Newsletter #3 (Por uma literatura inútil)

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Segue a 3ª edição:
É hora de eu parar um pouquinho de falar de música. Decidi tentar, com brevidade, falar sobre o que eu faço ou dos problemas inevitáveis no processo de escrita. Faz sentido, não? O ruim é que até reclamar da escrita é clichê, tão ingrata é essa arte. Não nos deixam reclamar. O que não nos impede de reclamar, não, nós somos uma categoria de reclamões classudos.

Cheguei no que parece ser a metade da atual versão do meu primeiro romance e estou à beira do desespero. Ninguém pediu para que eu escrevesse um romance ou encasquetasse com a ideia de me tornar escritor. O livro nem mesmo é necessário. A ficção deve, por essência, ser inútil. Deixem a serventia, a utilidade, o propósito, para os teóricos e os panfletários, por favor. Eis meu manifesto: por uma literatura inútil. Mas o que eu quero dizer é que ninguém botou uma arma na minha cabeça, eu fiz isso comigo mesmo. E, por favor, sem balela, sem papo de predestinado, sem “forças sobrenaturais que compelem à escrita”, sem torturas mentais. Fazemos o que fazemos porque trabalhar é chato e escrever é bem bacana, quando é bom. Só que é muito difícil saber quando é bom, não é? Às vezes parece bom, mas não sobrevive a uma releitura.

Então a tal tortura parece teimosia mesmo. A hora em que eu nasci me fez um taurino com lua em gêmeos, eu entendo de teimosia e autoindulgência. Porque o artista em geral precisa ser autoindulgente, mas o escritor é o pior deles. É o sujeito que inventa uma história qualquer e acha que o mundo precisa ter acesso a ela e que o mundo deve algo a ele quando a história falha em chamar atenção. Aí nos lançamos nesse serviço de Sísifo, imposto, não por deuses, mas nós mesmos (se bem que o Eu pode ser um deus ou uma parcela Dele, dependendo das suas filiações metafísicas). Eu perdi a conta de quantas versões esse romance já teve, mas essa é a última. Pra mim chega, se não der certo e ir pra estante das pessoas, vai pra gaveta mesmo e foda-se. Vou continuar fazendo o mesmo com outra história.

Isso tudo é pra dizer que estou compartilhando o que agora é o sétimo capítulo do livro. Talvez seja incompreensível assim avulso, mas, até onde eu sei, ele pode ser incompreensível no conjunto também. Precisa de uma lapidada, é a primeira vez que eu escrevo essa versão e é sempre diferente. Um detalhe que eu posso acrescentar é que a personagem narrada nesse capítulo está no livro desde o primeiro rascunho. É quase uma amizade a essa altura, embora eu queira evitar a todo custo essas bobagens que escritores falam de personagens ganhando vida et cetera – “minhas personagens são escravas de galera”, disse Nabokov, se masturbando pro Herbert Gold, da Paris Review em mil novecentos e coca-cola com pó. (Uma confissão: tenho medo de essa personagem – ou qualquer outra – se manifestar de alguma forma na realidade.) Num geral, é uma divagação sobre autenticidade, criação, essas coisas. O capítulo é como uma vinheta sobre a personagem, um breve resumo do que está na mente dela. Cada personagem tem sua própria vinheta, que interrompe a narrativa central, criando, assim espero, um esboço de polifonia dentro do que seria só uma narrativa em terceira pessoa – também evita longas e detalhadas digressões banais sobre o passado de cada personagem. Em outras palavras, é um truque, um que, tomara, agrade os leitores.

*

A encomenda era um vaso de flores. Foi uma ideia que Naima teve para completar o orçamento, quando saiu da casa da avó. Imprimiu um anúncio simples, só palavras em fonte grande o suficiente dizendo que pintava quadros para decoração doméstica, adornado com exemplos do que ela tinha em mente seriam os pedidos que ela viria a receber, o número do celular dela e e-mail. Uma semana depois, ela recebeu o primeiro pedido. Era sua vizinha, uma senhora viúva, obrigada a se mudar para um prédio habitado principalmente por estudantes por razões financeiras e porque os filhos dela se sentiam mais confortáveis com ela vivendo em um ambiente menor. Esse era o tipo de gente que vivia nos quarto-e-salas daquele prédio: estudantes, casais jovens, idosos solitários. Queria um retrato de seu netinho para pendurar na parede do quarto. Deu à Naima uma foto do menino, quatro anos. Olhava desconfiado para a câmera, em postura militar, escondendo as mãos nas costas. Assim Naima fez seu primeiro quadro por encomenda, como fosse um retrato do século XVIII, de um membro da família real só que em vestes contemporâneas ou quase isso, num fundo claro, de cores sem forma. Ao terminar, ela teve um ataque de risos, dizendo: é a coisa mais brega que eu já vi. Cobrou duzentos e cinquenta reais.

A senhora, constantemente visitada por amigas de idade tão avançada quanto, não perdia uma oportunidade de exibir o quadro do neto, tão lindo, um mocinho. E, logo, elas queriam saber quem foi que pintou, queriam um desses também. Ela distribiuiu o número de Naima entre as idosas da cidade. Vasos de flores, mesas de frutas, cópias descaradas das naturezas mortas impressionistas menos inspiradas da história da arte, netos e netas e bisnetos e bisnetas, poodles, chihuahuas, gatos persas felpudos feito grandes bolas brilhantes de pelo brincando com novelos de lã, crianças e animais reais ou fictícios nas cores mais chamativas e nos ambientes mais confortáveis que se possa imaginar, riachos e montanhas e paisagens bob-rossianas (ela, inclusive, punha no youtube as aulas de Bob Ross e, enquanto pintava, divertia a si mesma, óbviamente chapada, seu apartamento parecia uma sauna, repetindo as máximas: little scenes, little paint, little strokes, happy little trees, happy little clouds, happy little bushes, happy painting and god bless – e ela nunca se divertiu tanto na vida, batendo os pincéis para lá e para cá, no esforço de imitar cada movimento do professor), e ela podia se despreocupar do estilo, do bom gosto, daquilo que pesava em sua mente sempre que ela iniciava um quadro novo. Exceto do fato de que, enquanto ela se ocupava dessas encomendas fáceis e lucrativas, ela não pintava. Seus projetos pessoais ficavam para trás. E como era fácil deixar para trás esses projetos. Com as encomendas ela se sentia, como diria Bob Ross, uma criadora, capaz de qualquer coisa, movia rios, criava árvores, fazia o que quisesse, num escapismo besta povoado por fofuras, bichos macios e redondos, e grandes bebês babões, isenta às críticas, pois era ruim mesmo, feio, um atentado aos sentidos no pior dos sentidos. Ela amava mergulhar nessa liberdade insípida e infértil. Amava olhar para um quadro pronto e gritar: você é horrível, inútil, e eu amei cada minuto que eu gastei te pintando.

