Sobre filmes

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O que ganhou o Oscar

Vi Parasita, no domingo, coincidentemente o dia da cerimônia, que eu achava seria no fim do mês. É um filme muito bom. Ainda processando certos detalhes e, porque é inevitável, comentários alheios. Um deles, do Skylab, que veio ao twitter dizer que o filme é ótimo, mas encerra discussões. Skylab tem razão. Parasita termina e deixa pouco a ser debatido. Tudo está no filme, e que o leitor me perdoe pelo jeito vago de descrever as coisas, mas, para quem não viu e queira ver, é melhor entrar no filme com o mínimo possível de conhecimento – por falar nisso, caso você não tenha visto, deixa essa newsletter pra depois, não vou limitar o assunto por sua causa (isso mesmo, vai embora, volta depois, o texto continuará na sua caixa de entrada depois … exceto que você não se importe, sendo assim, faça como achar melhor, eu não mando em você). O tema em Parasita é claro, a luta de classes pela perspectiva sul-coreana, que não é muito diferente da de qualquer país com muita riqueza concentrada e que segue uma ideologia liberal, de que cada um é responsável por si e quem não se tornou rico deve dedicar a vida a se tornar, do contrário a miséria será consequência de “escolhas irresponsáveis” – ignorando heranças, contextos sociais, história pessoal, até mesmo ignorando a vontade do indivíduo – ao mesmo tempo que, sem nem sentir o rosto queimar de vergonha, prega a liberdade individual. No filme, uma família pobre (os Kim) vê oportunidade de se infiltrar na casa de uma família rica (os Park) através de uma série de esquemas e falcatruas, inclusive prejudicando outras pessoas tão pobres quanto os Kim. Merda acontece. Como disse Skylab, é isso. O que resta a se debater? O filme mostra e o filme explica e parece fazer questão de não deixar dúvidas. Explica a dificuldade que é sair de sua própria classe (a família pobre demonstra talento de sobra, mas faltam diplomas e indicações), mostra a falta de consciência da família rica (consciência no sentido mais amplo da palavra, não só tratam os pobres ao redor como produto, coisas a serem utilizadas e, quando oportuno, descartadas, mas ignoram a existência de um mundo ao redor deles que não compartilha da mesma fortuna), mostra como é muito mais fácil fazer com que gente pobre brigue entre si antes que se unam contra a gente rica, afinal o desejo por riqueza existe na gente pobre, como o final do filme demonstra. (Por que não haveria de existir? Quando a riqueza é retratada como objetivo maior em uma vida, o segredo para a felicidade, o que mais se pode desejar, principalmente quando se está banhado na merda?) Parasita retrata uma vida aprisionada a um sistema e a impossibilidade de fugir dele, não no sentido de atravessar classes sociais – o que é apenas muito difícil ou improvável -, mas de enxergar uma existência alternativa a esse sistema, em que essa diferença de classes não exista ou seja menor, em que os acontecimentos desse filme não precisem acontecer. Tudo isso está no filme, sem ambiguidades, e toda a discussão se resume a apontar e descrever o que ali está porque tudo está exposto – como eu fiz agora.

O outro comentário que eu vi, feito por mais de uma pessoa, foi que o filme é previsível. Essa gente, por mais que cada um forme suas expectativas, não parece ter entendido. Sim, é previsível, como uma existência aprisionada a um sistema costuma ser previsível. Parasita não é filme de suspense. É tenso, por causa da música e da claustrofobia de certas cenas em que as personagens são forçadas a se esconder pelos cantos de uma mansão como insetos com medo de chinelada (como a metáfora dos insetos não estivesse clara o suficiente, as personagens são “dedetizadas” logo no início do filme e a comparação com “baratas” é feita pelo menos uma vez). Existem outros meios de tornar uma narrativa cativante, além da surpresa. Se você quer surpresa, veja outra coisa, o que não falta é filme com reviravolta por aí. Parasita não é um desses, embora comece cômico e mude de tom exatamente na metade.

Uma comparação e sobre como a estupidez humana evoluiu para insanidade

Eu falei que vi Coronga, também? Pois eu vi. É ok. É um filme medíocre elevado por uma performance excelente. Só isso, tem mais nada não, podem esquecer dele agora. Pra decepção da mídia estadunidense, não houve tiroteios. Alguns jornais só faltaram pagar algum doido pra escrever um manifesto, se vestir de palhaço e atirar numa escola.

Até hoje deve ter algum obcecado pela internet reclamando da existência de Coronga, enquanto exalta Parasita. Pois eu venho com uma novidade:

SÃO O MESMO FILME.

Parasita só é melhor, porque é um filme completo, com uma equipe de atores e roteiro competente. Coronga ao invés de mostrar sua mensagem, gasta a maior parte do tempo com discursos e monólogos, como fosse lá muito complexo – não é. Parasita mostra, faz o espectador sentir sem a necessidade de sermões.

O que mais me choca é a choradeira sobre a suposta violência em Coronga. Parasita é um filme bem mais violento. Tiro tudo bem, por aqui todo mundo um dia pode levar um tiro e vida que segue. Experimenta levar com um espeto de churrasco no lombo, como acontece em Parasita. Isso me choca e os discursos ideológicos também. Por um lado, o pessoal à direita elogia Coronga, como o filme é “politicamente incorreto” e contra os guerreiros da justiça social. (Sabe, Curinga, aquele filme que, a cada cinco minutos, fala que devemos matar os ricos? Pois é, tem gente na direita que gosta e defende esse filme. Eu não sei se eles assistiram. As críticas que eu vi, vindas da mesma gente, sobre Parasita, meio que fazem sentido pelo ponto de vista deles. Eles não acreditam eu luta de classes, até aí tudo bem, é só burrice. Mas Curinga é um filme sobre luta de classes também.) Por outro lado, vemos o pessoal à esquerda falando mal de Curinga por quê? Eu ainda não sei. Alguma coisa sobre diversidade, mas, cá entre nós, Parasita tem menos diversidade que Curinga. Em Parasita só tem sul-coreano. Larguem o ponto de vista estadunidense antes de analisarem as coisas, por favor. Somos brasileiros, a gente não precisa entrar na briga dos estadunidenses, nós já temos as nossas brigas, por sinal mais complexas. Mas não entremos nesse mérito. O que eu quero dizer é que, para todos os efeitos, Curinga é um filme bem alinhado com ideias esquerdistas, igual a Parasita. Parasita é só um filme melhor. É como essa gente que quer ser ativista nem soubesse mais pelo que está lutando, isso vale pros dois lados (embora foda-se a direita, afinal, grande parte dos textões de lá podem ser resumidos em: com licença, quero destilar meus preconceitos e não tão deixando. Os surtos da esquerda não passam de gente com dificuldade de raciocínio tentando pensar e fazendo fumaça).

Curinga merecia tanta nomeação ao Oscar? Não. Importa? Não. Por mim, só melhor ator e melhor trilha sonora (pois sou fã da Hildur Não-sei-como-escreve-o-sobrenome) e foram esses mesmos que o filme ganhou, muito que bem. Mas eu não recebi presente de 220 mil dólares da Academia, eu não fui convidado pra festa, eu não sou mais um milionário de Hollywood reclamando de injustiças que eu não sofro. Como dizem os jovens: eles que lutem. Sigam o baile, sigam o baile, ano que vem tem mais Oscar pra a gente odiar e assistir e dizer que não tem valor.

