A natureza e a virtude das indulgências – parte 1

Esse é um novo blog velho, logo vou considerar informações pessoais previamente declaradas como novidades para meus espectrais leitores – velhos ou novos -, já que, tendo eles lido ou não as informações, elas não estão escritas nesse meu novo endereço. Existem duas coisas, além da literatura, que eu sei que me fazem um mal desgraçado e podem ser a razão da minha morte daqui há 55 anos ou menos (nunca mais, porque vida alguma precisa superar os 80 anos de duração, tudo que vem mais que isso deixa de ser vida e se torna insistência), essas são uísque e tabaco. Não há muito que se possa fazer sobre isso. São coisas que não estou disposto a largar pois fazem da minha vida um tanto mais agradável; são prazeres insubstituíveis, eu diria.

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Eu sei que tantos de vocês podem ter uma reação de repulsa logo de cara ao ouvirem falar dessas coisas, mais sobre o tabaco (mesmo sendo cachimbo e nunca cigarros) do que álcool. O máximo que eu poderia dizer para minimizar essa repulsa é que tento ser moderado. Quando bebo minhas doses de uísque e fumo meus cachimbos, tento focar no prazer do ato, no ritual, nas sensações. Mas a verdade é que isso não convencerá aqueles de vocês que são contrários a todo e qualquer tipo de consumo de substâncias prejudiciais – de forma altamente seletiva e arbitrária; embora vocês neguem, pretendo demonstrar – de que pode haver prazer nesses hábitos e, quem sabe até, uma filosofia.

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Não sei dizer quando minha exploração por esses meios começou. Acredito que foi quando percebi o quão terrível é o efeito do álcool, enquanto seu sabor, quando analisado com atenção e tratado com respeito, pode ser complexo e misterioso, suave e profundo, pode remeter a dezenas de outros sabores e, ao mesmo tempo, não ser como nada que já se tenha experimentado antes. Falo de uísque, mas isso vale para qualquer bebida alcoólica – e não, mas este texto é dedicado aos hábitos que “fazem mal”. O mais fascinante de tudo, todas essas variações vem da mesma combinação de ingredientes. As mudanças vêm do ambiente e meio em que o uísque foi armazenado, da região em que os grãos de cevada a serem maltados crescem e como são secados, o tempo de guarda e o tipo de barril, a quantidade de água usada para diluir o uísque antes de engarrafar. São pequenos detalhes de igual importância, que afetam o produto final. Raramente um uísque é igual a outro, embora possa ter semelhanças. Às vezes, um mesmo uísque pode variar de garrafa para garrafa – em procedimentos mais artesanais; raramente algo assim vai acontecer com uma garrafa de Jack Daniels ou Johnny Walker, por exemplo.

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Não quero entrar em detalhes porque isso aqui não é um curso sobre uísque, então acho desnecessário apontar diferenças entre os blended e os single malts, e os uísques de centeio, e os bourbons etc. etc. Esses variam muito entre, são feitos com outros ingredientes, diferentes procedimentos. Acho mais interessantes os uísques de malte único (single malts), dominantes na Escócia, mas presentes no Japão e outras regiões do mundo, mesmo que só os produzidos e engarrafados na Escócia, com 40% ou mais de graduação alcoólica, levem a alcunha de scotch.

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O mais fascinante nos single malts é justamente o fato de eles só levarem um tipo de cevada maltada em sua composição, logo a variação depende do ambiente. Por exemplo, cada região da Escócia é conhecida pelas características dos scotchs que ela produz. Speyside, uma das principais, destila os uísques com sabor mais representativo na mente das pessoas. Tem aquele sabor frutado, com aroma de peras, mel, maçãs, canela. É mais adocicado e leve. Normalmente, é envelhecido em barris de Jerez, dando um toque do vinho à aparência, aroma e sabor do uísque. Um desses é o Glenfiddich. Um extremo oposto, mas igualmente marcante, é o uísque da região de Islay (um dia farei o tour pelas destilarias dessa região). Mais para o sul da Escócia, a proximidade do mar influencia muito o sabor dos seus uísques, mais medicinais, robustos, salgados, enfumaçados. Os maltes são secados e defumados por fumaça de turfa (conhecido nas ruas como peat). Esses uísques turfados, da região de Islay, costumam dividir os amantes da bebida entre o amor e o ódio, sem muitos meio termos. E se pularmos da Escócia (e todas suas diferentes regiões, porque vale lembrar que só citei duas com as quais sou levemente familiarizado) aos confins do Kentucky, EUA, onde nasceu o bourbon, posso falar de tantas mais diferenças, do uso do milho como ingrediente, do sabor levemente picante, quente, encorpado, doce, com notas de canela e caramelo e framboesa. Enfim, todos os sabores podem ser encontrados entre os uísques, das frutas ao mar, da terra e da grama ao couro e à madeira.

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E essa influência dos meios, sabores diferentes e exóticos arrancados dos, essencialmente, mesmos ingredientes, não se limita ao uísque. Vale para tudo, mas, entre os alcoóis, minhas especialidades são cerveja e uísque. Não trafegarei pelos lados dos vinhos, que me perdoem os meus leitores enólogos, ou dos destilados translúcidos. Procuro escrever sobre o que sei e sobre o que não conheço naquilo que sei. A cerveja segue o mesmo padrão, mas percorrendo uma gama talvez maior de estilos. O misterioso mundo da cerveja começa tão simples, separado em duas famílias, as Lagers e as Ales. Então, em um piscar de olhos, elas se subdividem em dezenas de estilos que variam entre o bom, o mau e o maníaco. Fica como exemplo o que o pessoal do hospício Tupiniquim fez com a Imperial IPA Polimango. Era para ser uma IPA feita de flocos de aveia, polenta e lúpulo. Tem gosto de manga. É óbvio pelo nome, mas até agora não sei de onde vem o sabor. Lógico que é do lúpulo, mas lúpulo sabor manga? E o mais estranho: a cerveja é ótima.