Mas essas férias não podiam durar. Ideias vieram e ela precisava se dedicar a elas. Tão exigentes essas ideias supostamente sérias. Tinha medo até de começar. Primeiro, ela não sabia quem era Naima, a pintora. Tampouco sabia de Naima a pessoa, mas tinha a impressão que a pintora ela precisava conhecer. Havia Picassos, Portinaris, Hoppers, Tarsilas, Pollocks, Kahlos. Era necessário que houvesse Naimas, assinaturas além do nome no canto do quadro ou na placa do museu. Não era? Queria experimentar os estilos. Improvisar visões abstratas em uma tela, ser realista em outra. Até o momento, era o que ela fazia. Tinha uma série de quadros abstratos baseados em experiências sinestésicas que tinha quando combinava Syd Barrett com Psylocibe cubensis; fez diversos autorretratos em variados estilos; pintou cômodos do seu apartamento, um sofá solitário, a geladeira aberta, a cama desfeita; usou suas amizades como modelos para várias cenas. Ela pegava esses quadros, os observava lado a lado, via uma obra mas não um estilo. Isso aos poucos se tornava desesperador. Começava projetos, rascunhos, e os descartava antes que tomassem forma, pois eram derivativos demais, não eram ela, fosse ela quem fosse. Até comentários inofensivos e, em qualquer outra circunstância, elogiosos, a perturbavam. Como na vez que levou Alex para ver a série de quadros sobre partes do apartamento. Ele disse que eles tinham uma qualidade fria, lembravam Edward Hopper. Nada contra, ela amava esse pintor, mas não queria ser ele. Não podia negar a semelhança, no entanto. O que eu posso fazer se até borrões de tinta já têm dono?, foi a resposta defensiva que ela deu. Alex pediu desculpas, tentou se explicar, disse que sentia o mesmo quando escrevia, que era inevitável não se sentir assim. Nossas influências foram egoístas, ele disse, rindo de si mesmo, como parecia ser o grande hábito de sua geração, uma variação sobre a típica autodepreciação: riso motivado pela falta de caminhos ou escolhas, mesmo que os arredores prometessem infinitos caminhos e escolhas.

Agora estava na casa da avó, outra vez, outra tarde de domingo. Era a quinta vez que rascunhava aquela senhora, e as diferenças entre cada rascunho eram cada vez mais imperceptíveis para qualquer um fora Naima. Já era hora de ela admitir a obsessão, mas ela tinha um motivo, queria fugir do derivativo. Ao terminar a primeira tentativa, Naima ficou satisfeita com o resultado por um mês, até que ela reviu o retrato de Gertrude Stein por Picasso e finalmente ela entendeu porque o quadro que ela pintou parecia tão familiar. Dona Mônica, como era chamada em seu meio, tinha aquele ar pesado, sisudo, e as cores escolhidas por Naima eram muito parecidas com as usadas por Picasso, mesmo a pose sendo outra, mesmo que Mônica, em seu retrato, aparecesse dormindo, com um livro aberto repousando em seu colo, mesmo que a luz desse a entender que ela estava de frente a uma janela aberta, numa tarde ensolarada de inverno, ao invés da aparência enclausurada e poeirenta da obra de Picasso. Talvez se Naima incluísse mais da mobília no cômodo. Enquadrando por outro ângulo, ela poderia incluir o piano, o piso de madeira, as estantes nas paredes e seus livros e enfeites. Talvez, com outra luz, ela pudesse acrescentar uma ambiguidade ao momento retratado, se se tratava de um descanso ou de um último suspiro, um tom de azul, convenhamos, também picassiano, faria o serviço. E os retratos se acumulavam na garagem de dona Mônica, onde Naima guardava as pinturas sem destino certo. Mônica não se importava, nem com o acúmulo nem com as várias sessões em que tinha de se fazer de estátua. Precisava dos cochilos, a cena escolhida por Naima era condizente com a realidade, com as necessidades de Mônica. E mesmo que não fossem, mesmo que fosse desconfortável, faria porque amava a menina como fosse sua filha. Era sua filha. Desde o dia, em 1994, quando sua verdadeira filha foi embora, conforme o combinado, para viver a vida.

