Poesia 8

foto

encontrei uma foto sua por aí

tirada depois de você sair da minha vida

desaparecer como uma estranha figurante do momento

suas pedras castanhas brilham mais que antes

você parece mais viva com um sorriso sutil nos lábios úmidos

dois sóis pendurados nas orelhas pequeninas

sempre te achei mais bela sem maquiagem mas a pintura desta foto te caiu bem

deixou teus olhos ainda mais hipnotizantes

você está aqui

ao meu lado, em minhas mãos

mas não sei onde

longe

tão distante que nem te vejo

este número não está recebendo chamadas no momento

diz a voz frígida do seu celular

estou me relacionando bem com essa voz

a cada chamada ela parece mais sensibilizada com a minha solidão

sinto sua pena de máquina criada pela minha mente já um tanto alcoolizada

são dez da noite

vejo a lua da minha janela

escrevo alguns versos entre tragos de uísque

são onze horas

abro uma garrafa de vinho

o saca rolhas é barato, invento posições sexuais com a garrafa para poder abri-la

são meia noite

a garrafa está seca, como o vinho que nela vivia

tenho tanta saudade de seu líquido quanto de você

volto para o uísque então

meu sangue é um acumulo de álcool nicotina e cafeína

enquanto isso

as notas de Miles me cortam como navalha da alma

escrevo mais uns versos

sua foto fala comigo enquanto o sol nasce

tampouco ela me ama

fecho as persianas

o sol não é boa companhia quando não está em suas orelhas

gosto mais da lua pois me lembra seus olhos

o sol me julga com seu brilho e calor

a lua me consola

por que não durmo de uma vez?

já nem me sinto acordado

não sinto meu rosto e minha cabeça arde

você não está aqui

o sorriso de sua foto me arrepia

me persegue marcado em meus olhos

em minha alma

peço a foto que te diga que eu te amei

acho

só isso

depois pode desaparecer de novo

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Poesia 7

poema de insatisfação juvenil obrigatória

quero escrever sobre minha geração. devo,

devo, do contrário, quem sou eu?

se a vida já é tão curta e o tempo coisa inventada,

se não me situo – torno-me nada

flutuando no espaço.

mas nada, nada é justamente o que esse meu tempo representa,

nada de personalidade

originalidade

loucura.

não vi as grandes mentes da minha geração famintas, histéricas, nuas, uivando.

Posso resumir nosso estado em uma frase solitária:

perdemos os acidtests.

não só o tempo, não só o local,

perdemos em espírito.

não o reinventamos –

talvez fisicamente, com festas e drogas sintéticas e música de barulho de construção

futurista.]

as grandes mentes são invisíveis, não se escondem,

nem são mudos, nem mesmo falam baixo.

a massa é cega surda e muda,

tapam seus sensos, seus sexos e suas almas,

são estátuas, sujas de merda de pombo.

como queria reunir as mentes

desses poucos que usam seus sensos com orgulho e coragem,

reunir cada um deles – músicos, escritores, pensadores, poetas –

invocar o espírito de Ginsberg, Kerouac, Garcia, Hendrix, Joplin, Slick, Morrison,

Apollinaire, Blake, Byron,]

todos. nem que fosse para que cuspissem de desprezo nossas faces indignas.

Sirva o exército, menino ruim.

(Marinheiros ilustres.)

Todo jovem, ao completar dezoito anos, deve se direcionar ao posto militar de sua cidade e cumprir com o alistamento obrigatório. Quem nunca, na infância ou na juventude, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras na televisão e no rádio. O exército foi uma de minhas fobias de criança, com aquelas propagandas em que um homem uniformizado e autoritário, gritava palavras incoerentes sobre responsabilidade e amor à pátria para uma fileira de jovens, seguida por imagens aleatórias das várias funções do militar, com os rituais e cerimônias até a prática do lança-chamas. Não entendia realmente como funcionava aquilo e, quando perguntava aos meus pais, ouvia sempre que meu pai tinha sido dispensado por excesso de contingente, e meu avô por ter pés chatos – esse último caso geralmente era complementado pela minha mãe observando que meus pés “são bastante côncavos”. Aos seis anos de idade, eu não fazia ideia do que significavam essas palavras, contingente, pé chato, pé côncavo, mas formava, ainda assim, suposições infantis e surreais das quais hoje já não me recordo, com exceção da óbvio, o pé inconveniente, que fala demais, arranja problema: o pé chato – sim, foi uma adição desnecessária essa piada, mas não tenho arrependimentos.

Quando eu atingi a maioridade e tive que me alistar, juro que estava tão ocupado com outras preocupações que só parava para pensar que aquele era o meu ano do exército quando tinha que fazer algo relacionado ao alistamento. Estava sozinho, tinha acabado de me mudar para um apartamento em uma cidade distante da minha terra mãe, começado uma faculdade e um emprego. Meus devaneios pertenciam a essas preocupações – os novos gastos, a família distante, os amigos abandonados, a namorada perdida, os horários corridos, e o exército poderia se foder ou entrar na fila. Na verdade, lembro-me que, nessa época, minhas esperanças estavam em um pedaço de legislação que havia pesquisado no ano anterior – pico do meu desespero – que dizia, mais ou menos, que pessoas com ideologias filosóficas ou religiosas contrárias ao exército poderiam ser dispensadas. Era simples, no dia do alistamento, diria à pessoa responsável pelas inscrições que sou pacifista e, portanto, deveriam me liberar. Criei coragem e, no dia do alistamento, disse exatamente isso à atendente, que me respondeu com um sonoro “e…?”, enquanto me intimidava com um olhar de nojo, esperando que eu reagisse de alguma forma. Gaguejei um pouco, mas respondi que a lei mencionava que pessoas de ideologia religiosa ou filosófica contrária ao exército, poderiam ser liberadas. Ela me olhou como se não tivesse entendido e disse “isso é só praqueles… pros adventistas”.

Acreditei naquela exceção. Poderia não ser verdade, mas, considerando as liberdades que os adventistas andam recebendo, é muito possível que eles sejam os únicos com o poder de receber dispensa automática do serviço militar. Aparentemente, eles são os únicos pacifistas oficiais do Brasil, mas isso é outro assunto.

Não tinha jeito, tinha que me alistar, no entanto isso não significava nada. Teria que esperar uns meses, me direcionar novamente até a secretaria do exército – que ficava a uma considerável distância da minha casa – para que me informassem se eu tinha sido selecionado para a segunda fase, que consistia de uma série de testes que eu logo lhes direi quais foram.