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O hábito de degustar diferentes bebidas – à escolha de cada um – é cheio desses momentos de confusão sensorial, de descoberta, exploração. Para mim, leigo, observar o resultado final dessas combinações é como presenciar um truque de mágica, alquimia na vida real. Claro que não é nada disso. Para fazer uma cerveja, é necessário conhecimento de cada ingrediente, experiência, tentativas e erros, um pouco de sorte, claro, mas mais do que tudo conhecimento e experiência, e um bom senso de paladar e olfato. Não é mágica, mas para mim parece. E gosto que pareça. Deixa as coisas mais interessantes e permite que eu aproveite mais e raciocine menos durante a degustação. Ao invés de procurar os sabores baseado nos ingredientes que eu “conheço tão bem”, deixo que os sabores venham e interpreto como achar melhor, às vezes certo, às vezes totalmente errado. É quase como a vida, em muitos aspectos.

Tudo isso e não disse uma palavra sobre o tabaco. Tenho tantas coisas para falar, apresentar, explicar. Vai ter que ficar para próxima. Vou dividir essa postagem em duas partes. Essa primeira parte, sobre álcool. Na próxima, atacarei o mundo maravilho dos tabacos.

Confissão no quarto 219 – parte 1

Postado originalmente em 4 de fevereiro de 2014: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/02/confissao-no-quarto-219-conto-parte-1.html

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Estava exausto. A única iluminação a entrar no restaurante vinha do capô de um sedã preto estacionado bem em frente à entrada, sem portas nem bloqueios, do hotel que refletia a luz do sol de meio-dia. O raio de luz batia no capô, cruzava a recepção, entrava na área do restaurante e chegava aos meus olhos, o que me fazia ver manchas coloridas por toda a comida. Isso, ou o frango grelhado estava com um caso sério de catapora e o arroz vencido havia um ano – torcia pela primeira opção. Além disso, havia um mosquito insistente que não deixava de circular meus braços, ora o direito ora o esquerdo, variando conforme usava o braço não espreitado para o abater. Bicho provocador. Em uma das minhas tentativas de abate, senti a palma da minha mão tocar seu corpo milimétrico. Foi gratificante, mas o orgulho acabou quando notei que dois garçons assistiam minhas tentativas de levantar voo ou nadar em oxigênio. Acreditei, sem evidências, que se divertiam muito com a imagem.

Só estava eu no restaurante, com exceção dos garçons – então de costas para mim conversando entre eles, mas isso não diminuía minhas certezas sobre suas gozações –, até que surgiram outros dois hóspedes. Quarto 105, eles disseram a um dos garçons, que, ao ver gente se aproximando, deixou seu posto de gozador hipotético e veio os atender. Tão logo sentou, o mais novo entre os dois tirou da mochila um tablet e um desses celulares pós-ficção-científica capaz de ouvir, falar, tirar fotos, ler mentes, cozinhar, varrer, lavar, passar e, talvez, comprada a cara atualização, oferecer prazer oral para ambos os sexos, mesmo que sem boca – aplicativo vendido separadamente, tão caro quanto o primeiro ou ainda mais. Se fazia ligações, ninguém havia descoberto como.

Podia não ser o melhor dos filhos, não sabia quanto tempo fazia desde a última vez que os telefonei – em retrospecto, quem sabe não fizesse tanto tempo assim, duas ou três semanas, no máximo –, mas nunca faria isso. Levantar todas essas paredes de telas eletrônicas durante a refeição. Estava acostumado a uma relação de afeto reprimido com meu pai. E, a essa altura, já julgava aqueles dois como pai e filho, era algo na atmosfera entre eles, além da semelhança física. Com meu pai, passava horas em silêncio. Quando falávamos, era sobre trabalho ou assuntos sempre muito vagos. Sentíamos – eu sentia – um respeito mútuo naquela ausência de palavras. Aquela velha ideia de seguir os passos do pai – seguia isso a risca, era um funcionário fiel – misturada à vontade de ir um pouco além ao fazer o que ele não fez, como estudar e progredir na carreira. Vontade a que ele respondia dizendo que não pôde estudar, enquanto eu tive tudo graças aos esforços dele. E eu respondia que, no momento, era eu que estava me esforçando para manter a família e, tudo indicava, assim continuaria, portanto paguei – estava pagando em longas parcelas – minhas dívidas. Até que ele se ofendia com a palavra dívida, e eu me ofendia por ele ter se ofendido. O respeito, contudo, era mantido, lado a lado com a competição bizarra e absurda. Aqueles dois, não havia nada daquilo entre eles, aparentemente. Não havia nada além das duas telas brilhantes. Um comia um sanduíche gigante cercado de batatas fritas, deixando molho escorrer e encharcar a penugem que crescia em seu queixo; o outro, uma picanha ao alho cujo cheiro se espalhava pela cidade. Do que eu sabia? Nada, concluí. Essa poderia ser a forma do silêncio de respeito mútuo entre eles. A maneira que eles tinham de se conectar.