Foi difícil, mas Mônica entendia demais o sentimento para julgar as atitudes de Beatriz. Quando ela mesma estava grávida, vinte anos antes, aos dezoito, de um homem que sumiu, teria abortado se não fosse tão perigoso. Não tivesse ela sido acolhida por João, nem poderia imaginar o que teria sido delas duas. Um homem solitário, autor esquecido, de aparência envelhecida. Um dia ela foi contratada para faxinar a casa dele. Ele foi um dos poucos que viu os serviços dela como um serviço, e não caridade. Permitiu que deixasse sua filha dormindo num dos cômodos e, caso ela acordasse, dedicasse um tempinho para dar atenção a ela, amamentasse se necessário, trocasse fraldas. Ao terminar, ele perguntou se ela aceitaria trabalhar semanalmente na casa dele e, três meses depois, a contratou como assistente permanente, com quarto próprio, e ele cuidaria de todas as despesas envolvendo sua filha. Aceitou sem pensar duas vezes, embora temesse que logo ele viesse com uma conta para ela pagar. Mas nunca veio. Somente cinco anos depois ela perguntou a ele o motivo, ao que ele respondeu: tenho muito dinheiro para gastar só comigo mesmo, você parecia necessitada, quis ajudar. E ele precisava desesperadamente de companhia. Sua família estava ou morta ou distanciada. Não tinha amantes, tinha medo do que poderia ser dele e sua reputação se sua orientação se tornasse pública. Recebia olhares tortos em Paris, que diria no Brasil. Seria preso, torturado, exilado como mais um artista subversivo, e um cuja arte nem era apreciada, para que alguém sentisse pena ou o tentasse proteger. O mais seguro era a reclusão. Assim, com Mônica, essa herdeira de sangue alheio, teria alguém para quem contar suas histórias, que sentisse saudades dele quando partisse, o que poderia acontecer a qualquer momento. Assim passaram os dias, Mônica cuidava da casa e, com o passar dos anos, veio a servir de enfermeira, conforme a decrepitude alcançava o velho Allard. Beatriz levava uma vidinha escolar, típica de cidade pequena, cercada de fofocas sobre a estranha composição de sua família. João escrevia, escrevia apressado as tantas histórias que ele mesmo censurou. Seus manuscritos finalmente saíram do jeito que ele queria que fossem os livros publicados, finalmente podia se orgulhar de sua obra, mesmo oculta. Nada daqueles romances bestas sobre prostitutas de Montparnasse e vagabundagem artística. Escreveu sobre o submundo do qual realmente fez parte, das pessoas que realmente conheceu, das coisas que precisou fazer, da pessoa que realmente foi. Escreveu a sua verdade, em tantos volumes, encaixotados e guardados em um armário. Morreu em 1989. Deixou todas as suas posses para Mônica – por sorte, estava tão esquecido que ninguém protestou – e a instruiu que lesse seus manuscritos e, assim que ela sentisse que era hora, os publicasse.

Quase deu risada quando o tempo revelou à Mônica sua natureza cíclica e Beatriz apareceu grávida. Estava um par de anos mais velha do que quando o mesmo aconteceu com Mônica, mas de qualquer forma, lá estava a menina, em seu útero o feto que se tornaria outra menina, e nenhum homem por perto para se responsabilizar pela concepção – o tal milagre da vida. Beatriz queria abortar. Já tinha um circuito pela Europa programado, não estava preparada para jogar fora seus sonhos. Mônica pensou no velho Allard, quando recebeu a notícia, pensou no que ele faria em seu lugar. Disse que ela poderia fazer como achasse melhor e que ela não julgaria a própria filha por fazer algo que ela mesma pensou fazer quando se viu na mesma situação. Mas, caso Beatriz estivesse disposta a aguardar os nove meses e o parto, Mônica disse que ficaria muito feliz por cuidar da criança, e Beatriz poderia seguir com a vida, fazer o que quisesse.

Seria a última vez que Naima viria rascunhar a avó. Não adiantava mais, o problema não era o ângulo nem a luz nem as cores, era ela. Sua confiança estava abalada. Não se achava uma pintora de verdade. Como alguém se tornava uma pintora de verdade? Era como trabalhar em uma mina explorada até a última pedra. Poderia abstrair o cochilo de Mônica átomo por átomo, encontraria em algum lugar alguma pintura parecida. Seus últimos esforços trafegavam entre Jenny Saville e Lucien Freud, e esses dois já eram comparados o suficiente entre eles.

Como não bastasse, um fotógrafo amigo dela pediu que ela posasse para uma foto que ele estava planejando. Participariam da mesma exposição, que aconteceria em três meses. Ele a chamou para ver o resultado final e, grande surpresa, parecia uma obra da Alyssa Monks. Naima nua, seus cabelos espalhados pelo seu corpo feito galhos de uma árvore fantasmagórica, um fundo borrado com ar florestal, um tanto etéreo. Por trás dos cabelos, seus olhos e seus mamilos eram dois predadores à espreita. Todos que viram a foto, amaram o resultado, Naima inclusive, mas aquilo não era um “Giovanni Martins” – nome do fotógrafo –, era mais uma derivação. E já era hora de admitir que esse apego pela originalidade era um obstáculo. A cada pintura, Naima chegava mais perto de concluir que, hoje em dia, se alguém vira nome, se alguém consegue se tornar um artista de verdade, seja lá o que for isso, é por acidente. E que acidente feliz. Um acidente que permitia a proliferação de Romeros Brittos e Banksys e Jeffs Koons e Damiens Hirsts, esses milionários em nome dos quais críticos queimam milhares de neurônios para justificar a existência e o valor.

Com essa mentalidade, de que nada mais pode ser original, que nomes são farsas e fama é acidente, Naima conseguiu dar como finalizado seu retrato. Nem teve que pintar um novo. Batizou o mais recente – o azulado, que incluía o piano no canto do quadro e mostrava a luz do sol como um holofote ou como uma visita divina sobre o corpo adormecido de Mônica, o que supostamente deixava o observador incerto se a cena se tratava de sono ou morte – de “O Descanso” e pronto. Não tinha mais o que mudar. Podia seguir em frente para seu novo projeto e continuar com seus quadrinhos comerciais, sem medo ou culpa. Até porque, as obras de um artista importavam menos que sua biografia. A veracidade dessa afirmação era menos importante para Naima que o simples andar das carruagens dos artistas contemporâneos. Não havia mais Escolas, Movimentos, Manifestos, apenas Nomes e Investidores. Naima precisava se despir da pressão da obra, não para continuar pintando mas para continuar vivendo. Pintaria o que quisesse por enquanto, contudo precisava trabalhar sua biografia, criar situações para que a sorte, aquela que faz os Nomes, a encontrasse.

*

É isso. Comentários são bem-vindos. Seria bom saber se alguém, com esse trecho, ficou curioso de saber do que se trata o resto do livro ou se alguém leria essa história. Mais nada por hoje.

A terceira edição da zine vai sair, mas um pouco atrasada esse mês, e só em versão digital. Mais informações quando eu tiver mais informações – provavelmente no dia que a zine estiver pronta.

Você pode baixar as 2 edições atuais aqui: http://www.mediafire.com/folder/w6kiy9nutpykz/dqc

Gostaram dessa punheta verbal? Me indiquem por aí. É sério, vocês são 7. Se cada um indicar meu trabalho pra 1 pessoa, vocês viram 14, o que pra mim é muito. Vocês gastam tantas horas espalhando merda por aí, espalhem as minhas merdas também, porra.

