O Podcast voltou!

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Meu povo e minha pova, o Baderna Literária, após um “hiato” (também chamado desistência) de dois anos, voltou. Agora vocês podem ouvir ao Ernane e a mim falando merda por uma hora e meia.

O podcast foi subido num canal do youtube que vocês podem seguir, caso se interessem.

https://www.youtube.com/channel/UCvwcZNoK7tWIXy8gB6N2eKg

Também tem feed, pra quem entende disso.

http://feeds.feedburner.com/badernaliteraria

O itunes tá em revisão. Vou revisar isso aqui quando estiver tudo em ordem. Enquanto as coisas tão em construção, você pode baixar o mp3:

https://www.4shared.com/mp3/TR-9ZAW_ca/Baderna_literria_1_-_poetas_op.html

Você, leitor, é inserido no mundo dos podcasts? Me ensina, porque eu não sou. O que me contaram (o Jão, do Pontocast, visitem) foi que esse método de hospedagem via youtube gera arquivos muito pesados no feed, pra download. Eu sei, sinto muito, mas soundcloud ou quaisquer hospedagens de áudio são caras demais pra um projeto como esse, que não me gera renda alguma. O 4shared vai ser uma alternativa, mas é alheio ao feed. Logo, fica essa divisão complicada. Vejamos, são os primeiros passos. Uma vez estando tudo em ordem com o itunes, acredito que as coisas tomarão forma. Por enquanto será desse jeito: hospedagem no youtube, com canal pra quem queira seguir ou ouvir por lá; feed via feedburner e, logo, tomara, itunes, pra facilitar a distribuição; arquivo mp3 pra download via 4shared, e o link pra isso aparecerá em todas as descrições do episódio (no youtube, no itunes e aqui); além disso, postarei avisos aqui sempre que houver um novo episódio. Temos mais coisas planejadas, mas nenhum calendário, então só posso pedir que aguardem.

Isso foi só pra dizer isso.

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Na quinta choveu – parte 2.2 (diário de viagem #13)

Na quinta, choveu – 2 – tarde, San Telmo (parte 2)

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Mesma coisa da outra vez, estava chovendo então não tirei a câmera da mochila. Essa foto veio do: buenosaires.travel

Chega um rapaz, parente de Jorge, talvez?, ou frequente da livraria ou funcionário. Jorge comenta que ele é músico. Toca um dueto de Lady Gaga com Tony Bennett e os três, Jorge, a colombiana e o recém-chegado, passam a falar da qualidade surpreendente da voz dela. Concordo mas não me junto à conversa. Perco o fio da meada e não consigo entender mais quase nada, as falas viram palavras soltas e não consigo formar as frases na minha cabeça. Sigo escolhendo os livros, faço somas e separações, conto o dinheiro no meu bolso na base do tato, formulo prioridades de leitura. É o que dá enfiar anos de busca literárias em seis dias. Muda o assunto, falam do terremoto no México. Um dos muitos acontecimentos durante minha ausência da realidade. Vi notícias nas televisões dos cafés, mas estava tão distante, parecia ver o acontecido por detrás de um véu. Lia notícias do Brasil pelo celular e pareciam ficção, coisa de sonho, como se ao voltar nada fosse continuar ali, no real. A colombiana pergunta pra qual lado fica a feira de artesanatos. Jorge explica. Escuto a explicação porque fará parte do meu destino.

Entendi. Outra coisa, ela diz, como eu faço pra voltar pra Palermo de ônibus?

De ônibus? Mas onde em Palermo?

Plaza Italia.

Olha, bem mais fácil é pegar a linha C, do metrô, seguindo reto pela Estados Unidos. Desce na 9 de Julio, que cruza com a linha D, que chega na Plaza Italia.

Esse é o caminho inverso ao que eu fiz pra chegar. Ela ouve até o fim, querendo interromper, então explica: Eu sei, é que hoje de manhã a linha estava fechada. Eu não sei por que, mas a porta estava fechada.

Ah, pode ser manutenção ou coisa assim. Você tá sabendo?, pergunta pro músico.

Não.

É, de ônibus é um caminho mais chato. Tem muitos pontos, então não se preocupa, é só que demora mais e tem que prestar atenção pra não descer ou cedo ou tarde demais.

Decido me meter – e, admito, saber o que tinha acontecido com a linha do metrô e sua condição atual me dá um orgulho besta –: Com licença, é da linha D que você precisa? Não sei o que aconteceu, mas acho que já voltou ao normal. Eu cheguei por ela, acredito que você já estivesse aqui por essa hora.

É mesmo? Bom, então é só pegar a linha C, isso?, e confirma o trajeto com Jorge, enquanto junta os livros comprados e pega seu guarda-chuva.

Noto que é quase meio-dia. Pergunto a Jorge o caminho pro Museu de Arte Moderna, depois que a colombiana foi embora, e ele diz que é uma linha reta até eu chegar em Defensa, então outra linha reta que dará de cara com um museu, não tem como errar. Reviso cada livro separado com cuidado e digo quais vou levar.

Todos esses?

Isso.

Muito bem. E com uma calculadora ele soma cada preço. No fim, arredonda o total e me dá um desconto de quase cem pesos. E não fala pra ninguém desse desconto, viu? É porque a compra foi boa, você é brasileiro, o que é raro de ver por aqui, então faço um preço melhor.

Combinado.

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E essa veio de: turismo.buenosaires.gob.ar