Questões de gosto

Não sei por que gosto de certas coisas e não gosto de outras. Na minha biblioteca pessoal, creio que todos os livros estão relacionados a outros fatores além de mim mesmo. Quem sabe eu não me recorde dessas origens em alguns casos, livros mais antigos, mas eu me sinto seguro em afirmar que existe um terceiro envolvido, principalmente porque é quase impossível que não haja, com tantos vídeos por aí, tanta gente expondo opiniões, o modo como cada livro é enfeitado com frases de autoridades e ensaios completos nas orelhas e na contra-capa e prefácios e posfácios. O mesmo vale para os filmes arquivados no meu computador. Essas opiniões de terceiros, sejam gente confiável ou autoridades formais, influenciam de uma forma ou de outra, não só a mim. Voltemos aos filmes de que eu estava falando, Parasita e Curinga, quanta gente não formou opinião muito antes de ver?, principalmente no caso do Curinga, cujas opiniões eram em geral negativas. Eu comecei o filme de braços cruzados e demorei a entender que havia mais ali – e escrevi um texto relativamente longo contra o diretor, antes de ver o filme (minha opinião sobre o filme mudou; sobre o diretor, não, acho que falou merda e fez um filme bom, que ele próprio não entendeu direito, graças ao Joaquin e meio que por sorte).

Fiquei um bom tempo pensando: o que na minha bagagem de conteúdo fui eu que descobri? Quando foi a última vez que eu li um livro ou vi um filme sem saber nada sobre ele? Isso ainda é possível com tanto conteúdo sobre tudo sendo produzido diariamente? A única coisa que eu posso dizer que descobri foi a artista visual Liliana Maresca, quando entrei no Museu de Arte Moderna de San Telmo num dia chuvoso, mais para me abrigar da chuva do que por fazer parte dos planos. Entrei e fiquei encantado com a obra dela, de quem nunca tinha ouvido falar. Mas ainda não sei o que causou esse efeito. Há anos tento elaborar um ensaio pessoal sobre ela, não consigo. Isso empatou o desenvolvimento do meu livro sobre Buenos Aires, que não abandonei, só tá difícil continuar. A verdade é que sou bem ignorante sobre artes visuais, ao contrário de literatura e cinema, propositalmente ignorante, e isso ajuda. É um perigo pensar por si próprio pela perspectiva da ignorância, no entanto existem esses raros momentos em que a cegueira te faz enxergar o diferente. Na música também tenho alguns exemplos, Hildur sendo um deles. É só na literatura e no cinema, as artes sobre as quais eu mais entendo e que mais admiro e, no caso da literatura, pratico, que esse senso de aventura se perde.

Estou exagerando, tenho livros por aqui sobre os quais não sei nada, nada sobre o livro ou quem o escreveu, e ainda não os li. Cavuquei tantos sebos por esse mundo, seria impossível eu saber alguma coisa sobre todos os meus livros, mas resisto a ler exatamente estes, os misteriosos da minha biblioteca, os rejeitados. Quando chegue a ler, acho que vou descobrir algo sobre mim. Vejam bem, escrevo e ninguém me conhece. Quantos autores vivem nessas mesmas condições? Se não os leio, por que acho que devo ser lido? Se preciso de afirmações de terceiros para ser convencido a ler qualquer coisa, a nova literatura pode bem cavar sua própria cova, deitar e morrer. Se tenho um objetivo esse ano é me enterrar nessas coisas novas, livros e filmes principalmente, numa espécie de autodescoberta do gosto, esse conceito sem significado. Talvez isso vire tema das próximas newsletters, as coisas que eu descubro durante essas explorações. Veremos. Por enquanto, estou lendo O Monstro, do Sérgio Sant’anna, autor quase amigo íntimo; O Marrom e o Amarelo, do Paulo Scott, livro comentado por todo mundo; Da Poesia, da Hilda Hilst, que todos deviam conhecer; e Obscuro Encanto, do Claudio Willer, relativamente desconhecido, mas é uma tese de doutorado sobre gnosticismo e poesia moderna, temas que me interessam, então não conta. Ainda não comecei a exploração. Prometo que vou começar em seguida.

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Links:
https://www.youtube.com/watch?v=4qAtK1dMq84 (Hildur Guðnadóttir, ao vivo em 2014, escutem, por favor.)
https://www.youtube.com/watch?v=wX_lIfH6hgI
https://www.imdb.com/title/tt3204392/?ref_=nv_sr_srsg_5
https://www.imdb.com/title/tt4262980/?ref_=nv_sr_srsg_0 (Shin Godzilla, filme do criador de Evangelion, uma homenagem aos velhos filmes do Godzilla. É um filme de procedimentos burocráticos, sobre como o Japão reagiria em caso de monstro gigante. Uma perspectiva fascinante. É bom? Ainda não sei, mas é estranho e isso me basta.)

poema de amor

contra minha vontade e bom senso
eu sinto saudades de você
que não vejo há quase tanto tempo
quanto durou nossa convivência.
nossa fraqueza, a curiosidade sobre
seu escorpião em marte que nos levou pra cama,
apesar das minhas intimidadas vênus e marte
em câncer, me atiçou o touro. o resto é indeciso, 
preso em casa no aguardo das gradações 
de mercúrio, retros e não.
tive saudades, que posso fazer?, ela veio
intrusa. por isso lembro da série e de você
e de quando te perguntei se você era freira
quando assistimos aquela série
com a mulher avisando o padre
que transariam naquele episódio.
eu fiz o mesmo, você veio aqui
me dizer que acabou antes de começarmos
porque seria difícil mais pra frente
quando você estragasse tudo.
fala a verdade, a gente vai transar,
e dormimos juntos pela primeira vez.
foi tudo tão rápido, o tempo perdeu sentido,
não sei se durou dois meses ou anos
ou se faz anos que não nos vemos.
quando não se sabe onde mora um caso
do passado é porque acabou, né?
preciso compartilhar meu orgulho:
fiz um omelete. e você diz:
quem te viu, quem te vê.
a saudade cresce, eu cutuco.
era pra deixar em paz.
o rato de plástico ainda circula 
pela sala e a gata o assiste indiferente.
eram dois ratos, o outro foi parar
debaixo da geladeira, boa sorte pra ele.
digo que a gata sente saudades suas
para não admitir que sou eu, ainda.
quero que isso acabe, mas na verdade não quero.
imagino um dia receber mensagem sua
que diga estou melhor, estou voltando.
a psicóloga me avisou que preciso sair de casa. 
eu sei, eu sei. primeiro tenho de me acostumar 
com a ideia de olhar nos olhos as fotos de mim mesmo.
como vou fluir no mundo se tenho medo de reflexo?
tenho que me acostumar com tantas coisas novas,
um passo de cada vez. o que a gente tinha
não foi batizado, não foi sério, não foi nada.
por causa desse nada, eu te falei
coisas que sempre tive medo de falar sozinho.
você dizia que nosso caso era de vidas passadas.
e se a gente tivesse sido irmãos, no século dezoito?
que horror. por isso você saiu chorando 
do meu apartamento duas vezes
e eu querendo que você ficasse.
agora o importante não é o que eu quero dizer
mas o que eu não sei dizer e você precisa ouvir.
querer não é precisar. a gente quer 
um mundo de coisas impossíveis ou erradas.
você me pergunta se eu acredito em deus.
deuses talvez, somente tretas 
cosmo-mitológicas explicam
a situação da humanidade, onipotências
comparando pirocas no além dos sentidos,
chupem essa, teólogos. ou acredito 
num deus maligno que fez as gentes 
por piada ou por engano e há milênios 
planeja nos forçar a apagarmos uns aos outros 
pra não sujarem as próprias mãos,
tarefa um tanto fácil. eis a criação 
conforme imagem e semelhança.
o que te fez chorar foi o pai da personagem
admitindo que preferia a irmã.
quantas vezes você ouviu o mesmo?
mas da sua irmã eu gosto.
posso fazer promessas, mas querer
é diferente de precisar. eu não sei
do que você precisa. mal sei de mim.
tenho quase três décadas de arrependimentos
se acumulando nas minhas costas
e insisto em falar de você como compreendida.
é mentira, não finjo te entender como
não finjo entender. quando eu entenda,
será o fim, não haverá esconderijo pra mim.
agora sei um punhado a mais de coisas
das quais antes suspeitava, a culpa é sua. 
quero de volta o prazer de repetir meus erros 
de propósito. quero me acreditar indesejável 
outra vez. você tirou de mim essa dor, 
me mostrou outras possibilidades mais agradáveis
e foi embora pra que eu lutasse por mim
e me sentisse bem sozinho porque
você queria se sentir bem sozinha.
como estamos agora? de você não sei nada,
você se recusa a me contar e pede desculpas.
pede desculpas por dizer que eu seria
um péssimo pai, como eu não soubesse.
desculpas doem mais que ausência.
nunca me peça desculpas. perca de vez
o medo de me dizer coisas. você concorda.
seu aniversário trouxe à tona coisas enterradas
e a psicóloga dá risadas. sou uma criatura
interessante, ela diz. colocar as coisas dessa forma,
onde já se viu? mas você entende. aí o outro problema,
você entende, sua cabeça tampouco está 
no lugar certo. o que nossos pescoços sustentam
é a raiz de todo o mal. culpemos os deuses
malignos e briguentos sedentos pelo mal.
você ainda corre? ainda ouve o disco que te mandei
enquanto corre? caso ouça, é um pedaço meu em você.
queria ter pernas pra correr e atravessar 
fronteiras, abandonar minha casa, raízes alheias.
a psicóloga diz que não sabe quem eu sou.
eu também não sei. você sabe? se souber, 
não me diga. lágrimas que seguro faz décadas
vão destruir minhas barragens seguras.
prometi evitar poemas de amor, leitura e escrita.
por isso não te amo, é só saudade. vai passar,
como os dias passam e eu passo com eles.
admiti saudades no seu aniversário.
fui ao médico hoje, você disse, vou tratar
a tal da depressão. a tal. acho que as coisas
vão melhorar. isso me encheu de todas 
as esperanças erradas, você ficaria decepcionada
se soubesse. fui à psicóloga cutucar meus
ninhos de vespa torcendo por melhoras.
não existe melhora, ela disse, só aceitação.
te mando um boa tarde, por mandar.
bom dia pra mim, que vivo em outro fuso,
você disse, tão longe, sempre em um lugar diferente,
mas ainda sinto seu gosto na minha boca,
o vírus da língua transmitido de pessoa pra pessoa,
seu toque na minha pele persiste, o cheiro,
quilômetros de distância ainda aqui.
queria ter o poder de te abraçar e quando
te soltasse você estaria bem, curada.
como querer não fosse precisar
você recusaria a cura e com razão 
me odiaria uma vez curada. e eu também.
o importante é que você comprou sua gaita
e eu quero mas não preciso te ouvir tocar.