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Como sempre, uns links:
https://www.youtube.com/watch?v=w5Rkm_dqm7A
https://www.youtube.com/watch?v=oBsHqVO_EKs
Esses são shows, respectivamente, do John Prine e do Jonathan Richman. Tem algo nesses dois que me anima. Os dias estão difíceis. Quem está atento deve estar em algum ponto entre o desânimo e o suicídio, e esses dois artistas ajudam a levantar os espíritos. Talvez porque eles não negam que estamos na merda, mas as músicas tratam sobre achar um resquício de felicidade mesmo na merda, têm um senso de humor beckettiano, sem a insanidade. As histórias do John Prine fazem qualquer um sorrir, e ver o Jonathan Richman dançando faz com que você queira dançar também, mesmo que você não saiba, afinal nem ele sabe. Se tu não quiser ver show, procura qualquer disco deles. Não tem como errar.

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Mais divulgações; seguido de A apoteose do chiclete

Como combinado, sempre que uma nova edição da newsletter está pra sair, eu posto a anterior aqui, para os de vocês que se recusam a seguir o que eu escrevo de outra forma. Se me for permitido um último esforço para te fazer mudar de ideia, a edição atual fala um pouco sobre escrita, as dores de cabeça do processo, e o sétimo capítulo da atual versão do meu livro.

https://tinyletter.com/raphaeldias

Esse é o link. Cliquem nele, se inscrevam, entrem na caixa de entrada de vocês e confirmem a inscrição. Não é difícil e é grátis.

Também tem a zine, cuja 3ª edição vai demorar um tempinho pra sair ainda, mas, ei, quase ninguém baixou a 2ª edição, então aproveitem pra fazer isso por aqui:

http://www.mediafire.com/folder/w6kiy9nutpykz/dqc

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Agora ao texto da 2ª newsletter:

A apoteose do chiclete

Estava investigando conexões misteriosas envolvendo a música I think we’re alone now, uma noite dessas. Devo admitir que eu tinha uma quantia talvez excessiva de tetraidrocanabinol na minha corrente sanguínea, mas eu cheguei a conclusões. Qual poderia ser o mistério dessa cançãozinha mais ou menos composta em algum momento da década de 1960, por Ritchie Cordell, então gravada e feita um hit em 1966, pelos esquecidos Tommy James & The Shondells, gravação essa que o crítico (e meu guru pessoal) Lester Bangs denominou “apoteose do chiclete*”? À primeira vista, parece uma música inocente sobre amor entre dois adolescentes, que precisam se esconder dos adultos para dar aqueles pegas. Estranho, saindo da boca de um bando de marmanjo, mas era a década de 1960, ninguém se importava, na verdade, era meio que norma. The Turtles fez o mesmo em Happy Together; Beach Boys, em Wouldn’t it be Nice – embora essas duas últimas envolvam, mais que uns pegas, casamento entre adolescentes… eram tempos estranhos. Isso pode ser perdoado se levarmos em conta que o adolescente estava sendo inventado como consumidor nesse período da história do capitalismo. Mas onde eu estava?, porque eu não vim aqui pra falar disso.

A música não morreu ali. Ela foi revivida em 1977 pelo grupelho pop britânico The Rubinoos, do qual você nunca ouviu falar e nem precisa descobrir agora. E, finalmente, um ano depois, a grande Lene Lovich transformou esse chiclete num new wave bem bacana. Pela primeira vez, essa música fez algum sentido. Deixou de ser sobre um bando de primatas tentando seduzir fãs adolescentes e virou biografia. Que eu saiba, a Leve Lovich conheceu Les Chappell, que se tornou seu guitarrista e parceiro (se eles ainda tão juntos ou se casaram ou sei lá o que, eu não sei, eu não estava lá), quando eles tinham uns 13 anos, então a letra de I think we’re alone now pode ter um significado pessoal pra esses dois. Eu também acho que o fim da década de 1970 e começo dos anos 1980 foi o período em que o rock agonizou.

Existe música boa hoje, inclusive no rock, eu sei, eu não sou assim tão saudosista. Estou falando de originalidade. E o período 1976-84 foi um dos últimos em que bandas originais nasceram. Não falando só do new wave como movimento, mas bandas como The Raincoats, The Slits, The Cure, The Clash, Au Pairs, a própria Leninha, Daniel Johnston, Throbbing Gristle, Psychic TV, Swans (SWANS!!!), entre muitas outras, foram paridas nessa época e, antes delas, não existia nada comparável fora do círculo ao redor delas. Música diferente, inovadora, aconteceu em muitos períodos, mas eu estou falando de uma época de forte industrialização. Os embutidos musicais estavam operando com força. Peter Frampton lotava estágios cantando sobre como ele estava dentro de você, Genesis largou o Peter Gabriel e suas fantasias de flor e adotou o som pop que infectou como doença venérea gente como Yes e Emerson, Lake & Palmer (que já nem eram aquilo tudo quando saudáveis). Nem me deixem começar a falar do rock boneca inflável, Scorpions, Whitesnake e o caminho que eles pavimentaram com ajuda dos clipes e da MTV. O cenário estava desolador e as bandas que eram boas eram realmente fantásticas (algumas ainda são – SWANS, ouça Swans, caralho), mas o resto, credo cruz.

Eu acredito que a música I think we’re alone now e sua resiliência blattodea pode servir de metáfora para esse cenário musical que eu só não chamo de distópico porque é real demais e distopia se tornou matéria-prima de ficção barata. Começou na era bubblegum do rock sessentista, ascendeu ao seu potencial máximo através da voz de Lene Lovich e depois o que aconteceu? Eu achava que Leninha era a versão bizarro da Debbie Harry – uma é morena, a outra loira; uma tem sex appeal fortíssimo, outra tem jeito de bruxa (o que é sexy pra mim, mas não pra todos, eu ouvi dizer…); uma chamava mais atenção pro lado gótico do new wave, outra era mais animada;Heart of Glass fala no erro que é acreditar no amor, Lucky Number fala no erro que é não acreditar no amor; et cetera -, mas não. Pulemos para o aterrorizante ano de 1987 e eis a versão através do espelho de Leninha: Tiffany.