Oferece um saco plástico. Aceito mesmo que eu vá guardar os livros na mochila. Ainda chove, mais forte agora. Agradeço e vou embora. Pego o mapa pra garantir que estou indo na direção certa da linha reta. Se me confundo, acabo voltando pra estação. O vento bate e revira o guarda-chuva. Aponto o guarda-chuva pro vento e ele se conserta. Isso acontece algumas dezenas de vezes ao longo da caminhada. Lojas e mais lojas de quinquilharias fazem eu me lembrar de uma ou duas amigas no Brasil. Não há uma alma no piso plano cheio de poças de diferentes tamanhos onde se reúnem os artesãos na feira de domingo. De vez em quando, se aproxima das minhas costas alguém que caminha mais rápido que eu e eu abro espaço pra que passem. Escuto, em cada ultrapassagem: gracias. Leve ardor nos calcanhares indica feridas prestes a abrir. Passo debaixo de um viaduto. Estrondo dos carros sobre minha cabeça e as gotas d’água batendo no chão e no ferro das montagens da feira permanente. Filas de barracas como bancas de jornal, algumas com nome, várias pichadas, suas portas de ferro fechadas por causa da chuva, acredito. Mas Jorge não disse à Colombiana que a feira permanente fechava na chuva. Talvez seja só essa parte ou isto aqui não seja a feira e eu nunca venha a encontrar a tal. Aqui, em San Telmo, as calçadas são mais estreitas. O cenário é antiquado, traços de ruína estão por todas as quadras. Restaurantes tradicionais, cafés, vários e vários. Palermo e San Telmo nem parecem a mesma cidade. Outras classes sociais. San Telmo não carrega aquela pretensão, aquele ar europeu. É América do Sul pura, ou quase. Talvez não chegue a tanto. Talvez não exista América do Sul pura em Buenos Aires, como não existe em São Paulo. Talvez América do Sul pura nunca tenha existido, seja só uma ilusão. Quadras passam, dou de cara com o Museu de Arte Moderna. Sua entrada coberta por um grande cartaz anunciando a retrospectiva da obra de Liliana Maresca. Deixo o guarda-chuva na entrada, onde fica um guarda, ao lado do porta guarda-chuvas. O guarda etiqueta meu guarda-chuva e me dá um comprovante. Vou a recepção, pergunto o preço da entrada. Pago, mas a atendente me diz que antes devo deixar minha mochila no guarda volumes. Basta que eu bote uma moeda na porta. Não tenho moedas, então ela me dá uma. Um peso? Dez pesos? Não sei, algo entre vinte e cinco centavos e dois reais. Se tinha que devolver ou se ela estava só me mostrando, não me dando a moeda de presente, nunca vou saber. Pego a moeda e a levo até a porta, enquanto o guarda me acha tão perdido a ponto de avisar que tenho que escolher uma que esteja aberta. Deixo a moeda em seu lugar, tranco a porta e guardo a chave no bolso. Passo em torno de uma hora ou uma hora e meia no museu. Primeiro na parte dedicada a Liliana Maresca, seus desenhos e máscaras, esculturas e montagens, fotos, fotos dela, fotos dela nua, fotos das obras, fotos dela com as obras, fotos dela nua com as obras, manchetes de jornal, pedaços de biografia, vídeos em loop com entrevistas e aparições públicas. Toca um punk rock em espanhol. A exposição tem um lado punk. Penso em tirar fotos, mas deixei a câmera na mochila quando confundi o sinal proibindo fotos com flash com uma proibição de fotos em geral. Me dou conta da confusão quando vejo uma garota tirando fotos com o celular dos rascunhos da Maresca. Quero saber por que ela tira as fotos, se é estudante, se é fã. Sigo pra outra sala e pra outra. Fico tão admirado com a obra e personalidade dessa figura até minutos atrás desconhecida.

(E essas de: artsy.net / ramona.org.ar / buenosaires.gob.ar)

Vou pra outra exposição, no andar de cima, mas não senti nada por ela. Noto uma decoração estranha pela escadaria. Há uma estranha comoção em frente a uma das salas do segundo andar. Nada dentro dela, que se possa ver com clareza. Mantenho a distância, por não ter sido convidado a participar do seja lá o que for que venha a acontecer logo mais. Vejo o que parece uma fila de mesas de buffet e mais nada. Alguém que pode ser um garçom surge e entra na sala e some lá dentro. Sigo pra exposição do autor de nome desconhecido. Outro, como Liliana, que morreu cedo. Parte da obra dele envolve música eletrônica e jogos de luz, puro neon. As batidas são ouvidas somente como se vindas de muito longe, passos ecoando num corredor distante, marteladas pregando um prego na parede de um cômodo do apartamento vizinho. Bandeiras dos Estados Unidos, em neon, em tecido, em diversas cores, com títulos sugestivos: vermelho sangue, entre outros. Casal deita em meio a várias almofadas num canto da sala. Com fones nos ouvidos, assistem uma apresentação em loop numa televisão antiquada, daquelas estilo caixa, disposta no chão em uma ponta da sala. Completado o círculo pela sala, volto ao corredor e dou uma última olhada nos arredores pra ver se não há mais nada. Agora, pessoas bem vestidas ocupam a sala antes vazia. Um garçom próximo à porta carrega uma bandeja prateada com taças de espumantes. Considero a possibilidade de me infiltrar e só não faço por não ver comida. São quase duas da tarde e preciso almoçar. Pego de volta o guarda-chuva e a mochila e volto à rua. Ainda chove.

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E essa tava no site do MALBA. Mas tudo foi tirado do google imagens.

Na quinta, choveu – parte 2.1 (diário de viagem #12)

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El Rufián Melancólico – Uma das poucas fotos no diário que eu não tirei. Achei no google, veio do site welcomesantelmo.com

Na quinta, choveu – 2 – tarde, San Telmo (parte 1)

