A natureza e a virtude das indulgências – parte 2

Leia a parte 1: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/25/a-natureza-e-a-virtude-das-indulgencias-parte-1/

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Este, meu interesse mais recente e que do ano passado para cá tomou conta de parte da minha vida, algumas das partes mais agradáveis, por assim dizer, o tabaco. Nunca fumei cigarros, o que torna este meu novo hábito um tanto mais pitoresco. Pelo que pude observar em estatísticas internacionais, por essa vasta rede de dados chamada internet, os jovens fumantes de cachimbo são migrantes dos cigarros. Quando cansam das tosses e aditivos e compras de dezenas de dezenas de maços, compram um cachimbo, por um valor – admito – bastante alto, que se torna um companheiro para a vida, e algumas latas de tabaco para cachimbo – também caras, no Brasil – que duram por mais de um mês. Eu não segui essa onda. Não sei de onde vim para me ver dentro desse mundo, para dizer a verdade. Houve, definitivamente, uma influência por parte dos grandes fumantes do passado. Não que eu acreditasse que compartilhar desse hábito fosse me deixar mais próximo deles. Havia minha própria curiosidade para com a nicotina, contida somente pelos danos à saúde associados aos cigarros, que eu costumava temer. Ao mesmo tempo, esse interesse, tanto me refiro agora ao tabaco quanto ao álcool, deve partir daquele velho conceito de desejo de morte. Não exatamente uma vontade de morrer, mas de pegar aquilo que mata pela mão e dizer: vem. Não tanto para demonstrar coragem, é mais próximo do sentimento que leva pessoas a pularem de um avião equipados apenas com um paraquedas, e faz tão pouco sentido um quanto o outro. O tabaco, por outro lado – e esse é o lado que mais me atrai -, é um prazer sensorial, não emocional. Não atrai pela adrenalina, mas pelas impressões que ele tira dos cinco sentidos – e, sim, trabalha-se os cinco com os cachimbos e charutos.

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Um sonho de consumo.

Claro, tem também o prazer químico. Antes de mais nada, acho que os críticos do tabaco deveriam parar de insistir que a nicotina não gera prazer. Não, o prazer de fumar não é apenas o alívio de uma necessidade que antes não existia, mas passou a existir devido ao vício imposto pelo químico. Nada funciona assim. O cérebro não gera a necessidade por determinado estímulo partindo da ausência do tal estímulo. Para precisar sentir, é preciso primeiro sentir sem precisar. Talvez, principalmente para os fumantes de cigarro, essa necessidade – vício – surja muito mais rápido e, eventualmente, não se sinta mais nenhum estímulo, apenas alívio. Não sei, já falei que não fumo cigarros. Mas não é minha experiência com o cachimbo. Pelo que pude observar, dizer algo assim seria o mesmo que dizer que chocolate não tem gosto. O chocolate apenas, após ser ingerido tantas vezes, desperta uma necessidade no cérebro humano que precisa ser aliviada. E antes que digam que não há comparação, chocolate é tão viciante quanto cigarro, e faz muito mal se consumido em excesso. Arriscaria dizer que os dois são equivalentes – experimente comer 20 barras por dia e me diga se o efeito não é similar a fumar 20 maços. Os danos que o cigarro causa ao pulmão, traqueia, boca, dentes; o chocolate causa ao corpo, estômago, dentes etc. Pode, talvez, não causar câncer, mas causa diabetes e tudo que vem com essa doença. Enfim, pena que eu não veja alertas gráficos sobre os perigos do consumo excessivo de chocolate nas embalagens das barras, logo um produto tão consumido por crianças. (Sim, pretendo, ao longo do texto e da minha vida, lançar esses pequenos ataques às coisas que matam, mas são social e comercialmente bem vistas. Apelo emocional não é exclusivo aos antitabagistas.)

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Bertrand Russell, filósofo/matemático, frequentemente visto com um cachimbo na boca. Esta foto foi tirada no seu aniversário de 23 anos.