Reparem: uma se tornou famosa em 1978, a outra em 1987 – eu ouvi alguém dizer espelho? Sim, fui eu. Pra quem não sabe (os deuses te abençoem por viver em tão feliz estado de ignorância, embora eu esteja prestes a estourar sua bolha, perdão), Tiffany foi um ícone teen da década de 1980 e uma das músicas mais populares dela, talvez a única, foi uma versão de I think we’re alone now. Por isso eu digo que 1987 foi o começo do fim. Toda a década de 1980, apesar das coisas boas surgidas na época, foi como um liquidificador da autenticidade. Moeu de tal forma a música que a única resposta possível, na década 1990, foi um retorno às origens. Gente como Nirvana e os grunge tentando fazer algo como os punks fizeram no fim de 1970; Brian Jonestown Massacre, Yo La Tengo, The Dandy Warhols, Luna, tentando reviver o psicodélico; mas nada totalmente novo, talvez porque o novo não mais fosse possível. Talvez não seja mais possível. Ou eu posso estar errado e as coisas que eu chamei novas até agora nesse texto nem sejam tão novas assim, o novo em si pode ser ilusório, uma questão de ignorância inevitável devido à impossibilidade de onisciência.

Mas I think we’re alone now não acabou em Tiffany. Não, senhoras e senhores, teve mais. A pá de cau sobre essa sofrida canção caiu em 2006, quando um grupo pop britânico chamado Girls Aloud – mais um Spice Girls do um e noventa e nove – fez uma versão dessa música, e eu estou bem certo que assistir esse clipe é o equivalente a dar uma boa mirada no abismo que separa o ser humano da Grande Iluminação. Não é necessário ritual, nem evocar Choronzon num esforço de destruição do ego, basta assistir àquele absurdo, as cantoras tão intercambiáveis em voz e aparência, o cassino como pano de fundo do clipe, sem nenhuma conexão com a letra da música, o ritmo totalmente deslocado…

o horror … o horror …

Claro, você não vai conseguir atravessar o abismo só vendo esse clipe, mas vai servir para que você pense bem antes de tentar a travessia.

Comecei esse texto incerto se concordava com a escolha de adjetivo do Lester Bangs pra essa cançãozinha medíocre: A Apoteose do Chiclete. Agora acho que ele acertou mais uma vez. A música transcendeu estilos e gerações, foi destruída e reconstruída e destruída de novo. Tem algo de sagrado em sua essência ou de muito profano. Seja lá o que for, é místico.

*Chiclete, por Lester Bangs, era a variação bubblegum do rock, não necessariamente a característica grudenta das músicas pop, mas eu igualei os dois termos na minha tradução do elogio. Achei que combinava.

***
Aquilo que eu falei da última vez sobre ler I’ve Been Down So Long That It Looks Like Up To Me, do Richard Fariña ainda não aconteceu. Tô numa fase Henry Miller. Li Black Spring e que livro fantástico. O jeito que ele consegue arrastar o leitor por uma vastidão de imagens e temas sem qualquer conexão é… é… eu nem sei, coisa de santo louco mesmo. Agora comecei Ar de Dylan, do Vila-Matas. Segundo livro que eu leio do espanhol e está muito bom, mas tô só começando.
***
Links:
A ascensão e queda de I Think We’re Alone Now:
https://www.youtube.com/watch?v=IkMFLUXTEwM (Tommy James & The Shondells – a origem)
https://www.youtube.com/watch?v=FIxvP–GjPg (The Rubinoos – a repetição)
https://www.youtube.com/watch?v=uJRGdQSvwjU (Lene Lovich – a ascensão)
https://www.youtube.com/watch?v=w6Q3mHyzn78 (Tiffany – a queda)
https://www.youtube.com/watch?v=7vFGKHzY_38 (Weird Al Yankovic – a sátira)
https://www.youtube.com/watch?v=WjpbcsttFyM (Girls Aloud – o abismo)
http://www.keyofz.com/vvoice.htm – “Better Than The Beatles (And DNA, Too) – Lester Bangs, 1981 (God bless The Shaggs.)
https://www.youtube.com/watch?v=0AEVJaiNZIA (Stateless, o disco inteiro da Lene Lovich, porque vocês merecem)
https://www.imdb.com/title/tt0416394/?ref_=fn_al_tt_1
https://www.youtube.com/watch?v=pI5Xhxce2hE (Henry Miller – o monólogo no banheiro, e você chega a conclusão assustadora de que ele meio que escrevia como ele falava)

 

Divulgações, seguido de tragédia no folk cirandeiro

A segunda edição da newsletter vai sair hoje. Você pode se inscrever aqui:

https://tinyletter.com/raphaeldias

Tem que confirmar a inscrição depois, via e-mail.

Lancei também a segunda edição da zine, disponível em pdf via esse link:

http://www.mediafire.com/file/c18u332adnnv5ai/dqc_%25232.pdf/file

Como nem todo mundo acha newsletter prática (e não é mesmo), vou postar aqui a primeira edição. Vai ser cópia e cola. Quando uma edição nova for lançada, a anterior vai aparecer aqui. Ou seja, quem é inscrito na newsletter, vai receber os textos antes. Isso é só pro blogue não morrer, pra quem só me acompanha pelo blogue e sente falta da minha presença aqui.

