A importância retrospectiva das coisas

lorenzbutterfly

O conceito de destino é um tanto arrogante. Isso pode soar como uma máxima amargurada e desesperançosa de um cético chato, mas não. Considere o universo e tudo que não se sabe sobre ele. É coisa que não acaba mais, correto? Expandindo e explodindo, criando e destruindo, todos os dias, sem que se note – que nós, humanos, que nos fazemos centro e razão por trás de tudo devido a uma suposta consciência que tampouco somos capazes de suportar, que dirá compreender, não notamos porque essas explosões e destruições são bem notadas em diversos pontos do universo e o planeta em que nascemos e apelidamos de Terra, por sorte, fica bem distante dessas explosões, pelo menos por enquanto. Caos infinito e, ao mesmo tempo, harmonia. Em meio a tudo isso, nós, que habitamos esse proverbial ponto azul, nos fazemos acreditar que aquilo que nos aconteceu, de bom ou mal, aconteceu por uma razão maior. O famoso: era pra ser.

Que não entendam com isso que estou dispensando forças maiores que possam ou não ser responsáveis pela criação e funcionamento do universo. Isso está além do conhecimento humano e não acredito que um dia teremos uma resposta. Por enquanto, em se tratando de divindades, cada um que siga aquilo que achar melhor – tanto em questão de conforto quanto crença real.

A história que eu estou tentando contar é sobre a vez em que eu me apaixonei. Não pense que aqui seguirá um meloso relato sobre um grande amor que não é mais, porque esse nunca foi. E, pensando bem, a descrição desse tal amor ocupará poucas linhas em comparação as divagações que virão por consequência dele. Vejam bem, foi um daqueles casos de amor não correspondido, se algo assim pode existir. Mais ainda, foi um amor não correspondido um tanto juvenil e patético, quanto mais eu penso nele. Naqueles dias que passaram há tantos anos, mais de meia década.

Começando do começo, nos conhecemos na faculdade. Estou tentando evitar muitos detalhes em nome dessa privacidade pela qual eu tanto prezo (minha, que sou paranoico, e dela, que hoje é mãe, vale apontar).  Descobri bem rápido que ela tinha namorado então não me esforcei por formar contato logo de cara. Senti aquela atração súbita e artificial que a beleza normalmente causa. Mas foi só. Falamos por poucos minutos durante uma apresentação que o professor forçou entre os alunos que estivessem próximos e por acaso ela estava próxima. Isso foi na primeira semana de aula e só voltamos a nos falar um mês depois, ou mais que isso. Fazem sete anos, então não esperem precisão nas minhas lembranças. Quando nos falávamos era por culpa de trabalhos em grupo. Conforme os alunos se juntavam, parava nos mesmos grupos que ela. Acreditem ou não, isso acontecia por acaso. Por eu estar numa cidade nova, não tinha amigos ou grupos de costume, sempre esperava alguém me chamar e, quando me dava conta, lá estava a moça da primeira semana. E assim nos falávamos mais um pouco. De incidente em incidente, formamos uma amizade que eu poderia dizer foi a amizade mais próxima que eu já tive, ou uma das.

E que esse relato não se confunda com essas típicas choradeiras de “friend-zone” que vocês crianças tanto adoram falar sobre. Isso não existe, jovens. Pessoas não evitam sexo por causa de amizade. Pessoas usam amizade como desculpa para não se verem obrigadas a transar com gente por quem elas não estão atraídas sem ter que dizer: não quero transar com você porque você não me atrai. Você é meu amigo é um jogo de linguagem, e o jogo de que ele se trata é o das relações humanas de atração e sexualidade. É bem simples. Não requer matemática para compreender esse fenômeno das interações sociais modernas. Evidência disso é que existem casais com fortes vínculos de amizade e eles transam, assim espero. Pronto. Que esse assunto se encerre por aqui.

Essa amizade se estendeu por vários anos. Em algum momento desse período eu me apaixonei completamente por ela. Resumindo, ela não estava interessada. Houve toda uma conversa sobre esse assunto. Talvez até tenha chegado perto algumas vezes. Mas nunca aconteceu. Um dia, ela largou o curso na faculdade e perdemos contato. As coisas são assim. Até laços que parecem firmes se quebram, e isso às vezes é o melhor. Enquanto durou, no entanto, não foi fácil para mim. Para ela, não faço ideia do que ela pensou nesse período, sobre mim e sobre tudo mais. Acredito que não tenha pensado nada. Se o tivesse, estou certo de que eu teria percebido de alguma forma. Foi um período de que eu não me orgulho. Fiz algumas bobagens. A maior parte delas envolveu uma garrafa de alguma coisa. Eu não tinha dinheiro nesses dias – tinha menos do que agora -, trabalhei de estagiário por um tempo, depois num despachante aduaneiro. Dependia um tanto mais do que eu gostava de admitir dos meus pais. Então, se eu queria me embriagar, não podia ser com nada que causasse uma impressão no orçamento limitadíssimo. Fiz amizade com gente como um infame e indistinto Chanceler brasileiro, com dona Odete (conhecida nas ruas como Old Eight, e esses Eight não são anos, são minutos que ela passou na banheira de algum cidadão inominável de Praia Grande que se dizia escocês), com o nobre selvagem Natu, entre outros criminosos. Quase ia me esquecendo do Passaporte, que até na época já era artigo de luxo, por isso menos frequente que os outros remédios. Coisas que fazemos nessas horas, quando estamos insatisfeitos com a vida, mas não queremos dar fim a ela, só maltratá-la tanto quanto ela parece nos maltratar.