Seguro com uma mão o guarda-chuva aberto. A outra tenta abrir o mapa que um funcionário do hotel me deu. A feira diária não abre quando chove. A livraria de usados que queria conhecer deve abrir. Rua Bolívar, se não me engano, que cruza com a Independencia, onde estou, ou com a Estados Unidos ou com a Defensa, todas estas formando uma espécie de malha. É pra ser uma linha reta, quase. Me impressiona a facilidade que tive pra encontrar o lugar. As quadras, como sempre, enganam a vista de tão grandes. Sempre deixam a impressão de se ter andado demais ou de menos, dependendo do meu grau de cansaço, hoje moderado. Passei a noite passada procurando um lugar com cerveja de qualidade pra que eu esquecesse minhas tristezas. A cerveja não era ruim e o lugar estava vazio. Me sinto melhor que ontem. Veio aquela mesma sensação de estar flutuando pelas ruas, igual da outra vez. Uma sensação quase extracorpórea, como assistisse de fora meus movimentos. Duas versões de um corpo, distantes entre si, sem que uma se perdesse de vista da outra. El Rufián Melancolico, encontro. Como eu esperava, um recanto de tranquilidade mais parecido com uma ruína ocupada por uma espécie de ermitão literário. Num canto, uma mulher folheia um livro. Perto dela, um homem de certa idade parece estar fazendo nada. Estão entretidos o suficiente com o seja lá o que for pra que eu entre sem ser percebido. Passo pelas pilhas de livros. Absorvo o aroma típico desses lugares parados no tempo. Toca um jazz ambiente que pouco se esforça pra ser ouvido. Finalmente, passo pelo campo de visão do homem e ele me cumprimenta, chamando a atenção da mulher, e ela me cumprimenta também. Retorno os cumprimentos. Sinto como pudesse me esconder entre aquelas pilhas de velharias e raridades sem ser encontrado, como pudesse fazer daquela livraria uma morada. Ninguém pergunta quem eu sou ou o que faço ali. Paro na estante etiquetada Literatura e passo os olhos pelas lombadas. Dou de cara com Onetti, Jorge Amado, Benedetti. Mas é muito pra processar de uma vez. Fico sem ação. Pego uma cópia de El Astillero, folheio. Antiga, parece frágil. Essas antiguidades nunca são tão frágeis quanto parecem. Reparo, mas só depois de uns bons minutos de encarar lombadas como um ventilador de coluna quebrado, que nenhum dos livros na estante são de argentinos e, embora alguns livros sejam por poetas, nenhum é de poesia. Vou até o senhor e pergunto onde está a poesia. Ele aponta pra estante que ele e a mulher inconscientemente bloqueiam. Peço licença, eles pedem desculpa, abrem espaço, passo e mudo a posição da minha imitação de ventilador. Ainda carrego a cópia de El Astillero. Encontro a obra completa do Borges. Do Borges, só as poesias li em espanhol; os contos, só por tradução. Pego El Aleph. Meu hábito em livrarias, pegar os livros interessantes e os reunir em uma mão. Não quer dizer que vou comprar todos eles; é só uma forma de separar candidatos, uma pré-seleção acompanhada de cálculo mental. São muitas opções, não posso decidir sozinho. Ouvindo a conversa atrás de mim, descubro que o senhor é o dono do local e se chama Jorge, a mulher nunca diz o próprio nome, é uma colombiana e veio atrás de livros específicos para sua pesquisa, cujo tema desconheço. Quando a conversa para, decido começar a pedir indicações. Antes pergunto se tem algo de Nicanor Parra.

Não, dele não temos nada. Completou cento e dois anos, acredita? Um grande homem, tive a chance falar com ele quando estive no Chile, sei lá eu quantos anos atrás, ele diz, então se distrai nas memórias. Alguém quer um café? Vou buscar ali do lado.

Tanto eu quanto a colombiana recusamos. Ah, ok, pelo menos a viagem vai ser barata.

Volta com o café com leite na mão. É quando pergunto se há na literatura argentina algum autor o qual ele acredite não ter recebido o reconhecimento merecido. Ele me olha cheio de dúvidas. Explico que sou brasileiro e estou no meio de uma exploração pela literatura argentina.

Estudante de literatura?

Não, é só um hobby.

Certo, e se aproxima da estante de literatura argentina. Agachado pra alcançar a última prateleira da estante, diz: Borges, Bioy Casares, Arlt, Cortázar, Sabáto, esses você …?

Sim, conheço.

Bom, bom, já passou do básico, tá atrás de coisas mais desconhecidas mesmo.

Isso.

Então ele dá início a uma lista infinita de autores. Começa com Benito Lynch, um autor bastante tradicional, gauchesco, por isso não se fala dele esses dias, mas é ótimo. Histórias mais do interior, do campo, sabe? No Brasil … de onde você é?

Sul, Itajaí, mais pro litoral, perto de Florianópolis.

Sim, Sul, Florianópolis eu conheço. Existe uma proximidade entre o Sul do Brasil e a Argentina, culturalmente falando. Com esse tipo de história, você vai ver.

E empilhava os livros em minhas mãos enquanto falava dos autores e autoras, de quando eram, do que tratavam, o que esperar. Se te interessa teoria literária, se bem que você falou que não é estudante, mas não importa, esse é muito bom mesmo assim, Enrique Lynch.

Pega outros dois do Benito Lynch.

Engraçado, dois Lynch, Enrique e Benito, eu digo, enquanto Blue Velvet toca ao fundo, não sei quem interpreta a versão.

Tenho entre quinze e vinte livros empilhados sobre uma banqueta. Analiso superficialmente cada um. Lembro de algo e pergunto se ele tem o primeiro da Clarice Lispector, aviso que é uma autora brasileira.

Não, não temos livros em português.

Estou perguntando se tem traduzido, é um presente.

Ah, não, dela não tem nada. Sabe, gosto muito de literatura brasileira, mas vocês são muito egoístas com tradução, diz Jorge.

Mesmo? Vejo um monte de autores brasileiros por aqui.

Sim, mas, por exemplo, Guimarães Rosa. A obra dele é imensa, mas aqui se encontra um, dois livros traduzidos.

Traduziram Guimarães Rosa?

Mas claro.

Tô surpreso, parece um autor intraduzível.

Muito se perde, é verdade, mas isso vale pra todos.

É que a literatura do Rosa tem muito neologismo, são palavras que nem a maior parte dos brasileiros conhece, linguagem oral do sertão (e falo sertão em português, na esperança que ele entenda) transcrita por ele.

Certo. Não sei o que fizeram, mas conseguiram adaptar, acho. Deve ser o mesmo quando pegam um autor mais do interior da Argentina.

Tenho que ver, não sei se tem muitos deles traduzidos. Tem muitos autores argentinos, mas são os mais conhecidos, só, os clássicos ou os contemporâneos premiados ou na moda, não tanto literatura gauchesca. Do Cortázar e Borges tem quase tudo, César Aira, por exemplo, tem aparecido. Mas Alejandra Pizarnik, que tem uma linguagem menos traduzível, não tem nada … nada de poesia, só a novela … me esqueci o nome, e Benito Lynch só fui conhecer hoje aqui.

Entendi, achei que tivesse mais.

Aqui tem muito Paulo Coelho e Jorge Amado.

Sim, mas esses não contam. Jorge Amado foi, sim, um bom escritor, às vezes, e tem quase tudo dele aqui, se não tiver todos, não sei. Vinícius de Moraes também é muito traduzido. Um bom poeta. Sabe, e agora se dirige também à colombiana, que de vez em quando nos ouvia, anos e anos atrás, fui a um concerto do Astor Piazzola acompanhado de Vinícius de Moraes. Ele era letrista, sim?

Sim, da bossa nova.

É, aquilo foi um espetáculo, um momento da história.

***

Obs.: Essa parte do diário é mais curta porque esses textos não foram pensados como postagem de blog. O relato sobre quinta é bem longo e essa parte, sobre a tarde, ainda se estende por algumas páginas. Esse foi um bom ponto pra cortar, mas seria mais apropriado ler a coisa toda de uma vez.

