Star Wars VII: The Force Awakens (Guerra nas Estrelas VII: O Despertar da Força) – J. J. Abrams [2015]

Antes de mais nada, o contexto. Década de 90, eu apenas uma criança sem ideia nenhuma do que era a vida. Foi lançado o primeiro filme da “nova” trilogia de Guerra nas Estrelas, idealizado pelo nosso idiota favorito, George Lucas. Me lembro de ter alugado o filme em VHS, na finada Blockbuster, após muita insistência de um amigo da época, que era o tipo de pessoa que, mais tarde, todo mundo passou a achar que ia entrar em colapso e causar um tiroteio na escola – sim, eu andava com gente esquisita. Achei um tédio. Todo um papo de senados e congressos intergaláticos, política interplanetária, misturado com um bushido científico bizarro que não ajudava nada a fazer sentido e uma criança que não era boa o suficiente nem pra atuar em peça de escola. Minha primeira impressão não poderia ter sido pior. Tendo dito isso ao tal amigo, ele disse que era porque eu não conhecia os clássicos. Se conhecesse, tudo faria sentido. Que a criança pentelha era um dos vilões mais icônicos do cinema etc. etc. Aluguei o Uma Nova Esperança e, puta que o pariu, eu entendi. Era uma história simples, a-b-c, quase infantil – o que para mim, que era uma criança, foi ótimo. Os personagens tinham personalidade – o que é muito em comparação a trilogia merda (descreva a personalidade do Anakin, sem mencionar aparência e função, vamos, eu te desafio). Sem falar que foi na época da fita VHS, antes do George Lucas ter tempo de foder tudo com suas inúmeras inserções (Greedo nunca atirou, ok? Han Solo atirou primeiro). Me tornei um fã da série ali. Logo no fim de semana seguinte vi O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, e até, devido a mente influenciável da criança, após segunda inspeção, me enganei o suficiente para acreditar que A Ameaça Fantasma até que era bom (não é!, é horrível, eu estava certo antes) e ficar ansioso para o que viria depois. Mal sabia eu da sucessão de desgraças e erros e confusões a que o senhor Lucas nos submeteria, pois o slogan do homem é: em time que tá ganhando se demite todo mundo.

614703

Corta pra mais de uma década depois (caralho, uns 15 anos, se não mais…), cá estou eu, um tanto mais cínico e, em se tratando de Star Wars, cético. Meu posicionamento sobre esse filme, desde o anúncio, foi: eu vou ver, mas só porque não tenho autocontrole suficiente para ignorar. E, como não poderia deixar de ser, dia 19 de dezembro de 2015, estava eu sentado no cinema esperando o que poderia ser a cusparada galática final em minha face ou a redenção de anos e anos de decepções em duas horas de cinema comercial da maneira que ele deve ser. O que aconteceu? Antes de mais nada, vamos às necessárias formalidades.

star-wars

Há muito muito tempo atrás em uma galáxia distante… deu merda. Todo aquele trabalho derrubando o império, um pentelho treinado pelo Luke Skywalker foi pro lado negro, deu cabo em todos os novos aprendizes de jedi e se uniu à Primeira Ordem – grupo que busca reviver o império e todas as suas nada sutis referências nazistas -, pronto para seguir o legado de Darth Vader. E, até então, a Primeira Ordem está conseguindo recuperar o velho império, montando uma Estrela da Morte dentro de um planeta (mas ainda não aprenderam a deixar essa porra invulnerável – depois falarei sobre esse detalhe). A maior parte das pessoas passaram a acreditar que as histórias da revolução, com Luke Skywalker e sua trupe, não passam de lendas – visto que Luke sumiu do mapa depois do seu aprendiz ter matado todo mundo – e que força, jedis e essas coisas nunca existiram. Enquanto isso, no planeta-deserto que não é Tatooine, vive Rey, uma menina que ganha a vida vendendo partes de naves destroçadas que caíram pelo planeta. Ela se encontra com Finn, um stormtrooper que desertou e conseguiu fugir e continuar vivo para contar a história (ao mesmo tempo liberando um piloto da rebelião). Os dois, com o simpático droid BB8 (o novo R2D2), fogem e se encontram com Han Solo e Chewbacca, para reviverem o enredo de O retorno de jedi.