os dias passam e eu passo com eles (poemas)

(Essa foi a nona edição. Eu não enviei a décima. Estou sem ideias pra newsletter, pode ser que eu volte um pouco pro blogue, reveze entre os dois, dependendo do que eu esteja a fim de escrever. Mas você pode se inscrever agora: https://tinyletter.com/raphaeldias)

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Terminei a revisão do meu livro de poemas. Corrigi todos, descartei alguns. Sobraram 64 páginas de um documento de word (começou com 75). Falta ordenar os poemas, fingir uma temática comum, uma estrutura. Feito isso, é jogar ele pela janela na esperança que alguém pegue. Pela primeira vez, gostei do resultado. Acredito que seja um bom livro, razoável, tão bom quanto alguns publicados, melhor que vários, pior que muitos outros. O título da newsletter é o título sugerido ao livro, verso de um poema não incluido nessa seleção (de 5, considere uma breve amostra que não reflete a ordem dos poemas no “livro”), acredito que o melhor que eu já escrevi, um feito não tão difícil. Vejo como outra opção de título “o que nossos pescoços suportam é a raíz de todo o mal”, outro verso do mesmo poema, que intitulei “poema de amor”. É isso, boa sorte pra mim e, como sempre, comentários são bem-vindos.

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anna karina

pra acender a chama
dessa fogueira abandonada 
no mato que foi nosso
rolo nunca realizado,
mando pra você
as notícias da morte
da atriz que tanto amamos.


à beira da praia

uma abelha flutua ao redor
da sola da sua sandália.
outra segue atrás da primeira,
sutis, vagarosas, tão leves.
a primeira encosta a cabeça
ou antenas na sola da sandália. 
você nem sente.
a segunda faz o mesmo,
logo surge uma terceira
e quarta e quinta abelhas.
elas persistem nessa
misteriosa exploração. até que, 
de repente, você se move,
descruza as pernas 
e as cruza de volta, a de cima indo
pra baixo e vice-e-versa.
as abelhas fogem em direção às árvores, 
temendo por suas vidas.
você bebe sua cerveja
sem saber do quase
apicídio múltiplo.


num supermercado japonês

eu tinha um cesto de compras na mão
não bem super era uma vendinha
não tinha fila não até eu chegar
cada item pelo laser e o
bipe-bipe-bipe eu pegava os itens
e os juntava em sacolas

o caixa disse alguma coisa
eu respondi em outra língua
ele respondeu na dele
e esta foi nossa valsa
por minutos ele lá eu cá
um-dois-três un-deux-trois

uma briga de chifres verbal
mesmo tão pouca gente
criamos uma fila mas
seguia o debate sem rendições
até que ele apontou para os números
na tela do computador


a grande feiúra

uma tapeçaria que eu vi quando criança
na casa de tios ricos. ocupava 
quase uma parede inteira do apartamento deles. 
o retrato de um toureiro 
espetando sua espada em um touro, 
a toalha vermelha 
dançando ao vento. tantas cores 
quentes e vibrantes, os detalhes exaustivos, até da madeira 
grossa da moldura tão bem talhada, eu me lembro. 
não vejo o quadro há mais de vinte anos, mas lembro. 
esse núcleo da família está morto 
e a fortuna deles sumiu. 
quem sabe que fim levou a tapeçaria? 
imagino o desgaste nas mãos 
de artista que talvez tenha se empenhado por anos 
até montar a cena, fio por fio, 
tanta habilidade e talento desperdiçados 
em um quadro medonho. 
tomara tenha sido feito por máquina.



corridas

um círculo de luz no centro
do carpete vermelho na sala
sem paredes. além, escuridão.
a sala não começa nem termina,
se espalha até onde o carpete
vermelho alcança, como a borda
do mundo na terra plana.

o círculo ilumina a tela
informa os invisíveis dos resultados
das corridas. está de frente à tela
esperando o final para fazer 
aposta. não faria, mas o dinheiro
é achado, é de mentira, por sorte
veio, à sorte será entregue.

ouve lamentos vindos das sombras,
fora dos limites do visível.
parece sozinho, não poderia estar
sozinho. decidiu seu cavalo, 
deu um passo a frente e lá estava
nas arquibancadas, vendo a pista
de saibro das corridas humanas.
um tiro, se abrem as porteiras.

os cavalos são pessoas. como corre
engraçado o gordinho, veloz, azarão.
passinhos curtos, braços junto
ao corpo esférico. o rapaz atlético
tenta, se esforça, estão cabeça por
cabeça e assim ficam por um tempo,
até o gordinho achar seu segundo fôlego

e disparar na liderança. cruza
a linha de chegada e sobe, vencedor,
no palco. não é corrida, é teatro,
é performance. o gordinho revela
ao perdedor segredos cósmicos,
com pose e afetação dramáticos.

UooOooUuu, grita o palhaço
sem rosto na arquibancada.
ganhou alguma coisa com isso?