Investigadores de realidades alternativas; sobre Fauna / Desplazamientos – Mario Levrero (1987)

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O mercado literário trabalha de forma misteriosa. Autores surgem do nada e dominam o mundo. Outros precisam morrer pra serem ouvidos. Uns viram moda rápido e tão rápido somem. E tem os que viram objeto de culto; estes entram e saem de moda, ganham público em algumas regiões enquanto outras não o entendem, mas contam com a fidelidade de alguns leitores, que passam a espalhar a palavra desse autor por aí como uma promessa de salvação espiritual – e certos autores até podem cumprir com a promessa. Mario Levrero é justamente isso, o autor de que poucos leitores falam mas falam com paixão, que surgiu com força em alguns países (Argentina) e se tornou “um dos bons”, sem nunca alcançar o patamar de um Roberto Bolaño em se tratando de popularidade. Aqui, nem mesmo a publicação de Deixa comigo, pelo selo Otra Língua (Rocco, encabeçado por Joca Reiners Terron, enciclopédia humana da literatura latino-americana), deu jeito de alimentar a curiosidade dos leitores por essa figura bizarra da literatura uruguaia. Nem mesmo a minha, já que até hoje não li Deixa comigo. Foi ano passado que a mágica aconteceu, e já contei aqui essa história, quando vi La máquina de pensar en Gladys em uma livraria de Buenos Aires. Levrero me perseguiu a viagem toda, mas só naquele dia me rendi. Não que estivesse resistindo, mas fui colocando outros autores na frente por não saber de que tratava Levrero – o tinha como um pós-moderno engraçadinho, desses que faz pastiche com baixa literatura e abusa da paciência do leitor com metalinguagem. Quanto arrependimento. Aí, esse ano, de volta lá, fui à caça de Levrero, encontrando quase nada dele a preços razoáveis, pois ele foi pego pela moda e sumiu das livrarias de usados e as novas edições foram publicadas pela Random House (aquela que, junto da Penguin, é dona de tudo – Alfaguara, Companhia das Letras – inclusive da sua alma) a preços absurdos: no mínimo 450 pesos argentinos as obras curtas; as longas (La Novela Luminosa, Trilogía Involuntária), até 900 (respectivamente: 90 e 180 reais, sendo generoso na taxa de câmbio). E eu não poderia ter bolado uma introdução mais longa e parentética pra esse texto, puta merda!, vocês me desculpem.

Resultado da minha caça: Fauna / Desplazamientos, uma reunião de dois romances curtos e relativamente leves. Vamos lá, um de cada vez pra eu não me confundir, até porque li Fauna no meu voo de retorno ao aeroporto de Navegantes e Desplazamientos ao longo da semana seguinte (há 3 meses).

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Fauna: Uma psicóloga liga para o narrador/protagonista (que será chamado de Mario, nesse texto) e pede seu auxílio para investigar o relacionamento de sua irmã, Flora, com Monsieur Victor, um tipo com quê de Svengali. Mario recusa; ele é só um dono de quiosque (um desses que abundam em cidades como Montevidéu e Buenos Aires, embora o livro não negue nem confirme se passar em uma dessas cidades, ambas habitadas pelo autor em diferentes etapas da vida dele), com aspirações literárias e um gosto pela parapsicologia e coisas ocultas. Mas foi por isso mesmo que a psicóloga, que Mario apelida de Fauna (Flora, Fauna; Fauna, Flora … entenderam?), insiste que ele aceite o trabalho, vai até ele e o entrega uma soma considerável em dinheiro. Logo Fauna desaparece e Mario começa suas investigações, em uma narrativa que mistura literatura policial com digressões sobre pinball, descrições de minúcias do cotidiano e conceitos do taoismo, além da pitada de parapsicologia e ocultismo.

Desplazamientos (Deslocamentos): (pra não confundir, chamemos o narrador desta de Oiram) Morreu o pai de Oiram, deixando de herança um condomínio de classe baixa que Oiram escolheu, de início, administrar pessoalmente. Partindo desse princípio, a narrativa demonstra várias possibilidades de acontecimentos, que variam conforme a atitude de Oiram com relação a uma moradora particularmente atraente e sua irmã mais nova. Assim o narrador se vê inconscientemente preso às possíveis variações da realidade. A versão em que a moradora é casada, a versão em que ela não é; a versão em que ele a estupra, em que eles se apaixonam, em que a irmã se apaixona por ele; a versão em que a mais nova sofre abusos físicos e sexuais da mais velha etc. Enquanto, em todas as versões, Oiram quer ser um proprietário justo com os moradores, o oposto de seu pai, se afastar da opressora sombra paterna que o persegue apesar dos seus esforços – sem muito sucesso.

Ambas têm em comum o tom de erotismo em certas passagens e um narrador mistificado pelo sexo oposto. Não quero chamar a sensação de estranheza que as narrativas causam de sonho ou de surreal, primeiro porque isso já foi feito à exaustão, segundo porque não é exato. O autor é conhecido pela crítica uruguaia como um dos “raros” (estranhos/insólitos), no mesmo patamar, embora seja mais jovem, de Armonía Sommers, Felisberto Hernández, entre outros uruguaios. Não tenho como comparar, mas o insólito em Levrero está mais para liberdade da escrita do que para um traço onírico ou surreal.

A repetição hipnótica de Desplazamientos pode ter algo de sonho, contudo, o fato de o narrador não ser um prisioneiro kafkiano dentro da narrativa o afasta dos típicos onirismos e o aproxima do experimento literário, do jogo das possibilidades. Citaria física quântica se eu soubesse o mínimo sobre física quântica.

A mistura de fatores em Fauna (parapsicologia, mesmerismo, duplas personalidades) é menos surreal e mais um autor se perguntando, com toda a liberdade do mundo nas mãos, “o que eu faria se…?”. Essa é a pergunta que parece reger a literatura de Levrero, o “e se…?”. E se o narrador fosse um amador dos fenômenos paranormais? E se o narrador olhasse pela janela da casa da inquilina e a visse chicoteando a irmã tal e qual uma dominatrix? E se o narrador amante do paranormal fosse viciado em pinball? Tudo bastante surreal em conjunto, mas, no fim das contas, é literatura. Não é a realidade tomando formas irreais, são palavras tomando forma e provando ao leitor que elas podem tomar qualquer forma, que no mundo da literatura real e irreal indiferem.