Que porra é ela?

É, o filme não se esforça em ser diferente da trilogia original. Pode-se dizer que O despertar da força tem uma cena representativa para cada cena clássica de O despertar da força. Mas isso nunca é ruim. Convenhamos, depois do desastre da nova trilogia, a maior parte das pessoas que ficaram empolgadas com a notícia de uma nova continuação queria ver algo seguro, próximo do original e tão divertido quanto. Porque é isso que Guerra nas Estrelas sempre foi. Não uma história sobre intrigas políticas que não fazem sentido quando analisadas de perto (rainha que tem uma sósia que dá ordens a ela – rainha real – quando elas trocam de função – ficou confusa a frase, agora imagina no filme), ou sobre um culto místico de guerreiros sem expressão que coreografam lutas de espada de luz. O Guerra nas Estrelas de que eu me lembro é uma história simples, talvez até demais, mas com substância o suficiente nos personagens para se tornar marcante. Eu não sei, sem usar aparência e função no filme, descrever o Obi Wan Kenobi da nova trilogia, mas sei o da clássica. Essa é a diferença fundamental entre eles. Sendo assim, ver algo além de efeitos especiais em O despertar da força, por si só, já foi mais do que o esperado.

Os personagens clássicos que retornam conseguiram entregar seus papéis com autenticidade, nunca com aquele ar de cansaço e “só nisso pela grana”. Dá pra ver na Carrie Fisher e no Harrison Ford aquele ar de saudade e alegria pelo retorno temporário ao ápice de suas carreiras. É possível enxergar Han Solo e Leia  representados por eles, não só dois velhos atores, que um dia foram bons, mas hoje se restringem a uma imitação barata do que um dia foram. Com Mark Hamill, por outro lado, tenho receios. Ele foi o pior ator da trilogia clássica e não creio que tenha melhorado. Nesse filme ele aparece por segundos (os piores do filme, a propósito – falarei sobre isso no final da resenha), para o meu alívio. Acredito firmemente que o filme seria muito inferior se ele tivesse um papel marcante. O sábio mentor de Uma Nova Esperança, é sempre bom lembrar, foi Alec Guinness, um ator premiado, que fez de Shakespeare a Lawrence da Arábia a…, bom, Guerra nas Estrelas.  Mas saber que Mark Hamill provavelmente vai ter um papel central nos próximos me deixa com um pé atrás. Espero que ele tenha praticado um pouco com o passar dos anos, mas duvido.

2bb6b03000000578-3213280-image-m-86_1440699215728

E os novos? Tenho algumas restrições, mas, em geral, elogios. A atuação está no ponto. Eu realmente quero ver aonde a carreira da maior parte do elenco vai parar. Oscar Isaac e Adam Driver eu conhecia de Inside Llewyn Davis. Daisy Ridley e John Boyega foram novidades interessantes. Minhas restrições vêm mais por culpa dos roteiristas que dos atores propriamente ditos. Vejam bem, Rey é uma personagem ótima, mas ela vai precisar de limitações, se o filme espera gerar um mínimo de tensão para o espectador. Os talentos dela foram bem justificados, mas ainda me incomoda ela ter aprendido por osmose os caminhos da força. Ela foi uma personagem tão boa em tudo que, no fim do filme, eu não tinha dúvida nenhuma de que tudo daria certo. Mas seria um filme de “ação” sem conflito algo a ser elogiado? Não. Faltou conflito. E parte do motivo dessa ausência veio por causa da protagonista perfeita.

Finn começou muito bem. Foi a primeira vez que vi um Stormtrooper demonstrando personalidade – e ele não é o único, nessa nova trilogia, ao que parece, Stormtroopers têm individualidade, não são mais só figurantes a serem fatiados e explodidos – e isso me impressionou desde a primeira cena. Aos poucos, no entanto, ele foi se tornando alívio cômico. O amigo da galera. O cara que corre atrás dos outros, fazendo piada. Queria que isso mudasse. Pra um personagem que, conforme foi dado a entender, passou por lavagem cerebral e não conheceu nada além de treinamento e guerra, ele não tem nenhum demônio pessoal. De novo, perfeito demais, mesmo sendo meio pateta.