Lembrei do quão orgulhoso meu pai ficou quando soube que ia fazer essa viagem e como ela significava o crescimento da minha carreira. Toda aquela história de ir além, eu estava feliz por conseguir, ele por ter sido responsável por isso. Naquele jantar solitário, terminadas as reuniões, faltando apenas pegar o avião de volta, me dei conta que não estava nem mais nem menos feliz por causa disso. Nem tinha vontade de voltar para relatar meu sucesso, muito menos levantar da cama de novo.

Terminei a refeição. Senti que meu dedo mínimo queimava e coçava, bem no primeiro ligamento, pouco acima da unha. Aquele filho da puta não estava morto. Pedi uma bebida.

Qual o quarto? perguntou o garçom.

Vai ser por minha conta – estava viajando as custas da empresa e uma dose de uísque, medicinal que fosse, não poderia de forma alguma aparecer nas notas fiscais que devia apresentar –, vou pagar agora, em dinheiro.

O que vai ser então?

Dei uma olhada nas garrafas enfileiradas na prateleira.

White Horse, com gelo.

Quantas pedras?

Duas.

Ele me serviu: — Pode ficar à vontade, senhor.

Quis ficar ali mesmo, encostado ao balcão do bar improvisado no canto do restaurante, pensando. Não bebia nada de alcoólico havia dois meses, feito inédito desde que saí da casa dos meus pais havia seis anos. Estava com saudades do jeito que o álcool queimava a garganta e esquentava o estômago. Como sempre, no entanto, os meus problemas não estavam se resolvendo. A esperada felicidade, a sensação de dever cumprido ou orgulho, não vieram. Em pequenos goles, esvaziei o copo, aproveitando os minutos de reflexão vazia. Pedi outro e repeti o processo. Dessa vez o álcool me levou ao exato grau de iluminação necessário para esclarecer minha melancolia repentina. É a quebra da rotina, disse o uísque. Até ontem você ia ao trabalho de manhã, saía pro almoço, voltava logo depois e, findo o expediente, ia para casa. De vez em quando via alguém. Raramente ficava feliz por ver alguém. Agora está acordando antes de o sol nascer para pegar aviões, visitando estados desconhecidos, cumprimentando gente supostamente importante e que você despreza e sempre disse que nunca cumprimentaria, passando a noite em hotéis, comendo em restaurantes. É muita informação, ele fez uma pausa, como se o próprio uísque tivesse seu copo de uísque e desse um gole pontificante, e é sinistro, quase outra vida. Você se sente sem identidade e, não bastasse, está exausto. Teve três horas desconfortáveis de sono nas últimas quarenta e oito horas. Vá dormir, o dia seguinte será mais leve, prometeu o uísque, e eu o obedeci depois de pagar as doses.

Iniciantes (Beginners) – Raymond Carver [2009]

Resenha originalmente postada em 30/01/2014 em: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2014/01/iniciantes-raymond-carver-2009.html

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Prometi que ia resenhar esse aí conto por conto, né? Sinto muito, mudei de ideia.  Mudei porque, como eu pretendo dizer mais a frente no texto, os contos desse volume têm temas recorrentes. Seria possível desenvolver interpretações individuais para cada história, mas quem tem tempo pra isso?
Iniciantes é a versão original dos 17 contos que compuseram a primeira coletânea de Raymond Carver, de 1981,  Do Que Falamos Quando Falamos Sobre Amor (que aqui recebeu o nome de Iniciantes). A diferença é que, naquela primeira edição, os contos foram desfigurados durante a edição. Para que vocês tenham uma ideia numérica, Do Que Falamos tem aproximadamente 140 páginas, enquanto Iniciantes tem aproximadamente 286, posso estar enganado, mas o número de contos foi o mesmo em ambos os volumes, ou seja, mais de 50% foi cortado do manuscrito original. Verdade que alguns contos poderiam ter alguns trechos retirados, mas, durante a leitura, não consegui imaginar o livro tão fatiado assim.

Falando das histórias, todas seguem um tema em comum, a classe média baixa americana, os restos do American Dream. Famílias totalmente reconhecíveis fora do mundo da literatura. Nessa coletânea se vê o alcoolismo – do qual Raymond Carver foi vítima por muitos anos -, desemprego, divórcio, traição, violência – muito mais reprimida e acidental que explícita, e, salvo pelo conto “Diga Às Mulheres Que A Gente Já Vai, sempre insinuada -, frustração e solidão. É difícil chamar um personagem de Carver de personagem, de tão reais que eles são. São pessoas fictícias, talvez reais, mas transformadas em ficção.

O estilo de Carver é descrito como minimalista, cheio de repetições, frases curtas e precisas, pouquíssima linguagem poética e muito da “teoria do iceberg” de Hemingway. Os detalhes, embora breves, inserem o leitor na vida daquelas pessoas, a ponto de se tornar difícil ler mais de um conto em sequência. É complicado acompanhar a vida de um casal que acaba de perder o primeiro filho e, quando a história acaba, simplesmente seguir em frente para a próxima – que pode ou não ser tão emocionalmente brutal. Essa é a chave dos contos de Iniciantes, as emoções, que raramente são descritas – afinal Carver é um bom escritor e sabe que uma história deve fazer com que o leitor sinta, não descrever os sentimentos -, mas são percebidas, estão por todo o lado nos contos, em todos os espaços vazios entre as palavras.