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Muito desse jogo de Levrero se vê hoje em César Aira e em Mario Bellatín, e há muito já se via em Sérgio Sant’anna. Autores contemporâneos que estão menos ligados à forma da obra literária e se deixam fascinar pela liberdade da palavra – nada me impede de voar se eu escrever na folha em branco que posso voar; que, na verdade, estou voando, digitando esse texto bem próximo às nuvens. Claro, não estou, seria absurdo. Mas é possível moldar uma história com tais pretextos. A partir do momento que algo se assume ficção, tudo é permitido, ainda mais quando tudo já está feito.

Enquanto em Desplazamientos vemos o complexo jogo das possibilidades, numa narrativa de fundo bastante sórdido, que esbarra sem nunca dar muita atenção em questões de domínio, controle financeiro e poder – o narrador é o dono da moradia das outras personagens -, o que torna o texto bastante denso. Fauna é leve, um pastiche policial, sátira de Hammett, do hard-boiled e os investigadores durões do estilo, quase uma piada de dezenas de páginas. O que não torna Desplazamientos menos engraçada – Levrero fez carreira de humorista em jornais, na década de 1960, e o humor é consistente na obra dele -, só é mais difícil de rir.

Com isso, faço minha parte de espalhar a palavra. Só tem um livro disponível dele em português, mas pode ser que isso mude se ele vender mais um pouco (que ele tenha mais leitores que só outros escritores) ou pode ser que um de vocês esteja de passagem pelo Uruguai ou Argentina ou more lá ou seja nativo de lá e esteja lendo esse texto via google tradutor. Mario Levrero morreu em 2004, o que trouxe à tona sua esquecida literatura, como aconteceu com Bolaño em 2006. A sorte de Levrero foi diferente da de seu outro colega falecido. Isso é o mistério do mercado editorial. Alguns autores caem nas graças do público e são traduzidos e publicados no mundo todo como grandes clássicos de gênios ignorados em vida; outros, mesmo que sua obra seja mais vasta e – ok, é subjetivo, mas convenhamos – melhor, têm seus quinze minutos de fama e logo somem das prateleiras. Eu sei lá o que fazer disso.

poema

nove minutos atrasado, penso nos cupins
na minha porta.
vieram do vizinho de andar
e ninguém sabe o que fazer quanto a isso.
é a época e é isso mesmo, nada mais.
o rabisco no vidro do ponto de ônibus que diz
a Terra
é
plana
pesquise
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de empréstimo - é o capitalismo
selvagem interrompendo outra vez
a Ciência.
atrás do ponto,
o muro do estádio de futebol anuncia
DINHEIRO BARATO É AQUI
e eu não consigo pensar numa
representação melhor dos nossos tempos.
admiro as figurantes da minha vida
ou as protagonistas para as quais
o figurante sou eu,
é mais assim que tenho me sentido
perante essa gente que passa por mim
todos os dias nas mesmas horas
e que eu não conheço nem de nome
mas vejo mais que minha família
e meus amigos e tenho amigos
que nunca vi e eu não consigo
pensar numa representação melhor
dos nossos tempos.
essa figurante anda sorrindo
com a cabeça meio de lado e fones nos ouvidos
e os olhos quase fechados atrás dos óculos.
trocamos olhares esguelhados,
ao mesmo tempo
fazendo e desfazendo o contato visual
em perfeita sincronia.
estou dez minutos atrasado pro trabalho
outra vez, penso nos cupins
da minha porta e na conversa que não tive
com essa figurante que não conheço
mas que me deu de presente um poema
em tempos de escassez e eu
não consigo pensar numa representação melhor
dos nossos tempos.

Quando o peso das leituras te derruba – sobre Georges Simenon (parte 2: personagem, identificação)

Que tal ler a parte 1 primeiro? Faz sentido, não? Pois é.

4 – E a do Maigret, qual é?

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Mais que o estilo da prosa, acho que foi a personalidade de Maigret que me prendeu tanto a esses livros. Ele não foi feito um gênio nem um excêntrico; e bom que não foi, porque disso a literatura policial já estava saturada – e nunca dessaturou. Tampouco é um canalha, fanfarrão, malandro, corrompido pelo sistema em que está inserido, à hard-boiled. Maigret é só um policial parisiense, que conseguiu uma posição de inspetor chefe por ser competente; um homem simples, que gosta de tomar cerveja e de fumar seu cachimbo e é fiel à esposa; um policial que detesta a exposição que o trabalho lhe concedeu, mas não consegue viver longe da função ou deixar que casos sejam arquivados sem resolução satisfatória (para ele). Ao mesmo tempo, ele falha, é enganado, tem dificuldades pra chegar às conclusões e se deixa levar pela própria autoridade (tem horas que ele parece ser investigador, juiz, júri e carrasco – as histórias se passam antes da abolição da guilhotina, que, apesar da última sentença ter acontecido em 1977, só aconteceu oficialmente em 1981, junto do fim da pena de morte na França).

Ao entregar o primeiro romance de Maigret para seu editor, Simenon recebeu um não. O editor acreditava que uma personagem tão banal – um investigador sem nada de especial, sem inteligência superior, sem perspicácia, quase um policial de verdade – fosse capaz de vender livros. Claro, ele estava errado e assim foi provado quando o primeiro livro foi publicado e então suas sequências e então foram vendidos os direitos de adaptação pro cinema e pra televisão e Simenon se tornou um dos autores mais ricos de seu tempo. Se foi por causa do temperamento de Maigret, isso é discutível. É possível que uma personagem tão próxima do leitor em hábito e atitude pudesse ganhar simpatia extra e, logo, atrair leitores, mas nem sempre as coisas acontecem dessa maneira. Talvez fosse o que os leitores da época queriam. O que não saberia dizer – nem sei se o autor chegou a responder com sinceridade a perguntas sobre o assunto, então é possível que ninguém saiba – é se Maigret foi resultado de uma ideia espontânea de Simenon ou se fruto de uma pesquisa, se a personalidade da personagem surgiu com a escrita ou foi estabelecida desde o planejamento.