O maltês do inferno

Esse texto foi a oitava edição da minha newsletter. Postei no blogue porque acabei de lançar a nona edição. Você pode receber a newsletter se inscrevendo nela e depois confirmando a inscrição. Não é difícil, veja você mesmo: https://tinyletter.com/raphaeldias

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Há um pouco mais de um ano, morreu o cachorro da família, Baltazar, um maltês de 17 anos de idade, comprado (pois é, naquela época se falava menos de “adote, não compre”, no entanto sem arrependimentos, o cachorro estava lá numa gaiola e, caso não fosse comprado, continuaria lá, sem casa, até que viesse outra família ou a fábrica de sabão), quando eu tinha 10 anos de idade, mais ou menos. O filhote era uma peste. Roubava meias e se escondia atrás do sofá. Não lembro de ele destruir as meias roubadas, o negócio dele era proteção. Ele se escondia e ninguém podia chegar perto. Bastava que alguém sentasse no sofá e começavam as rosnadas. Se uma mão viesse na direção da meia, essa mão seria mordida. Móveis de madeira tampouco eram poupados, nem chinelos, que ele carregava nos dentes apesar de serem quase do tamanho dele. Quando saíamos pra passear com ele, ele tentava correr na frente de todos, preso à coleira, raspando as patas na calçada sem sair do lugar numa corrida vagarosa. Baltazar foi levado mais de uma vez ao veterinário para questionarmos sobre o que pareciam ser crises de ansiedade que ele sofria e surtos de agressividade. O veterinário dizia ser esse o temperamento dele, nada mais. E assim ele continuou por uns bons anos, mordendo e rosnando sem motivo aparente, mas as mordidas eram num geral fracas, a gente se acostumou e aprendeu a amar aquela bolinha de pelos neurótica, misto de demônio da Tasmânia e ursinho carinhoso. Uma graça de peste, Baltazar, porque nada disso é reclamação, é homenagem. Quando ele cresceu e perdeu o interesse em destruir os móveis e roubar meias e chinelos, quando a primeira coisa que ele fazia durante os passeios era voltar pra porta do prédio onde morávamos, sentimos falta dos velhos hábitos. Dei nó numa meia velha e joguei pra ele, mas ele ignorou. Cansou até de correr atrás de bolinhas, quando se tornou um adulto sério. Ainda rosnava aleatoriamente e mordia sem fechar a boca quando a barriga dele era coçada. Fiz dezoito anos e saí da cidade, Baltazar ficou com meus pais, por isso chamo de cachorro da família ao invés de meu cachorro – e ele sempre gostou mais da minha mãe. Tive muita saudade.

A última vez que eu chorei sóbrio foi no dia da morte de Baltazar. Cheguei do trabalho e, por volta das sete da noite, minha mãe me ligou pra trazer as notícias. Minha mãe não é uma pessoa direta, ela começa as histórias pela metade, volta pro começo, repete palavra por palavra os diálogos do momento recontado, descreve cada linha de expressão nas “personagens”, cada passo dado aos mínimos detalhes, seria uma ótima ficcionista à moda antiga, daquelas sem qualquer respeito à brevidade. Começou falando que Baltazar tinha sofrido um acidente àquela tarde, teriam me ligado mais cedo, mas eu estava trabalhando e não queriam me atrapalhar. Perguntei o que tinha acontecido, ela respondeu que estava explicando. Falou que meu pai tinha chegado do supermercado e abriu a porta de casa para Baltazar passear pela área dos fundos. Sim, mas o que aconteceu?, eu insisti, querendo ir direto ao ponto. Ela pediu que eu me acalmasse. De acordo com ela, meu pai se distraiu guardando as compras e ela estava dentro de casa ou dormindo ou tricotando ou no facebook, eu não me lembro. Foi tudo muito rápido, ela disse. Mas o que aconteceu? Ele tá bem?, eu insisti pra que ela acelerasse, não tanto por não saber o que viria, mas porque eu precisava de confirmação. Ela começou a se irritar, não gosta que interfiram no ritmo dela de contar histórias. Ela queria deixar claro que não tinha sido culpa de ninguém, apesar de eu não ter dito nada sobre culpa – ela nem tinha chegado ao fato ainda. A casa deles veio com uma piscina que eles nunca tiveram condições de manter. Que eu saiba, nunca foi limpa, desde que eles se mudaram. Poderia ter sido esvaziada, poderia ter sido coberta, mas isso era análise retrospectiva e não importava mais. Baltazar tinha catarata avançada e se perdia até ao pisar em folhas secas, mas ele nunca mais tinha se aproximado da piscina, não desde uma noite em que, enquanto meus pais jantavam, ele ficou quieto demais. Meus pais foram investigar e Baltazar estava paralizado no primeiro degrau da escada da piscina (essa piscina tem meio que uma escada com degraus construídos direto na estrutura dela, não sei explicar) com água até o pescoço. Ele foi tirado de lá, embrulhado em toalhas e, na manhã seguinte, tomou um banho e foi visitar a veterinária. Ela disse que nada tinha acontecido, Baltazar estava bem.

Se parece que eu estou enrolando para chegar ao ponto é para que o leitor tenha uma ideia de como é uma conversa com a minha mãe. Baltazar tinha caído na piscina outra vez, quase um ano depois da primeira queda. Dessa vez não foi no degrau, a parte rasa da piscina, foi no meio. Talvez ele tenha tropeçado, se distraído enquanto cheirava pelos fundos da casa. Caiu soltando um ganido que chamou a atenção do meu pai, que saiu correndo para puxar Baltazar para fora d’água. Foi bem rápido. Ele foi de novo embrulhado em toalhas. Minha mãe saiu correndo para ajudar. Baltazar não respondia, não sabiam se estava morto ou desmaiado. Foi levado à veterinária e, mais ou menos nessa parte da história, eu comecei a perder a cabeça. Eu só queria saber se tava morto ou não. Para evitar discussão, minha mãe passou o telefone pro meu pai, que tentava não chorar. Baltazar morreu, ele disse. De acordo com a veterinária, chegou vivo na clínica, mas não aguentou o choque. E eu não sei se foi a notícia ou a voz do meu pai chorando, que até então eu nunca tinha ouvido, que me fez chorar. Minha mãe voltou ao telefone, eu pedi desculpas e ela continuou a história. Ela disse que sabia que a piscina precisava estar coberta, que foi irresponsabilidade. Era disso que tratava a enrolação, eu acho: culpa.

Eu me lembro do dia em que, em circunstâncias parecidas, minha mãe me avisou da morte da minha vó: sua vó morreu essa madrugada, eu não te liguei antes porque aconteceu muito rápido, ela já foi enterrada, levaria muito tempo até você chegar aqui. Direto ao ponto, sem culpa, sem detalhes – os detalhes vieram depois. Nesse dia, não teve choro. Era esperado, ela tinha 94 anos e não saía mais da cama. Baltazar também deveria ser esperado, ele tinha 17, saía da cama mas tinha catarata e problemas na coluna. Talvez tenha sido uma surpresa porque ele nunca deixou de parecer um filhote. E não foi biológico, foi acidente. De certa forma, a morte da minha vó não foi de todo biológica, foi parada cardíaca devido a um remédio pra demência sênil, receitado por um médico de São Francisco do Sul não necessariamente especializado o suficiente para receitar medicamentos para doenças neurológicas, mas isso é outra história – possivelmente nem haja nada a se dizer sobre isso fora de: bem-vindos à situação da saúde nos vilarejos do Brasil. A morte da minha vó há anos estava por vir, com ou sem medicamento, como a morte de Baltazar estava por vir com ou sem piscina descoberta.

(Escrevo essa história como se ninguém a fosse ler. Se eu me conscientizar dos leitores como uma possibilidade, apago tudo. A newsletter talvez seja divulgada em algum momento durante ou depois da escrita, mas farei a divulgação como não soubesse exatamente do seu conteúdo. Este adendo é só para que o leitor saiba de onde parte meu ponto de vista, o que não altera o conteúdo do texto ou a possibilidade de leitores.)