O dia dos resultados chegou logo, mas a essa altura eu já sabia que teria que fazer todos os testes, seguir até a última etapa antes da dispensa. Não tinha nenhum motivo para pensar assim, entretanto me parecia bastante óbvio que eu teria que seguir por todas as etapas, senão somente porque essa é a minha vida. A secretaria era uma sala pequena, com aparência antiga e duas mulheres de meia-idade atendendo com um humor condizente à aparência. De vez em quando, um homem uniformizado passava e gritava instruções para as senhoras; ele não estava irritado ou queria se mostrar autoritário, era como. Na parede tinha um quadro pendurado e orgulhosamente moldurado com os dizeres do juramento a bandeira. Devo ter lido compulsoriamente aquele quadro três ou quatro vezes enquanto aguardava os jovens que, antes de mim, recebiam suas condenações. Ao meu lado estava outro rapaz, acompanhado do pai orgulhoso por ter um filho que desejava seguir carreira militar. Sabia disso, pois, antes de eu ser atendido ouvi ele falando sem parar com outro pai ali presente, menos falante, sobre como o exército lhe havia sido uma experiência magnífica, como era importante o exército para ensinar responsabilidade a um jovem e toda uma série de coisas que, depois de algum esforço, consegui ignorar, graças à placa do juramento que me servia como chama de vela para meditação. A cada frase ele dava um tapa no ombro do filho, que sorria olhando para o pai como para uma estátua divina de Ho Chi Mihn.

Dirigimo-nos, eu e o orgulho do papai, praticamente ao mesmo tempo, à mesa em que se encontravam as duas senhoras, que, naquele momento, já pareciam estar mortas. Eu recebi um papel que dizia que eu fui aprovado para a segunda fase, com o endereço do local onde seriam realizados os testes para a aprovação final. Não me surpreendi, até que ouvi choro. Ao meu lado, o aprendiz de soldado chorava dizendo:

– Mas por que não, senhora? Eu quero me alistar! Eu quero servir à pátria! – algo me levou a crer que o pai da figura, ao ouvir estas palavras, teve o orgasmo mais bizarro de sua vida.
– Desculpe menino, mas não há nada que possamos fazer. – gritava o uniformizado, que surgiu do nada ao ver o choro do menino-modelo.
– Mas é o meu sonho… – seu pai teve orgasmos múltiplos, e, o uniformizado, uma indiscreta ereção, eu imaginava.
– Você estuda, meu jovem? Faz faculdade? – indagava o uniformizado.
– Engenharia naval – fungando e enxugando os olhos.
– Então! Vá estudar, aproveite a juventude. Essa sua faculdade vai te permitir um cargo bom no exército, caso você queira mesmo seguir carreira no futuro.

Enquanto esse diálogo acontecia, eu me direcionei ao cadáver que me atendia e sussurrei:

– Vocês não podem dar a minha vaga para esse coitado?

Ela não me respondeu. Só me olhou com reprovação e desgosto, o que me silenciou até o fim do processo. Por algum motivo, eu esperava um sim ou um riso, mesmo que isso fosse totalmente fora da personagem que a atendente interpretava.

Era isso. Eu, um estudante de comércio exterior, fisicamente inapto, contrário ao exército e indisciplinado, “roubei” a chance de um futuro engenheiro naval, responsável, amante do exército e com sérios problemas psicológicos (esse último é uma adivinhação minha). Qual é o critério dessa seleção? A intenção é criar uma nova geração de soldados competentes ou simplesmente ser um grande inconveniente para o “pós-adolescente” avesso à vida de soldado? Restava-me aguardar os testes e o resultado final. Mas a chave da questão era que eu queria estudar. Eu queria aproveitar a juventude. O cara ao meu lado vocalmente renunciou a essas vontades. Mesmo assim fui escolhido. E ninguém ali questionou o procedimento.

Naquela época eu era relativamente novo na cidade. Conhecia os lugares que eu frequentava, mas os nomes de ruas e bairros para mim eram outro idioma. Ao ler o endereço, precisei buscar um mapa na internet. No grande dia, o imprimi e sai pelas ruas com ele, às cinco e meia da manhã (o teste era às oito, mas tinha medo de me atrasar), fazendo consultas a cada esquina, para garantir que estava no caminho certo. Já no meio do caminho, percebi que havia um erro na impressão e estava seguindo o caminho errado o tempo todo. Procurei pedir informação, mas é difícil falar com as pessoas antes das seis. Aproximei-me de uma varredora e lhe pedi informações, ela me indicou para a direção contrária a que estava seguindo. Chegando ao local onde deveria ser, – de acordo com a varredora – a base da Marinha (a única possibilidade de alistamento em Itajaí é com a Marinha) na qual se realizariam os exames, não encontrei nada que pudesse me servir de indicação. O único ponto de referência que tinha era o Mercado Público, que eu não sabia onde ficava e nem a varredora que eu abordara antes. Falei, então, já depois das sete, com outra varredora, as únicas pessoas dispostas a ajudar no período da manhã em Itajaí. Essa sabia onde ficava o tal Mercado Público e, com o seu sotaque peixeiro irritante, disse:

– Vish nego! Pra chegar no Mercado Público tens que ir toda vida reto pa-lá-pa Igreja Matriz. Aquela igreja lá longe, ‘tas vendo?

Eu via a igreja. Ficava longe, mas era enorme, então servia de ponto de referência na cidade, independente de onde se estivesse. O que me irritou foi que, no momento que falei com a primeira varredora, estava razoavelmente próximo da igreja. Como poderia ela não saber onde ficava o Mercado se estávamos tão próximos dele? Ela quis foder com a minha vida, pensei. Mas pouco importava, tinha que percorrer um longo caminho e não me restava muito tempo.

Consegui chegar as cinco para as oito à praça onde fica a igreja. Encontrei um grupo de taxistas e perguntei em que direção ficava o Mercado Público. Um deles me direcionou para uma rua pela qual eu segui, até perceber, no meio do caminho, um homem vestido com o uniforme do exército e cabelo raspado. Perguntei se ele era da Marinha e ele afirmou. Acompanhou-me até o local do exame. Já estava uns quinze minutos atrasado, mas, aparentemente, não importava. Fui recebido por um marinheiro que perguntou se eu estava lá pelo alistamento obrigatório. O cansaço da caminhada de três horas me deixou razoavelmente hostil. Não ajudou que, para diminuir minhas chances de aprovação, no dia anterior eu tivesse ido ao mercado e comprado uma garrafa de Natu, o nobre selvagem, para me embriagar (isso sim deveria ser o dever de todo o jovem ao cumprir dezoito anos), só para fazer os exames no pico das minhas capacidades físicas e mentais. Onde está o Mickey, Pato Donald?, pensei em responder, mas tive medo que ele fosse uma das autoridades que é crime desacatar. Então simplesmente afirmei e o segui até a sala de espera, na qual se encontravam dezenas de jovens que aguardavam seu nome ser gritado por outro uniformizado, que ficava em frente a um computador anotando as informações dos examinados.