Nem tudo é perfeito, apesar de tudo. “É Meu”, por exemplo, conto sobre um casal durante o momento da separação – justo no meio daquela última briga, sabem? – e parte da briga é a guarda do filho recém-nascido. Foi até estranho, no meio de tanta sutileza, ver a mão do autor pesar tanto. É uma história terrivelmente triste, mas tão pouco polida que toda a “insinuação” – se é que ele tentou insinuar qualquer coisa – se perdeu completamente. O que devia ser um choque, acabou previsível e toda a emoção se perdeu. Isso sem mencionar um primeiro parágrafo cheio de redundâncias. Se em algum conto se justificariam edições pesadas, seria nesse, mesmo assim, não sei se salvaria.

De qualquer forma, é uma falha em meio a 16 pérolas. Iniciantes, o conto que dá título à coletânea, um diálogo entre dois casais “iniciantes no amor”, tentando de alguma forma definir um conceito para esse sentimento. Talvez esse seja o melhor conto da obra. Formado quase que completamente por diálogos, contém praticamente todas as fases do amor. Desde a ignorância feliz dos primeiros anos até as crises de ciúme do fim, analisando os relacionamentos passados e presentes, e como cada um tem seu conceito indiscutível do que é amor. Logicamente, ele não poderia concluir o conceito, por isso termina em bebedeira, medo e lágrimas. Uma obra-prima do conto, sem dúvida. (apesar de também conter um erro de revisão, mas eu relevo, foi um dos únicos no livro inteiro.)

O conto, infelizmente, é uma forma de narrativa esquecida. Se já se lê pouco no Brasil, até mesmo romances, contos estão quase no mesmo patamar da poesia, o que é uma pena. Já escrevi isso antes, mas insisto, um bom conto pode ter a mesma força e peso de um romance, independente do número de páginas, e Iniciantes é a prova disso. Indico a leitura para qualquer um que goste de boas histórias, reais e brutas, mas cheias de sentimentos, e queira se inserir no mundo dos contos.

Nota: 4,5/5

A importância retrospectiva das coisas

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O conceito de destino é um tanto arrogante. Isso pode soar como uma máxima amargurada e desesperançosa de um cético chato, mas não. Considere o universo e tudo que não se sabe sobre ele. É coisa que não acaba mais, correto? Expandindo e explodindo, criando e destruindo, todos os dias, sem que se note – que nós, humanos, que nos fazemos centro e razão por trás de tudo devido a uma suposta consciência que tampouco somos capazes de suportar, que dirá compreender, não notamos porque essas explosões e destruições são bem notadas em diversos pontos do universo e o planeta em que nascemos e apelidamos de Terra, por sorte, fica bem distante dessas explosões, pelo menos por enquanto. Caos infinito e, ao mesmo tempo, harmonia. Em meio a tudo isso, nós, que habitamos esse proverbial ponto azul, nos fazemos acreditar que aquilo que nos aconteceu, de bom ou mal, aconteceu por uma razão maior. O famoso: era pra ser.

Que não entendam com isso que estou dispensando forças maiores que possam ou não ser responsáveis pela criação e funcionamento do universo. Isso está além do conhecimento humano e não acredito que um dia teremos uma resposta. Por enquanto, em se tratando de divindades, cada um que siga aquilo que achar melhor – tanto em questão de conforto quanto crença real.

A história que eu estou tentando contar é sobre a vez em que eu me apaixonei. Não pense que aqui seguirá um meloso relato sobre um grande amor que não é mais, porque esse nunca foi. E, pensando bem, a descrição desse tal amor ocupará poucas linhas em comparação as divagações que virão por consequência dele. Vejam bem, foi um daqueles casos de amor não correspondido, se algo assim pode existir. Mais ainda, foi um amor não correspondido um tanto juvenil e patético, quanto mais eu penso nele. Naqueles dias que passaram há tantos anos, mais de meia década.

Começando do começo, nos conhecemos na faculdade. Estou tentando evitar muitos detalhes em nome dessa privacidade pela qual eu tanto prezo (minha, que sou paranoico, e dela, que hoje é mãe, vale apontar).  Descobri bem rápido que ela tinha namorado então não me esforcei por formar contato logo de cara. Senti aquela atração súbita e artificial que a beleza normalmente causa. Mas foi só. Falamos por poucos minutos durante uma apresentação que o professor forçou entre os alunos que estivessem próximos e por acaso ela estava próxima. Isso foi na primeira semana de aula e só voltamos a nos falar um mês depois, ou mais que isso. Fazem sete anos, então não esperem precisão nas minhas lembranças. Quando nos falávamos era por culpa de trabalhos em grupo. Conforme os alunos se juntavam, parava nos mesmos grupos que ela. Acreditem ou não, isso acontecia por acaso. Por eu estar numa cidade nova, não tinha amigos ou grupos de costume, sempre esperava alguém me chamar e, quando me dava conta, lá estava a moça da primeira semana. E assim nos falávamos mais um pouco. De incidente em incidente, formamos uma amizade que eu poderia dizer foi a amizade mais próxima que eu já tive, ou uma das.

