Sirva o exército, menino ruim.

(Marinheiros ilustres.)

Todo jovem, ao completar dezoito anos, deve se direcionar ao posto militar de sua cidade e cumprir com o alistamento obrigatório. Quem nunca, na infância ou na juventude, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras na televisão e no rádio. O exército foi uma de minhas fobias de criança, com aquelas propagandas em que um homem uniformizado e autoritário, gritava palavras incoerentes sobre responsabilidade e amor à pátria para uma fileira de jovens, seguida por imagens aleatórias das várias funções do militar, com os rituais e cerimônias até a prática do lança-chamas. Não entendia realmente como funcionava aquilo e, quando perguntava aos meus pais, ouvia sempre que meu pai tinha sido dispensado por excesso de contingente, e meu avô por ter pés chatos – esse último caso geralmente era complementado pela minha mãe observando que meus pés “são bastante côncavos”. Aos seis anos de idade, eu não fazia ideia do que significavam essas palavras, contingente, pé chato, pé côncavo, mas formava, ainda assim, suposições infantis e surreais das quais hoje já não me recordo, com exceção da óbvio, o pé inconveniente, que fala demais, arranja problema: o pé chato – sim, foi uma adição desnecessária essa piada, mas não tenho arrependimentos.

Quando eu atingi a maioridade e tive que me alistar, juro que estava tão ocupado com outras preocupações que só parava para pensar que aquele era o meu ano do exército quando tinha que fazer algo relacionado ao alistamento. Estava sozinho, tinha acabado de me mudar para um apartamento em uma cidade distante da minha terra mãe, começado uma faculdade e um emprego. Meus devaneios pertenciam a essas preocupações – os novos gastos, a família distante, os amigos abandonados, a namorada perdida, os horários corridos, e o exército poderia se foder ou entrar na fila. Na verdade, lembro-me que, nessa época, minhas esperanças estavam em um pedaço de legislação que havia pesquisado no ano anterior – pico do meu desespero – que dizia, mais ou menos, que pessoas com ideologias filosóficas ou religiosas contrárias ao exército poderiam ser dispensadas. Era simples, no dia do alistamento, diria à pessoa responsável pelas inscrições que sou pacifista e, portanto, deveriam me liberar. Criei coragem e, no dia do alistamento, disse exatamente isso à atendente, que me respondeu com um sonoro “e…?”, enquanto me intimidava com um olhar de nojo, esperando que eu reagisse de alguma forma. Gaguejei um pouco, mas respondi que a lei mencionava que pessoas de ideologia religiosa ou filosófica contrária ao exército, poderiam ser liberadas. Ela me olhou como se não tivesse entendido e disse “isso é só praqueles… pros adventistas”.

Acreditei naquela exceção. Poderia não ser verdade, mas, considerando as liberdades que os adventistas andam recebendo, é muito possível que eles sejam os únicos com o poder de receber dispensa automática do serviço militar. Aparentemente, eles são os únicos pacifistas oficiais do Brasil, mas isso é outro assunto.

Não tinha jeito, tinha que me alistar, no entanto isso não significava nada. Teria que esperar uns meses, me direcionar novamente até a secretaria do exército – que ficava a uma considerável distância da minha casa – para que me informassem se eu tinha sido selecionado para a segunda fase, que consistia de uma série de testes que eu logo lhes direi quais foram.

O dia dos resultados chegou logo, mas a essa altura eu já sabia que teria que fazer todos os testes, seguir até a última etapa antes da dispensa. Não tinha nenhum motivo para pensar assim, entretanto me parecia bastante óbvio que eu teria que seguir por todas as etapas, senão somente porque essa é a minha vida. A secretaria era uma sala pequena, com aparência antiga e duas mulheres de meia-idade atendendo com um humor condizente à aparência. De vez em quando, um homem uniformizado passava e gritava instruções para as senhoras; ele não estava irritado ou queria se mostrar autoritário, era como. Na parede tinha um quadro pendurado e orgulhosamente moldurado com os dizeres do juramento a bandeira. Devo ter lido compulsoriamente aquele quadro três ou quatro vezes enquanto aguardava os jovens que, antes de mim, recebiam suas condenações. Ao meu lado estava outro rapaz, acompanhado do pai orgulhoso por ter um filho que desejava seguir carreira militar. Sabia disso, pois, antes de eu ser atendido ouvi ele falando sem parar com outro pai ali presente, menos falante, sobre como o exército lhe havia sido uma experiência magnífica, como era importante o exército para ensinar responsabilidade a um jovem e toda uma série de coisas que, depois de algum esforço, consegui ignorar, graças à placa do juramento que me servia como chama de vela para meditação. A cada frase ele dava um tapa no ombro do filho, que sorria olhando para o pai como para uma estátua divina de Ho Chi Mihn.