De certa forma, Maigret é um oposto de Simenon. Uns diriam que a personagem é representação imaginária de tudo que o criador queria ser, mas era incapaz de se tornar. Maigret é um homem simples, que não ostenta fortunas e evita atenção pública, enquanto Simenon viveu em mansões, era visto como um dos homens mais bem vestidos, nunca se afastou da atenção midiática, amargurava o fato de a Academia Sueca ignorar seu “talento inegável” e mantinha uma coleção invejável de cachimbos Dunhill; Maigret  nunca nem pensa em manter casos extraconjugais apesar de sempre se ver em cabarés e nas ruas de Montmartre, Simenon se gabava de ter dormido com 10 mil mulheres, a maioria justamente as prostitutas de Montmartre, sobre as quais escrevia quase que com ternura, e dos suas inúmeras puladas de cerca; Maigret tinha um senso de justiça, Simenon trabalhou para um estúdio de cinema alemão na época da invasão nazista à França e fez o possível pra salvar a carreira e o pescoço quando a guerra acabou. Antes de mais nada, ao contrário de muitos detetives da ficção, Maigret é um ser humano, poderia ser qualquer um. E talvez seja. Simenon é o típico artista monstruoso, da espécie que fecha a porta na cara dos filhos e exige que a casa se mantenha em silêncio enquanto ele escreve, que faz o que tem vontade em nome da experiência e da arte sem se preocupar com as consequências de seus atos, um egoísta e um egocêntrico – como todo bom artista.

5 – Autores e personagens: amigos dos leitores

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A lata de Royal Yacht ao lado da lupa. Sim, eu ter notado isso pode ser sinal de problemas psicológicos.

É aquela famosa passagem de O Apanhador no Campo de Centeio, o desejo tão juvenil mas tão universal que Holden Caulfield expressa sobre certos livros, os que são especiais pra ele, o desejo de ser amigo do autor. Não existe ilusão maior que essa, mas todo o leitor, independente da idade, embora seja um mal tipicamente adolescente, já passou por isso. Acho que passei por algo assim com Maigret e Simenon. O prazer que Maigret tira só de sentar num café e pedir uma cerveja enquanto acende seu cachimbo, pra mim bastou: tá aí um cara gente fina! Então vi a coleção de cachimbos de Simenon e o cuidado que ele tinha para com eles, depois uma foto dele em sua mesa de trabalho, sobre a qual se podia ver uma lata de Dunhill Royal Yacht  – gente fina pra caralho! E aqui eu alieno 99% dos meus leitores, como sempre. Juro que não vou perder muito tempo com isso – poderia, mas não vou -, por favor continuem lendo, é só que tenho uma admiração pelos cachimbos Dunhill de antigamente e Royal Yatch é uma mistura de tabacos entregue a nós, frágeis e desmerecedores humanos, diretamente pelos deuses. Perdão, de volta à programação normal: cada leitor tem seus gostos peculiares, além da literatura, e ver isso expresso no papel cria uma identificação imediata, principalmente quando as pessoas reais ao nosso redor não cumprem esse papel tanto quanto seria desejável.

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Para mim é gosto pelos prazeres da nicotina (não o fumo compulsivo, mas a compreensão das qualidades meditativas e calmantes do ato de fumar) e das cervejas e vinhos e uísques, o gosto pelo jazz, por caminhadas sem rumo, pelos pequenos gestos cotidianos aparentemente sem sentido e raramente retratados, pelo banal. Artistas de qualquer forma que se interessem por essas coisas ou as retratem ganham minha admiração imediata. Philip Larkin: um misantropo babaca? Sim, em muitos aspectos, mas o gosto dele pelo jazz faz com que eu me interesse mais por seus poemas – sem falar que ele é um grande poeta e eu sou meio que um misantropo babaca quando ninguém está olhando. Nunca li um livro do Will Self, mas já li todos os artigos que ele escreveu sobre os prazeres da nicotina e das longas caminhadas. Frank O’Hara e principalmente Ron Padgett, com seus poemas do cotidiano, são amigos muito chegados. Joan Didion e a forma como ela busca respostas pra tudo nos livros e na ruminação exaustiva das coisas se tornou rápido uma grande amiga. A vontade de isolamento que de tanto em tanto tempo dá seus botes na minha mente faz com que eu simpatize muito com Emily Dickinson – claro, nunca tão radicalmente. E outros e outros, sempre surgem mais amigos nesse meio. E assim foi com Simenon e seu Maigret.

Claro, em situações normais, acharia essa identificação com autor ou personagem desnecessária. Sempre que vejo fulano criticando tal livro por achar personagem feio, mal e bobo, descarto a opinião de fulano, que não passa de leitor imaturo, moleque, despreparado pra opinar sobre qualquer coisa. Aí sou obrigado a voltar à questão da literatura de gênero. A falta de algo mais, um tempero, demanda alguém a quem o leitor queira se apegar. Não vale pra toda literatura de gênero, têm as que ficam melhores com personagens odiáveis, mas as que dependem de um investigador – um compasso, por assim dizer -, essas ganham muito ao ter um personagem identificável – que não precisa ser agradável; se identificar com canalhas é sinal de autoconhecimento.

Cá estou eu cagando regras onde não deveria haver nenhuma. Bom, é ridículo, mas gosto dos livros de Maigret por simpatizar demais com esse investigador. Não ligo pros malandrões do hard-boiled, na verdade acho um saco; quero que os gênios da lógica fiquem trancados num jogo de xadrez eterno bem longe de mim. Jules Maigret é meu chapa.

6 – Ao invés de conclusão, algo completamente diferente

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Faz cara séria, Mr. Bean.

Precisava concluir, né? Mais tarde. Fica em aberto a possibilidade duma parte 3. Só que o texto não foi planejado pra mais que duas partes, fiquem vocês sabendo.

No lugar, vou falar das adaptações de Maigret pra outras mídias. Como Sherlock, Maigret teve várias encarnações no cinema, na tevê, na rádio e nos gibis. A primeira, foi num filme de Jean Renoir, baseado em A noite na encruzilhada. Pierre Renoir, irmão do diretor, interpretou o inspetor chefe. (Se alguma vez você precisar conectar o movimento impressionista, com cinema clássico francês e literatura policial – t’aí a oportunidade.) Mas não vou falar de todas. As mais famosas são as do Rupert Davies, entre 1950 e 1960; as com Bruno Cremer, de 1990; e com Michael Gambon, na mesma década. Rowan Atkinson interpreta Maigret na série atual. Tudo que citei foi na tevê, não vi os filmes, e, mesmo essas séries, só vi a com Michael Gambon e a com Rowan Atkinson, e só dessas posso falar positiva ou negativamente.

A versão de 1990, com Michael Gambon, fora o fato dos ingleses bancando franceses (mais comum do que se imaginaria), é perfeita. A adaptação das histórias é boa, Gambon é um ótimo Maigret, desde a aparência até a forma que ele enche o cachimbo e o leva nos dentes.  Ele tem a voz e a autoridade que se esperaria da personagem. O ritmo do enredo e a atuação das outras personagens atrapalha bastante, tanto que o programa tem duas temporadas, cada uma com uns 10 episódios de 45 minutos (no youtube, vão procurar), e eu não vi tudo ainda – comecei no meio do ano. A série é um livro por episódio, não esperem sequências, quase como filmes só que encurtados. Eu indico se você estiver afim de saber do que esses livros se tratam antes de se comprometer a comprar um ou se quiser ver uma série policial até que bem feita com um protagonista carismático.