Outra coisa aconteceu e que quase não envolvia auto-envenenamento.  Talvez por ser algo novo, essa história de amar uma pessoa de forma tão incondicional que parecia errado, tive acesso a emoções que não me julgava capaz de sentir. Numa desventura com Bukowski, rabisquei um poema e fingi que gostei. Tenho uma personalidade dada aos vícios e me viciei nessa tal de literatura também. De início, e costuma ser assim para vários outros viciados, era só terapia. Eu prometia para mim mesmo que não ia dar em nada, não poderia – e até hoje não deu em nada, mas naqueles tempos eu não queria que desse, hoje a conversa é outra. Escrevia aquelas palavras e, de tantas em tantas, mudava de linha para formar um verso. Esse era o processo. Coisas mais que a forma poderia exigir, eu ignorava. Fui aprendendo com o passar dos anos e toda a prática, as intenções e alvos também mudaram muito, mas no começo eu só me importava com expressar aquilo que estava lá e que eu não sabia direito o que era e precisava sair.

Como eu quero voltar no tempo e estapear aquele moleque cretino que tomou posse de mim por tantos anos.

Então ela foi embora, mas eu continuei escrevendo. Aprendi a tomar as rédeas da bebida, depois de alguns incidentes – não falemos sobre isso até porque não foi tão ruim, dei sorte de precisar de mais que a maior parte das pessoas para perder o controle, mas uma hora todo mundo se perde. Ela foi, mas a maior parte das coisas que ela indiretamente trouxe ficaram, umas mais, outras menos, e acho que esse é o ponto dessa história.

Existe aquela tentação de dar o nome destino para esses momentos. É uma tentação egocêntrica. Primeiramente porque, aceitando destino como realidade, é necessário, por lógica simples, que exista algo tal como predestinação envolvendo todos os habitantes desse planeta – ou apenas os da espécie humana, que é o que parece ser aceito entre todos aqueles que acreditam em destino e coisas do tipo (raramente se houve dizer que um gato estava destinado a passar por tal situação, por exemplo) -, um plano universal que pode ou não ser divino. Meu cérebro consegue apenas processar esse tipo de conclusão como arrogância. É como disse David Foster Wallace, todas as minhas experiências me levam a crer que eu sou o centro absoluto do universo, essa é minha programação básica. Mas eu me recuso a me deixar levar por essa programação porque já sou egocêntrico o suficiente sem essa crença absurda de que o universo se importa tanto com a minha vida que vai gerar todo tipo de incidente e infortúnio para que eu sempre me desloque em direção a esse destino, se eu passar a acreditar nisso é muito possível que eu não me torne uma pessoa mais resignada, mas que, ao invés, desenvolva um complexo de deus. Estou bem certo de que, tendo as coisas dado certo com a tal moça, nunca me teria vindo a motivação para escrever e não teria seguido (estaria seguindo) esse caminho. Na verdade, ele nunca nem me teria vindo à mente, pelo menos não até que o relacionamento ruísse, como haveria tantas chances de acontecer partindo do momento que ele passasse a ser (não acredito em destino, mas acredito no poder absurdo da estatística, e o fim é uma de infinitas possibilidades de tudo que começa, como tudo o é, tudo envolve infinitas possibilidades e caminhos com resultados – destinos –  diferentes). Logo passaria a considerar um relacionamento com ela e uma vida sem literatura (ou consideravelmente menos literatura) o destino, ou os outros passariam a considerar isso como destino, já que eu não acreditava nisso antes e seguiria não acreditando.