Esse processo seria muito mais rápido se o militar em questão soubesse usar mais de um dedo para digitar. Por isso meu atraso foi irrelevante. Cheguei lá às oito e vinte, mas só fui chamado depois das nove.

Começou o tal teste. Fomos encaminhados para uma espécie de sala de aula, com carteiras e quadro negro. Lá um marinheiro, de cargo superior ao pato Donald da recepção, gritava instruções. Ficava imaginando o quanto o governo não gastava com pastilhas de garganta para os soldados.

– O teste se divide em: um exame vocacional e intelectual, um exame físico e uma entrevista. O exame intelectual se divide em testes de lógica, matemática e engenharia mecânica.

Ao ouvir isso, lembrei-me do engenheiro naval e de como ele seria muito mais apto para tais testes do que eu, um simples auxiliar de exportação de uma firma de despacho aduaneiro. Até que eu li a prova e vi que pouco importava a aptidão do candidato. Qualquer um que tivesse passado pelo ensino fundamental, talvez nem isso, conseguiria fazer os tais testes. Queria muito errar as questões, mas tinha medo que minha tentativa se tornasse óbvia. Tive que disfarçar e fazer parecer que os erros eram um acidente. Contudo, não deveria me preocupar com isso ainda. Primeiro teria que completar o exame vocacional. Já tinha feito um desses, o resultado foi “algo na área de humanas ou gestão”, nada nem sequer remotamente similar à militar.

Até hoje questiono a lógica daquele teste vocacional. Tínhamos uma série de quadros ilustrados indicando cada uma das possíveis áreas de atuação de um militar. Com isso, marcávamos aquela que nos parecesse mais agradável. Um dos quadros tinha como opções: Operador de linhas telefônicas; operador de lança-chamas; mecânico; motorista. – Escolhi operador de linhas telefônicas, não sabia quais eram as funções, nunca operei uma porra de linha telefônica, mas estava escolhendo sempre a opção mais distante do serviço militar regular. Em outra questão dessa série, marquei que gostaria de ser médico, afinal todo o assistente de exportação que se preze sabe realizar cirurgias emergenciais.

O maior dos insultos foi o exame intelectual e lógico. Principalmente por causa do fiscal da sala, que ficava nos rodeando e pressionando, como se aquele fosse o teste mais difícil concebível pela humanidade. Não vou falar sobre o teste de lógica, pois até hoje não o entendi (uma série de formas geométricas, e comparações, nesse pude forçar erros a vontade e sem medo), mas o tal teste intelectual foi possivelmente o mais fácil que eu já vi em toda a minha vida. Tão fácil que o mais difícil era escolher uma opção errada que não parecesse tão forçada e levantasse suspeitas das minhas tentativas de forjar os resultados.

Uma das perguntas tinha o desenho de um balde, nele estavam marcados cinco pontos diferentes: um no topo da alça, e quatro em cada “extremidade”, superior e inferior do balde… balde de metal. O texto era: considerando a imagem abaixo, em qual dos pontos o soldado deve amarrar uma corda para erguer o balde sem derramar uma gota d’água? – Marquei que o ponto correto era o inferior direito. Não sei como amarraria uma corda nesse ponto, já que a corda teria que atravessar o balde de metal sólido para ser amarrada nesse ponto, mas foda-se, era o que eu queria fazer e o teste aceitava essa possibilidade.

Durante a prova de matemática, o fiscal ficou ainda mais excitado e passou a pressionar os possíveis recrutas ainda mais, dizendo que “matemática é sempre difícil, mas um soldado deve ser rápido durante situações extremas”. A situação extrema, para ele, era o problema “2+5+3-4”, que obviamente é igual a 14. Terminei a prova com tempo de sobra, o que chamou a atenção do fiscal, mas ainda teria que esperar o resto da sala, até que cada um de nós seria chamado, em grupos de três, para ainda outra sala, na qual seria realizado o exame físico.

Entrei na sala, que mais parecia uma enfermaria com um quadro negro, e, antes mesmo de dizer bom dia, os examinadores, dois homens (provavelmente soldados, mas poderiam muito bem ser só dois loucos que invadiram o quartel vestindo jalecos), exigiram que eu e os outros dois jovens que me acompanhavam nos despíssemos e ficássemos somente em nossas roupas de baixo. Os outros dois que estavam comigo, cumpriram a lei social que diz: um grupo de homens seminus trancados em um mesmo ambiente não devem fazer contato visual. Ou, pelo menos, eu acho que a cumpriram, não os olhei para verificar. O examinador pediu para que subíssemos em uma plataforma e puxássemos a barra de ferro acoplada a ela, o que, supostamente, mediria nossa força. Estava fraco, não tinha tomado café da manhã, e minha cabeça estava me matando por causa do uísque da noite anterior, todos esses fatores devidamente planejados com antecedência. Fiz o máximo de força possível, mas não creio que o resultado tenha sido muito satisfatório, vide os olhares de reprovação que me foram lançados. Nunca recebi tantos olhares de reprovação na minha vida como naquela época. Tudo ficou ainda mais estranho quando fomos chamados individualmente para um canto coberto por um biombo. Lá o segundo examinador fazia uma espécie de inspeção genital no examinado. Toda a movimentação manual era feita pelo próprio examinado, mas mesmo assim, não estava – e ainda não estou – acostumado a manipular meu pênis em frente a outro homem, ainda mais um que nem me deu bom dia. Mas o pior de tudo, o que realmente estragou minha semana, foi que ele nem me ligou no dia seguinte.

Todo o constrangimento passou, estavam me direcionando para a última fase dos exames – a entrevista. Fui encaminhado para uma fila, relativamente curta e que se movia rapidamente, ela levava até o escritório do responsável por aquela área da Marinha. Não sei seu cargo, não me importava o suficiente para investigar. Estava cansado, com fome e me sentindo péssimo, então ficava feliz ao ver que as entrevistas eram breves.

Chegou a minha vez, entrei e recebi autorização para me sentar.

– Seu nome é… Raphael Saaal… ce-do? É isso? – ele começou, com uma voz firme e desnecessariamente alta.
– Isso mesmo. – todas as minhas respostas foram curtas, cansadas e em voz baixa. Basicamente um oposto ao entrevistador.
– O senhor… Me desculpe a pergunta, mas hoje em dia ela é necessária. O senhor é homem?