Já a versão atual… eu não sei. Gosto, mas não sei por quê. Rowan Atkinson é um puta ator. Ele é o Mr. Bean, pra quem não sabe, e eu sou fã. Fã de Mr. Bean, de Blackadder, da comédia e do estilo dele. Essa série (que é mais um filme pra tevê lançado anualmente, tem um pra sair agora no natal) é um desafio pra ele. Maigret é um cara sério e Atkinson o atua de forma séria, com aquela cara. É estranho. Também não gosto que Maigret fume cachimbos Dunhill. Ele é um cara simples, devia fumar um Butz-Choquin ou um sem nome qualquer da França ou da Itália. (É, nada que importe pra ninguém, só eu reparei nisso, nem o filho do Simenon comentou esse detalhe.) A atuação tem momentos bizarros, mas, por algum motivo, existe tensão. Eu sempre assisto do começo ao fim e estou ansioso pro episódio que vai sair agora. Eu indico pra mim. Pra você, aí a história fica complicada.

O que mais vocês querem de mim?

 

Notas sobre a crise da chegada; e Na quinta, choveu – parte 1 (diário de viagem #11)

Isso aqui é parte do diário de viagem, que já engloba duas viagens e pode ser que nunca chegue ao fim. Leia as outras partes clicando em qualquer parte dessa frase para que tudo faça sentido. A ordem em que se lê o texto não importa.

Notas sobre a crise da chegada

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Fenômeno inventado com o objetivo de definir a melancolia que bate durante o período da chegada até a adaptação. Chamei, primeiro, de crise do segundo dia, mas isso depende da hora que se chega. Consideraria esse período de chegada o primeiro dia em que se acorda no destino, passada a loucura das chegadas e check-ins. Pode ser no segundo dia, quando se chega no fim da tarde; no primeiro, quando se chega de madrugada ou de manhã cedo. O que falta pra oficializar é pesquisa de campo. Até agora, não ouvi outros depoimentos similares. Mas o meu caso é repetido, tanto ano passado quanto neste ano. Pode estar relacionado à personalidade. Simpatizo com o gato, que quando muda de casa precisa ser trancado num quarto pra se adaptar à sua nova posição geográfica. Moro num apartamento de dois quartos há quatro anos. O segundo quarto está sempre desocupado. Noutro dia, decidi dormir nele e passei a noite em claro. Um estranho dentro da minha casa era como eu me sentia, um invasor. Precisei me convencer que o quarto ainda era meu, localizado dentro do meu apartamento. Os sons eram diferentes, contudo, e me sentia torto e incomodado. Isso pode estar relacionado à crise da chegada ou da adaptação, esse fator estranho da minha personalidade. Estava como um gato mal adaptado trancado num local novo. Explica também o tempo que levou pra minha readaptação em Itajaí – cidade a qual não posso dizer que estou adaptado.

Isso não significa que eu desgoste de viajar ou que escolheria evitar essa sensação se fosse possível. A desorientação é consequência e, apesar da tristeza envolvida, gosto dela, gosto que meu corpo ou mente sejam capazes de se reconhecer deslocados a ponto de tentarem me render à inércia. Eu não saberia explicar o prazer dessa condição. O que acontece, ao menos o que aconteceu comigo em minhas duas viagens sozinho, é, uma vez passada a euforia, surge discreto um ar de arrependimento. Não sei o que estou fazendo ali tão longe de casa, parece errado, e, no entanto, não quero voltar nem me arrependi de ter vindo. A causa da tristeza repentina não é a viagem em si.

Tem algo de inútil na viagem de turismo, potencializada quando se visita um mesmo país pela segunda vez. Um esforço de fuga não se sabe bem do quê. Realidade (querendo dizer: insatisfações do cotidiano, entre outras banalidades)? Bem, essa se faz notar a cada passo. Talvez disso venha a tristeza, da inescapabilidade. Nós chegamos, olhamos os arredores e tiramos fotos, tentamos nos esquecer um pouco de nós mesmos e ignorar nosso senso de ridículo, forjamos contato com nativos e outros turistas, alguns tentam se mesclar à cultura enquanto outros fazem questão de contrastar a si mesmos com camisetas de futebol de seu país natal ou falando bem alto seu próprio idioma; cada turista tem seu método preferido de viajar, mas nada disso importa. O turista nunca pode pertencer. O turista é figura estranha na imagem, o indivíduo sem papel definido naquela peça teatral chamada país estrangeiro. Enquanto os nativos têm suas famílias – independentemente do quão ligados sejam a elas, vieram de algum lugar, ao menos por enquanto assim requer a biologia –, têm seus empregos ou fontes de renda ou preocupações movidas pela falta destes, têm histórias ligadas a cada ponto da cidade, muito além dos turísticos, às praças e ruas e cafés, memórias e vínculos, objetivos e planos – raízes, por assim dizer.

Essa característica de avulso do turista traz liberdade. Principalmente quando se viaja sozinho, se soltando das suas próprias raízes durante a viagem. É um rompimento temporário, que uns veem como necessário, buscam por ele; outros mantêm um fino barbante preso a suas origens e anseiam pelo retorno, cheios de histórias e lembranças. Estava solto no quarto do hotel pela segunda vez e não sabia o que fazer pela segunda vez.

Na primeira vez, foi a caminhada de todo um dia pelos arredores da avenida Córdoba e depois pelo centro da cidade na busca de informação e de uma casa de câmbio onde trocar dinheiro. Então, no destino, ouvir que faltava um documento e ter que voltar, só pra me perder pelo centro outra vez. Foi descer no ponto errado, na estação Córdoba quando devia descer na Plaza Italia, me fazendo caminhar, já exausto dos vaivéns do dia, mais dezenove quadras. Todavia, foi chegar esfomeado e trêmulo de dor no hotel e descobrir que a duas quadras havia uma hamburgueria bem falada. Foi terminar a noite com três copos de cerveja até que boa e um hambúrguer bem preparado e, apesar do pouco dinheiro, ainda ter o suficiente da moeda local pra mais um dia, mesmo que de escassez. Foi deitar na cama e pegar no sono lá pra uma da manhã, acordar e sentir uma espécie de alívio por estar ali, não em casa.

