Revolutionary Road (Foi Apenas um Sonho) – Livro [Richard Yates, 1961] x Filme [Sam Mendes, 2008]

Postado originalmente em 18 de março de 2013: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2013/03/revolutionary-road-foi-apenas-um-sonho.html

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Vô Yates sabia das coisas: ninguém pode ser feliz.

Já faz muito tempo que eu tenho vontade de fazer esse post e falar sobre esse livro, mas, como o filme foi tão bem falado, achei que eu devia fazer uma espécie de comparação entre os dois, ao invés de falar sobre cada um individualmente. Lembro desse filme da época em que foi lançado. Minha reação foi – “casal do Titanic? ‘Foi Apenas um Sonho’? Nem fodendo que eu assisto essa merda”. Muitos anos depois, em uma conversa em um sebo, descubro que esse filme era uma adaptação de um livro perdido da literatura americana, escrito por Richard Yates, que leva o nome de Revolutionary Road (Rua/Estrada da Revolução). Eu li o livro, eu vi o filme, e agora eu vou falar sobre cada uma dessas experiências.

Não existem grandes diferenças de roteiro, então vou matar dois coelhos numa cajadada. A história é sobre o jovem casal, Frank e April Wheeler, vivendo uma crise geral: de casamento, profissional, de vida – eles tão na merda, essa é a melhor forma de resumir. Conforme o enredo avança, são exploradas formas que o casal inventa para sair da merda e como seus vizinhos e amigos reagiam às invenções. É uma tragédia em meio ao “American Dream” da década de 50, começo de 60.

Nunca vi um filme tão fiel a sua adaptação. Não só fiel – já que Norwegian Wood também é fiel sem atingir o objetivo da adaptação -, mas que conseguiu resumir tudo de essencial do livro em apenas duas horas, assim como captar toda a emoção da obra original a partir das atuações. As obras são tão similares, que é difícil falar algo sobre uma que não sirva para a outra, por isso vou deixar uma coisa bem clara antes de seguir em frente: o livro é impecável. Pronto, é só isso. Agora vou falar sobre o filme, já que esse pode levantar algumas suspeitas quanto a sua qualidade.

Não gostei de Titanic. Nem um pouco. Não por causa daquela velha história de que “ah, é um filme de romance e blá blá e eu sou macho pra caralho e só assisto Rambo e blá”, nada disso. É que o filme é ruim mesmo e eu até explicaria, se esse fosse meu objetivo com esse texto, como não é, foda-se, só queria que todos soubessem que Titanic é uma merda de filme. Também só fui confiar na credibilidade do DiCaprio como ator agora com Django Livre. Por isso, um filme com o casal de Titanic como protagonistas não entraria na minha lista de prioridades cinematográficas. Ora, meus instintos me enganaram, os dois estão perfeitos nesse filme. Eles conseguiram carregar com perfeição, toda a emotividade que o livro exige. E, considerando como o enredo é trágico, ver o casal de Titanic sofrer desse jeito só deixou tudo mais engraçado pra mim. Então, foi unir o útil, o agradável e o necessário em uma sequência de imagens de miséria e erros.

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A verdade é que, por mais que eu queira achar algum defeito, não tenho. O livro é perfeito, o filme é tão bom quanto, só acho uma pena que o título nacional seja tão ruim a ponto de afastar o público em geral, quer dizer, não lembro desse filme ter sido um sucesso na época. Sei que ele foi muito bem falado nos EUA, e foi responsável pelo retorno dos livros do Richard Yates, mas no Brasil, não acho que tenha dado muito certo – a culpa é do estagiário filho da puta que sugeriu esse título como o nacional. A única coisa que o filme tem de inferior é a falta do senso de humor. Richard Yates faz uso de um humor sádico durante sua narração que simplesmente se perdeu no filme. Mas é difícil dizer que isso seja ruim, já que seria realmente difícil passar esse humor tão sutil para o cinema; talvez até, se isso fosse feito, o filme não saísse tão bom e desse a impressão de ser uma sátira de si mesmo. Além do mais, uma adaptação exatamente igual a sua fonte é desnecessária.