Tive a chance de visitar minha família uns meses antes da morte da minha vó e consegui, mais ou menos, me despedir, quero dizer, voltei pra casa consciente de que aquela podia ter sido a última vez que eu a veria. Quando Baltazar morreu, fazia quase um ano que eu não visitava meus pais. A morte foi em setembro de 2018, a visita anterior tinha sido dezembro de 2017. Antes disso, fui pra lá no natal de 2016, o primeiro sem minha vó entre nós. E antes ainda, no natal de 2015, a última vez que vi minha vó, bem no meio dos efeitos colaterais da medicação contra demência senil, quando ela gritava no meio do dia sobre parentes dela mortos décadas atrás e perguntava sobre minha esposa, Suelen, que nunca existiu. Pensando bem, eu pude “me despedir”, mas não pude falar com ela. De qualquer forma, isso é uma amostra da frequência das minhas visitas à família. Também é uma boa demonstração do que acontece quando se vive longe da família e a morte se aproxima. Nunca se está perto o suficiente. Na mais recente das minhas visitas, no natal de 2018, minha mãe estava quase irreconhecível de tanto peso ela tinha perdido por conta de um problema de saúde. Pelo que ela me diz, porque ainda não voltei pra verificar, ela recuperou o peso, mas agora meu pai está muito mais magro por motivos parecidos. A sensação de ouvir essas histórias é de como se nada acontecesse nunca, embora coisas sigam acontecendo independentes da minha presença.

Uma imagem que eu sempre tive da morte é a do leito durante as últimas horas, quando os entes queridos que vão sobreviver se reunem e se despedem do que está prestes a morrer. Eu nunca tive essa experiência. Estive distante durante todas as mortes na minha família, inclusive da família imediata – aquela que me criou, não aquela que aparece em época de festa e deixa de existir no dia a dia. Até a morte, mesmo depois de anunciada, é irreal quando se está distante, como a perda de peso dos meus pais parece irreal. No natal de 2018, a visita mais recente, aquela logo após a morte de Baltazar, eu cheguei em casa e esperei que ele viesse latindo pular ao redor das minhas pernas, balançando toda a parte traseira do corpo junto com o rabo, como ele fazia por causa da coluna ruim. Mas ele já estava morto fazia meses, eu que não tinha visto. Eu fui avisado. Não reconheci a morte. Quando visitei meus pais no natal de 2016, 10 meses depois da morte da minha vó, foi como eu sentisse a presença dela no quarto em que ela dormia, o quarto, então, fechado. Eu tinha me despedido, mas a morte eu não vi, só me falaram. Aparentemente, não ter sido testemunha me impediu de processar a realidade dessas mortes. Até sonhei, naquela noite, que minha vó ainda estava viva, fechada naquele quarto, mas eu estava proibido de revelar a persistência dessa vida. É claro, ela não estava viva, foi um sonho.

Agora restam meus pais, na mesma casa, na mesma cidade, aos mesmos quilômetros de distância de mim. E a idade deles avança. Chegou no número em que, caso a morte venha, é chocante e considerada prematura, mas é uma possibilidade concreta. Toda a morte é uma possibilidade, até a minha, nos meus 28 anos. Eu só não penso na possibilidade da minha morte ainda. Parece distante, por mais rápido que passe o tempo e por mais que acidentes sejam uma questão de estatística, sempre igualmente prováveis e improváveis, ou não mais prováveis ou improváveis que a morte dos meus pais. No entanto, hoje, acredito que a minha morte vá se tornar uma possibilidade concreta, pra mim mesmo, quando ou caso eu chegue perto dos 60 anos. Hoje, pra mim, é nesse período que a areia da ampulheta que mede a duração de uma existência começa a se mostrar mais escassa na âmbula superior. Essa idade é a idade atual dos meus pais. Posso ver a escassez da areia em queda na ampulheta que mede a duração da existência deles. Resisto a essa imagem, não saberia como reagir ao acontecimento caso viesse hoje, mas sinto que eu preciso reconhecer essa realidade, porque, sim, eu não espero que aconteça, mas eu não esperava a morte da minha vó nem a de Baltazar, cujas mortes, dependendo do ponto de vista, chegaram mais tarde do que é considerado normal para humanos e caninos. E caso a morte dos meus pais aconteça, em qualquer ano no futuro próximo ou distante, e eles ainda estejam na mesma casa, na mesma cidade, aos mesmos quilômetros de distância, vou receber a notícia igual eu recebi as das mortes da minha vó e do meu cachorro – isto considerando que eles não vão ao mesmo tempo e um vai ficar pra fazer a ligação. Isso me desconcerta, mas é assim mesmo, não há nada que eu possa fazer. É a ausência da imagem confortável do leito de morte o desconcertante. O leito de morte significa controle. Não controle sobre vida e morte, mas sobre a impressão que se tem da passagem da vida à morte. No leito, é possível assistir a vida deixando o corpo do ente querido. Não há surpresas, nada é súbito. Mas a vida não é assim, coisas súbitas acontecem e o universo, esse grande mistério porcamente interpretado por humanos, não se importa com as circunstâncias de qualquer indivíduo. Harmonia e controle são ilusões.

Eu espero que eu tenha tempo de chegar aos meus pais antes que a morte venha, mas não faz sentido pensar sobre isso. Vai acontecer quando acontecer e nada indica que eu vou estar vivo quando aconteça fora desse falso apego ao controle, à chamada ordem natural das coisas. Até mesmo com a Joyce, gata que eu adotei em janeiro desse ano, já me pego com hábitos formadores de uma possível noção de controle. Presto muita atenção em como ela age quando está saudável, por exemplo, para que eu perceba quando os hábitos dela se tornem estranhos, deem sinal de doença. Forjo uma versão “pai de pet” (termo desprezível, é verdade, mas não vem ao caso debater a imprecisão dele) da distância de resgate. Assisto de perto quando ela toma a decisão de fazer algo que eu considere perigoso, calculo como reagir caso algo inesperado e arriscado aconteça, tento garantir de que a casa está “segura” antes de sair e deixar Joyce sozinha. Não sei o que eu quero prevenir. É o tal controle. Quero que os anos passem e ela viva bem e eu esteja por perto quando a morte chegue. Fazer com ela o que eu não pude fazer com minha vó e meu cachorro e que está sendo difícil de fazer com meus pais. Às vezes tenho pena da minha psicóloga. O simples fato de eu estar aqui recontando essa história é uma tentativa de controle. Controle sobre minha interpretação de acontecimentos do passado. Muito possível venha daí minha aversão a filhos, essas mini-máquinas de suicídio, que crescem e viram humanos complexos e cheios de medos e desejos. Outros animais são quase modelos do ideal budista de iluminação, nascem perfeitos, sem desejos, comem quando têm fome, bebem água quando têm sede, evacuam quando precisam evacuar. De resto, são seres que nascem perfeitos, certos de seus papéis na realidade, são livres das ansiedades causadas pela incerteza e vastidão de possibilidades. Assisto os movimentos de Joyce pela casa e invejo essa aparente certeza. Do que que eu tô falando?

Que minha vó, Zuleika, e Baltazar estejam descansando no seja lá o que for que abrigue as existências depois do que parece ser o fim.

Um compilado de coisas

As últimas duas (três?) novisletras enviadas trataram de temas bem específicos e políticos. Estou cansado. Essa vai ser um pouco diferente, vai ser só uma série de parágrafos, de preferência breves mas não prometo nada, ainda não os escrevi pra saber, tratando de coisas da vida, da minha vida, porque eu não sei nem quero saber que porra está acontecendo na sua vida. Vou falar de livros, de séries, de acontecimentos pessoais e sinto muito se isso não te interessa.