A nicotina, que causa o relaxamento característico, junto de uma sensação de alerta, aumento da atenção e capacidade de concentração (sim, existem estudos que dizem que a nicotina, com moderação, auxilia a memória e previne contra o Alzheimer e mal de Parkinson), mas que, quando em altas concentrações, pode causar náuseas, tontura e sonolência, é gerada naturalmente pela folha do tabaco. Aqui o que eu estava falando sobre o tal desejo de morte, a nicotina é uma espécie de inseticida natural que a folha desenvolveu. As concentrações das folhas, se grandes e comidas cruas, poderiam matar um humano. Ainda, mesmo sendo, por todas as definições, um veneno, na Grécia antiga, Heródoto, o historiador, já descrevia pessoas inalando a fumaça de folhas queimadas por meio de um objeto de argila que bem poderia ser um cachimbo primitivo. Antes disso, cachimbos e resquícios de tabaco foram encontrados junto às múmias no Egito. Sem falar que o consumo da fumaça emitida pela queima de tabaco e outras ervas é tradição em quase todas as culturas indígenas. Faz parte da história humana, em comum com o consumo de álcool, essa autodestruição em troca de prazer. E que essas minhas romanceadas não soem como uma grande defesa ao consumo de tabaco, é apenas parte da justificativa para o meu uso. Não incentivo ninguém a fumar, ou o contrário. Acredito plenamente que todos são responsáveis pelos seus próprios atos.

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Culpar este texto por seu futuro câncer de boca seria um ato de má fé.

Mesmo não sabendo o que foi que me atraiu no tabaco, já pego por esse hábito, sei ao menos explicar, dentre os diferentes meios de consumo do tabaco, por que o cachimbo. Tem algo no objeto e sua forma de preparo. Consideremos o cigarro. Ele vem pronto, dezenas de palitos cheios de tabaco e tantos outros químicos, enfileirados, prontos para acender. Basicamente fast food; rápidos, fáceis e eficientes. Cigarros não oferecem um longo período de contemplação nem sabores diferenciados a serem descobertos, mas, como não é o que o fumante de cigarro procura, não importa. O charuto, por sua vez, é mais próximo do cachimbo em nuance e tempo, mas um charuto é um charuto e, uma vez queimado – em uma, duas ou três horas -, ele se vai. Resta dele somente uma bituca inacendível e a memória do que ele foi. É como uma noite de sexo inesquecível, uma paixão que só pode ser verdadeira, mas que acaba ali, e os envolvidos nunca mais se encontram. As sensações podem ser revividas, mas, similar que seja, não é a mesma coisa. O cachimbo, este dura para sempre. Um bom cachimbo feito de briar vive mais que o dono. É um casamento, normalmente polígamo – é importante rotacionar os cachimbos, deixá-los descansar do fogo por pelo menos vinte e quatro horas. Eles carregam uma variedade aparentemente infinita de tabacos, em diferentes misturas de folhas, cortadas de tantas maneiras diferentes.

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Propaganda da Peterson, quando esse tipo de coisa ainda era permitido. Se bem que sou contra propagandas de tabaco. E contra propagandas de cerveja, fastfood, doces em geral, bancos, carros, governo…

E aqui retorno àquela mesma fascinação que descrevi quando falei sobre uísques e cervejas. A diferença entre cada folha de tabaco é tão pequena, mas, dependendo da espécie, local de plantio, método de cura e tratamento, tudo mundo, o sabor, o teor de nicotina, o aroma. E as misturas entre as diferentes folhas formam ainda mais variáveis.

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E falando de coisas proibidas, lembra dessa cena da sua infância?

Agora, aos que não fumam (todos os possíveis leitores, imagino), peço paciência. Cheguei naquela parte didática em que falo o pouco que sei das folhas mais presentes nas misturas. Sim, muita emoção.

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Dunhill merece e terá postagem própria.

Virginia: esse é o tabaco mais comum em geral, creio. Folha muito variável em si mesma, pelo tempo de cura. O que se diz é que, quanto mais escura a folha, mais robusta e forte em nicotina. Quando mais claras (e existem nomes específicos dependendo de cada método de tratamento e todas esses detalhes mágicos, e até os conheço de leve, mas não os memorizei e nem o objetivo aqui é servir de enciclopédia, seja para o tabaco ou para o álcool; o objetivo dessas postagens é mais pessoal e suas descrições têm caráter apenas contextualizante para o leigo completo, sem falar de que pode servir de introdução básica à introdução básica) tendem ao sabor mais cítrico, leve, com aroma de grama recém-cortada e chá de ervas aromáticas, doce, levemente açucarado. Conforme escurecem se tornam mais complexas, densas, de sabor mais terroso, a grama já não é tão fresca. O Virginia é um dos principais tabacos nas misturas, contrabalançam os tabacos de “tempero” – a serem descritos – e podem ser fumados puros. As misturas de tabaco de cachimbo mais famosas e aclamadas costumam ser Virginia puro, exemplo: Samuel Gawith’s Full Virginia Flake, Capstan Blue Flake ( favorito do Tolkien, diz-se), Dunhill Flake etc.