Posso manter, como mantenho, esse estranho sentimento de gratidão para com essa moça, mesmo que ela não saiba que está no centro disso tudo, por ela ter causado esse desvio na minha existência, ou posso amaldiçoá-la pelo resto da minha vida pelos transtornos pessoais que esse novo caminho já me causou e pode ainda causar – fiz tão pouco na literatura para poder considerar esse caminho como percorrido, mal dei meus primeiros passos, uns diriam, com razão, que nem ainda os dei. Mas é o que é. Ela veio e foi. Isso me deu vontade de escrever. Essa vontade cresceu e virou um objetivo de vida. São momentos e seus resultados. Igualáveis a um não sair num sábado a noite e, por consequência, não conhecer num bar a pessoa que mudaria minha vida uma outra vez ou ser contratado por uma empresa e, portanto, parar de enviar currículos para tantas outras que poderiam ser tanto piores quanto melhores – exemplos soltos, apenas, e que para os quais existem inúmeras equivalências. Em suma, a vida é isso. Sequências de momentos vividos e não vividos, ou melhor, a existência humana, em termos mundanos e bastante superficiais, é isso, enquanto a vida é o resultado dos momentos vividos, que poderia ser milhares de milhões de coisas, que se resumem a uma grande coisa, que começa no nascimento e termina na morte. É difícil ver assim porque é raro analisarmos nossa própria vida. É muito mais fácil assistir a dos outros, especialmente a daqueles que já não vivem mais e que por nós são admirados. Não observo a vida de um Cortázar pelas milhares de milhões de coisas que ela poderia ter sido, mas pelo que ela foi. Assim é fácil dizer que ele estava destinado a escrever O jogo da amarelinha e mudar a história da literatura para sempre e que todos os eventos de sua vida conspiraram por esse resultado. E, se alguém, após a minha morte, se der o trabalho de observar o sabe-se lá o que será da minha vida, acreditará que o universo conspirou para que fosse o que foi/será. Enquanto eu, em vida, posso muito bem dizer – embora sem certezas absolutas – que não foi assim. Que estou apenas escolhendo uma entre milhões de coisas. Algumas das escolhas são voluntárias, outras são impostas por limitações acima das minhas capacidades de mudança – não posso ser um asiático, por exemplo; não é vontade minha o ser ou não ser, nem acredito que minha vida teria sido melhor eu tendo nascido com outra nacionalidade, embora possa admitir essa possibilidade, estou apenas expondo um fato, e um fato bastante óbvio, e, como todos os óbvios da vida, ignorado. E toda minha escolha elimina as opções negligenciadas. Por enquanto te agradeço, moça. Vamos ver o que direi no futuro.

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2 comentários sobre “A importância retrospectiva das coisas

  1. Essa coisa do destino sempre é um assunto que dá pano pra manga. Acho que eu costumava ter uma visão mais romântica da vida na adolescência e sempre tendia a acreditar que era mesmo por causa do destino que tudo aquilo tava acontecendo comigo. Hoje não acredito mais. Acredito que a gente tenha a tendência em colocar a “culpa” no destino também pra nos livrarmos do peso das nossas decisões. É claro que se eu não tivesse feito o curso que eu fiz, tudo seria diferente ou se eu tivesse ido morar em outro bairro ou se eu tivesse feito amizade com aquela pessoa e não a outra e etc… e isso tudo cria uma ansiedade. Sempre parece que poderia ter sido melhor, então às vezes é melhor só falar: ah é porque era pra ser assim. Dá uma aliviada na coisa toda.
    Como já tinha comentado, achei bem interessante sua perspectiva da amizade e tenho que concordar… faz muito sentido. Mas sabe que fiquei pensando que pode ter também um outro jogo nisso tudo. Tudo bem, talvez a gente considere amigos aquelas pessoas pelas quais não estamos sexualmente atraídos, mas gostamos de estar junto e etc. Mas também acho que as vezes podemos usar da amizade pra estar perto das pessoas pelas quais estamos atraídos, mas não temos coragem de falar ou agir de outra forma. Uma desculpa pra estar junto até as coisas apontarem pra onde vão ou, sei lá, simplesmente pela “oportunidade” de ficar perto da outra pessoa. Você acha que faz sentido?
    Mas, enfim, achei que foi uma boa reflexão sobre o que aconteceu com você no passado. É difícil olhar as coisas assim de longe e conseguir compreender o que daquilo foi bom ou ruim, o que permanece na gente ou como fomos transformados por aquilo. E eu senti um clima positivo no seu texto. Parece que te fez bem pensar nisso tudo.

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    1. É em geral um assunto complicado.
      O que você falou da amizade faz, sim, todo o sentido. Aquele jogo específico que eu citei é válido só pra tal “friend-zone” dessa molecada de hoje, o típico:
      – Fica comigo?
      – Mas nós somos amigos.
      Enfim, existem vários jogos de linguagem que giram em torno da amizade, sexualidade etc. Esse que você citou é outro e foi o que eu usei nesse caso.
      Venho pensando nisso há anos, mas foi um alívio colocar tudo (ou o máximo possível pra não perder a coerência) num texto só.

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