A importância dessa obra, e aqui vou falar mais do livro já que é o que ficou na minha memória com o passar do tempo, é o desconforto que ela causa. Costumo achar que muito do ridículo dos filmes de terror é devido ao “fantástico” por trás das coisas que causam medo. Como se para assustar um ser humano fosse necessário sair do meio natural. Mas, na verdade, muito do que há de mais assustador é inevitável. Uma doença, um imprevisto que força uma vida a um destino triste, momentos que causam a simples sensação de impotência e que se recusam a passar porque são apenas a realidade. É nisso que a literatura de Richard Yates se baseia, no que há de mais assustador dentro do que, essencialmente, é a vida comum, em família, da classe trabalhadora.

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Exatamente, Michael Shannon, é disso que eu tô falando. (John Givings, a propósito, grande personagem, e difícil de interpretar. Sr. Shannon fez um bom trabalho.)

No ano de seu lançamento, o tom irônico da narração e o sentimento de tragédia iminente do enredo fizeram público e crítica acreditar que se tratava de um livro protestando o American Dream, o formato tradicional da família e, devido a uma citação tirada de contexto (carta à editora, sobre o manuscrito, escrita por Alfred Kazin), contra o casamento. Tudo contra as reais intenções do autor que, embora acreditasse que a população americana estivesse mais e mais ovina na década de 50, não era exclusividade dos subúrbios/classe média. Em parte, essa recusa em satisfazer a necessidade de revolução da vanguarda, foi o que fez ele ser esquecido e se ver, no momento da sua morte em 1992, sem nenhum livro em impressão. Isso mudou graças ao filme e, em parte, isso faz com que eu admire a adaptação ainda mais. Sempre dou risada quando ouço que adaptações podem levantar o interesse pela obra original, mas aqui aconteceu. Os livros de Yates voltar às editoras, chegaram ao Brasil (obrigado, Alfaguara, obrigado; agora publiquem os outros livros), o autor ganhou todo um novo público, o que constatou a durabilidade de suas histórias.

Em Revolutionary Road temos apenas um casal jovem tentando sobreviver e cometendo erros. E é tão humano que dificilmente não nos veremos em um ou mais dos personagens ou momentos descritos. Mas não é o tipo de identificação barata que vemos em crônicas brochas sobre comportamento, crônicas de horóscopo, espalhada como um câncer em revistas, livros e blogues. Aqui temos a identificação desagradável, o espelho da alma, daquilo que sentimos e pensamos, mas fazemos questão de esconder. Richard Yates, seus livros, são densos – não confundir com herméticos, a linguagem é bastante simples -, mas necessários.

Nota: 5/5 – para as duas obras – ok, em 2016, talvez o filme leve 4, não me marcou tanto quanto acreditei que marcaria. Mas indico para quem quer conhecer o autor, e prefere passar só duas horas em frente a uma tela que dedicar dias para ler um livro. Se gostar do filme, compre o livro imediatamente.

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Poesia 9 e 10

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dancing in the streets

algumas cervejas depois

em um encontro de motoqueiros,

voltamos para casa feito corpo e sombra

pelas despidas calçadas de uma noite de quinta.

trocamos experiências e vontades drogadas

suas memórias de ecstasy e meus testes enteogênicos

e agendamos viagens imaginárias e

recitamos nostalgias premonitórias sobre

como ela vai dançar embriagada pelos bares de Dublin

e ela vai provar haxixe em Amsterdam e

ela vai ver os cantos pobres do México.

e, como eu queria esse futuro,

vamos, eu disse, pegar uma passagem só de ida,

eu escrevo e recito poemas malfeitos,

você canta e traduz a letra em libras, ao mesmo tempo,

à multidão passante de nativos confusos

para ganharmos alguns trocados.

viveremos em pousadas baratas

trabalhando em troca de comida e teto.

mochileiros fazem muito mais com muito menos, eu disse.

que loucura, ela disse.

uma mulher do outro lado da rua nos pede um isqueiro,

não temos. ela relampeja uma ofensa.

eu amo essas coisas loucas que acontecem

quando saímos da rotina, ela disse.

***

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uma questão de prática

com esforço de vista e

uns anos mais de vida

quem sabe você aprenda

a ver beleza na ruína.