Enumerei os atos pra buscar algo que ligue a primeira viagem à segunda, um fator em comum. O centro de Buenos Aires, a casa de câmbio, a bebida, o sono. A segunda vez teve a vantagem da experiência. Evitei as horas e horas de caminhada infrutífera, mas o centro de Buenos Aires é um terror. Uma explosão sensorial pontuada por sirenes humanas: câmbio câmbio câmbio. Estava no metrô, Alana cancelou nossa ida ao MALBA na mensagem. Pediram que ela trabalhasse até mais tarde. Troquei o dinheiro e voltei à Palermo. Sem ter o que fazer, só queria fugir do centro. Mesmo que quisesse conhecer o London City, onde Cortázar escreveu Os Prêmios, e que o London City ficasse, supostamente – não o vi esse ano, não o encontrei ano passado, é um café invisível, só pode –, ao lado da estação Florida, da qual descia as escadas – só queria fugir do centro. Quase três da tarde, parei num café e pedi um pedaço de torta de frango com champignon, porque ainda não tinha almoçado. Fiquei sentado à mesa, lendo, olhando as palavras na página, pensando o que estava fazendo ali de novo. Depois de horas deitado na cama do hotel querendo chorar, fui à Plaza Serrano e entrei no primeiro bar que vi, o mais vazio. Sentei e pedi uma cerveja. Depois outra. Na tevê passava um jogo de futebol entre Barcelona e Santos, time da minha cidade natal, o que não significa nada pra mim, mas achei uma coincidência engraçada. Outra cerveja e já não havia ninguém no bar e criei coragem pra pedir à garçonete que trocasse a música. Ela perguntou o que eu gosto e eu não soube responder. Aceitei quando ela chutou rock clássico e, uma ou duas faixas depois, começou a tocar Sugar Man e eu me senti bem o suficiente pra pedir outra cerveja, embora ela tenha pulado a faixa antes de ela chegar ao fim, justo quando eu estava preste a fazer audível minha voz que cantava junto. E, no hotel, dormi um sono interrompido mas agradável, e acordei feliz por estar ali.

Assim, como o gato que aos poucos sai da esquina do cômodo em que foi fechado e aos poucos se espalha pelo apartamento, estava adaptado. Um fantasma em cena, flutuando pelos lugares onde outros tinham fincadas suas raízes. Um fantasma sem um fiapo que o prendesse à sua terra; consciente da despedida, despreparado pras saudades.

 

***

Na quinta, choveu – 1 – manhã, hotel

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Escuto as gotas batendo na varanda, são quatro da manhã. Segunda vez que acordo esse horário, terceiro dia, segunda viagem. Fecho os olhos outra vez e, quando volto a abrir, me sinto mais descansado, o que me assusta. São quatro e meia, apesar de ter visto luz escapando pelas frestas da porta da varanda. Repito o processo em intervalos que variam entre quinze e trinta minutos até oito e meia. Levanto, ainda chove. Parece mais fraco agora. Vou precisar de um guarda-chuva. Entro no banheiro, esqueço outra vez que o interruptor está do lado de fora, saio pra acender a luz. A água do chuveiro ou me congela ou me ferve, o ajuste leva dez minutos e não demora a se desfazer. Esqueci de comprar um shampoo ontem. Sigo com o do sachê do hotel, que parece sumir na mão, fazer o quê? Desço as escadas e pergunto ao rapaz da recepção aonde se encontra um guarda-chuva ali por perto.

Vira a esquina, tem um mercado chinês aqui perto. É lá ou na Santa Fe.

Entendo a do mercado chinês quando vejo uma família chinesa tomando conta do local. Uma senhora chinesa no caixa, um rapaz chinês perto da entrada fazendo nada, moça chinesa nos corredores repondo itens ou verificando preços ou sei lá. Nos fundos do mercado, sem achar o guarda-chuva, pergunto ao senhor chinês parado por ali onde estão os guarda-chuvas e ele não sabe de cabeça. Volto com ele até o caixa e ele pergunta à senhora no caixa. A senhora aponta pra um dos corredores e diz que estão no fundo. Compro o mais barato. Como sempre, a quantidade de cafés me deixa indeciso. Vou ao Café Oso, não por estar no caminho ou por sua qualidade, mas porque sou de me entregar aos hábitos. Faz com que tenha que passar em frente ao hotel de novo, então penso em pegar meu cachimbo e ir à caça de umas tabacarias. Não, passo reto. Não como gesto de força de vontade ou resistência contra o fumo, é que está chovendo e vai ser desagradável fumar na rua. Sento à mesa. Peço o espresso duplo e as media lunas con jamón y queso – hábito – e espero. Um senhor, jornal aberto sobre a mesa, pede leite pro seu espresso. Muy fuerte, ele diz, com desgosto. Considero fazer um esforço pra me mesclar melhor no cenário, descobrir quais são os gostos pro café dos argentinos, como o café é preparado et cetera. É que não tenho o hábito de questionar o café que servem e gosto de café puro e forte. Vinhos e café, bebidas que preciso explorar melhor, compreender ao invés de aceitar, aqui ou no Brasil. Volto à programação, em direção a Santa Fe. Antes de pegar o metrô na linha da Plaza Italia, passo na feira de livros usados pra buscar o presente de Alana. Quero o primeiro de Clarice. Lembro que li Perto do coração selvagem em maio. Conversamos nessa época, era aniversário da mãe dela, ela disse. Perguntei quando era o aniversário de Alana, já que nunca tínhamos tocado nesse assunto, e avisei que o meu tinha acabado de passar. Julho, ela respondeu. Estou atrasado, mas não importa. Desde maio, decidi que o livro de Clarice seria o presente perfeito. Encontro Água viva, os contos completos, um livro de entrevistas, A hora da estrela, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, A cidade sitiada. Nada de Perto do coração selvagem. Pergunto em todas as cabines. Aproveito e pergunto por César Aira ou Mario Levrero. Aira, que parecia onipresente ano passado mas sumiu da feira esse ano. Encontro La banda del ciempiés, do Levrero, compro. Me preocupa não achar o que quero de Clarice. Estou certo de o ter visto ano passado, traduzido pro espanhol. Não verei Alana hoje, ela tem aulas de teatro ou talvez ainda esteja indisposta. Tenho mais uns dias, provavelmente. Pego o metrô e vou até a 9 de Julio, pegar a linha C até Independencia. Método mais eficiente pra chegar em San Telmo partindo de onde parti? Prefiro acreditar que sim.