Em minha mente se passaram as mais diversas respostas para essa pergunta, entretanto, tudo que eu queria era fazer a entrevista, receber o resultado e ir embora. Queria esquecer de todo aquele dia como havia esquecido da noite passada. Então eu segurei o “depende, na verdade só transo com árvores, e às vezes… (sussurrando) elas transam comigo” ou o sólido e seguro “também” ou o provocador “se assim o senhor quiser…” na garganta, respondi que sim e seguimos em frente. Mais tarde, ao visitar uns amigos em minha cidade natal, ouvi que um deles tinha dito ser homossexual. Ele foi dispensado na hora. A única coisa que lhe disseram ao sair foi: – “Vê se come uma bocetinha um dia desses, rapaz!” – Em retrospecto, deveria ter feito o mesmo, ou mantido minha versão ecologicamente correta.

– Você estuda comércio exterior? Há quanto tempo?
– Comecei esse ano, então, uns quatro meses.
– Muito bom. Tem interesse em se alistar?
– Não. – ele riu da minha resposta rápida. Acho que ele ainda não tinha terminado a pergunta quando eu respondi.
– Vou ver o que posso fazer por você… Sabe nadar?
– Não, senhor.
– Se alistando pra marinha sem saber nadar?! Como assim? – ele parecia indignado pela falta de lógica (eu não o culpo…), contudo, Marinha é a única opção de alistamento em Itajaí, e ele sabia disso melhor que eu. Não apontei a estupidez do seu comentário, novamente, por medo do famigerado desacato, que pode incluir de ofensas verbais até respostas educadas mas contrárias à vontade da dita autoridade.
– Pois é, senhor.
– Então, com você é só nos cem metros fundos?
– E sem volta, senhor.

Estava encerrada a entrevista e, com ela, todo o exame. Voltei à sala de espera inicial, até que um dos superiores de lá apareceu com os certificados carimbados com o resultado. Chamou os nomes daqueles que estariam dispensados, os outros teriam que aguardar por novas instruções. Bateu-me o frio na barriga. E se minhas respostas erradas no primeiro teste tivessem baixado tanto minha nota que eu seria considerado o soldado perfeito? Tive medo. Mas foi um medo infundado. Fui dispensado por excesso de contingente. Não esperava o contrário, acontece que imaginava que iria ser dispensado muito antes. A sequência de surpresas desagradáveis me fez achar que teria que seguir o caminho todo e perder um ano da minha vida fazendo seja lá o que for que a Marinha faz.

É a isso que tudo se resume. O Brasil exige que todos os seus homens se alistem aos dezoito anos, mas como este país já é um dos que mais recebe voluntários interessados em seguir carreira, a grande maioria é dispensada. Para quê organizar toda uma série de exames e processos, se já se sabe que de nada serve? É como prestar um vestibular para uma faculdade que já distribuiu suas vagas. Além disso, por que o exército militar brasileiro, mesmo que este não recebesse voluntários o suficiente, precisaria de tantos recrutas?* O último grande desempenho brasileiro em guerra foi durante a 2ª Guerra Mundial, e por grande, eu realmente quero dizer quase relevante. É verdade que nossos soldados foram úteis em muitas batalhas, mas a ausência brasileira não significaria a vitória alemã. Todos os recentes esforços do exército para a ocupação das favelas não deveriam existir. Ocupar favela** é serviço de policial, não soldado, no entanto, como a polícia não está preparada para grandes operações, o governo utiliza o exército como tapa-buraco. Como o Brasil é o país da gambiarra e do jeitinho, não adianta discutir. A não ser que haja uma espécie de Revolução Francesa por aqui nos próximos cinco anos (guilhotina inclusa), não haverá nenhuma mudança nesse sistema. Junto da minha dispensa, recebi o horário, data e endereço do Juramento à Bandeira, independentemente do que se passava pela minha cabeça.

O mais perturbador foi ver de perto a arrogância dos militares. Nunca simpatizei com esse grupo, acho que o mundo seria melhor sem eles. Militar é como um advogado, se a humanidade fosse perfeita, eles não seriam necessários. Durante o juramento à bandeira, fui obrigado a ouvir o responsável pela cerimônia proferir a palavra “civil” mais vezes do que eu escrevi a palavra “exame” ou “teste” nesse texto. Não há problema nenhum com essa palavra. Civis são todos que não fazem parte do exército de um país e, portanto, devem por ele ser protegidos. Além disso, pagam, por meio de tributos, o salário de cada soldado, sargento, general e almirante, inclusive a pensão dos putos que tomaram o país durante a ditadura e torturam e sumiram com milhares de “indignos e sujos” civis. O militar é um agente de segurança do governo, que existe para a proteção da soberania e do povo de uma nação, não necessariamente tornando-o superior àqueles cujo seu dever é proteger. A única ocasião em que militar é superior ao civil é durante um governo militar, o que já aconteceu no Brasil e, para não dizer coisa pior, não deu muito certo e, graças a Dionísio, terminou. Na cerimônia de juramento à bandeira, no entanto, fomos ameaçados com prisão mais de uma vez por qualquer coisa que pudesse ser interpretada como desacato, e o termo civil só faltou vir seguido de uma escarrada no chão.

O homem cujo título eu não me dignei a descobrir, tinha um tom de desprezo claro em sua voz, sempre que nos dizia que aquele momento significava que nos manteríamos como civis. Era possível sentir o nojo em sua pronúncia sempre que ele dizia essa palavra.

Mas de tudo isso, o maior absurdo é que, mesmo depois de tantos anos de opressão em uma ditadura militar – 0pressão esta, de consequências ainda desconhecidas, muitas vítimas ainda não foram encontradas -, o país ainda força seus jovens a fazer parte dessa instituição que realizou um golpe de estado. E, como se não bastasse, lhes dá autoridade o suficiente, para tratar o povo, seus empregadores, como lixo. Em minha utopia pessoal, o Brasil dá fim ao exército militar. Os desempregados são incorporados à polícia militar, assim como todo o armamento e fundos de investimento. Guerras não são uma ameaça para esse país, mas mesmo que fossem, não é como se o exército brasileiro fosse capaz de gerar grande resistência, perderíamos em algumas semanas, salvo se o inimigo fosse a Bolívia, porém, até nessa hipótese, tenho minhas dúvidas. Tornaríamos uma força obsoleta, em uma força útil. O alistamento deixaria de ser “voluntariamente obrigatório”, como é hoje, e seria como na polícia, concurso. Não haveria mais riscos de uma nova ditadura militar (não que haja hoje, mas nunca se sabe***), a polícia teria fundos, pessoal e armamentos, e os jovens do amanhã não teriam que passar pelo que eu passei.

