Desacompanhado [conto]

Quinto andar, desce, diz o elevador, um segundo antes das portas se abrirem. Deixo as outras pessoas saírem primeiro. Quero me livrar da manada. Sábado à noite no cinema sozinho. Ignoro quando dizem que esse é um hábito estranho. Gosto de ver filmes sem ninguém ao lado que me conheça. Posso prestar atenção no filme sem me preocupar com o que a outra pessoa está pensando. Se está gostando do filme. Se minha companhia é tolerável. Independente do dia, estou sempre comigo. Fica chato, às vezes, mas não me cobro de nada. Estou sempre por perto de mim e nem preciso telefonar para me convidar para sair. Quando entrei no shopping, fui pego por aquela ansiedade típica de quando me vejo sozinho em meio a vários pequenos grupos de pessoas. Sinto que sou um indivíduo menor perante outro, único, gigante. São aqueles cardumes de sardinhas que se juntam muito próximas umas das outras para dar aos predadores a impressão que elas são um peixe gigante e não um conjunto formado por vários peixes minúsculos. Creio que a intenção é a mesma entre os humanos. Mas eles não buscam a intimidação física, é a afetiva que eles precisam mostrar. Eu sou feliz, eu sou bem ajustado, eu estou me divertindo, diz o gigante.

Antes de subir ao cinema, parei na praça de alimentação. Dois chopes, isso aliviava a tensão nos meus ombros e normalizava minhas batidas cardíacas. Com o terceiro, e último, eu olhava o gigante nos olhos. Era capaz de comprar uma briga com ele. Afetiva e não física. Mostrar que ele não é o feliz, agarrado e dependente dos outros só para poder dar uma risada ou um passeio ou ver um filme, tendo que lidar com aqueles membros desagradáveis do grupo, mas dos quais ele nunca conseguiu se livrar por medo de sua opinião ser minoria no grupo e ele acabar solto. Claro que isso só acontecia na minha cabeça, embora um espectador distante pudesse ver, talvez, meus lábios se mexerem, fechados, em reação as coisas que eu não dizia.

As pessoas em frente ao guichê do cinema não estão comprando ingressos. Estão conversando entre si, vendo no telão que filme escolher. No entanto, não abrem espaço. Peço licença, mas não me ouvem. A terceira cerveja, a melhor de todas, me pega pela mão e leva meu corpo até o guichê, como se não houvesse nada na minha frente. Acabo esbarrando em um deles, que não diz nada. Eles saem da frente e vão para um ponto um pouco mais distante, seguindo a discussão como se nada tivesse acontecido.

– Dá pra acreditar nessa gente?

– O que, senhor?

– Esse povo aglomerado, achando que isso aqui é mesa de bar.

– Qual o filme, senhor?

Digo o nome e o horário. Ela me responde com o preço e, na tela em frente ao caixa, aparece o desenho da sala, com a disposição das cadeiras.

– Qual cadeira?

Digo o número da cadeira e a letra correspondente à fileira. Ela imprime o ingresso e me entrega. Vou perguntar ao atendente no corredor que leva às salas se a para que devo ir já está liberada. Em dez minutos, ele diz. Circulo o local, procuro um canto para me encostar, um algo similar a um banco – já que ninguém pensou em instalar bancos ali. Não há nada livre. Casais sentam juntos nas pedras que cercam o jardim artificial no centro da sala, aguardando o começo dos filmes. O elevador segue trazendo gente e mais gente, sempre em cardumes, uns maiores que os outros. Duas crianças se separam dos pais e saem correndo pela sala em euforia que apenas eles compreendem. Os pais deixam elas correrem, desde que fiquem longe das escadas rolantes, e as crianças obedecem. Naquele espaço, foi construída uma área externa, um mirante com vista ao porto. À noite, a lua se reflete na água do mar e no metal das máquinas e contêineres, dá beleza até a algo tão industrial e frio. Encosto os braços nas barras de ferro que servem de parapeito. Duas barras paralelas que cercam o mirante, cruzadas a cada tantos centímetros por uma barra vertical, deixando muito espaço vazio entre as barras. Em ponto algum do mirante vejo uma placa de proibido fumar. Tiro o maço do meu bolso, tiro um cigarro e o acendo com o isqueiro. Os namorados que observavam a paisagem, próximos de mim, se afastam. A moça forçando uma tosse, o cara me olhando torto. Podem ir, em parte esse foi meu objetivo com esse ato. Sou tomado por esse egoísmo. É tão difícil de controlar. Quero o cinema para mim, quero o mirante para mim. Só a presença física das pessoas me incomoda, mesmo distantes, mesmo que nem me vejam. Suas vozes, o barulho dos seus passos, não é sempre, mas certos dias, fazem minha pele coçar. Ecoam na minha cabeça e brigam pela minha atenção. Não consigo desligar meus ouvidos para os sons. Capto todos separadamente e eles se debatem dentro de mim. Agora não mais. Apenas o som do vento. E como alguém pode não ver beleza nessas longas nuvens de fumaça que se formam no ar e dançam livres pelo vazio.