E que esse relato não se confunda com essas típicas choradeiras de “friend-zone” que vocês crianças tanto adoram falar sobre. Isso não existe, jovens. Pessoas não evitam sexo por causa de amizade. Pessoas usam amizade como desculpa para não se verem obrigadas a transar com gente por quem elas não estão atraídas sem ter que dizer: não quero transar com você porque você não me atrai. Você é meu amigo é um jogo de linguagem, e o jogo de que ele se trata é o das relações humanas de atração e sexualidade. É bem simples. Não requer matemática para compreender esse fenômeno das interações sociais modernas. Evidência disso é que existem casais com fortes vínculos de amizade e eles transam, assim espero. Pronto. Que esse assunto se encerre por aqui.

Essa amizade se estendeu por vários anos. Em algum momento desse período eu me apaixonei completamente por ela. Resumindo, ela não estava interessada. Houve toda uma conversa sobre esse assunto. Talvez até tenha chegado perto algumas vezes. Mas nunca aconteceu. Um dia, ela largou o curso na faculdade e perdemos contato. As coisas são assim. Até laços que parecem firmes se quebram, e isso às vezes é o melhor. Enquanto durou, no entanto, não foi fácil para mim. Para ela, não faço ideia do que ela pensou nesse período, sobre mim e sobre tudo mais. Acredito que não tenha pensado nada. Se o tivesse, estou certo de que eu teria percebido de alguma forma. Foi um período de que eu não me orgulho. Fiz algumas bobagens. A maior parte delas envolveu uma garrafa de alguma coisa. Eu não tinha dinheiro nesses dias – tinha menos do que agora -, trabalhei de estagiário por um tempo, depois num despachante aduaneiro. Dependia um tanto mais do que eu gostava de admitir dos meus pais. Então, se eu queria me embriagar, não podia ser com nada que causasse uma impressão no orçamento limitadíssimo. Fiz amizade com gente como um infame e indistinto Chanceler brasileiro, com dona Odete (conhecida nas ruas como Old Eight, e esses Eight não são anos, são minutos que ela passou na banheira de algum cidadão inominável de Praia Grande que se dizia escocês), com o nobre selvagem Natu, entre outros criminosos. Quase ia me esquecendo do Passaporte, que até na época já era artigo de luxo, por isso menos frequente que os outros remédios. Coisas que fazemos nessas horas, quando estamos insatisfeitos com a vida, mas não queremos dar fim a ela, só maltratá-la tanto quanto ela parece nos maltratar.

Outra coisa aconteceu e que quase não envolvia auto-envenenamento.  Talvez por ser algo novo, essa história de amar uma pessoa de forma tão incondicional que parecia errado, tive acesso a emoções que não me julgava capaz de sentir. Numa desventura com Bukowski, rabisquei um poema e fingi que gostei. Tenho uma personalidade dada aos vícios e me viciei nessa tal de literatura também. De início, e costuma ser assim para vários outros viciados, era só terapia. Eu prometia para mim mesmo que não ia dar em nada, não poderia – e até hoje não deu em nada, mas naqueles tempos eu não queria que desse, hoje a conversa é outra. Escrevia aquelas palavras e, de tantas em tantas, mudava de linha para formar um verso. Esse era o processo. Coisas mais que a forma poderia exigir, eu ignorava. Fui aprendendo com o passar dos anos e toda a prática, as intenções e alvos também mudaram muito, mas no começo eu só me importava com expressar aquilo que estava lá e que eu não sabia direito o que era e precisava sair.

Como eu quero voltar no tempo e estapear aquele moleque cretino que tomou posse de mim por tantos anos.

Então ela foi embora, mas eu continuei escrevendo. Aprendi a tomar as rédeas da bebida, depois de alguns incidentes – não falemos sobre isso até porque não foi tão ruim, dei sorte de precisar de mais que a maior parte das pessoas para perder o controle, mas uma hora todo mundo se perde. Ela foi, mas a maior parte das coisas que ela indiretamente trouxe ficaram, umas mais, outras menos, e acho que esse é o ponto dessa história.

Existe aquela tentação de dar o nome destino para esses momentos. É uma tentação egocêntrica. Primeiramente porque, aceitando destino como realidade, é necessário, por lógica simples, que exista algo tal como predestinação envolvendo todos os habitantes desse planeta – ou apenas os da espécie humana, que é o que parece ser aceito entre todos aqueles que acreditam em destino e coisas do tipo (raramente se houve dizer que um gato estava destinado a passar por tal situação, por exemplo) -, um plano universal que pode ou não ser divino. Meu cérebro consegue apenas processar esse tipo de conclusão como arrogância. É como disse David Foster Wallace, todas as minhas experiências me levam a crer que eu sou o centro absoluto do universo, essa é minha programação básica. Mas eu me recuso a me deixar levar por essa programação porque já sou egocêntrico o suficiente sem essa crença absurda de que o universo se importa tanto com a minha vida que vai gerar todo tipo de incidente e infortúnio para que eu sempre me desloque em direção a esse destino, se eu passar a acreditar nisso é muito possível que eu não me torne uma pessoa mais resignada, mas que, ao invés, desenvolva um complexo de deus. Estou bem certo de que, tendo as coisas dado certo com a tal moça, nunca me teria vindo a motivação para escrever e não teria seguido (estaria seguindo) esse caminho. Na verdade, ele nunca nem me teria vindo à mente, pelo menos não até que o relacionamento ruísse, como haveria tantas chances de acontecer partindo do momento que ele passasse a ser (não acredito em destino, mas acredito no poder absurdo da estatística, e o fim é uma de infinitas possibilidades de tudo que começa, como tudo o é, tudo envolve infinitas possibilidades e caminhos com resultados – destinos –  diferentes). Logo passaria a considerar um relacionamento com ela e uma vida sem literatura (ou consideravelmente menos literatura) o destino, ou os outros passariam a considerar isso como destino, já que eu não acreditava nisso antes e seguiria não acreditando.