1 – Adendo ao texto do Curinga: não, eu não vi o filme, mas provavelmente verei quando pirateável (nada dessa porra de gravação de tela de cinema, eu fui bem educado). Só que teve uma coisa naquele texto que eu quis deixar clara, mas talvez tenha falhado. Meu incômodo nunca foi com o filme, seu trailer ou seu suposto tema. Meu incômodo foi com a atitude do diretor e da mídia. Longe de mim falar da “mídia tradicional” como um problema, por mais que um problema exista. Acontece que a mídia alternativa raramente é uma opção melhor. Quando ela não serve de fonte para bolhas ideológicas (a alternativa), ela é ninho de invenções e má informação – às vezes. A tradicional é uma vítima das circunstâncias. Não sei dizer em que momento, desde a invenção da prensa, ocorreu a mistura entre informação e entretenimento, mas aconteceu e pode ter sido logo no começo. Hoje isso se traduz em sede por cliques. Levando isso de volta ao filme do palhaço, o sensacionalismo foi tamanho que parecia que a mídia queria um tiroteio, queria um ataque terrorista por alguém maquiado de Coringa, pois queria os cliques que uma matéria dessas traria. Não aconteceu, óbvio, ou seja, o sensacionalismo ao redor do filme se tornou mais prejudicial que o filme em si. Essa sede por cliques precisa acabar, mas como? Os jornais estão morrendo, meios de comunicação estão em risco de falência, e proteção estatal geraria o risco de jornalismo partidário (o que já acontece na mídia alternativa – Terça Livre mandou um oi). Sem proteção estatal, o que manda é o mercado e sua mão invísivel, cheia de dedos a serem enfiados nos cus do público desavisado. E agora, José? Boa pergunta.

2 – Cheio de ideias e sem ter pra onde ir: estou num momento de estagnação criativa. Não é bloqueio. Eu tenho ideias, só não sei como as executar. Toda a frase que eu digito soa errada. Tenho ideias pra narrativas de diferentes proporções, sei como continuar o tal do romance em que estou trabalhando, tenho até planos para ensaios longos (não ficção). Não sei como por em prática qualquer um desses planos. Principalmente os ensaios longos. Aqui fica uma defesa da educação formal: minha dificuldade em planejar e executar os ensaios vem do fato de minha educação ser uma bagunça, um misto de formalidade inútil e informalidade desordenada. Sei coisas avançadas sobre certos temas e, ao mesmo tempo, sou ignorante sobre coisas básicas. Por isso é importante a educação formal, minhas crianças, ordem de aprendizado é essencial e professores são os únicos guias possíveis. Por exemplo, o que eu falei do jornalismo e da sede por cliques, isso deveria ser um texto longo, mas eu nem sei se alguém mais competente que eu já fez esse trabalho. Estou desinformado das pesquisas, não faço parte desse círculo. Enfim, choro sobre leite derramado. Provavelmente eu vá continuar a bater minha cabeça nesse muro e uma hora ou outra vá achar um caminho. Por enquanto, estou perdido.

3 – Terapia: depois de anos pensando em procurar um psicólogo, eu finalmente encontrei. Comecei minha terapia mês passado e, sim, é tão bom quanto dizem. É uma psicóloga junguiana, então nada dessa história de “todos seus problemas são por causa dos seus pais”. Muito menos dessa história de “se tornar uma pessoa melhor”, como disse a própria: o que melhora é produto, pessoas não melhoram, elas só se entendem ou tentam se esforçar para que um dia venham a se entender. Desenvolvimento pessoal é invenção do Homo economicus, e ninguém deveria cair nesse papo. Ou seja, estou gostando. Ela trabalha muito com o inconsciente e com sonhos, logo eu tirei o pó do caderno em que eu costumava anotar meus sonhos e, devo dizer, minha impressão é de que meu inconsciente tá tirando uma com a minha cara. Eu sou uma piada para o meu inconsciente. Por outro lado, a psicóloga ainda não disse que meu lugar é num quartinho acolchoado e sem janelas, e que uma camisa de força me cairia bem – isso por si só é reconfortante: que uma pessoa com conhecimento de como funciona a mente e que estudou doenças mentais não te ache louco. Ainda é cedo pra que eu fale sobre quaisquer conclusões as quais nós tenhamos chegado durante a terapia, talvez essas conclusões nunca venham, mas já estou notando alguns padrões, detalhes do meu comportamento sobre os quais eu sempre tive ciência e nunca compreendi.

4 – Fleabag: Assistam Fleabag.

5 – …

Não, tá certo, eu vou falar um pouco de Fleabag antes de partir pro próximo. Acontece que não é fácil falar daquilo que a gente gosta. Falar mal é fácil, é divertido, as ofensas fluem bonitas pela página. Falar bem é repetitivo, todo mundo repete os mesmos elogios. Eu só achei Fleabag uma comédia diferente de tudo. A história acontece quase como uma jornada pessoal (da personagem ou de sua autora – a excelente Phoebe Waller-Bridge), no entanto, foi impossível pra mim não me identificar em várias situações. Talvez você não se identifique com a protagonista (cujo nome até agora não sei se é Fleabag ou se é omitido), mas vai se identificar com alguma outra personagem. Só sei que agora preciso de uma câmera me seguindo a todo momento para que eu possa, de quando em quando, quebrar a quarta parede da vida.

5 – Escrevo essa série de bobagens enquanto ouço o disco novo do Swans, “leaving meaning.”. E é isso que você deveria fazer também, quando terminar de ler isso aqui. Essa newsletter está quase no final, vai ser curta essa edição (tô cansado, desanimado, sem vontade de continuar digitando sem propósito). Esse disco segue alinhado à nova proposta de som do Michael Gira – desde o retorno da banda em 2010. É até bem leve, comparando com os outros, existe certa beleza nas composições, é poético, astral. A idade deixou o Gira mais melancólico e preocupado com transcendência. Parece que a fúria, a revolta generalizada, a vontade de expor ao público as vísceras da humanidade, perderam a importância. O que, para mim, é uma evolução – embora faça a banda soar muito parecida com Current 93, em momentos (não é uma crítica). Versos como “Nothing can stop us from becoming nothing now”, na faixa “What is this?”, tratam menos de niilismo, e mais um “nada” budista, iluminado, o nada da ausência de desejo; o nada qabalista, que na verdade é tudo e nada ao mesmo tempo; e esse tom percorre o disco todo. Como diz a faixa final, “My Phantom Limb”:

“Each pain, each love, each regret is sacred
The wounded child is sacred
The murdering man is sacred
The imbecile is sacred
My spit in the dust is sacred
Your lover’s sentient hand is sacred
Fucking is sacred
Music is sacred
To give up is sacred
Silence is sacred
Mindlessness is sacred
Sacred, sacred, everything is sacred”

Me lembrou um dos bons poemas do Ginsberg, Holy. Vão procurar. Eu não acompanhei discos de 2019 o suficiente para listar favoritos, mas esse é meu favorito até agora. Vá você ouvir e me diga o que achou. Caso não conheça a banda, aproveite para ouvir os demais também.

6 – Uma breve digressão sobre a vida compartilhada com um felino: na primeira semana de janeiro, esse ano, eu adotei uma gata e essa foi a melhor decisão que eu já tomei na minha vida. Levei anos, como costuma ser o caso para todas as minhas decisões, isso quando a vida em si não toma um caminho que me força a uma decisão em particular (a de largar meu emprego, por exemplo, quando eu fui demitido antes de decidir que ia sair por vontade própria). É possível que eu tenha dado sorte. Joyce é a gata perfeita para alguém que nunca conviveu com gatos. Ela gosta de um carinho, mas não é carente; pede comida logo de manhã, mas não me tortura caso eu decida sair da cama mais tarde; ela caça e mata todas as moscas que tendem a entrar no meu apartamento no verão; e me ataca aleatoriamente, mas de leve, os arranhões e mordidas são avisos de que eu estou invadindo o espaço pessoal dela e devo ficar na minha. É isso, felinos são excelentes professores de respeito ao espaço alheio. Se você tem problemas com isso, considere incluir um gato em sua vida e logo você aprende. Tem algo medidativo em observar os movimentos dos gatos, é quase como se eles tivessem descoberto algo sobre o sentido da vida e quisessem te ensinar, apesar de não terem os meios para isso. Nada contra os cães, ainda gosto muito dessas criaturinhas simpáticas, é só uma experiência diferente. É raro que um cão se imponha ao dono, enquanto gatos desafiam diariamente esse título “dono”. Enfim, é isso, quis falar da minha gata.

