A natureza e a virtude das indulgências – parte 1

Esse é um novo blog velho, logo vou considerar informações pessoais previamente declaradas como novidades para meus espectrais leitores – velhos ou novos -, já que, tendo eles lido ou não as informações, elas não estão escritas nesse meu novo endereço. Existem duas coisas, além da literatura, que eu sei que me fazem um mal desgraçado e podem ser a razão da minha morte daqui há 55 anos ou menos (nunca mais, porque vida alguma precisa superar os 80 anos de duração, tudo que vem mais que isso deixa de ser vida e se torna insistência), essas são uísque e tabaco. Não há muito que se possa fazer sobre isso. São coisas que não estou disposto a largar pois fazem da minha vida um tanto mais agradável; são prazeres insubstituíveis, eu diria.

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Eu sei que tantos de vocês podem ter uma reação de repulsa logo de cara ao ouvirem falar dessas coisas, mais sobre o tabaco (mesmo sendo cachimbo e nunca cigarros) do que álcool. O máximo que eu poderia dizer para minimizar essa repulsa é que tento ser moderado. Quando bebo minhas doses de uísque e fumo meus cachimbos, tento focar no prazer do ato, no ritual, nas sensações. Mas a verdade é que isso não convencerá aqueles de vocês que são contrários a todo e qualquer tipo de consumo de substâncias prejudiciais – de forma altamente seletiva e arbitrária; embora vocês neguem, pretendo demonstrar – de que pode haver prazer nesses hábitos e, quem sabe até, uma filosofia.

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Não sei dizer quando minha exploração por esses meios começou. Acredito que foi quando percebi o quão terrível é o efeito do álcool, enquanto seu sabor, quando analisado com atenção e tratado com respeito, pode ser complexo e misterioso, suave e profundo, pode remeter a dezenas de outros sabores e, ao mesmo tempo, não ser como nada que já se tenha experimentado antes. Falo de uísque, mas isso vale para qualquer bebida alcoólica – e não, mas este texto é dedicado aos hábitos que “fazem mal”. O mais fascinante de tudo, todas essas variações vem da mesma combinação de ingredientes. As mudanças vêm do ambiente e meio em que o uísque foi armazenado, da região em que os grãos de cevada a serem maltados crescem e como são secados, o tempo de guarda e o tipo de barril, a quantidade de água usada para diluir o uísque antes de engarrafar. São pequenos detalhes de igual importância, que afetam o produto final. Raramente um uísque é igual a outro, embora possa ter semelhanças. Às vezes, um mesmo uísque pode variar de garrafa para garrafa – em procedimentos mais artesanais; raramente algo assim vai acontecer com uma garrafa de Jack Daniels ou Johnny Walker, por exemplo.

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Não quero entrar em detalhes porque isso aqui não é um curso sobre uísque, então acho desnecessário apontar diferenças entre os blended e os single malts, e os uísques de centeio, e os bourbons etc. etc. Esses variam muito entre, são feitos com outros ingredientes, diferentes procedimentos. Acho mais interessantes os uísques de malte único (single malts), dominantes na Escócia, mas presentes no Japão e outras regiões do mundo, mesmo que só os produzidos e engarrafados na Escócia, com 40% ou mais de graduação alcoólica, levem a alcunha de scotch.