Posso manter, como mantenho, esse estranho sentimento de gratidão para com essa moça, mesmo que ela não saiba que está no centro disso tudo, por ela ter causado esse desvio na minha existência, ou posso amaldiçoá-la pelo resto da minha vida pelos transtornos pessoais que esse novo caminho já me causou e pode ainda causar – fiz tão pouco na literatura para poder considerar esse caminho como percorrido, mal dei meus primeiros passos, uns diriam, com razão, que nem ainda os dei. Mas é o que é. Ela veio e foi. Isso me deu vontade de escrever. Essa vontade cresceu e virou um objetivo de vida. São momentos e seus resultados. Igualáveis a um não sair num sábado a noite e, por consequência, não conhecer num bar a pessoa que mudaria minha vida uma outra vez ou ser contratado por uma empresa e, portanto, parar de enviar currículos para tantas outras que poderiam ser tanto piores quanto melhores – exemplos soltos, apenas, e que para os quais existem inúmeras equivalências. Em suma, a vida é isso. Sequências de momentos vividos e não vividos, ou melhor, a existência humana, em termos mundanos e bastante superficiais, é isso, enquanto a vida é o resultado dos momentos vividos, que poderia ser milhares de milhões de coisas, que se resumem a uma grande coisa, que começa no nascimento e termina na morte. É difícil ver assim porque é raro analisarmos nossa própria vida. É muito mais fácil assistir a dos outros, especialmente a daqueles que já não vivem mais e que por nós são admirados. Não observo a vida de um Cortázar pelas milhares de milhões de coisas que ela poderia ter sido, mas pelo que ela foi. Assim é fácil dizer que ele estava destinado a escrever O jogo da amarelinha e mudar a história da literatura para sempre e que todos os eventos de sua vida conspiraram por esse resultado. E, se alguém, após a minha morte, se der o trabalho de observar o sabe-se lá o que será da minha vida, acreditará que o universo conspirou para que fosse o que foi/será. Enquanto eu, em vida, posso muito bem dizer – embora sem certezas absolutas – que não foi assim. Que estou apenas escolhendo uma entre milhões de coisas. Algumas das escolhas são voluntárias, outras são impostas por limitações acima das minhas capacidades de mudança – não posso ser um asiático, por exemplo; não é vontade minha o ser ou não ser, nem acredito que minha vida teria sido melhor eu tendo nascido com outra nacionalidade, embora possa admitir essa possibilidade, estou apenas expondo um fato, e um fato bastante óbvio, e, como todos os óbvios da vida, ignorado. E toda minha escolha elimina as opções negligenciadas. Por enquanto te agradeço, moça. Vamos ver o que direi no futuro.

Poesia 3

observações noturnas 1

nenhum som na cidade escura, nas ruas só a solidão passeia,
o carro passa, o bêbado tropeça, o casal discute,
todos sozinhos.
os jovens festejam, a família dorme, a puta fode, acompanhados da solidão eterna e onipresente.
alguém grita no vazio, e as sirenes tocam, um invisível acende uma vela.
a vida, então, se apaga e
a família chora, os jornais escrevem e o idealista da inocência virgem protesta o que
ninguém viu. 
as boates estão cheias de luxúria, mentiras, vazio e lágrimas, 
tais quais as igrejas.
uma garota foi drogada, uma criança enganada – ambas violadas – e
                                             ninguém viu 
                                             ninguém sabe 
                                             ninguém liga.
a vida é curta - tanto que a de alguns chegou ao fim enquanto você lê essas palavras, 
talvez a sua seja a próxima cortina a se fechar.
no espetáculo da vida, ao fim não se aplaude – 
se teme e se esquece.
reze bastante meu filho, agradeça a cada momento. se tornarás um de nós amanhã ou 
depois, se não fores antes levado ao esquecimento.]
esses são os banheiros da existência.

Desacompanhado [conto]

Quinto andar, desce, diz o elevador, um segundo antes das portas se abrirem. Deixo as outras pessoas saírem primeiro. Quero me livrar da manada. Sábado à noite no cinema sozinho. Ignoro quando dizem que esse é um hábito estranho. Gosto de ver filmes sem ninguém ao lado que me conheça. Posso prestar atenção no filme sem me preocupar com o que a outra pessoa está pensando. Se está gostando do filme. Se minha companhia é tolerável. Independente do dia, estou sempre comigo. Fica chato, às vezes, mas não me cobro de nada. Estou sempre por perto de mim e nem preciso telefonar para me convidar para sair. Quando entrei no shopping, fui pego por aquela ansiedade típica de quando me vejo sozinho em meio a vários pequenos grupos de pessoas. Sinto que sou um indivíduo menor perante outro, único, gigante. São aqueles cardumes de sardinhas que se juntam muito próximas umas das outras para dar aos predadores a impressão que elas são um peixe gigante e não um conjunto formado por vários peixes minúsculos. Creio que a intenção é a mesma entre os humanos. Mas eles não buscam a intimidação física, é a afetiva que eles precisam mostrar. Eu sou feliz, eu sou bem ajustado, eu estou me divertindo, diz o gigante.