Aqui a primeira edição:

tragédia no folk cirandeiro

tá na hora de começar isso aqui, não é? mesmo vocês sendo tão poucos. quem sabe isso não serve pra mostrar que, sim, eu pretendo mesmo levar a sério esse negócio de newsletter, e isso por si só não acaba por atrair mais gente. por que hoje? porque eu estava com vontade de escrever, mas, ao mesmo tempo, de continuar atrasando o progresso do projeto em que eu realmente deveria estar trabalhando. (espalhem a palavra, por favor. trinta e quatros anos falando merda na internet, estatisticamente, já era pra alguma coisa alcançar a superfície – como faria um cadáver, jogado num lago…)

onde é que eu estava…

finalmente eu tomei vergonha na cara e li outro romance do thomas pynchon. o primeiro foi vício inerente e, admito, não me impressionou. agora the crying of lot 49 (o leilão no lote 49), esse sim serviu pra que eu entendesse porque existem tantos leitores obcecados pela obra dele. mas eu não vim falar dessa leitura nem do pynchon. não vim nem falar da próxima* leitura na fila, que provavelmente será been down so long that it looks like up to me. vim falar do autor desse livro que talvez seja minha próxima leitura, richard fariña.

lá pros anos 1940 (pois é, se faz necessário especificar o 19 antes do 40, ano que vem voltamos aos anos vinte, que tal essa?), em reação ao macarthismo e a ameaça vermelha, gente como big bill broonzy, lead belly woody guthrie, trouxe de volta a música folk estadounidense raiz, aquelas músicas cujas letras ninguém sabe quem compôs, com o mínimo de enfeite possível, de preferência só violão e voz. esse movimento chegou ao auge de sua popularidade na década de 1960, depois do movimento beat e antes da guerra do vietnã, principalmente em greenwich village, nova iorque, onde vários músicos com ideias similares acabaram se esbarrando. esse movimento eu apelido folk cirandeiro – porque, no fim das contas, eles foram a sucursal fofa da contra-cultura esquerdopata estadounidense -, e englobou gente como dave van ronk, carolyn hester, joan baez, bob dylan, phil ochs, karen dalton e o casal mimi e richard farinã.

isso pode ter sido exagero da imprensa da época, mas o que se dizia era que na segunda metade da década de 1960, rivalidades começaram a aparecer nesse grupo, principalmente entre bob dylan e os fariña. eu poderia escrever por dias sobre isso, mas vou me segurar ao tema que deveria ser o foco. se houve alguma rivalidade, provavelmente o motivo é a similaridade entre os dois. embora dylan fosse um mago dos jogos de palavra e seus versos parecessem grandes e belíssimos nós, ele não tinha a qualidade narrativa de mimi e de richard fariña. enquanto dylan já naquela época fosse o mais próximo que o estados unidos já chegou de ter um deus em suas terras, ele era um pé no saco – nem estou falando dele em entrevistas, só que reza a lenda ele era cuzão de igual maneira com seus amigos e colegas de trabalho. os fariña, por outro lado, só uma foto deles pode aquecer o coração de um sujeito. existia uma alegria juvenil no jeito deles. e tanto dylan quanto os fariña compunham suas próprias músicas, ao invés de se privarem às tradições, e logo gravaram músicas elétricas, desafiando as leis folk-cirandeiras.

algumas pessoas dizem que, não fosse a morte prematura de richard, os fariña teriam potencial para tirar dylan de seu trono. nunca saberemos. um dia depois de lançar seu primeiro romance (aquele livro que eu pretendo ler, lembra? é disso que eu tô falando), richard fariña sofreu um acidente de moto e morreu na hora, aos 29 anos. seu livro foi prefaciado pelo thomas pynchon (os dois eram colegas de faculdade) e foi um sucesso na época. até virou um filme que ninguém nunca viu e hoje deve assombrar algum galpão hollywoodiano. jim morrison, inclusive, usou o título do livro num verso de uma de suas músicas. o tempo passou, o tempo passou, a obra dele sumiu. mimi, irmã de joan baez, também sumiu. continuou cantando, mas o folk em geral perdeu força, depois do rock psicodélico. sobreviveram 3 gatos pingados dessa leva.

entre os mortos, feridos e desaparecidos, está karen dalton: a cantora favorita de bob dylan, ele disse alguma vez. dylan elogiou alguém! só isso já é inacreditável. e esse alguém foi karen dalton, então, acreditem, ela foi grande coisa. gravou pouco, mas o suficiente para criar um dos meus discos favoritos, in my own time. ela não compunha músicas próprias, era intérprete, e das boas. sinceramente, o combo cantor/compositor é superestimado. bons eram os tempos em que cada papel era separado e os limites de cada um eram respeitados.

depois do lançamento de in my own time, em 1971, ela foi desaparecendo. dizem que ela era complicada de lidar e o vício em heroína não ajudava. não que isso tenha atrapalhado a carreira de certas pessoas. mas enfim. karen dalton morreu em 1993, por doenças relacionadas a aids, sozinha, num trailer no meio de woodstock, ou foi nas ruas, em woodstock, por conta de uma overdose. já ouvi as duas histórias.

é isso, dois artistas que poderiam ter feito muito mais e não conseguiram, porque é assim mesmo. essas coisas acontecem.

que história, né?

*”próxima leitura” não como a leitura que veio depois de lot 49, e sim depois de do inferno (alan moore / eddie campbell) e distancia de rescate (samanta schweblin), que comecei logo depois de lot 49 e já estou terminando – talvez fale de alan moore na próxima newsletter.

***
em respeito à velha-guarda da internet, segue uma lista de links:
https://www.theparisreview.org/blog/2016/04/29/a-maker-of-mirrors/
https://www.theguardian.com/music/2007/mar/23/folk
https://www.youtube.com/watch?v=kx_qF507rlI (o folk cirandeiro foi tão popular que pete seeger teve um programa de tv na década de 1960, e ele é como um bob ross musical. eu sei que o vídeo é longo, mas se você for como eu é possível que você seja hipnotizado pela cirandeiragem.)
https://www.imdb.com/title/tt8695030/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1 (não vi ainda. quero muito ver, apesar das críticas.)
https://www.imdb.com/title/tt7908628/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1 (melhor série. o filme já é ótimo, acho que a série conseguiu superar.)
https://www.theparisreview.org/blog/2019/05/09/listen-to-hebe-uhart-now-that-shes-gone/
https://www.youtube.com/watch?v=FFAdU9TC3uI
https://www.youtube.com/watch?v=lYiYNg-pwD8 (if there’s a way to say i’m sorry / perhaps i ‘ll stay another evening beside your door / and watch the moon rise inside your window / where jewels are falling, and flowers weeping, and strangers laughing / because you’re grieving that i have gone/… – pura cirandeiragem.)