Dirigimo-nos, eu e o orgulho do papai, praticamente ao mesmo tempo, à mesa em que se encontravam as duas senhoras, que, naquele momento, já pareciam estar mortas. Eu recebi um papel que dizia que eu fui aprovado para a segunda fase, com o endereço do local onde seriam realizados os testes para a aprovação final. Não me surpreendi, até que ouvi choro. Ao meu lado, o aprendiz de soldado chorava dizendo:

– Mas por que não, senhora? Eu quero me alistar! Eu quero servir à pátria! – algo me levou a crer que o pai da figura, ao ouvir estas palavras, teve o orgasmo mais bizarro de sua vida.
– Desculpe menino, mas não há nada que possamos fazer. – gritava o uniformizado, que surgiu do nada ao ver o choro do menino-modelo.
– Mas é o meu sonho… – seu pai teve orgasmos múltiplos, e, o uniformizado, uma indiscreta ereção, eu imaginava.
– Você estuda, meu jovem? Faz faculdade? – indagava o uniformizado.
– Engenharia naval – fungando e enxugando os olhos.
– Então! Vá estudar, aproveite a juventude. Essa sua faculdade vai te permitir um cargo bom no exército, caso você queira mesmo seguir carreira no futuro.

Enquanto esse diálogo acontecia, eu me direcionei ao cadáver que me atendia e sussurrei:

– Vocês não podem dar a minha vaga para esse coitado?

Ela não me respondeu. Só me olhou com reprovação e desgosto, o que me silenciou até o fim do processo. Por algum motivo, eu esperava um sim ou um riso, mesmo que isso fosse totalmente fora da personagem que a atendente interpretava.

Era isso. Eu, um estudante de comércio exterior, fisicamente inapto, contrário ao exército e indisciplinado, “roubei” a chance de um futuro engenheiro naval, responsável, amante do exército e com sérios problemas psicológicos (esse último é uma adivinhação minha). Qual é o critério dessa seleção? A intenção é criar uma nova geração de soldados competentes ou simplesmente ser um grande inconveniente para o “pós-adolescente” avesso à vida de soldado? Restava-me aguardar os testes e o resultado final. Mas a chave da questão era que eu queria estudar. Eu queria aproveitar a juventude. O cara ao meu lado vocalmente renunciou a essas vontades. Mesmo assim fui escolhido. E ninguém ali questionou o procedimento.

Naquela época eu era relativamente novo na cidade. Conhecia os lugares que eu frequentava, mas os nomes de ruas e bairros para mim eram outro idioma. Ao ler o endereço, precisei buscar um mapa na internet. No grande dia, o imprimi e sai pelas ruas com ele, às cinco e meia da manhã (o teste era às oito, mas tinha medo de me atrasar), fazendo consultas a cada esquina, para garantir que estava no caminho certo. Já no meio do caminho, percebi que havia um erro na impressão e estava seguindo o caminho errado o tempo todo. Procurei pedir informação, mas é difícil falar com as pessoas antes das seis. Aproximei-me de uma varredora e lhe pedi informações, ela me indicou para a direção contrária a que estava seguindo. Chegando ao local onde deveria ser, – de acordo com a varredora – a base da Marinha (a única possibilidade de alistamento em Itajaí é com a Marinha) na qual se realizariam os exames, não encontrei nada que pudesse me servir de indicação. O único ponto de referência que tinha era o Mercado Público, que eu não sabia onde ficava e nem a varredora que eu abordara antes. Falei, então, já depois das sete, com outra varredora, as únicas pessoas dispostas a ajudar no período da manhã em Itajaí. Essa sabia onde ficava o tal Mercado Público e, com o seu sotaque peixeiro irritante, disse:

– Vish nego! Pra chegar no Mercado Público tens que ir toda vida reto pa-lá-pa Igreja Matriz. Aquela igreja lá longe, ‘tas vendo?