Quanto a mim, ao sair do juramento a bandeira – tendo mantido o silêncio durante a parte que dizia sobre “morrer pela pátria” -, passava do meio-dia e o sol estava forte. Avistei não muito distante, um bar, e nele uma mesa na qual se encontrava um grupo de pessoas se refrescando com cervejas. Pensei em ligar para a empresa na qual trabalhava e inventar algum atraso na cerimônia, avisando que não voltaria após o horário de almoço, indo, então, juntar-me às cervejas, mas não poderia. Invejei-os por um instante e fui ao trabalho.

*E homens desse Brasil que ainda não entenderam qual é a do feminismo, parem com essa de exigir alistamento obrigatório às mulheres como medida de igualdade. Isso é burrice e pega mal. A ideia é acabar com esse sistema imposto por esse velho e conservador ideal de responsabilidade e disciplina que não se encaixa mais em nosso tempo.

**A ocupação das favelas é assunto para outro texto. Ao que parece, a militarização de processo só serviu para oprimir as partes não privilegiadas de nossa sociedade. Antes de mais nada, preciso pesquisar estes acontecimentos. Muita coisa mudou de 2012 para cá, tanto na minha visão política e social quanto na sociedade. Essa é a graça de revisitar esses textos velhos.

***Hoje não botaria tanta certeza nessa frase. São tantos eventos de 1964 se repetindo. A família tradicional brasileira parece não se cansar de suas cruzadas. Bolsonaro é o grande fantasma daquela época e está aí para nos assombrar. É o que acontece quando não se dá o fim devido a um sistema opressor e, ao contrário, apenas se o tira do poder e ignora seus filhotes. Crimes não remediados se repetem. Temos que lembrar. O que precisamos de verdade agora é de um novo Roberto Piva.

Poesia 6

horrores da guerra

os pássaros cantam, voando ao redor das cadeiras de plástico,

as abelhas zunem pelas lixeiras brigando com os pássaros pelo território,

bicadas e ferroadas em troca de uma bala encharcada de saliva humana indiferente.

a abelha, uma vida por um ideal – militares entre os insetos –

sem propósito, sem conhecimento, sem sabedoria, o que importa é a batalha e a morte

inevitável.]

o canto cessa por um instante, mas a abelha morre,

entrega seu coração em um golpe final.

o pássaro atropela o cadáver, esmaga seu corpo, para alcançar seu alvo, e

bica a bala por um instante, mas a abandona colada ao piso, seguindo seu voo.

a abelha geme seus zumbidos finais, orgulhosa de sua vitória.

chama suas companheiras, em louvor de batalha, a que

elas respondem em canto confiante, ansiosas pelo seu próprio final.

uma delas é pisoteada sem cerimônia por um pé inexplicável e

outra perde uma batalha contra um cão e outra fica grudada no doce descartado e outra

ainda batalha incessantemente]

com um dos inúmeros sóis impenetráveis que a ela muito incomodam e devem morrer.

mas a rainha está protegida

e o mel da honra é infinito.

tudo está quieto no mundo das asas e zumbidos.

A natureza e a virtude das indulgências – parte 2

Leia a parte 1: https://deliriumscribens.wordpress.com/2016/02/25/a-natureza-e-a-virtude-das-indulgencias-parte-1/

11-26tobaccoblog

Este, meu interesse mais recente e que do ano passado para cá tomou conta de parte da minha vida, algumas das partes mais agradáveis, por assim dizer, o tabaco. Nunca fumei cigarros, o que torna este meu novo hábito um tanto mais pitoresco. Pelo que pude observar em estatísticas internacionais, por essa vasta rede de dados chamada internet, os jovens fumantes de cachimbo são migrantes dos cigarros. Quando cansam das tosses e aditivos e compras de dezenas de dezenas de maços, compram um cachimbo, por um valor – admito – bastante alto, que se torna um companheiro para a vida, e algumas latas de tabaco para cachimbo – também caras, no Brasil – que duram por mais de um mês. Eu não segui essa onda. Não sei de onde vim para me ver dentro desse mundo, para dizer a verdade. Houve, definitivamente, uma influência por parte dos grandes fumantes do passado. Não que eu acreditasse que compartilhar desse hábito fosse me deixar mais próximo deles. Havia minha própria curiosidade para com a nicotina, contida somente pelos danos à saúde associados aos cigarros, que eu costumava temer. Ao mesmo tempo, esse interesse, tanto me refiro agora ao tabaco quanto ao álcool, deve partir daquele velho conceito de desejo de morte. Não exatamente uma vontade de morrer, mas de pegar aquilo que mata pela mão e dizer: vem. Não tanto para demonstrar coragem, é mais próximo do sentimento que leva pessoas a pularem de um avião equipados apenas com um paraquedas, e faz tão pouco sentido um quanto o outro. O tabaco, por outro lado – e esse é o lado que mais me atrai -, é um prazer sensorial, não emocional. Não atrai pela adrenalina, mas pelas impressões que ele tira dos cinco sentidos – e, sim, trabalha-se os cinco com os cachimbos e charutos.

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Um sonho de consumo.

Claro, tem também o prazer químico. Antes de mais nada, acho que os críticos do tabaco deveriam parar de insistir que a nicotina não gera prazer. Não, o prazer de fumar não é apenas o alívio de uma necessidade que antes não existia, mas passou a existir devido ao vício imposto pelo químico. Nada funciona assim. O cérebro não gera a necessidade por determinado estímulo partindo da ausência do tal estímulo. Para precisar sentir, é preciso primeiro sentir sem precisar. Talvez, principalmente para os fumantes de cigarro, essa necessidade – vício – surja muito mais rápido e, eventualmente, não se sinta mais nenhum estímulo, apenas alívio. Não sei, já falei que não fumo cigarros. Mas não é minha experiência com o cachimbo. Pelo que pude observar, dizer algo assim seria o mesmo que dizer que chocolate não tem gosto. O chocolate apenas, após ser ingerido tantas vezes, desperta uma necessidade no cérebro humano que precisa ser aliviada. E antes que digam que não há comparação, chocolate é tão viciante quanto cigarro, e faz muito mal se consumido em excesso. Arriscaria dizer que os dois são equivalentes – experimente comer 20 barras por dia e me diga se o efeito não é similar a fumar 20 maços. Os danos que o cigarro causa ao pulmão, traqueia, boca, dentes; o chocolate causa ao corpo, estômago, dentes etc. Pode, talvez, não causar câncer, mas causa diabetes e tudo que vem com essa doença. Enfim, pena que eu não veja alertas gráficos sobre os perigos do consumo excessivo de chocolate nas embalagens das barras, logo um produto tão consumido por crianças. (Sim, pretendo, ao longo do texto e da minha vida, lançar esses pequenos ataques às coisas que matam, mas são social e comercialmente bem vistas. Apelo emocional não é exclusivo aos antitabagistas.)