Até depois

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Alguém deve ter reparado que a última postagem nesse blogue, escrita por mim, foi em novembro do ano passado, né? Pode ser que não. Não importa, pra mim tampouco fez muita falta e é por isso que eu tô aqui – pra prestar meus respeitos a esse espaço eletrônico, hoje em coma.

Antigamente, eu costumava vir com desculpas, como “estava ocupado com trabalho”, “procurava algo de novo pra escrever”. Dessa vez não. Eu não pretendo voltar aqui, embora pretenda manter o arquivo disponível e as portas abertas (vai que…, né?). Mas eu ainda preciso de um espaço para escrever coisas e um meio para que as coisas cheguem até leitores. Como estamos em 1999 e as newsletters e fanzines voltaram, decidi criar as minhas também.

O título tanto da zine quanto da newsletter vai ser Desculpa Qualquer Coisa (DCQ, pra encurtar) – combina com o meu estado de espírito. A ideia é que a zine seja mensal, disponível em formato físico (50 cópias distribuídas localmente, por enquanto) e digital (ainda não sei como vou disponibilizar – talvez faça o upload do pdf nalgum hospedeiro grátis, talvez use amazon; de um jeito ou de outro vai ser grátis, por enquanto – tudo é por enquanto). O conteúdo da zine vai ser: poemas antigos e novos, prosa curta de ficção, bobagens aleatórias, referências místicas, e, no final, uma leitura de tarô. Isso mesmo, é só mandar uma pergunta para tioraphaletarot@gmail.com, e pode ser que a leitura seja publicada na zine. Pode ser que sugestões de leitura e/ou textos de não-ficção apareçam, mas isso fica mais pra frente, porque pode ser que a zine não tenha lá tantas edições, vai saber. Você sabe? Eu não sei, então como é que você sabe?

A newsletter não tem data pra acontecer e conterá o que der na minha perturbada telha. A ideia é manter certa regularidade, mas se ninguém se inscrever nem adianta, então precisa ter uma base leitora primeiro. Mas tudo pode acontecer na newsletter, como tudo podia acontecer nesse blogue. Na verdade, a newsletter vai substituir o blogue, num tipo de sucessão espiritual.

Então é isso. Acompanhem minhas coisas por outros meios, caso tenham interesse, porque por aqui dificilmente voltarei a aparecer.

Newsletter: http://tinyletter.com/raphaeldias

Passaralho (vulgo, twitter): @tio_rapha_

Estragão: @tio_rapha_

Leituras de tarot: tioraphaletarot@gmail.com

A zine vai ser divulgada nos 3 meios, quando se aproximar o lançamento (primeira semana de maio).

 

Do manto das despedidas, fica a lembrança, a saudade, o desencontro.

 

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Das despedidas que fazemos em nossas vidas, quais mais marcaram vocês? São muitas ao longo da estrada. São tantas feridas. Amigos a gente encontra por aí, noutra cidade. Amores, vixe! Nem se fala. Mas falar que esquecer, despedir-se é algo fácil é uma mentira absurda. Temos essa falsa ideia que se despedir de alguém possa ser algo ruim. Isso significa um recomeço, talvez? Tudo depende do ponto de vista que se olha para fora da janela da despedida.

Viver é despedir-se eternamente. A família lá longe não se aguenta com a saudade, os amores deixados, relapsos de paixões. Frio na espinha daquele amor escondido que talvez nunca mais veja. Dar adeus para alguma coisa material que não poderá levar nessa nova jornada. Um violão antigo, um cachorro, um gato, um cacto ou até mesmo uma velha escrivaninha.

Existem despedidas que são feitas na hora de embarcar para um novo horizonte, ir para uma estrada ainda desconhecida, trifurcada, ambígua, aleatória, florida. Desmatada com o tempo. Mas, trata-se de uma nova colheita. O jardineiro que se preze: deixa o seu jardim sempre pela tarde. Para ver e cheirar suas rosas com o vento-sol sobre a relva cochilando.

Todas essas situações estão dentro do disco Azul Moderno da poderosa Luiza Lian. O disco já começa com a música “vem dizer tchau” parceria da Luiza Lian com a poeta Leda Cartum. Luiza, voz meio recém acordada no pé do ouvido de alguém antes de subir nos degraus da estação — preciso me encontrar. O disco transborda noticiais, cada canção é uma carta aberta para alguém que queria ter seguido junto com Luiza Lian, mas a caminhada é longa e Luiza avisa que não pode mais seguir junto, seguir acompanhada dói mais.

Existem pequenos versos simples, de um eu lírico agudo, poeta maldita, Luiza Lian declama: “desfaz mais um encontro em SP/nem deu/tempo para te contar/que àquela hora/ transando com você/transava uma multidão…” São versos rasantes que perfuram a imaginação num nível inimaginável, Luiza Lian não se limita, pois sabe que limitar é definir.

Geladeira é outra música, na qual, Luiza Lian junto com Leda Cartum constroem um pequeno conto poético. A linguística é atraente, as palavras ficam se repetindo continuamente na cabeça, “pela rua, não se conhecia/na janela, não se conhecia/via os pés, não se reconhecia…”

Não se poderia deixar de falar sobre a linda produção independente do famoso estúdio Canoa. Gravado e mixado pelo talentoso Gui Jesus Toledo, o disco traz Charles Tixier e  Tim Bernardes fazendo quase todas as experimentações e loucuras eletrônicas do disco. O flerte do pop com o samba-rock é maravilhoso. Esse disco é Jorge Ben puro cantando alto com o seu manto azul moderno.

É de despedidas que o disco fala. E é com uma música que mexeu demais comigo que o disco se despede. A poesia que dá o titulo ao disco: azul moderno. Quando a ouvi pela primeira vez, foi como se um punhal atravessasse minha garganta e conseguisse sentir e cantar junto, mesmo sangrando.

A arte existe para essa afinidade, de podermos extravasar junto através de uma obra. Alguém lá longe sentiu o mesmo que eu. Isso vai reverberando em grandes ecos e elos infinitos. A canção de Luiza. O disco realizado vem a se tornar um empório de despedidas, coisa de artistas que enxergam beleza nas curvas que a vida nos coloca. Marejei os olhos, muitas vezes quando algo mexe com a gente: é porque também vivenciamos algo igual ou parecido. E apenas isso faz com que não nos sentirmos sozinhos, por alguns segundos esquecemos que somos tão solitários no mundo.