Eu via a igreja. Ficava longe, mas era enorme, então servia de ponto de referência na cidade, independente de onde se estivesse. O que me irritou foi que, no momento que falei com a primeira varredora, estava razoavelmente próximo da igreja. Como poderia ela não saber onde ficava o Mercado se estávamos tão próximos dele? Ela quis foder com a minha vida, pensei. Mas pouco importava, tinha que percorrer um longo caminho e não me restava muito tempo.

Consegui chegar as cinco para as oito à praça onde fica a igreja. Encontrei um grupo de taxistas e perguntei em que direção ficava o Mercado Público. Um deles me direcionou para uma rua pela qual eu segui, até perceber, no meio do caminho, um homem vestido com o uniforme do exército e cabelo raspado. Perguntei se ele era da Marinha e ele afirmou. Acompanhou-me até o local do exame. Já estava uns quinze minutos atrasado, mas, aparentemente, não importava. Fui recebido por um marinheiro que perguntou se eu estava lá pelo alistamento obrigatório. O cansaço da caminhada de três horas me deixou razoavelmente hostil. Não ajudou que, para diminuir minhas chances de aprovação, no dia anterior eu tivesse ido ao mercado e comprado uma garrafa de Natu, o nobre selvagem, para me embriagar (isso sim deveria ser o dever de todo o jovem ao cumprir dezoito anos), só para fazer os exames no pico das minhas capacidades físicas e mentais. Onde está o Mickey, Pato Donald?, pensei em responder, mas tive medo que ele fosse uma das autoridades que é crime desacatar. Então simplesmente afirmei e o segui até a sala de espera, na qual se encontravam dezenas de jovens que aguardavam seu nome ser gritado por outro uniformizado, que ficava em frente a um computador anotando as informações dos examinados.

Esse processo seria muito mais rápido se o militar em questão soubesse usar mais de um dedo para digitar. Por isso meu atraso foi irrelevante. Cheguei lá às oito e vinte, mas só fui chamado depois das nove.

Começou o tal teste. Fomos encaminhados para uma espécie de sala de aula, com carteiras e quadro negro. Lá um marinheiro, de cargo superior ao pato Donald da recepção, gritava instruções. Ficava imaginando o quanto o governo não gastava com pastilhas de garganta para os soldados.

– O teste se divide em: um exame vocacional e intelectual, um exame físico e uma entrevista. O exame intelectual se divide em testes de lógica, matemática e engenharia mecânica.

Ao ouvir isso, lembrei-me do engenheiro naval e de como ele seria muito mais apto para tais testes do que eu, um simples auxiliar de exportação de uma firma de despacho aduaneiro. Até que eu li a prova e vi que pouco importava a aptidão do candidato. Qualquer um que tivesse passado pelo ensino fundamental, talvez nem isso, conseguiria fazer os tais testes. Queria muito errar as questões, mas tinha medo que minha tentativa se tornasse óbvia. Tive que disfarçar e fazer parecer que os erros eram um acidente. Contudo, não deveria me preocupar com isso ainda. Primeiro teria que completar o exame vocacional. Já tinha feito um desses, o resultado foi “algo na área de humanas ou gestão”, nada nem sequer remotamente similar à militar.

Até hoje questiono a lógica daquele teste vocacional. Tínhamos uma série de quadros ilustrados indicando cada uma das possíveis áreas de atuação de um militar. Com isso, marcávamos aquela que nos parecesse mais agradável. Um dos quadros tinha como opções: Operador de linhas telefônicas; operador de lança-chamas; mecânico; motorista. – Escolhi operador de linhas telefônicas, não sabia quais eram as funções, nunca operei uma porra de linha telefônica, mas estava escolhendo sempre a opção mais distante do serviço militar regular. Em outra questão dessa série, marquei que gostaria de ser médico, afinal todo o assistente de exportação que se preze sabe realizar cirurgias emergenciais.