Chung Hing sam lam (Amores Expressos) – Wong Kar-Wai [1994]

Se eu fizesse uma lista dos meus diretores favoritos… bom, seria uma lista longa pra cacete, mas que eu me esforçasse para resumir tudo que eu gosto no cinema, em uma lista de 5 diretores, ela seria composta de: Godard, Tarantino, Woody Allen, Bergman e Wong Kar-Wai (lista de 2013; hoje, facilmente trocaria Tarantino por Jim Jarmusch). Essa não é a minha lista dos melhores, mas daqueles que me afetam de forma pessoal. E é do Wong Kar-Wai o filme que eu resenharei hoje – para vocês que estão contando, é o terceiro dele aqui (novamente, isso é uma postagem do meu blog anterior, as outras 2 resenhas não estão aqui ainda, mas logo estarão; eis o problema de ser muito autorreferente).
A história é dividida em duas partes, interligadas, mas não relacionadas, girando em torno da vida de dois policiais em Hong Kong e suas vidas amorosas. Policial 223 (interpretado por Takeshi Kaneshiro) – isso não é piada, esse é nome do personagem nos créditos – perdeu a namorada faz quase um mês. 1º de abril, data de seu aniversário, o mês se completa. Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda sofre pela perda e faz loucuras como, comer dezenas de latas estragadas ou prestes a estragar de abacaxi em conserva – assistir ao filme não vai te ajudar a compreender esse ato. Até que, num bar, ele cruza com uma misteriosa traficante – nos créditos ela é “mulher da peruca loura”, interpretada pela Brigitte Lin -, que acabou de ter um dia péssimo.

Eu sei o que você está pensando: – ela deve ser aeromoça. – Acertou!

Então passamos a acompanhar o policial 663 (Tony Leung Chiu Wai), que parecia viver bem com a aeromoça (interpretada pela miss Hong Kong, Valerie Chow) – esse é um filme minimalista com nomes. Até que ela termina com ele. Faye (Faye Wong), uma adorável atendente de lanchonete – com traços lagomórficos, mas essa é minha opinião -, que ama a música California Dreamin’, do The Mamas & The Papas, passa a se interessar pelo policial, mas ele a acha muito masculina para o gosto dele, no início. Ela continua insistindo – de maneiras mais e mais bizarras – e ele vai se apaixonando.

tumblr_n1nxhv2bnw1tus777o6_r1_1280Isso provavelmente não faz o menor sentido pra vocês, mas mulheres asiáticas me lembram coelhos…

Eu realmente gosto dos filmes do Wong Kar-Wai e da forma que ele trabalha gênero. Esse filme é um romance, no entanto, carrega traços do gênero policial, e nunca se entrega aos típicos clichês do drama romântico – nem é um filme tão dramático assim. Ele simplesmente conta uma história muito comum, e a torna interessantíssima e muito bela de se assistir. As técnicas de direção dele, o bom uso das cores e da música, estão presentes e, mesmo esse filme tendo sido feito as pressas (em poucos meses, para tirar férias de um outro projeto que estava se alongando mais que o esperado), dá para ver que foi feito por amor e por diversão. Dava pra falar mais sobre, mas deixa pra lá. Assistam, porque é excelente, é só isso que eu tenho a dizer.
Nota: 5/5

Páginas Sem Glória – Sérgio Sant’anna [2012]

Postado originalmente em 14 de novembro de 2013: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2013/11/paginas-sem-gloria-sergio-santanna-2012.html

Seguindo a polêmica dos livros comerciais contra os livros com valor artístico, decidi, depois de Daniel Galera e Luiz Ruffato (houve um tempo no blog anterior que falei disso, vou repostar isso logo pra que tudo faça sentido), fazer a resenha de outro nacional dessa linha. Esse não necessariamente contemporâneo, ele faz parte de uma geração mais antiga, só que mesmo assim atual. Páginas Sem Glória é o mais recente livro de Sérgio Sant’anna, que estou considerando como um dos melhores escritores vivos do Brasil. É um livro com foco na narrativa, mas, como vocês verão a seguir na resenha, não abandona o necessário experimentalismo.

São três narrativas que compõem Páginas Sem Glória, sendo duas delas contos e a outra novela. Começando pelo conto Entre as Linhas, que começa com Fernando, um escritor, falando sobre como ele confia apenas em uma de suas amigas para criticar seus manuscritos. Em seguida, essa amiga analisa detalhadamente a novela de Fernando, dizendo poucas coisas positivas.