A estrada que Luiza percorre durante todo disco, passeia por rodas, veste-se de pomba-gira, reza por Santa Bárbara e cheira a infância das ruas, becos e avenidas que Luiza andou, pregou suas digitais no tempo. Não poderia ser diferente que Luiza Lian nessa caminhada não agradecesse a estada que sempre iram parecer curtas, mas o tempo é cruel com todos. E isso dói. Dói demais. São cantos e encantos que se deixam, novos caminhos que se abrem. A tristeza tem suas felicidades. Sempre estaremos nessa eterna busca por uma nova despedida, a vida nunca irá cansar de fazer e desfazer roteiros de viagem. Estaremos sempre nas pontas dos dedos das mãos de alguém ou no olhar distante do horizonte.

Uma autocrítica – em resposta a uma frase sem contexto de Olavo de Carvalho

Caro professor Carvalho, li sua entrevista ou o tanto que meu fígado pôde suportar dela e, devo admitir, quase fiquei surpreso com sua honestidade em uma das respostas, afinal não é da sua índole. Quando você disse, depois de citar dois filósofos de verdade – me surpreende que você os conheça, embora eu tema sejam os únicos que você conhece e por isso você os tenha citado -, que não há intelectual de esquerda à sua altura, bom, me vi obrigado a concordar. Como partidário da ideia de que toda a afirmação é verdadeira em certo sentido, falsa em certo sentido, insignificante em certo sentido, verdadeira e falsa em certo sentido, verdadeira e insignificante em certo sentido, falsa e insignificante em certo sentido, verdadeira e falsa e insignificante em certo sentido, li sua afirmação e pensei comigo mesmo: Olavo tem razão, em certo sentido.

Eu queria dizer que não há, na esquerda, intelectual que se compare a você, mas a autocrítica deve prevalecer. Sempre há que se colocar a autocrítica em primeiro lugar, não é? Pois bem, existem intelectuais auto-proclamados na esquerda. Ok, eles não se auto-proclamam intelectuais, como você faz todos os dias de sua vida, mas é que a esquerda tem o péssimo hábito da falsa modéstia. Eles insistem em recusar o título “intelectual”, sendo que ninguém os deu o título para que eles o pudessem recusar, o que é uma forma de auto-proclamação. Não pretendo citar nomes, mas eles estão por aí, empesteando jornais e revistas e por toda a internet. Talvez a fala deles não se compare à sua em se tratando de groselha, mas a profundidade é a mesma – a profundidade de um corte de papel.

Eu também queria poder dizer que ao menos a esquerda não vê estes dispensáveis como intelectuais, mas não é bem o caso. Não acho que qualquer um deles tenha recebido o grau de divina autoridade que você recebeu do seu rebanho, mas muitos são best-sellers de semana passada.

O que eu sei é que nenhum deles nunca escolheu ministro da educação ou ficou lambendo a orelha de presidente. Talvez alguns tivessem vontade, mas você foi o primeiro a conseguir. Parabéns, seu canalha.

Agora você está por aí, gozando uma vida à luz do sol. Largou a catacumba de onde nunca deveria ter saído. Tivemos a chance de invadir sua caverna decrépita em Virginia, com muito alho e uma estaca grossa, mas deixamos passar. Rimos de você, como rimos daqueles que te amam, afinal vocês são engraçados – embora nunca quando a intenção é fazer graça – até que vocês cresceram e, bestas que são, agora ameaçam nosso bem-estar.

Vem você gritar com jornalista, dizer que vai processar se te fizerem perguntas desagradáveis. Ninguém nem deveria te estar perguntando qualquer coisa. Quem é você, professor Carvalho, sem os títulos que o senhor deu a si mesmo? O que seria você, se você aceitasse discutir de igual pra igual com um acadêmico sério? Suas teses são teorias da conspiração, seus argumentos são baseados na infalibilidade do cristianismo – o que por si só te desqualifica como filósofo. (Não a crença no cristianismo, mas a certeza da infalibilidade do cristianismo. Certezas matam a filosofia.) Por isso você foge da academia. E não venha com essa de que é a esquerda da academia brasileira que te elimina, pois em qual outro país você foi aceito? Nos Estados Unidos você se esconde, tanto que vive em Virginia. Aceite que só seu rebanho te aceita como filósofo, só entre o seu rebanho suas ideias se sustentam. Largue a pose de intelectual, não combina com você.

De tantas carreiras que você poderia ter forjado após a de guru da astrologia ter dado errado… Logo filósofo? Pastor ou padre seria muito mais rentável. E seu autoritarismo não seria questionado nessa posição. Sim, você combina muito mais com líder religioso ou mestre de culto. Qualquer coisa que acentue suas qualidades de charlatão. Por que você largou a astrologia? Podia ter ido além e virado médium de televisão, médium de cavalo. Mas não, decidiu ser professor de filosofia pra essas cavalgaduras que te chupam.

Você nunca devia ter largado os pokémon, professor Carvalho.

Agora vem falar de vacinas e terra-plana e pepsi de feto e mito do aquecimento global e escola sem partido e Adão e Eva e ideologia de gênero… Você tem alguma ideia que não seja só pra fazer sucesso com a direita juvenil? Que não seja composta de frases feitas e mentiras? Você é uma cópia pedante do Alex Jones. Pelo menos desce do salto e dá uns escândalos, diverte a gente um pouquinho. Não dá pra ser burro e chato, isso é pecado, deus castiga.

Devo, por outro lado, admitir que, ao menos entre a nova direita, esses sub-humanos oportunistas que se multiplicaram como vermes e ocuparam a frágil massa cerebral da população, você é muito superior – se tivesse pulso, te confundiria com um ser humano. Pelo menos tem boas referências. O resto é só Mises, arminha de dedo e polenguinho peniano.

Sua superioridade nesse meio, não é elogio.

Os autores que você diz amar te desprezariam do momento que você lhes dirigisse a palavra. Você é uma doença, professor Carvalho, degenerativa. Eu não sei se existe cura.