Antes de subir ao cinema, parei na praça de alimentação. Dois chopes, isso aliviava a tensão nos meus ombros e normalizava minhas batidas cardíacas. Com o terceiro, e último, eu olhava o gigante nos olhos. Era capaz de comprar uma briga com ele. Afetiva e não física. Mostrar que ele não é o feliz, agarrado e dependente dos outros só para poder dar uma risada ou um passeio ou ver um filme, tendo que lidar com aqueles membros desagradáveis do grupo, mas dos quais ele nunca conseguiu se livrar por medo de sua opinião ser minoria no grupo e ele acabar solto. Claro que isso só acontecia na minha cabeça, embora um espectador distante pudesse ver, talvez, meus lábios se mexerem, fechados, em reação as coisas que eu não dizia.

As pessoas em frente ao guichê do cinema não estão comprando ingressos. Estão conversando entre si, vendo no telão que filme escolher. No entanto, não abrem espaço. Peço licença, mas não me ouvem. A terceira cerveja, a melhor de todas, me pega pela mão e leva meu corpo até o guichê, como se não houvesse nada na minha frente. Acabo esbarrando em um deles, que não diz nada. Eles saem da frente e vão para um ponto um pouco mais distante, seguindo a discussão como se nada tivesse acontecido.

– Dá pra acreditar nessa gente?

– O que, senhor?

– Esse povo aglomerado, achando que isso aqui é mesa de bar.

– Qual o filme, senhor?

Digo o nome e o horário. Ela me responde com o preço e, na tela em frente ao caixa, aparece o desenho da sala, com a disposição das cadeiras.

– Qual cadeira?

Digo o número da cadeira e a letra correspondente à fileira. Ela imprime o ingresso e me entrega. Vou perguntar ao atendente no corredor que leva às salas se a para que devo ir já está liberada. Em dez minutos, ele diz. Circulo o local, procuro um canto para me encostar, um algo similar a um banco – já que ninguém pensou em instalar bancos ali. Não há nada livre. Casais sentam juntos nas pedras que cercam o jardim artificial no centro da sala, aguardando o começo dos filmes. O elevador segue trazendo gente e mais gente, sempre em cardumes, uns maiores que os outros. Duas crianças se separam dos pais e saem correndo pela sala em euforia que apenas eles compreendem. Os pais deixam elas correrem, desde que fiquem longe das escadas rolantes, e as crianças obedecem. Naquele espaço, foi construída uma área externa, um mirante com vista ao porto. À noite, a lua se reflete na água do mar e no metal das máquinas e contêineres, dá beleza até a algo tão industrial e frio. Encosto os braços nas barras de ferro que servem de parapeito. Duas barras paralelas que cercam o mirante, cruzadas a cada tantos centímetros por uma barra vertical, deixando muito espaço vazio entre as barras. Em ponto algum do mirante vejo uma placa de proibido fumar. Tiro o maço do meu bolso, tiro um cigarro e o acendo com o isqueiro. Os namorados que observavam a paisagem, próximos de mim, se afastam. A moça forçando uma tosse, o cara me olhando torto. Podem ir, em parte esse foi meu objetivo com esse ato. Sou tomado por esse egoísmo. É tão difícil de controlar. Quero o cinema para mim, quero o mirante para mim. Só a presença física das pessoas me incomoda, mesmo distantes, mesmo que nem me vejam. Suas vozes, o barulho dos seus passos, não é sempre, mas certos dias, fazem minha pele coçar. Ecoam na minha cabeça e brigam pela minha atenção. Não consigo desligar meus ouvidos para os sons. Capto todos separadamente e eles se debatem dentro de mim. Agora não mais. Apenas o som do vento. E como alguém pode não ver beleza nessas longas nuvens de fumaça que se formam no ar e dançam livres pelo vazio.

Um homem se aproxima.

– Tem fogo?

Tiro o isqueiro do bolso, entrego para ele. Ele acende o seu cigarro e devolve o isqueiro para mim. Repito mentalmente: nãofalacomigonãofalacomigonãofalanãofala. Ele fala.

– Vai ver qual filme?

Digo o nome. Antes que ele reaja, apago o cigarro no parapeito de ferro e atiro a bituca mirante abaixo, no que parece ser o estacionamento de uma transportadora – vejo dois caminhões parados, a parte de trás da placa que, vista de frente, deve mostrar o nome da empresa aos que passam, cercas de metal e um portão grande trancado. Vou embora sem dizer nada. Pergunto ao rapaz para quem perguntei se a sala estava liberada onde ficam os banheiros. Ele apontou a direção. Despejei as cervejas para fora dos meus rins. Na pia, lavando as mãos, evito o espelho. Fico olhando para minhas mãos, a água corrente, a espuma formada pelo sabonete líquido e a forma que ela é levada pela correnteza miniatura até o ralo e some das vistas. Enxugo as mãos, tudo muito devagar. Mas os dez minutos não passaram ainda, acho. Pergunto de novo ao rapaz, quando passo por ele, e ele responde que ainda não, mas logo a sala estará liberada.

