Confissão no quarto 219 – parte 1

Postado originalmente em 4 de fevereiro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/confissao-no-quarto-219-conto-parte-1.html

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Estava exausto. A única iluminação a entrar no restaurante vinha do capô de um sedã preto estacionado bem em frente à entrada, sem portas nem bloqueios, do hotel que refletia a luz do sol de meio-dia. O raio de luz batia no capô, cruzava a recepção, entrava na área do restaurante e chegava aos meus olhos, o que me fazia ver manchas coloridas por toda a comida. Isso, ou o frango grelhado estava com um caso sério de catapora e o arroz vencido havia um ano – torcia pela primeira opção. Além disso, havia um mosquito insistente que não deixava de circular meus braços, ora o direito ora o esquerdo, variando conforme usava o braço não espreitado para o abater. Bicho provocador. Em uma das minhas tentativas de abate, senti a palma da minha mão tocar seu corpo milimétrico. Foi gratificante, mas o orgulho acabou quando notei que dois garçons assistiam minhas tentativas de levantar voo ou nadar em oxigênio. Acreditei, sem evidências, que se divertiam muito com a imagem.

Só estava eu no restaurante, com exceção dos garçons – então de costas para mim conversando entre eles, mas isso não diminuía minhas certezas sobre suas gozações –, até que surgiram outros dois hóspedes. Quarto 105, eles disseram a um dos garçons, que, ao ver gente se aproximando, deixou seu posto de gozador hipotético e veio os atender. Tão logo sentou, o mais novo entre os dois tirou da mochila um tablet e um desses celulares pós-ficção-científica capaz de ouvir, falar, tirar fotos, ler mentes, cozinhar, varrer, lavar, passar e, talvez, comprada a cara atualização, oferecer prazer oral para ambos os sexos, mesmo que sem boca – aplicativo vendido separadamente, tão caro quanto o primeiro ou ainda mais. Se fazia ligações, ninguém havia descoberto como.

Podia não ser o melhor dos filhos, não sabia quanto tempo fazia desde a última vez que os telefonei – em retrospecto, quem sabe não fizesse tanto tempo assim, duas ou três semanas, no máximo –, mas nunca faria isso. Levantar todas essas paredes de telas eletrônicas durante a refeição. Estava acostumado a uma relação de afeto reprimido com meu pai. E, a essa altura, já julgava aqueles dois como pai e filho, era algo na atmosfera entre eles, além da semelhança física. Com meu pai, passava horas em silêncio. Quando falávamos, era sobre trabalho ou assuntos sempre muito vagos. Sentíamos – eu sentia – um respeito mútuo naquela ausência de palavras. Aquela velha ideia de seguir os passos do pai – seguia isso a risca, era um funcionário fiel – misturada à vontade de ir um pouco além ao fazer o que ele não fez, como estudar e progredir na carreira. Vontade a que ele respondia dizendo que não pôde estudar, enquanto eu tive tudo graças aos esforços dele. E eu respondia que, no momento, era eu que estava me esforçando para manter a família e, tudo indicava, assim continuaria, portanto paguei – estava pagando em longas parcelas – minhas dívidas. Até que ele se ofendia com a palavra dívida, e eu me ofendia por ele ter se ofendido. O respeito, contudo, era mantido, lado a lado com a competição bizarra e absurda. Aqueles dois, não havia nada daquilo entre eles, aparentemente. Não havia nada além das duas telas brilhantes. Um comia um sanduíche gigante cercado de batatas fritas, deixando molho escorrer e encharcar a penugem que crescia em seu queixo; o outro, uma picanha ao alho cujo cheiro se espalhava pela cidade. Do que eu sabia? Nada, concluí. Essa poderia ser a forma do silêncio de respeito mútuo entre eles. A maneira que eles tinham de se conectar.

Lembrei do quão orgulhoso meu pai ficou quando soube que ia fazer essa viagem e como ela significava o crescimento da minha carreira. Toda aquela história de ir além, eu estava feliz por conseguir, ele por ter sido responsável por isso. Naquele jantar solitário, terminadas as reuniões, faltando apenas pegar o avião de volta, me dei conta que não estava nem mais nem menos feliz por causa disso. Nem tinha vontade de voltar para relatar meu sucesso, muito menos levantar da cama de novo.

Terminei a refeição. Senti que meu dedo mínimo queimava e coçava, bem no primeiro ligamento, pouco acima da unha. Aquele filho da puta não estava morto. Pedi uma bebida.

Qual o quarto? perguntou o garçom.

Vai ser por minha conta – estava viajando as custas da empresa e uma dose de uísque, medicinal que fosse, não poderia de forma alguma aparecer nas notas fiscais que devia apresentar –, vou pagar agora, em dinheiro.

O que vai ser então?

Dei uma olhada nas garrafas enfileiradas na prateleira.

White Horse, com gelo.

Quantas pedras?

Duas.

Ele me serviu: — Pode ficar à vontade, senhor.

Quis ficar ali mesmo, encostado ao balcão do bar improvisado no canto do restaurante, pensando. Não bebia nada de alcoólico havia dois meses, feito inédito desde que saí da casa dos meus pais havia seis anos. Estava com saudades do jeito que o álcool queimava a garganta e esquentava o estômago. Como sempre, no entanto, os meus problemas não estavam se resolvendo. A esperada felicidade, a sensação de dever cumprido ou orgulho, não vieram. Em pequenos goles, esvaziei o copo, aproveitando os minutos de reflexão vazia. Pedi outro e repeti o processo. Dessa vez o álcool me levou ao exato grau de iluminação necessário para esclarecer minha melancolia repentina. É a quebra da rotina, disse o uísque. Até ontem você ia ao trabalho de manhã, saía pro almoço, voltava logo depois e, findo o expediente, ia para casa. De vez em quando via alguém. Raramente ficava feliz por ver alguém. Agora está acordando antes de o sol nascer para pegar aviões, visitando estados desconhecidos, cumprimentando gente supostamente importante e que você despreza e sempre disse que nunca cumprimentaria, passando a noite em hotéis, comendo em restaurantes. É muita informação, ele fez uma pausa, como se o próprio uísque tivesse seu copo de uísque e desse um gole pontificante, e é sinistro, quase outra vida. Você se sente sem identidade e, não bastasse, está exausto. Teve três horas desconfortáveis de sono nas últimas quarenta e oito horas. Vá dormir, o dia seguinte será mais leve, prometeu o uísque, e eu o obedeci depois de pagar as doses.

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