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Bertrand Russell, filósofo/matemático, frequentemente visto com um cachimbo na boca. Esta foto foi tirada no seu aniversário de 23 anos.

A nicotina, que causa o relaxamento característico, junto de uma sensação de alerta, aumento da atenção e capacidade de concentração (sim, existem estudos que dizem que a nicotina, com moderação, auxilia a memória e previne contra o Alzheimer e mal de Parkinson), mas que, quando em altas concentrações, pode causar náuseas, tontura e sonolência, é gerada naturalmente pela folha do tabaco. Aqui o que eu estava falando sobre o tal desejo de morte, a nicotina é uma espécie de inseticida natural que a folha desenvolveu. As concentrações das folhas, se grandes e comidas cruas, poderiam matar um humano. Ainda, mesmo sendo, por todas as definições, um veneno, na Grécia antiga, Heródoto, o historiador, já descrevia pessoas inalando a fumaça de folhas queimadas por meio de um objeto de argila que bem poderia ser um cachimbo primitivo. Antes disso, cachimbos e resquícios de tabaco foram encontrados junto às múmias no Egito. Sem falar que o consumo da fumaça emitida pela queima de tabaco e outras ervas é tradição em quase todas as culturas indígenas. Faz parte da história humana, em comum com o consumo de álcool, essa autodestruição em troca de prazer. E que essas minhas romanceadas não soem como uma grande defesa ao consumo de tabaco, é apenas parte da justificativa para o meu uso. Não incentivo ninguém a fumar, ou o contrário. Acredito plenamente que todos são responsáveis pelos seus próprios atos.

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Culpar este texto por seu futuro câncer de boca seria um ato de má fé.

Mesmo não sabendo o que foi que me atraiu no tabaco, já pego por esse hábito, sei ao menos explicar, dentre os diferentes meios de consumo do tabaco, por que o cachimbo. Tem algo no objeto e sua forma de preparo. Consideremos o cigarro. Ele vem pronto, dezenas de palitos cheios de tabaco e tantos outros químicos, enfileirados, prontos para acender. Basicamente fast food; rápidos, fáceis e eficientes. Cigarros não oferecem um longo período de contemplação nem sabores diferenciados a serem descobertos, mas, como não é o que o fumante de cigarro procura, não importa. O charuto, por sua vez, é mais próximo do cachimbo em nuance e tempo, mas um charuto é um charuto e, uma vez queimado – em uma, duas ou três horas -, ele se vai. Resta dele somente uma bituca inacendível e a memória do que ele foi. É como uma noite de sexo inesquecível, uma paixão que só pode ser verdadeira, mas que acaba ali, e os envolvidos nunca mais se encontram. As sensações podem ser revividas, mas, similar que seja, não é a mesma coisa. O cachimbo, este dura para sempre. Um bom cachimbo feito de briar vive mais que o dono. É um casamento, normalmente polígamo – é importante rotacionar os cachimbos, deixá-los descansar do fogo por pelo menos vinte e quatro horas. Eles carregam uma variedade aparentemente infinita de tabacos, em diferentes misturas de folhas, cortadas de tantas maneiras diferentes.

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Propaganda da Peterson, quando esse tipo de coisa ainda era permitido. Se bem que sou contra propagandas de tabaco. E contra propagandas de cerveja, fastfood, doces em geral, bancos, carros, governo…

E aqui retorno àquela mesma fascinação que descrevi quando falei sobre uísques e cervejas. A diferença entre cada folha de tabaco é tão pequena, mas, dependendo da espécie, local de plantio, método de cura e tratamento, tudo mundo, o sabor, o teor de nicotina, o aroma. E as misturas entre as diferentes folhas formam ainda mais variáveis.

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E falando de coisas proibidas, lembra dessa cena da sua infância?

Agora, aos que não fumam (todos os possíveis leitores, imagino), peço paciência. Cheguei naquela parte didática em que falo o pouco que sei das folhas mais presentes nas misturas. Sim, muita emoção.

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Dunhill merece e terá postagem própria.

Virginia: esse é o tabaco mais comum em geral, creio. Folha muito variável em si mesma, pelo tempo de cura. O que se diz é que, quanto mais escura a folha, mais robusta e forte em nicotina. Quando mais claras (e existem nomes específicos dependendo de cada método de tratamento e todas esses detalhes mágicos, e até os conheço de leve, mas não os memorizei e nem o objetivo aqui é servir de enciclopédia, seja para o tabaco ou para o álcool; o objetivo dessas postagens é mais pessoal e suas descrições têm caráter apenas contextualizante para o leigo completo, sem falar de que pode servir de introdução básica à introdução básica) tendem ao sabor mais cítrico, leve, com aroma de grama recém-cortada e chá de ervas aromáticas, doce, levemente açucarado. Conforme escurecem se tornam mais complexas, densas, de sabor mais terroso, a grama já não é tão fresca. O Virginia é um dos principais tabacos nas misturas, contrabalançam os tabacos de “tempero” – a serem descritos – e podem ser fumados puros. As misturas de tabaco de cachimbo mais famosas e aclamadas costumam ser Virginia puro, exemplo: Samuel Gawith’s Full Virginia Flake, Capstan Blue Flake ( favorito do Tolkien, diz-se), Dunhill Flake etc.

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Tolkien: o favorito da galera.

Burley: considerado um camaleão entre os tabacos, costuma ser usado para encorpar as misturas, já que, dependendo do tipo de Burley (e existem tipos, só não conheço muito bem essa folha para me estender sobre eles), ele se apropria de características dos outros tabacos que o acompanham, deixando somente a mistura com uma fumaça mais volumosa e um sabor amanteigado. Sozinho, no entanto, ele pode ser um belo tabaco de se conhecer. Temperado, com um sabor que lembra nozes, manteiga e chocolate, tem uma alta quantidade de nicotina*, mas vale a pena conhecer. É através de processos diferenciados de cura do Burley que sai o Cavendish, usado muito em aromáticos americanos (e brasileiros), e o Kentucky, tabaco forte e temperado, carro-chefe do JackKnife Plug (excelente mistura, capaz de derrubar uma mula, sobre a qual falarei em detalhes um dia). Exemplos de misturas com Burley: 4 Noggins – Bald-Headed Teacher (meu primeiro tabaco de qualidade, agradecimentos ao Dr. Luis Graciano pela indicação), Solani – 656 – Aged Burley Flake, Peterson’s Irish Flake (outra famosa por derrubar até os equinos mais fortes).