Um homem se aproxima.

– Tem fogo?

Tiro o isqueiro do bolso, entrego para ele. Ele acende o seu cigarro e devolve o isqueiro para mim. Repito mentalmente: nãofalacomigonãofalacomigonãofalanãofala. Ele fala.

– Vai ver qual filme?

Digo o nome. Antes que ele reaja, apago o cigarro no parapeito de ferro e atiro a bituca mirante abaixo, no que parece ser o estacionamento de uma transportadora – vejo dois caminhões parados, a parte de trás da placa que, vista de frente, deve mostrar o nome da empresa aos que passam, cercas de metal e um portão grande trancado. Vou embora sem dizer nada. Pergunto ao rapaz para quem perguntei se a sala estava liberada onde ficam os banheiros. Ele apontou a direção. Despejei as cervejas para fora dos meus rins. Na pia, lavando as mãos, evito o espelho. Fico olhando para minhas mãos, a água corrente, a espuma formada pelo sabonete líquido e a forma que ela é levada pela correnteza miniatura até o ralo e some das vistas. Enxugo as mãos, tudo muito devagar. Mas os dez minutos não passaram ainda, acho. Pergunto de novo ao rapaz, quando passo por ele, e ele responde que ainda não, mas logo a sala estará liberada.

Volto ao mirante. O homem ainda está lá, fumando seu cigarro, mas, talvez por ter se ofendido, não se dirige a mim. Fico aliviado por isso. Vejo o canto em que a barra de ferro encontra a parede e me sento ali, no chão. Acendo mais um cigarro, encosto a cabeça na parede e assisto a vida dos outros passar – e, por consequência, a minha. As crianças soltas aguardam a porta automática se abrir e entram correndo pelo mirante. Seus pequenos pés batendo no chão de madeira são agudos e espalhafatosos como vários tambores de brinquedo sendo agredidos. Não há lógica regendo a brincadeira deles. Apenas correm em círculos, um atrás do outro, sem objetivo. Mas sabe-se lá o que se passa na cabeça deles. Podem correr de monstros ou para os monstros. O mirante pode ser uma grande montanha.