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Tolkien: o favorito da galera.

Burley: considerado um camaleão entre os tabacos, costuma ser usado para encorpar as misturas, já que, dependendo do tipo de Burley (e existem tipos, só não conheço muito bem essa folha para me estender sobre eles), ele se apropria de características dos outros tabacos que o acompanham, deixando somente a mistura com uma fumaça mais volumosa e um sabor amanteigado. Sozinho, no entanto, ele pode ser um belo tabaco de se conhecer. Temperado, com um sabor que lembra nozes, manteiga e chocolate, tem uma alta quantidade de nicotina*, mas vale a pena conhecer. É através de processos diferenciados de cura do Burley que sai o Cavendish, usado muito em aromáticos americanos (e brasileiros), e o Kentucky, tabaco forte e temperado, carro-chefe do JackKnife Plug (excelente mistura, capaz de derrubar uma mula, sobre a qual falarei em detalhes um dia). Exemplos de misturas com Burley: 4 Noggins – Bald-Headed Teacher (meu primeiro tabaco de qualidade, agradecimentos ao Dr. Luis Graciano pela indicação), Solani – 656 – Aged Burley Flake, Peterson’s Irish Flake (outra famosa por derrubar até os equinos mais fortes).

Latakia: sim, a misteriosa Latakia, folha da qual o iniciante escuta assim que adentra o mundo dos tabacos. Basicamente, são tabacos turcos/orientais secados ao sol e enfumaçados na fogueira. Antigamente, a maior parte da Latakia vinha de… Latakia/Lataquia/Laodiceia, na Síria. Porém, nos últimos anos, devido aos conflitos constantes na região, a folha passou a ser produzida no Chipre. Alguns produtores de tabaco ainda mantêm estoques de Latakia da Síria, datados da década de 1970, 1980. Está cada vez mais raro, mas é possível encontrar. A diferença? Não sei, mas estou para descobrir, comprei uma lata de tabaco que leva Latakia da Síria, se perceber algo conto para vocês. O que dizem é que a Latakia da Síria é mais aromática e sutil, menos enfumaçada que a do Chipre. É, de todas as formas, um tabaco de tempero. Seu sabor é forte e facilmente perceptível, até em pequenas quantidades. Em grandes quantidades, domina a fumada. Exemplos: Dunhill’s My Mixture 965 (exemplo em que a Latakia tempera), Dunhill’s Nightcap (exemplo em que a Latakia domina – entrarei em detalhes na minha postagem sobre a Dunhill), Esoterica Tobacciana Margate, Capitain Earle’s Stimulus Package (quase Latakia pura).

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Derrida – fumando um cachimbo e confundindo as pessoas.

Turcos / Orientais: outro tipo de tabaco de tempero, os tabacos que enfumaçados viram Latakia são os chamados Turcos ou Orientais. A razão disso é, obviamente, devido à procedência destes. Existem vários tipos de orientais: Yenidje, Izmir, Basma, Samsun etc. Normalmente associados ao sabor agridoce, com um aroma de incenso, altamente aromático (não aromatizado**). Existem diferenças entre cada tipo além do nome, mas acho que só os grandes especialistas são capazes de reconhecer. Com exceção, talvez, do Basma, esse é reconhecível em qualquer canto. Exemplo: Peterson’s Old Dublin (contém Basma e outros orientais), Dunhill’s Durbar, Balkan Sasieni. Misturas de Virginia, Latakia e Orientais/Turcos costumam ser chamadas de Misturas Inglesas. Existem variações, misturas que foquem no oriental podem levar o nome de Mistura Balcânica (sim, pelos tabacos orientais virem da região dos Bálcãs), e as que levam Black Cavendish (não feito de Burley, mas Virginia, e sem aromatizantes) são chamadas de Mistura Escocesa. Particularmente, acho frescura, chamo todas de Mistura Inglesa, até porque costuma existir controvérsia entre as classificações específicas de certas misturas. No fim das contas, o que vale é a fumada, “a rose by any other name…”.