Latakia: sim, a misteriosa Latakia, folha da qual o iniciante escuta assim que adentra o mundo dos tabacos. Basicamente, são tabacos turcos/orientais secados ao sol e enfumaçados na fogueira. Antigamente, a maior parte da Latakia vinha de… Latakia/Lataquia/Laodiceia, na Síria. Porém, nos últimos anos, devido aos conflitos constantes na região, a folha passou a ser produzida no Chipre. Alguns produtores de tabaco ainda mantêm estoques de Latakia da Síria, datados da década de 1970, 1980. Está cada vez mais raro, mas é possível encontrar. A diferença? Não sei, mas estou para descobrir, comprei uma lata de tabaco que leva Latakia da Síria, se perceber algo conto para vocês. O que dizem é que a Latakia da Síria é mais aromática e sutil, menos enfumaçada que a do Chipre. É, de todas as formas, um tabaco de tempero. Seu sabor é forte e facilmente perceptível, até em pequenas quantidades. Em grandes quantidades, domina a fumada. Exemplos: Dunhill’s My Mixture 965 (exemplo em que a Latakia tempera), Dunhill’s Nightcap (exemplo em que a Latakia domina – entrarei em detalhes na minha postagem sobre a Dunhill), Esoterica Tobacciana Margate, Capitain Earle’s Stimulus Package (quase Latakia pura).

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Derrida – fumando um cachimbo e confundindo as pessoas.

Turcos / Orientais: outro tipo de tabaco de tempero, os tabacos que enfumaçados viram Latakia são os chamados Turcos ou Orientais. A razão disso é, obviamente, devido à procedência destes. Existem vários tipos de orientais: Yenidje, Izmir, Basma, Samsun etc. Normalmente associados ao sabor agridoce, com um aroma de incenso, altamente aromático (não aromatizado**). Existem diferenças entre cada tipo além do nome, mas acho que só os grandes especialistas são capazes de reconhecer. Com exceção, talvez, do Basma, esse é reconhecível em qualquer canto. Exemplo: Peterson’s Old Dublin (contém Basma e outros orientais), Dunhill’s Durbar, Balkan Sasieni. Misturas de Virginia, Latakia e Orientais/Turcos costumam ser chamadas de Misturas Inglesas. Existem variações, misturas que foquem no oriental podem levar o nome de Mistura Balcânica (sim, pelos tabacos orientais virem da região dos Bálcãs), e as que levam Black Cavendish (não feito de Burley, mas Virginia, e sem aromatizantes) são chamadas de Mistura Escocesa. Particularmente, acho frescura, chamo todas de Mistura Inglesa, até porque costuma existir controvérsia entre as classificações específicas de certas misturas. No fim das contas, o que vale é a fumada, “a rose by any other name…”.

Perique: a pimenta dos tabacos, a trufa – dizem alguns. Sim, dentre os condimentos, este é o mais poderoso. Forte em nicotina, fortíssimo em sabor, o perique, na minha opinião de merda, torna tudo interessante, quando bem medido. Não pesquisei sua história e nem pretendo, sei que, originalmente, provém da Louisiana, nos EUA. Não se ouve muito de gente que fume Perique puro, salvo alguns fortes de coração e pessoas interessadas em aprender a misturar tabaco. Reza a lenda, Aleister Crowley curtia um perique puro ensopado no rum. Histórias… histórias…, mas pode ser verdade. Normalmente, ele trás um lado picante às misturas. Pode também dar um amargor, uma lembrança de damascos e ameixas e uvas passas, pão recém-assado. Uma combinação tradicional é Virginia com Perique, conhecida nas ruas como Va/Per. Tenho um carinho especial por essas.  Exemplo: Dunhill’s Elizabethan Mixture (entre meus favoritos, sério, quero sempre ter uma lata dessa mistura em estoque), STG’s Escudo (clássica), Hearth and Home’s Rolando’s Own (cítrica, diferente, meu primeiro Vaper).

E assim vai. Existem mais tantas combinações, mas esses são os principais tabacos e combinações encontrados por aí. Só esses já servem de diversão suficiente por muitos anos. Nem me pus a falar dos cortes (ribbon, shag, plug, flake), enfim, fica para próxima. Marco aqui o início da coluna Tabacaria (homenagem ao grande Dr. Nandinho Indivíduo). Nela falarei sobre tabacos, quem sabe cachimbos, esse tipo de coisa. Não vai tomar conta do blog, não se preocupem. É só que, com a mudança do blogspot pra cá, quis fazer algo diferente, mais pessoal. Então vejamos.

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E finalmente, Noam Chomsky (early years: acho que ele parou de fumar, não tem fotos recentes dele com um cachimbo), fumando e contabilizando crimes de guerra americanos – ele vai precisar de um cachimbo maior.

*Falo dos graus variáveis de nicotina, isso pode ser observado bem objetivamente: certas folhas carregam quantidades maiores de nicotina, certos métodos de cura amenizam ou acentuam essa presença, isso é fato. No entanto, o efeito que a nicotina causa no fumante, pelo que pude observar (e leve em consideração que essa nota é baseada somente em experiência pessoal), é comparável ao do álcool. Não, você não ficará bêbado fumando. Mas sabe aquilo que acontece conforme ganhamos experiência com bebida e passamos a acreditar que certas bebidas fazem isso e aquilo com a gente? Exemplos: tequila me deixa louco, agitado, falante; uísque me relaxa, me ajuda a pensar; cachaça me embriaga imediatamente. Todas essas bebidas tem o mesmo grau alcoólico, mas o efeito muda, e varia de pessoa pra pessoa, não limitado somente a resistência de um indivíduo ao álcool. Nicotina tem disso. Tem quem seja mais ou menos resistente a ela, misturas causam impressões diferentes em pessoas diferentes, tem quem interprete certas misturas como fortíssimas, que outros consideram amenas, e vice e versa. Se você se interessa pelo hobby de fumar cachimbo ou passar a se interessar com esse texto, não considere tudo que você ler aqui ou em outros lugares como regra, sua experiência pode ser outra.

**Usei o termo “aromáticos” e “aromatizantes” algumas vezes sem pensar que poderia causar confusão. Neste texto, quando me refiro às características aromáticas de um tabaco, me refiro apenas ao seu aroma natural acentuado. Existem tabacos naturais*** e aromáticos****.

***Naturais entre aspas. Atualmente, todo o tabaco para cachimbo leva algum químico, mas ele é usado antes do processamento para adocicar a folha, às vezes depois para arredondar os sabores. Não existe, hoje, tabaco 100% livre de aditivos. Existem tabacos que não levam aditivos que alterem o sabor real do tabaco ou gerem sabores totalmente artificiais.