Não sei quem foi que disse que um bom conto são dois contos, mas Entre as Linhas é um desses. A cada crítica dessa amiga, o leitor descobre um pouco mais sobre a personalidade de Fernando, refletida na novela da qual o leitor, ao fim da narrativa, acaba conhecendo quase que por completo, mas apenas por meio de fragmentos e comentários. Costumo me irritar com metaficção, mas a forma utilizada nesse conto do Sérgio Sant’anna é tão sutil que mal se percebe que se trata de uma história sobre uma história. De fato, como o próprio Fernando conclui, a análise de sua amiga e a forma como ela lança suas críticas cheias de ironia e, por que não dizer?, afeto e cuidado, acabam se tornando melhores que a novela em si.O segundo conto é O Milagre de Jesus. Neste, um mendigo chamado Jesus – nome que ele adota, devido à sua aparência com a imagem padrão dessa figura religiosa -, em uma conversa de boteco, fala sobre o dia que ele realizou um milagre, convencendo uma mulher, que sofre de uma séria deformação, a não abortar o filho que ela concebeu por meio de um estupro, ou melhor, três – foram três os estupradores. Então ele é expulso da igreja pelo padre e encontra dois jovens que estão gravando um documentário.

Assim como o primeiro, esse conto me pareceu impecável, perfeito exemplar dessa forma literária tão ignorada nos dias de hoje, só que sem todo o “meta” do primeiro. A informalidade com a qual a história é contada – conversa de boteco – quase deixa que a violência do ato descrito passe desapercebida, mas não passa por completo, acerta no ponto.

E por último a novela que dá título ao livro, Páginas Sem Glória. Uma breve biografia do grande jogador de futebol fictício, José Augusto do Prado Almeida Fonseca, o Conde. Começando pelos seus esforços no futebol de areia, até a contratação para o time profissional, sua vida boêmia, seus escândalos, sucessos e fracassos, em uma típica tragicomédia rodriguiana.

De todas as três, se me for permitido passar uma opinião puramente pessoal – como se não fosse isso que eu sempre acabo fazendo…, como se não fosse essa a razão de ser desse blog egocêntrico -, essa foi a mais fraca. Acontece que eu nunca consegui gostar de futebol. Gostava quando criança, tentei jogar e não deu certo. Fui envelhecendo e perdendo o gosto pela coisa. Mas isso só fala positivamente pela obra, que, embora esteja centrada no mundo do futebol, fala muito mais que só do esporte, desde a hipocrisia social da década de 50 (que ainda está aqui, mas coberta por metros daquela falsa liberdade) até questões existenciais e éticas. Se eu, que não gosto do esporte, li até o fim e não me entediei em momento algum, e se você tiver uma opinião diferente da minha quanto ao futebol, bem provável que veja nessa novela a mesma perfeição que eu vi nos primeiros contos. Se não gostar de futebol, vai acabar enxergando a qualidade da história de qualquer forma.

Mas do que eu sei? Aparentemente tem um grupo de escritores por aí falando que a crítica não respeita escritores com foco na narrativa, apenas aqueles que se dão o trabalho de fazer textos experimentais herméticos, então…devo estar errado, é o meu doutorado em literatura que eu não tenho que me permitiu compreender esse texto. Ou isso, ou aquele manifesto não faz o menor sentido, já que essa é uma obra acessível, aclamada e vencedora do Jabuti esse ano (desclassificada porque “Entre as Linhas” não é um conto inédito, mas mesmo assim, ganhou, só tiraram o prêmio).

Obs.: sairei à caça de mais livros desse autor. Já até arranjei uma edição antiga, em capa dura, de Simulacros, no Casa Aberta (sebo itajaiense que já mencionei aqui em posts passados). (- nota de 2016: tenho e li uma porrada de livros dele.)

Nota:  5/5 (ia dar 4,5 por causa do futebol, mas seria sacanagem)

https://youtube.googleapis.com/v/7dD2jnyfJI8&source=uds

Um vídeo do autor pra complementar o post.

Dois filmes do Jacques Tati

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Vindo direto da minha sempre crescente lista de diretores que preciso conhecer, esse fim de semana vi dois filmes do Jacques Tati: Mon Oncle (Meu Tio, 1958) e Playtime (Playtime – Tempo de Diversão, 1967), os mais aclamados do diretor francês que foi, logo no começo da carreira, comparado à Chaplin. Ao contrário de Chaplin, Tati dirigiu poucos filmes, apenas 5 longas em um período de 22 anos, mas estão entre os filmes mais cuidadosos e bem feitos da história do cinema.