Perique: a pimenta dos tabacos, a trufa – dizem alguns. Sim, dentre os condimentos, este é o mais poderoso. Forte em nicotina, fortíssimo em sabor, o perique, na minha opinião de merda, torna tudo interessante, quando bem medido. Não pesquisei sua história e nem pretendo, sei que, originalmente, provém da Louisiana, nos EUA. Não se ouve muito de gente que fume Perique puro, salvo alguns fortes de coração e pessoas interessadas em aprender a misturar tabaco. Reza a lenda, Aleister Crowley curtia um perique puro ensopado no rum. Histórias… histórias…, mas pode ser verdade. Normalmente, ele trás um lado picante às misturas. Pode também dar um amargor, uma lembrança de damascos e ameixas e uvas passas, pão recém-assado. Uma combinação tradicional é Virginia com Perique, conhecida nas ruas como Va/Per. Tenho um carinho especial por essas.  Exemplo: Dunhill’s Elizabethan Mixture (entre meus favoritos, sério, quero sempre ter uma lata dessa mistura em estoque), STG’s Escudo (clássica), Hearth and Home’s Rolando’s Own (cítrica, diferente, meu primeiro Vaper).

E assim vai. Existem mais tantas combinações, mas esses são os principais tabacos e combinações encontrados por aí. Só esses já servem de diversão suficiente por muitos anos. Nem me pus a falar dos cortes (ribbon, shag, plug, flake), enfim, fica para próxima. Marco aqui o início da coluna Tabacaria (homenagem ao grande Dr. Nandinho Indivíduo). Nela falarei sobre tabacos, quem sabe cachimbos, esse tipo de coisa. Não vai tomar conta do blog, não se preocupem. É só que, com a mudança do blogspot pra cá, quis fazer algo diferente, mais pessoal. Então vejamos.

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E finalmente, Noam Chomsky (early years: acho que ele parou de fumar, não tem fotos recentes dele com um cachimbo), fumando e contabilizando crimes de guerra americanos – ele vai precisar de um cachimbo maior.

*Falo dos graus variáveis de nicotina, isso pode ser observado bem objetivamente: certas folhas carregam quantidades maiores de nicotina, certos métodos de cura amenizam ou acentuam essa presença, isso é fato. No entanto, o efeito que a nicotina causa no fumante, pelo que pude observar (e leve em consideração que essa nota é baseada somente em experiência pessoal), é comparável ao do álcool. Não, você não ficará bêbado fumando. Mas sabe aquilo que acontece conforme ganhamos experiência com bebida e passamos a acreditar que certas bebidas fazem isso e aquilo com a gente? Exemplos: tequila me deixa louco, agitado, falante; uísque me relaxa, me ajuda a pensar; cachaça me embriaga imediatamente. Todas essas bebidas tem o mesmo grau alcoólico, mas o efeito muda, e varia de pessoa pra pessoa, não limitado somente a resistência de um indivíduo ao álcool. Nicotina tem disso. Tem quem seja mais ou menos resistente a ela, misturas causam impressões diferentes em pessoas diferentes, tem quem interprete certas misturas como fortíssimas, que outros consideram amenas, e vice e versa. Se você se interessa pelo hobby de fumar cachimbo ou passar a se interessar com esse texto, não considere tudo que você ler aqui ou em outros lugares como regra, sua experiência pode ser outra.

**Usei o termo “aromáticos” e “aromatizantes” algumas vezes sem pensar que poderia causar confusão. Neste texto, quando me refiro às características aromáticas de um tabaco, me refiro apenas ao seu aroma natural acentuado. Existem tabacos naturais*** e aromáticos****.

***Naturais entre aspas. Atualmente, todo o tabaco para cachimbo leva algum químico, mas ele é usado antes do processamento para adocicar a folha, às vezes depois para arredondar os sabores. Não existe, hoje, tabaco 100% livre de aditivos. Existem tabacos que não levam aditivos que alterem o sabor real do tabaco ou gerem sabores totalmente artificiais.

**** Tabacos ditos aromáticos são os que realmente levam aditivos que alteram seu sabor. Por exemplo, o tabaco pode ser banhado em uma bebida alcoólica, um concentrado artificial ou natural de frutas, mel, baunilha, chocolate, café, enfim, sabores mais palatáveis para aqueles que nunca fumaram ou não se dão com o sabor/aroma do tabaco, ou para aqueles que vivem com alguém que não suporta o aroma do tabaco. Fumei alguns, não me agradaram tanto, embora tenha curiosidade de experimentar algumas misturas aromáticas por aí. Mas são ótimos para iniciantes. Um meio termo, são os tabacos como Stave-Aged e Frog Morton’s Cellar. Estes não levam aromatizantes, mas vêm com um cubo de madeira cortado de um barril usado para envelhecer uísque, passando o sabor para o tabaco. Nunca provei desses, mas é interessante.

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