O maior dos insultos foi o exame intelectual e lógico. Principalmente por causa do fiscal da sala, que ficava nos rodeando e pressionando, como se aquele fosse o teste mais difícil concebível pela humanidade. Não vou falar sobre o teste de lógica, pois até hoje não o entendi (uma série de formas geométricas, e comparações, nesse pude forçar erros a vontade e sem medo), mas o tal teste intelectual foi possivelmente o mais fácil que eu já vi em toda a minha vida. Tão fácil que o mais difícil era escolher uma opção errada que não parecesse tão forçada e levantasse suspeitas das minhas tentativas de forjar os resultados.

Uma das perguntas tinha o desenho de um balde, nele estavam marcados cinco pontos diferentes: um no topo da alça, e quatro em cada “extremidade”, superior e inferior do balde… balde de metal. O texto era: considerando a imagem abaixo, em qual dos pontos o soldado deve amarrar uma corda para erguer o balde sem derramar uma gota d’água? – Marquei que o ponto correto era o inferior direito. Não sei como amarraria uma corda nesse ponto, já que a corda teria que atravessar o balde de metal sólido para ser amarrada nesse ponto, mas foda-se, era o que eu queria fazer e o teste aceitava essa possibilidade.

Durante a prova de matemática, o fiscal ficou ainda mais excitado e passou a pressionar os possíveis recrutas ainda mais, dizendo que “matemática é sempre difícil, mas um soldado deve ser rápido durante situações extremas”. A situação extrema, para ele, era o problema “2+5+3-4”, que obviamente é igual a 14. Terminei a prova com tempo de sobra, o que chamou a atenção do fiscal, mas ainda teria que esperar o resto da sala, até que cada um de nós seria chamado, em grupos de três, para ainda outra sala, na qual seria realizado o exame físico.

Entrei na sala, que mais parecia uma enfermaria com um quadro negro, e, antes mesmo de dizer bom dia, os examinadores, dois homens (provavelmente soldados, mas poderiam muito bem ser só dois loucos que invadiram o quartel vestindo jalecos), exigiram que eu e os outros dois jovens que me acompanhavam nos despíssemos e ficássemos somente em nossas roupas de baixo. Os outros dois que estavam comigo, cumpriram a lei social que diz: um grupo de homens seminus trancados em um mesmo ambiente não devem fazer contato visual. Ou, pelo menos, eu acho que a cumpriram, não os olhei para verificar. O examinador pediu para que subíssemos em uma plataforma e puxássemos a barra de ferro acoplada a ela, o que, supostamente, mediria nossa força. Estava fraco, não tinha tomado café da manhã, e minha cabeça estava me matando por causa do uísque da noite anterior, todos esses fatores devidamente planejados com antecedência. Fiz o máximo de força possível, mas não creio que o resultado tenha sido muito satisfatório, vide os olhares de reprovação que me foram lançados. Nunca recebi tantos olhares de reprovação na minha vida como naquela época. Tudo ficou ainda mais estranho quando fomos chamados individualmente para um canto coberto por um biombo. Lá o segundo examinador fazia uma espécie de inspeção genital no examinado. Toda a movimentação manual era feita pelo próprio examinado, mas mesmo assim, não estava – e ainda não estou – acostumado a manipular meu pênis em frente a outro homem, ainda mais um que nem me deu bom dia. Mas o pior de tudo, o que realmente estragou minha semana, foi que ele nem me ligou no dia seguinte.

Todo o constrangimento passou, estavam me direcionando para a última fase dos exames – a entrevista. Fui encaminhado para uma fila, relativamente curta e que se movia rapidamente, ela levava até o escritório do responsável por aquela área da Marinha. Não sei seu cargo, não me importava o suficiente para investigar. Estava cansado, com fome e me sentindo péssimo, então ficava feliz ao ver que as entrevistas eram breves.

Chegou a minha vez, entrei e recebi autorização para me sentar.

– Seu nome é… Raphael Saaal… ce-do? É isso? – ele começou, com uma voz firme e desnecessariamente alta.
– Isso mesmo. – todas as minhas respostas foram curtas, cansadas e em voz baixa. Basicamente um oposto ao entrevistador.
– O senhor… Me desculpe a pergunta, mas hoje em dia ela é necessária. O senhor é homem?