**** Tabacos ditos aromáticos são os que realmente levam aditivos que alteram seu sabor. Por exemplo, o tabaco pode ser banhado em uma bebida alcoólica, um concentrado artificial ou natural de frutas, mel, baunilha, chocolate, café, enfim, sabores mais palatáveis para aqueles que nunca fumaram ou não se dão com o sabor/aroma do tabaco, ou para aqueles que vivem com alguém que não suporta o aroma do tabaco. Fumei alguns, não me agradaram tanto, embora tenha curiosidade de experimentar algumas misturas aromáticas por aí. Mas são ótimos para iniciantes. Um meio termo, são os tabacos como Stave-Aged e Frog Morton’s Cellar. Estes não levam aromatizantes, mas vêm com um cubo de madeira cortado de um barril usado para envelhecer uísque, passando o sabor para o tabaco. Nunca provei desses, mas é interessante.

A Redoma de Vidro (The Bell Jar) – Sylvia Plath [1963]

Publicado originalmente em 15 de abril de 2015 (recente, sim, mas apropriado para ser repostado hoje):  http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/04/a-redoma-de-vidro-bell-jar-sylvia-plath.html

É estranho quando um livro bom é ofuscado por um livro muito bom. Pra mim, em particular, é prejudicial, já que eu tento escrever resenhas depois das leituras. O que aconteceu foi que eu As Virgens Suicidas, do Jeffrey Eugenides, e ao terminar achei muito bom. Pretendo falar mais sobre essa outra leitura mais tarde, mas o que aconteceu aqui basicamente foi, antes de pegar As Virgens Suicidas, estava lendo 50 Tons de Cinza – e existe mais uma outra explicação sobre isso também que não vem ao caso agora e que eu vou guardar até que minha resenha desse livro saia, o que vocês podem saber sobre isso por enquanto é que eu fui pago pra fazer essa leitura -, então qualquer coisa que eu lesse, uma frase bem feita que fosse, faria eu me apaixonar por um livro. Foi desse degrau que eu subi para a leitura de As Virgens, do subterrâneo para o décimo andar, assim num pulo. Aí eu peguei A Redoma de Vidro (The Bell Jar), da Sylvia Plath, logo em seguida – algo em mim queria ler sobre moças depressivas, provavelmente. E tudo aquilo que eu tinha construido mentalmente sobre a qualidade de As Virgens Suicidas ruiu. Essa resenha não vai nem deveria comparar os dois livros. Mas existem paralelos bem leves entre os dois e o leitor mais dedicado do blog vai poder, mais tarde, fazer essa comparação por si mesmo, lendo uma resenha após a outra.

A Redoma de Vidro, que eu decidi resenhar primeiro, é considerado um roman à clef, por causa dos paralelos entre a história supostamente fictícia do romance e a vida da autora, que foi internada por um tempo e, no fim, se matou por causa da depressão – esse não é o fim do livro, é o fim da autora. O alterego de Sylvia é Esther Greenwood, uma garota de seus 19 anos, estudante universitária em um estágio de verão para uma famosa editora de Nova Iorque. A narrativa varia entre o “presente” – embora ela toda seja escrita no passado – e as memórias da personagem – a escola, o namorado, descobertas sobre a sexualidade etc. Normalmente esse tráfego entre os tempos se dá de forma quase proustiana, partindo de um momento que engatilha a lembrança do passado. Naquele verão, no entanto, Esther percebe algo de diferente em si mesma. Uma incerteza que antes não existia. Ela não sabe o que quer, não consegue mais ler, não consegue mais escrever ou dormir. Aos poucos, com o fim do estágio e a volta à casa da mãe, a vida vai se tornando insuportável e, quase sem saber por que, ela planeja diversas tentativas de suicídio, até decidir qual ela vai por em prática. Resgatada, ela se vê entre clínicas psiquiátricas, passa por tratamento de choque, é remediada, tudo numa tentativa de trazer de volta a Esther de antes, seja ela quem for.

Esse livro é bem mais complicado do que parece. Não é de surpreender que ele tenha sido um dos mais populares entre garotas jovens americanas por tantos anos. Pude ler no original e a prosa poética da Sylvia desliza como música pela mente, mas isso não é nada comparado a sinceridade dentro do texto. Mesmo que o leitor não tenha nada em comum com Esther ou Sylvia, em nenhum momento consiga se identificar com o que lhe é descrito, é impossível não sentir alguma empatia. Não é à toa que ele tenha sido primeiramente publicado por pseudônimo, sendo ele uma chave capaz de abrir as portas daquilo que havia de mais interno na vida de Sylvia, sua mente, seus medos, suas dúvidas e até sua doença, que ela, tendo vivido no tempo que viveu, não pôde compreender tão bem quanto nós tentamos compreender nos dias de hoje.

Nunca fica claro o grau de depressão de Esther, se é bipolaridade ou o quê. Ela nunca é diagnosticada e isso só aumenta a sinceridade no texto. Hoje, que todo mundo tem acesso a livros de psicologia para iniciantes ou à Wikipedia, não é difícil pra um autor medíocre escrever sobre depressão criando um personagem que segue a risca cada um dos sintomas da doença, como quem segue uma lista de ingredientes. A Redoma de Vidro não é assim. Esther não sabe o que tem, por consequência, nem o leitor. Não sabe descrever os sintomas. Sabe apenas que ela não consegue escrever e nem ler e nem dormir, e que a falta desses prazeres tornou sua vida insuportável.

Mas não é um livro só sobre depressão. Ele também define muito bem o que era ser mulher na década de 50/60, que infelizmente não é muito diferente dos dias de hoje – salvo que hoje o machismo, apesar de fundido à sociedade, é devidamente mascarado. Esther, que aprendeu a vida toda a quase fetichizar sua virgindade e proteger sua pureza, é obrigada a encarar que o mesmo não é exigido do seu namorado de escola, que ela declara como hipócrita e passa a desprezar, ao saber que ele perdeu a virgindade antes de começar a se relacionar com ela. Então ela passa a querer ser igual, mas não pode ter um filho. Aí ela se vê diante do dilema: ser mãe ou ter uma carreira, ser livre e sozinha ou ser uma mulher de família, virgem reprimida ou vadia perante à sociedade. Esther, talvez da mesma forma que Sylvia, não encontra respostas para essas perguntas.

Esse é um livro importante e valioso, que carrega uma mensagem atemporal. Uns diriam que é ideal para mulheres entre os quinze e vinte e tantos anos. Pode ser. Mas é importante para homens também. É uma questão de empatia. Aprender a ver as coisas pelos olhos de outro. É impossível para um homem entender completamente a condição da mulher, mas livros como esse ajudam a criar uma perspectiva mesmo que artificial. E, deixando de lado o aspecto social, mais do que tudo A Redoma de Vidro é literatura de primeira qualidade.

Nota: 5/5

Obs.: eu li no original, mas existe uma tradução brasileira até que recente lançada pela Biblioteca Azul.