O pior exemplo talvez seja Kylo Ren. Como todos os outros, começou bem. Mas, com o passar das cenas, foi ficando mais e mais patético. Terminando como um adolescente escandaloso. Darth Vader era impassível e tinha surtos de raiva, mas era intimidador nesse aspecto. Kylo Ren é risível. Seus subordinados (inclusive um Stormtrooper) tiram sarro dele. Talvez por não ser totalmente treinado – o filme uma hora nos explicou -, mas isso não é desculpa. E o mesmo vale para o mestre dele. Uma vez na vida, queria ver Andy Serkis em cena, ao invés de só sua voz num personagem bizarro (nenhum respeito por esse tal Snoke, sinceramente).

Apesar desses defeitos de construção, que, eu espero, serão ajustados nas sequências. O filme cumpre e muito bem seu papel. Derivativo da trilogia original, sim, sem dúvida. Mas o filme nunca demonstra ter intenções mais profundas que essa. Boa parte dele, inclusive, acontece entre as sucatas dos filmes originais. Metade da história gira em torno das lendas criadas nos filmes originais. O objetivo deles era mostrar ao espectador velho que tudo está bem, o homem mal foi embora e aquilo de que eles tanto gostavam vai voltar a ser o que era antes, e mostra ao novo as proporções fantásticas das histórias antigas, tornando impossível a alguém que nunca tenha visto os primeiros filmes de Guerra nas Estrelas antes não querer corrigir esse erro. Isso vai criar certas expectativas para os próximos? Sim, mas não dá pra julgar antes que a coisa aconteça. Enquanto as derivações e cópias descaradas podem ser perdoadas e até trazem conforto nesse primeiro filme, para os próximos, é bom que eles botem ordem no barraco e comecem a arriscar.

Nota: 4/5

Obs.: quando os engenheiros do império vão aprender a tapar buracos?

Obs. 2: o que foi a última cena? O filme poderia ter terminado antes disso, depois de tudo dar certo, eles comemorarem e o R2D2 abrir caminho para a sequência. Mas não, eles tinham que filmar uma cena em que Mark Hamill com barba fica encarando a Rey que nem um babaca. Devia estar escrito no contrato dele que ele deveria aparecer em todos os filmes, mas os roteiristas esqueceram e rabiscaram essa cena de última hora. Agora eu sou obrigado a acreditar que eles vão manter aquela pose até o começo do próximo filme.

Obs. 3: Ok, a nave em que o Finn e o Llewyn Davis (Oscar Isaac) fugiram caiu no planeta de onde eles vieram. Finn se salvou pedindo ajuda. Pra onde foi Llewyn Davis? Do nada ele aparece são e salvo em outro planeta. Porra, filme, tem que explicar essas coisas. Um diálogo bastaria.

Finn: como é que você tá vivo, filho de rapariga?

Llewyn: a, sabe como é, decidi te deixar pra morrer e fui pedir ajuda sozinho. Aí encontrei um cara com uma nave, assassinei o cara e fugi de volta pra base.

Finn e eu em unísono: Ah, ok, tá explicado.

Anúncios

Um comentário sobre “Star Wars VII: The Force Awakens (Guerra nas Estrelas VII: O Despertar da Força) – J. J. Abrams [2015]

  1. Realmente a resenha parece negativa, mas dá pra perceber que você gostou. Até porque, se não tivesse gostado, duvido que teria feito toda essa análise.
    Enfim, agora que já passou um tempo desde que assisti e depois de ler o que você escreveu, percebi que o filme não foi marcante pra mim. Acho que ele foi feito pra agradar aos fãs de verdade mais antigos e pra angariar novos, principalmente crianças… Afinal, o filme é da Disney agora e não tem nada que eles querem mais do que dinheiro. Inclusive, o filme arrecadou vários milhões antes mesmo da estreia só com venda de produtos… por aí a gente já vê. Então, acho que pra um “fã médio” o filme não funciona muito. É divertido e tal, mas só. Não tenho expectativas…

    Curtido por 2 pessoas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s