Em minha mente se passaram as mais diversas respostas para essa pergunta, entretanto, tudo que eu queria era fazer a entrevista, receber o resultado e ir embora. Queria esquecer de todo aquele dia como havia esquecido da noite passada. Então eu segurei o “depende, na verdade só transo com árvores, e às vezes… (sussurrando) elas transam comigo” ou o sólido e seguro “também” ou o provocador “se assim o senhor quiser…” na garganta, respondi que sim e seguimos em frente. Mais tarde, ao visitar uns amigos em minha cidade natal, ouvi que um deles tinha dito ser homossexual. Ele foi dispensado na hora. A única coisa que lhe disseram ao sair foi: – “Vê se come uma bocetinha um dia desses, rapaz!” – Em retrospecto, deveria ter feito o mesmo, ou mantido minha versão ecologicamente correta.

– Você estuda comércio exterior? Há quanto tempo?
– Comecei esse ano, então, uns quatro meses.
– Muito bom. Tem interesse em se alistar?
– Não. – ele riu da minha resposta rápida. Acho que ele ainda não tinha terminado a pergunta quando eu respondi.
– Vou ver o que posso fazer por você… Sabe nadar?
– Não, senhor.
– Se alistando pra marinha sem saber nadar?! Como assim? – ele parecia indignado pela falta de lógica (eu não o culpo…), contudo, Marinha é a única opção de alistamento em Itajaí, e ele sabia disso melhor que eu. Não apontei a estupidez do seu comentário, novamente, por medo do famigerado desacato, que pode incluir de ofensas verbais até respostas educadas mas contrárias à vontade da dita autoridade.
– Pois é, senhor.
– Então, com você é só nos cem metros fundos?
– E sem volta, senhor.

Estava encerrada a entrevista e, com ela, todo o exame. Voltei à sala de espera inicial, até que um dos superiores de lá apareceu com os certificados carimbados com o resultado. Chamou os nomes daqueles que estariam dispensados, os outros teriam que aguardar por novas instruções. Bateu-me o frio na barriga. E se minhas respostas erradas no primeiro teste tivessem baixado tanto minha nota que eu seria considerado o soldado perfeito? Tive medo. Mas foi um medo infundado. Fui dispensado por excesso de contingente. Não esperava o contrário, acontece que imaginava que iria ser dispensado muito antes. A sequência de surpresas desagradáveis me fez achar que teria que seguir o caminho todo e perder um ano da minha vida fazendo seja lá o que for que a Marinha faz.

É a isso que tudo se resume. O Brasil exige que todos os seus homens se alistem aos dezoito anos, mas como este país já é um dos que mais recebe voluntários interessados em seguir carreira, a grande maioria é dispensada. Para quê organizar toda uma série de exames e processos, se já se sabe que de nada serve? É como prestar um vestibular para uma faculdade que já distribuiu suas vagas. Além disso, por que o exército militar brasileiro, mesmo que este não recebesse voluntários o suficiente, precisaria de tantos recrutas?* O último grande desempenho brasileiro em guerra foi durante a 2ª Guerra Mundial, e por grande, eu realmente quero dizer quase relevante. É verdade que nossos soldados foram úteis em muitas batalhas, mas a ausência brasileira não significaria a vitória alemã. Todos os recentes esforços do exército para a ocupação das favelas não deveriam existir. Ocupar favela** é serviço de policial, não soldado, no entanto, como a polícia não está preparada para grandes operações, o governo utiliza o exército como tapa-buraco. Como o Brasil é o país da gambiarra e do jeitinho, não adianta discutir. A não ser que haja uma espécie de Revolução Francesa por aqui nos próximos cinco anos (guilhotina inclusa), não haverá nenhuma mudança nesse sistema. Junto da minha dispensa, recebi o horário, data e endereço do Juramento à Bandeira, independentemente do que se passava pela minha cabeça.