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O mais fascinante nos single malts é justamente o fato de eles só levarem um tipo de cevada maltada em sua composição, logo a variação depende do ambiente. Por exemplo, cada região da Escócia é conhecida pelas características dos scotchs que ela produz. Speyside, uma das principais, destila os uísques com sabor mais representativo na mente das pessoas. Tem aquele sabor frutado, com aroma de peras, mel, maçãs, canela. É mais adocicado e leve. Normalmente, é envelhecido em barris de Jerez, dando um toque do vinho à aparência, aroma e sabor do uísque. Um desses é o Glenfiddich. Um extremo oposto, mas igualmente marcante, é o uísque da região de Islay (um dia farei o tour pelas destilarias dessa região). Mais para o sul da Escócia, a proximidade do mar influencia muito o sabor dos seus uísques, mais medicinais, robustos, salgados, enfumaçados. Os maltes são secados e defumados por fumaça de turfa (conhecido nas ruas como peat). Esses uísques turfados, da região de Islay, costumam dividir os amantes da bebida entre o amor e o ódio, sem muitos meio termos. E se pularmos da Escócia (e todas suas diferentes regiões, porque vale lembrar que só citei duas com as quais sou levemente familiarizado) aos confins do Kentucky, EUA, onde nasceu o bourbon, posso falar de tantas mais diferenças, do uso do milho como ingrediente, do sabor levemente picante, quente, encorpado, doce, com notas de canela e caramelo e framboesa. Enfim, todos os sabores podem ser encontrados entre os uísques, das frutas ao mar, da terra e da grama ao couro e à madeira.

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E essa influência dos meios, sabores diferentes e exóticos arrancados dos, essencialmente, mesmos ingredientes, não se limita ao uísque. Vale para tudo, mas, entre os alcoóis, minhas especialidades são cerveja e uísque. Não trafegarei pelos lados dos vinhos, que me perdoem os meus leitores enólogos, ou dos destilados translúcidos. Procuro escrever sobre o que sei e sobre o que não conheço naquilo que sei. A cerveja segue o mesmo padrão, mas percorrendo uma gama talvez maior de estilos. O misterioso mundo da cerveja começa tão simples, separado em duas famílias, as Lagers e as Ales. Então, em um piscar de olhos, elas se subdividem em dezenas de estilos que variam entre o bom, o mau e o maníaco. Fica como exemplo o que o pessoal do hospício Tupiniquim fez com a Imperial IPA Polimango. Era para ser uma IPA feita de flocos de aveia, polenta e lúpulo. Tem gosto de manga. É óbvio pelo nome, mas até agora não sei de onde vem o sabor. Lógico que é do lúpulo, mas lúpulo sabor manga? E o mais estranho: a cerveja é ótima.

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O hábito de degustar diferentes bebidas – à escolha de cada um – é cheio desses momentos de confusão sensorial, de descoberta, exploração. Para mim, leigo, observar o resultado final dessas combinações é como presenciar um truque de mágica, alquimia na vida real. Claro que não é nada disso. Para fazer uma cerveja, é necessário conhecimento de cada ingrediente, experiência, tentativas e erros, um pouco de sorte, claro, mas mais do que tudo conhecimento e experiência, e um bom senso de paladar e olfato. Não é mágica, mas para mim parece. E gosto que pareça. Deixa as coisas mais interessantes e permite que eu aproveite mais e raciocine menos durante a degustação. Ao invés de procurar os sabores baseado nos ingredientes que eu “conheço tão bem”, deixo que os sabores venham e interpreto como achar melhor, às vezes certo, às vezes totalmente errado. É quase como a vida, em muitos aspectos.

Tudo isso e não disse uma palavra sobre o tabaco. Tenho tantas coisas para falar, apresentar, explicar. Vai ter que ficar para próxima. Vou dividir essa postagem em duas partes. Essa primeira parte, sobre álcool. Na próxima, atacarei o mundo maravilho dos tabacos.

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2 comentários sobre “A natureza e a virtude das indulgências – parte 1

  1. Por mais que você já tenha me falado mil coisas sobre uísque, eu continuo não sabendo nada. E também não gostando muito. Quer dizer, às vezes tomei uns muito porcarias ou então misturei com outras coisas e aí meio que não consegui apreciar. Você já sabe disso.
    É muito fascinante saber como as coisas são feitas, né? A gente bebe um treco e gosta e não faz ideia de tudo que tem por trás daquilo. Eu sou preguiçosa demais pra pesquisar essas coisas sobre vinho, por exemplo, mas acho que eu acabaria gostando se me aprofundasse. Mas é como você falou aí, eu continuo indo mais pela sensação que a bebida me causa do que pelo detalhes técnicos. Acaba que é isso que conta no final, acho.

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