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Falemos dos filmes na ordem em que os assisti, que apenas por acaso foi cronológica (pulando o primeiro filme – As férias de Sr. Hulot, que verei logo). Mon Oncle é sobre o sobrinho de Monsieur Hulot (interpretado pelo próprio Tati, que escreveu e dirigiu todos os filmes do personagem, e, reza a lenda, ele tinha uma certa obsessão por controle, que transparece na perfeição geral do filme), mais exatamente a relação entre o menino e seu tio. Ou pelo menos é o que a sinopse diz. O filme não trata tanto desse assunto, na verdade os dois aparecem juntos em poucas cenas.

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A primeira coisa que o não-iniciado em Tati precisa saber é que seus filmes não focam em narrativa. Existe história, mas ela é bastante rasa, e o que prende o espectador ao filme é o movimento, a, literal, magia do cinema. Meu Tio, por exemplo, apesar de ser sobre a relação de Hulot com seu sobrinho, foca em diversas outras coisas que obscurecem o tema título. O menino, para começar, vive numa casa altamente tecnológica, automatizada, e seus pais são rígidos e até que ausentes. Hulot é a válvula de escape do menino. Quando ele está com o tio, pode correr pelas ruas, brincar com os amigos, enfim, todas essas macacadas urbanas juvenis que os pais dele reprimem. O tio em si é diminuído por tudo que ocorre no filme não relacionado a ele.

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O que é realmente interessante é o retrato surpreendentemente atual que o filme faz sobre a relação do ser humano com o progresso. O pai do menino é diretor de uma empresa de tecnologia e sua casa é feita com o que há de mais avançado, beirando à ficção científica – visto que se trata de um filme de 1959. Mas muito desse avanço serve apenas para impressionar os vizinhos, sendo até ineficiente em muitos aspectos. Apesar de hoje a tecnologia do filme poder ser vista como estúpida, o comentário sobre os seus efeitos se mantém contemporâneo. Para começar, a separação que ela traz entre o ser humano e os que o cercam. Fica mais explícito quando o filme mostra a diferença de classes. As casas tecnológicas ficam nos bairros ricos, enquanto as casas dos bairros mais pobres, onde vive Hulot, são antiquadas, no entanto, a população dos bairros mais pobres é mais unida, enquanto as famílias ricas vivem de aparência. Um comentário batido hoje, mas bastante premonitório para 1959. Aí que vive a força do filme, não no tio e seu sobrinho.

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Já Playtime joga fora as relações familiares e vai direto para as tecnologias e vidas altamente urbanas. No fim de Meu Tio, Hulot é mandado à Paris – manobra do pai do menino para afastá-lo de Hulot, que ele vê como uma má influência -, então é como uma sequência direta, apesar dos filmes não serem relacionados. Aqui Tati nos mostra a pulsação urbana no máximo de sua força, mas seu personagem, Hulot, segue à margem, levando o humor nos seus gestos bizarros como um sucessor de Chaplin (com muito de Keaton) ou um predecessor de Bean – sinto falta desse tipo de humor, mudo e físico, mas acho que não há espaço para ele nos tempos de hoje.  Vale reviver o passado.

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Em Playtime, Tati joga o enredo fora por completo e foca no que ele faz melhor, ritmo e humor, enquanto os diálogos são fragmentos do que se passa no fundo, formando o que pode ser chamado de história, mas não com muita profundidade. Não saberia fazer uma sinopse. O máximo que posso dizer é que ele vai à matriz da empresa se apresentar para o novo trabalho e confusões acontecem.

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Como disse, não vá ver um filme de Tati pensando em história, vá pela graça das suas ações e pela magia do cinema. Eu poderia até dar uma de esnobe aqui e dizer que ele é comédia para cineastas (não sou cineasta), porque muito do humor está na construção, no jogo música/ação, nos cortes, nos detalhes. Claro que não só cineastas repararão nisso, mas muito do seu aproveitamento vai depender do quanto você repara nos detalhes dos filmes que você assiste. Tendo dito isso, tanto Mon Oncle quanto Playtime, e arrisco estender esses comentários finais aos outros dois filmes do Hulot que ainda não vi, são um prazer de assistir. São filmes leves, em nada superficiais, sutis, que, não causando grandes gargalhadas, vão te fazer sorrir num fim de semana após longos dias de trabalho.