O menino vê a cerca de metal e é magnetizado por ela. O perigo disfarçado de segurança. A ausência de autoridades que o impeçam de fazer o que passa por sua mente infantil e imune aos medos da realidade. Crianças são assim, em sua maioria. Suscetíveis apenas aos medos invetados. Fantasmas são assustadores, como é o escuro e os monstros e o espaço debaixo da cama. A boneca de porcelana da casa da avó é horripilante e o fundo dos armários tão grandes em comparação aos seus corpos não-formados. A solidão, por outro lado, não existe. Nem existe o acaso dos acidentes e os quartos de hospital nem as doenças terminais. A morte em si, para eles, é impensável. Eis a importância, para a formação de uma criança, daquele velho parente próximo, um avô ou avó, que morre e os faz entender a efemeridade das coisas. Mesmo assim o tempo deles é outro. Seus dez primeiros anos duram muito mais que o resto de suas vidas. Por isso, o que há a se temer? Ele agarra a barra de cima e a balança. A barra não sente nada, mas seu corpo treme de um lado para o outro e ele sente que move o shopping inteiro a um terremoto. Chama sua irmã. Ela não vem. Fica parada, olhando, certa de que ele está fazendo algo errado e que ela não deve participar. Tem aquele olhar ingênuo e fechado, triste, que não é de medo, mas é ansioso. Porque ela também não entende o medo real, só não quer que briguem com ela. E aquela ação, divertida que pareça, tem cheiro de punição. Quando ele bota o pé direito na barra mais baixa, ela sai correndo do mirante. Vai procurar seus pais? Avisar a eles o que seu irmão está aprontando? Pergunto a mim mesmo se ninguém mais vê isso. Mais pessoas ocupam o mirante agora, mas todos parecem indiferentes às travessuras mortais do menino. O pé esquerdo dele sobe na terceira barra. Seu corpo inteiro, agora, está fora do mirante, no ar, apoiado apenas pelas barras de ferro, que não vão ceder, mas que oferecem espaço suficiente para que ele caia. Ninguém olha. Eu observo, mas não sei o que fazer. Puxo a criança que não é minha? Tomo para mim essa responsabilidade? Aviso que ele deve descer e procurar seus pais? Por que ele me ouviria? Ainda é capaz dos pais dele brigarem comigo por repreender o filho que é deles. Mas não consigo sair da minha posição. Minhas pernas não me deixam levantar e meus olhos não se desgrudam dele. A essa altura, outras pessoas já observam o menino, mas tampouco parecem capazes de fazer alguma coisa. No máximo criticam mentalmente os pais que deixam uma criança solta desse jeito. Vejo um homem e uma mulher, esta carregando a menina no colo, pela porta de vidro. Eles esperam ela abrir e quase me sinto aliviado por isso. O homem, desesperado, solta um grito. Lucas. Assustado, Lucas olha para trás, mas seus pés escorregam da barra para fora do mirante. Suas coxas batem na barra e o resto do seu corpo escorrega. Alguém tenta segurar o menino em queda, o homem que eu ignorei, que era quem estava mais próximo dele, mas não consegue. Desvio os olhos do pátio de caminhões. Acho que não ver era melhor, mas estou errado. Ouço o estatelar do seu corpo na queda. Nos filmes, pessoas em queda livre gritam. O menino não gritou. Nem gemeu quando bateu na barra de ferro. Foi o choque do medo que ele não sabia que existia. A lição única chegou tarde. Por não ver, imagino, o que pode ser pior. Imagino que a queda o tenha esmagado, ele ainda tão frágil. Ossos estão expostos, órgãos pelo chão. Sangue e mais sangue. E minha bituca de cigarro ali, se deixando avermelhar, absorvendo tudo. Só desperto quando as cinzas do meu cigarro, que esqueço de bater, caem sobre mim. Solto o cigarro e piso nele. Uma multidão se aglomera no ponto em que o menino caiu, é impossível de chegar. Não vejo os pais, que devem estar cercados no centro de tudo. Prefiro não ver nada. Prefiro não entrar na aglomeração. Saio do mirante. Minhas mãos tremem e eu não consigo deixar de ver a queda, como um filme da mente, de novo e de novo. Tanto o que de fato eu vi como o que eu inventei ao deixar de ver. Os funcionários, do lado de dentro, ainda parecem não saber o que aconteceu. Pergunto ao rapaz sobre a sala.

– Já tá liberada há uns minutos. Posso ver seu ingresso?

– Aqui – o entrego e ele o carimba e me devolve.

– O que aconteceu lá fora?

– Não sei. Eu não vi.

– Certo. Bom filme, senhor.

Entro na sala e, pela primeira vez no dia, fico feliz em ver pessoas. Significa que outros não viram o acidente. Que mais gente está disposta a se deixar levar pela alegria estúpida de um filme comercial. Sento na minha cadeira e respiro fundo toda aquela ignorância. As luzes apagam e a tela se acende. Começam os trailers e eu não consigo esquecer, mas já não sei.

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