O mais perturbador foi ver de perto a arrogância dos militares. Nunca simpatizei com esse grupo, acho que o mundo seria melhor sem eles. Militar é como um advogado, se a humanidade fosse perfeita, eles não seriam necessários. Durante o juramento à bandeira, fui obrigado a ouvir o responsável pela cerimônia proferir a palavra “civil” mais vezes do que eu escrevi a palavra “exame” ou “teste” nesse texto. Não há problema nenhum com essa palavra. Civis são todos que não fazem parte do exército de um país e, portanto, devem por ele ser protegidos. Além disso, pagam, por meio de tributos, o salário de cada soldado, sargento, general e almirante, inclusive a pensão dos putos que tomaram o país durante a ditadura e torturam e sumiram com milhares de “indignos e sujos” civis. O militar é um agente de segurança do governo, que existe para a proteção da soberania e do povo de uma nação, não necessariamente tornando-o superior àqueles cujo seu dever é proteger. A única ocasião em que militar é superior ao civil é durante um governo militar, o que já aconteceu no Brasil e, para não dizer coisa pior, não deu muito certo e, graças a Dionísio, terminou. Na cerimônia de juramento à bandeira, no entanto, fomos ameaçados com prisão mais de uma vez por qualquer coisa que pudesse ser interpretada como desacato, e o termo civil só faltou vir seguido de uma escarrada no chão.

O homem cujo título eu não me dignei a descobrir, tinha um tom de desprezo claro em sua voz, sempre que nos dizia que aquele momento significava que nos manteríamos como civis. Era possível sentir o nojo em sua pronúncia sempre que ele dizia essa palavra.

Mas de tudo isso, o maior absurdo é que, mesmo depois de tantos anos de opressão em uma ditadura militar – 0pressão esta, de consequências ainda desconhecidas, muitas vítimas ainda não foram encontradas -, o país ainda força seus jovens a fazer parte dessa instituição que realizou um golpe de estado. E, como se não bastasse, lhes dá autoridade o suficiente, para tratar o povo, seus empregadores, como lixo. Em minha utopia pessoal, o Brasil dá fim ao exército militar. Os desempregados são incorporados à polícia militar, assim como todo o armamento e fundos de investimento. Guerras não são uma ameaça para esse país, mas mesmo que fossem, não é como se o exército brasileiro fosse capaz de gerar grande resistência, perderíamos em algumas semanas, salvo se o inimigo fosse a Bolívia, porém, até nessa hipótese, tenho minhas dúvidas. Tornaríamos uma força obsoleta, em uma força útil. O alistamento deixaria de ser “voluntariamente obrigatório”, como é hoje, e seria como na polícia, concurso. Não haveria mais riscos de uma nova ditadura militar (não que haja hoje, mas nunca se sabe***), a polícia teria fundos, pessoal e armamentos, e os jovens do amanhã não teriam que passar pelo que eu passei.

Quanto a mim, ao sair do juramento a bandeira – tendo mantido o silêncio durante a parte que dizia sobre “morrer pela pátria” -, passava do meio-dia e o sol estava forte. Avistei não muito distante, um bar, e nele uma mesa na qual se encontrava um grupo de pessoas se refrescando com cervejas. Pensei em ligar para a empresa na qual trabalhava e inventar algum atraso na cerimônia, avisando que não voltaria após o horário de almoço, indo, então, juntar-me às cervejas, mas não poderia. Invejei-os por um instante e fui ao trabalho.

*E homens desse Brasil que ainda não entenderam qual é a do feminismo, parem com essa de exigir alistamento obrigatório às mulheres como medida de igualdade. Isso é burrice e pega mal. A ideia é acabar com esse sistema imposto por esse velho e conservador ideal de responsabilidade e disciplina que não se encaixa mais em nosso tempo.

**A ocupação das favelas é assunto para outro texto. Ao que parece, a militarização de processo só serviu para oprimir as partes não privilegiadas de nossa sociedade. Antes de mais nada, preciso pesquisar estes acontecimentos. Muita coisa mudou de 2012 para cá, tanto na minha visão política e social quanto na sociedade. Essa é a graça de revisitar esses textos velhos.

***Hoje não botaria tanta certeza nessa frase. São tantos eventos de 1964 se repetindo. A família tradicional brasileira parece não se cansar de suas cruzadas. Bolsonaro é o grande fantasma daquela época e está aí para nos assombrar. É o que acontece quando não se dá o fim devido a um sistema opressor e, ao contrário, apenas se o tira do poder e ignora seus filhotes. Crimes não remediados se repetem. Temos que lembrar. O que precisamos de verdade agora é de um novo Roberto Piva.

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