7 – Cogumelos, Charlamagne Palestine e uma poesia: mês passado eu preparei um chá de cogumelos pela primeira vez. Psilocybe cubensis foi a espécie que eu provei. Foram anos lendo sobre os efeitos até que eu decidisse agora é a hora – estão notando o padrão aqui? Como disse a psicóloga, eu sou dominado pelo meu lado apolíneo. Até quando eu me entrego a Dionísio, deixo Apolo ali, de vigia, pra garantir que eu não vou me perder demais. Das 5 gramas de cogumelos secos adquiridos, separei duas gramas, piquei cada um deles e botei em água quente (não fervendo, água muito quente diminui o efeito) e deixei lá por 20 minutos. Antes de terminar a xícara, eu já sentia um leve formigamento pelo corpo, um relaxamento generalizado típico da maconha. Comecei a meditar, botei o Strumming Music, do Charlemagne Palestine, como som de fundo, e nem quinze minutos depois eu precisei me deitar. Não era sono, só dificuldade para continuar sentado. Também senti frio, mas era esperado e eu tinha uma coberta por perto. Escolhi o Strumming Music por ser um som simples. Charlemagne Palestine sentou entre dois pianos e tocou uns arpegios, fez umas harmonias básicas. Aos poucos o som vai enchendo, ocupando os espaços, fazendo que todo o ambiente vibre – ou assim eu o percebi durante a viagem. Talvez música tenha sido um erro de julgamento, acho que tive uma overdose sensorial na primeira hora do efeito. Fechava os olhos e cores e formas tomavam conta da minha mente. Não tive nenhuma alucinação. De olhos abertos, as alterações visuais foram leves. As paredes do quarto um pouco distorcidas, fazendo o cômodo parecer maior ou menor, os pelos do meu braço mais “individuais” e escuros do que o normal, minha gata parecendo um boneco – tudo era menos “orgânico”, deixando mais claro que a realidade é interpretação. Talvez esse aspecto da viagem se fizesse mais potente em dose maior. 2 gramas é considerada uma dose média para leve. A partir de 3, é média. 5 gramas causa um efeito mais forte. Esses números variam de organismo para organismo. Quando acabou a música, o efeito se tornou mais introspectivo, menos sensorial, mais focado na fluidez dos pensamentos. Foi quando eu reparei na questão da realidade como interpretação, coisa que sempre está na minha cabeça, o cogumelo só potencializou, de modo que, quando eu fechava os olhos, os limites entre o meu corpo e a cama ou as cobertas pareciam mais incertos. Tentei falar para um gravador, mas as palavras gravadas tiveram pouco significado para mim, depois de sóbrio, principalmente porque nada se perdeu na memória. Ao mesmo tempo em que houve essa disconexão da realidade, houve também uma sensação de conexão entre os organismos. O fungo consumido em chá, essa criatura de outro reino, um tanto difícil de compreender, carrega em si uma substância capaz de alterar de forma bastante específica o sistema nervoso do ser humano, um animal mamífero. Não é só um veneno de potência leve. A substância do fungo parece ciente de como pensa um ser humano. Isso faz e não faz sentido. Sim, criaturas de reinos diferentes se afetam como se tivessem conhecimento concreto umas das outras – os nutrientes das plantas ou seus efeitos medicinais, para citar um outro caso mais corriqueiro que o cogumelo -, e nada impede que isso seja acidental. Acidental querendo dizer: o planeta só seria capaz de sustentar vida humana se as criaturas se relacionassem dessa maneira; caso isso não acontecesse, não haveria vida e ponto final – POR ACASO aconteceu das criaturas se relacionarem dessa maneira. Num jogo de probabilidades infinitas (um universo em expansão, mais a probabilidade de outros universos em outras dimensões), por mais improvável que seja um resultado desses, ele ainda é possível. Mas isso não mata a curiosidade, aquela pulga atrás da orelha que faz todo o ser humano se perguntar: e se não for por acaso? Contudo, isso pode ser só papo de gente chapada. Importante acrescentar, a sensação física durante toda a viagem foi fantástica, não saberia descrever de forma mais precisa por enquanto. A “aterrisagem” em uma viagem de cogumelo é bem tranquila, pelo menos na dose que ingeri. O efeito diminuiu aos poucos e eu mal percebi quando passou de vez. Dormi, acordei meio desorientado, mas sem dores, nada comparado a uma ressaca de álcool. Farei de novo, com as 3 gramas que sobraram, mas não tão cedo. Disso, eu tirei um poema. Já compartilhei no twitter, então quem presta atenção lá já viu, mas, para quem não presta, segue:

poema

o quarto só existe quando os olhos estão abertos
a figura vibra em si mesma, se arrasta até a cama
formas e cores até então desconhecidas se criam no ar
o corpo sai dos limites da pele e penetra as cobertas
criaturas de reinos diferentes se comunicam
em uma única consciência universal
arpegios são flores que se abrem e se fecham
e se abrem e se fecham e tudo existe
infinitas vezes fora e dentro da sua cabeça
mil espelhos em círculo refletindo um ao outro
arpegios são flores que se abrem e se fecham
se expandem no universo refletido nas mentes
na mente inacessível que tudo compartilha
dentes em serra vermelhos e brancos se cruzam
dentes em serra vermelhos e brancos se cruzam
e o corpo sem limites é prazer e vibra em conjunto
com a vibração de todo o resto, dos sons, do ar
do quarto que só existe quando os olhos estão abertos
arpegios são flores que se abrem e se fecham
e se abrem e se abrem e crescem e se espalham
embalam o corpo vibrante e sem limites
abre os olhos e não há nada lá
o que esperava que houvesse?
qual a diferença entre o que há dentro
e o que há fora?
a vigília não se limita aos olhos abertos
como o imaginado é tão real quanto o real do amanhã
quando isso tenha passado e o quarto volte a ser
um quarto e arpegios voltem a ser arpegios
e não flores que se abrem e se fecham e se abrem
para sempre com os dentes brancos e vermelhos
rangendo e vibrando com o corpo vibrante
fora de si pois não há mais eu nunca houve eu
o um é percepção como o resto dos números
e das coisas inventadas fora do que há dentro
quando as novas cores e novas formas e novos sons
forem embora e essa explosão sensorial se discipe
quando tudo deixe de ser prazer ainda
o imaginado será tão real quanto o chamado real
o de amanhã e o de ontem e o de depois de amanhã
essas maquetes de papelão interpretadas
(mas o que é o papelão sem olhos que o percebam?)
refletidas em mil espelhos internos e externos
espelhos em círculos com o corpo no meio
cercado de dentes em serra vermelhos e brancos
embalados por arpegios que são flores que se abrem
e se fecham e se abrem e abrem o corpo e fecham o corpo
o que acontece quando as flores voltam a ser
a gravação de um piano tocado décadas atrás?
nada acontece nada precisa acontecer
como nada aparece porque nada precisa aparecer
nada além dos dentes cerrados vermelhos e brancos
nada além do quarto que é só um quarto
talvez um pouco maior que antes talvez um pouco menor
e do prazer completo dentro e fora do corpo sem limites
embalado pelas infinitas invisibilidades ao redor
sempre ao redor e sempre imperceptíveis
como os arpegios que costumam ser só arpegios
mas se fizeram flores que se abrem
e se fecham e se fecham e se fecham e se fecham
olhos abertos olhos fechados
se fecham se fecham se fecham como flores
que se fecham
somem as flores somem os arpegios somem os dentes
brancos e vermelhos como somem as formas
e somem as cores e some o prazer
somem as flores antes abertas que agora se fecham
se fecham se fecham se fecham se fecham

Aviso legal: isso não é nem uma aula nem um incentivo a você ingerir cogumelos alucinógenos, seu irresponsável. Tá na dúvida se deve ou não deve experimentar? NÃO FAÇA. Mas, principalmente, NÃO FALE COMIGO caso você faça e dê merda. Essa newsletter é 100% satírica, tudo é ficção, até o que não é. Legalmente falando, toda essa história de cogumelo nunca aconteceu, é pura invenção, eu nunca nem bebi uma cerveja na vida, faça Proerd.

