, vive numa casa altamente tecnológica, automatizada, e seus pais são rígidos e até que ausentes. Hulot é a válvula de escape do menino. Quando ele está com o tio, pode correr pelas ruas, brincar com os amigos, enfim, todas essas macacadas urbanas juvenis que os pais dele reprimem. O tio em si é diminuído por tudo que ocorre no filme não relacionado a ele.

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O que é realmente interessante é o retrato surpreendentemente atual que o filme faz sobre a relação do ser humano com o progresso. O pai do menino é diretor de uma empresa de tecnologia e sua casa é feita com o que há de mais avançado, beirando à ficção científica – visto que se trata de um filme de 1959. Mas muito desse avanço serve apenas para impressionar os vizinhos, sendo até ineficiente em muitos aspectos. Apesar de hoje a tecnologia do filme poder ser vista como estúpida, o comentário sobre os seus efeitos se mantém contemporâneo. Para começar, a separação que ela traz entre o ser humano e os que o cercam. Fica mais explícito quando o filme mostra a diferença de classes. As casas tecnológicas ficam nos bairros ricos, enquanto as casas dos bairros mais pobres, onde vive Hulot, são antiquadas, no entanto, a população dos bairros mais pobres é mais unida, enquanto as famílias ricas vivem de aparência. Um comentário batido hoje, mas bastante premonitório para 1959. Aí que vive a força do filme, não no tio e seu sobrinho.

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Já Playtime joga fora as relações familiares e vai direto para as tecnologias e vidas altamente urbanas. No fim de Meu Tio, Hulot é mandado à Paris – manobra do pai do menino para afastá-lo de Hulot, que ele vê como uma má influência -, então é como uma sequência direta, apesar dos filmes não serem relacionados. Aqui Tati nos mostra a pulsação urbana no máximo de sua força, mas seu personagem, Hulot, segue à margem, levando o humor nos seus gestos bizarros como um sucessor de Chaplin (com muito de Keaton) ou um predecessor de Bean – sinto falta desse tipo de humor, mudo e físico, mas acho que não há espaço para ele nos tempos de hoje.  Vale reviver o passado.

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Em Playtime, Tati joga o enredo fora por completo e foca no que ele faz melhor, ritmo e humor, enquanto os diálogos são fragmentos do que se passa no fundo, formando o que pode ser chamado de história, mas não com muita profundidade. Não saberia fazer uma sinopse. O máximo que posso dizer é que ele vai à matriz da empresa se apresentar para o novo trabalho e confusões acontecem.

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Como disse, não vá ver um filme de Tati pensando em história, vá pela graça das suas ações e pela magia do cinema. Eu poderia até dar uma de esnobe aqui e dizer que ele é comédia para cineastas (não sou cineasta), porque muito do humor está na construção, no jogo música/ação, nos cortes, nos detalhes. Claro que não só cineastas repararão nisso, mas muito do seu aproveitamento vai depender do quanto você repara nos detalhes dos filmes que você assiste. Tendo dito isso, tanto Mon Oncle quanto Playtime, e arrisco estender esses comentários finais aos outros dois filmes do Hulot que ainda não vi, são um prazer de assistir. São filmes leves, em nada superficiais, sutis, que, não causando grandes gargalhadas, vão te fazer sorrir num fim de semana após longos dias de trabalho.

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