Volto ao mirante. O homem ainda está lá, fumando seu cigarro, mas, talvez por ter se ofendido, não se dirige a mim. Fico aliviado por isso. Vejo o canto em que a barra de ferro encontra a parede e me sento ali, no chão. Acendo mais um cigarro, encosto a cabeça na parede e assisto a vida dos outros passar – e, por consequência, a minha. As crianças soltas aguardam a porta automática se abrir e entram correndo pelo mirante. Seus pequenos pés batendo no chão de madeira são agudos e espalhafatosos como vários tambores de brinquedo sendo agredidos. Não há lógica regendo a brincadeira deles. Apenas correm em círculos, um atrás do outro, sem objetivo. Mas sabe-se lá o que se passa na cabeça deles. Podem correr de monstros ou para os monstros. O mirante pode ser uma grande montanha.

O menino vê a cerca de metal e é magnetizado por ela. O perigo disfarçado de segurança. A ausência de autoridades que o impeçam de fazer o que passa por sua mente infantil e imune aos medos da realidade. Crianças são assim, em sua maioria. Suscetíveis apenas aos medos invetados. Fantasmas são assustadores, como é o escuro e os monstros e o espaço debaixo da cama. A boneca de porcelana da casa da avó é horripilante e o fundo dos armários tão grandes em comparação aos seus corpos não-formados. A solidão, por outro lado, não existe. Nem existe o acaso dos acidentes e os quartos de hospital nem as doenças terminais. A morte em si, para eles, é impensável. Eis a importância, para a formação de uma criança, daquele velho parente próximo, um avô ou avó, que morre e os faz entender a efemeridade das coisas. Mesmo assim o tempo deles é outro. Seus dez primeiros anos duram muito mais que o resto de suas vidas. Por isso, o que há a se temer? Ele agarra a barra de cima e a balança. A barra não sente nada, mas seu corpo treme de um lado para o outro e ele sente que move o shopping inteiro a um terremoto. Chama sua irmã. Ela não vem. Fica parada, olhando, certa de que ele está fazendo algo errado e que ela não deve participar. Tem aquele olhar ingênuo e fechado, triste, que não é de medo, mas é ansioso. Porque ela também não entende o medo real, só não quer que briguem com ela. E aquela ação, divertida que pareça, tem cheiro de punição. Quando ele bota o pé direito na barra mais baixa, ela sai correndo do mirante. Vai procurar seus pais? Avisar a eles o que seu irmão está aprontando? Pergunto a mim mesmo se ninguém mais vê isso. Mais pessoas ocupam o mirante agora, mas todos parecem indiferentes às travessuras mortais do menino. O pé esquerdo dele sobe na terceira barra. Seu corpo inteiro, agora, está fora do mirante, no ar, apoiado apenas pelas barras de ferro, que não vão ceder, mas que oferecem espaço suficiente para que ele caia. Ninguém olha. Eu observo, mas não sei o que fazer. Puxo a criança que não é minha? Tomo para mim essa responsabilidade? Aviso que ele deve descer e procurar seus pais? Por que ele me ouviria? Ainda é capaz dos pais dele brigarem comigo por repreender o filho que é deles. Mas não consigo sair da minha posição. Minhas pernas não me deixam levantar e meus olhos não se desgrudam dele. A essa altura, outras pessoas já observam o menino, mas tampouco parecem capazes de fazer alguma coisa. No máximo criticam mentalmente os pais que deixam uma criança solta desse jeito. Vejo um homem e uma mulher, esta carregando a menina no colo, pela porta de vidro. Eles esperam ela abrir e quase me sinto aliviado por isso. O homem, desesperado, solta um grito. Lucas. Assustado, Lucas olha para trás, mas seus pés escorregam da barra para fora do mirante. Suas coxas batem na barra e o resto do seu corpo escorrega. Alguém tenta segurar o menino em queda, o homem que eu ignorei, que era quem estava mais próximo dele, mas não consegue. Desvio os olhos do pátio de caminhões. Acho que não ver era melhor, mas estou errado. Ouço o estatelar do seu corpo na queda. Nos filmes, pessoas em queda livre gritam. O menino não gritou. Nem gemeu quando bateu na barra de ferro. Foi o choque do medo que ele não sabia que existia. A lição única chegou tarde. Por não ver, imagino, o que pode ser pior. Imagino que a queda o tenha esmagado, ele ainda tão frágil. Ossos estão expostos, órgãos pelo chão. Sangue e mais sangue. E minha bituca de cigarro ali, se deixando avermelhar, absorvendo tudo. Só desperto quando as cinzas do meu cigarro, que esqueço de bater, caem sobre mim. Solto o cigarro e piso nele. Uma multidão se aglomera no ponto em que o menino caiu, é impossível de chegar. Não vejo os pais, que devem estar cercados no centro de tudo. Prefiro não ver nada. Prefiro não entrar na aglomeração. Saio do mirante. Minhas mãos tremem e eu não consigo deixar de ver a queda, como um filme da mente, de novo e de novo. Tanto o que de fato eu vi como o que eu inventei ao deixar de ver. Os funcionários, do lado de dentro, ainda parecem não saber o que aconteceu. Pergunto ao rapaz sobre a sala.

– Já tá liberada há uns minutos. Posso ver seu ingresso?

– Aqui – o entrego e ele o carimba e me devolve.

– O que aconteceu lá fora?

– Não sei. Eu não vi.

– Certo. Bom filme, senhor.

Entro na sala e, pela primeira vez no dia, fico feliz em ver pessoas. Significa que outros não viram o acidente. Que mais gente está disposta a se deixar levar pela alegria estúpida de um filme comercial. Sento na minha cadeira e respiro fundo toda aquela ignorância. As luzes apagam e a tela se acende. Começam os trailers e eu não consigo esquecer, mas já não sei.