8 – Massagem no ego: pra encerrar essa edição, que era pra ser curta, mas, não sei o que deu, virou uma das maiores, peço desculpas, vou falar dum comentário bacana que recebi numa postagem do blogue que não linkarei aqui pois demasiado choramingona. O sujeito disse, depois de me contar a biografia dele (o que não é problema, caso vocês queiram fazer isso, vão em frente): “acabei achando seu blogue e acompanhando sorrateiramente, confesso que aqui e ali passava um bom tempo sem visitar e ler os textos, mas li vários, e me sentia na mesma situação só que agora no polo inverso, não como quem escrevia particularmente, agora como quem lia algo muito enevoado, escondido como uma pérola na internet, e bem, como eu disse antes, é uma situação com a qual me identifico, escrevo solitariamente quase que exclusivamente para mim mesmo e quando alguém lia era uma relação bem libertadora, era como se mais alguém tivesse caído naquele meu mundo particular, e lendo teus textos, tais quais os meus são, eu me vejo agora no papel inverso, estou adentrando no diário pessoal de outro escritor que assim como eu se mantém firme escrevendo por escrever, é sensacional, muito embora o reconhecimento seja aquela esperança, aquele cenário que deixaria tudo muito melhor.” Meu ego inflou horrores, por mais ou menos duas horas depois de ler o comentário. Mas pérola escondida na internet de cu é rola, seus hipster do inferno, vão compartilhar essa caralha porque eu quero é fama. Ou não. Nem eu sei o que eu quero.

Por hoje é isso. Esqueci de falar das leituras, mas já fui longe demais, fica pra próxima. Agora vou botar uns links aqui, pra vocês clicarem e encontrarem coisas interessantes. E, nunca se esqueçam, crianças, não importa o quanto vocês vivam, vocês estão um dia mais próximos da morte. Até depois. Paz e bença.

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Links:
https://open.spotify.com/album/6r85UKv2iQ0qdUXgEOLw8r?si=BuUGJulvTUioTUSH1az53Q (O disco do Swans.)
https://www.youtube.com/watch?v=qilNB5n7gIA (Estou obcecado com esse canal. A tensão e desconforto causados por essas músicas são viciantes.)
https://www.youtube.com/watch?v=klvo8zftJ4k (Tão obcecado, que segue mais um.)


			

A comédia vai bem, o que acabou é minha paciência – Curinga e gente mala

Perdeu a chance de ler esse texto enquanto ele era relevante porque não tá assinando a newsletter, vacilão. Vê se melhora: tinyletter.com/raphaeldias

***

Odeio quem se diz politicamente incorreto. Odeio, odeio com todas as minhas forças. Foi engraçado, talvez, quinze anos atrás, quando as pessoas, em geral brancas, inventaram mil malabarismos verbais no esforço de não ofender ninguém. Não teve um comediante que não tenha tirado sarro desses exageros, de termos como: verticalmente prejudicado, capilarmente deficiente, indivíduos com excesso de tecido adiposo, e o número sempre crescente de letras na sigla LGBT(QIAPK+). Foi engraçado por mais ou menos duas horas, em 2005. Agora chega. Só gente branca heterossexual se importa com esses termos, sempre foi esse o caso. As pessoas às quais se aplica essa lista exaustiva de termos, por incrível que pareça, só querem ser tratadas como gente, com direitos, oportunidades, não como se elas fossem causa de grande constragimento geral só por existirem. Pior que é só isso o tal politicamente correto, é o mínimo de decência humana necessária para boa convivência entre indivíduos. Gente branca cis heterossexual pratica esse “politicamente correto” uma com a outra o tempo todo – exceto homens com relação a mulheres, essa é outra grande dificuldade imposta pelo politicamente correto: essas mulheres aí querendo andar na rua sem medo de morrer. Cada situação requer uma forma diferente de lidar, mas existem casos simples, que só um pouco de cuidado vai te salvar de muitas situações constrangedoras.

Exemplos de dúvidas comuns fáceis de resolver:
Exemplo 1: você está em um ambiente com uma pessoa negra, mas não sabe como se referir a ela. Agora o correto é negro, preto, afro-descendente?
Solução: que tal começar por “qual é o seu nome?”, então dar continuidade ao tratamento dessa forma.

Exemplo 2: você divide o ambiente com uma pessoa que parece trans. É impossível pronunciar a língua do x na vida real e você não sabe qual pronome usar. Seu coração dispara de medo de ofender, mas qual pronome usar.
Solução: que tal começar por “qual é o seu nome?” E caso a pessoa pareça, na sua opinião, masculina, mas venha com um nome feminino, ou vice-versa, você pode não rir disso, você pode não questionar esse fato. A partir daí, trate conforme o nome, principalmente se a pessoa for neutra. “Você” não tem gênero, com um “você” dá pra ir longe na comunicação. E converse normalmente, sem cutucar a vida pessoal da pessoa, como você faria se fosse um amigo seu (isso vale pra qualquer um em qualquer situação sempre).

Exemplo 3: você está num ambiente em que uma mulher existe e você quer se aproximar.
Solução: tente se aproximar, mas antes verifique se existe qualquer evidência que sinalize que a aproximação não é uma boa ideia. Não parece uma boa ideia? Ouça seu coração e fique na sua. Parece uma boa ideia? Vá em frente. Um “oi, como vai?” é melhor que um “eu tava te observando dali e quero que você sente na minha cara”. Caso ela rejeite a aproximação, vá embora. Caso ela se mostre receptiva, siga em frente. Evite cantadas num geral, em qualquer momento. Certas coisas são aceitáveis conforme o nível de intimidade. Dizer para uma mulher com a qual você não tem intimidade que você deseja “chupar ela todinha” pode soar como uma ameaça. Deixe essa frase para mais tarde, para quando vocês estiverem dividindo a mesma cama, caso aconteça. É difícil entender, né? Um grande mistério. Quem sabe o que querem essas mulheres?

Mas este sou eu sendo politicamente correto. Peço desculpas. Voltemos à programação normal.

Antes de mais nada, vou me identificar:
Olá, meu nome é Raphael.
(Vocês se levantam como em encontro do A.A. e em uníssono): olá, Raphael.
Bom, eu sou um homem, branco, cis, até o momento heterossexual. Nunca tive experiências afetivas com gente que não fosse mulher cis hétero ou bissexual. Gosto de acreditar que se houvesse atração por qualquer outro tipo de pessoa eu não hesitaria, mas ainda não aconteceu.

Viram só? Não tem ninguém vaiando, ninguém me assassinou e esse texto não foi censurado. Não há perseguição. Nós, isso, nós, você também que me lê e compartilha da minha condição, nós estamos bem. Na moral, melhor do que deveríamos estar. A essa altura, gente como a gente devia ter um pouquinho mais de medo de andar na rua. Viram como são tolerantes essas outras pessoas? Nós somos todos uns babacas, nem por isso somos alvos de atentado terrorista. Enquanto isso, na Nova Zelândia, um de nós fez até manifesto pra sair atirando em Mesquita. “Lobo solitário” é o caralho – terrorista, assassino, covarde, isso que ele era, nem a decência de sobreviver pra apodrecer na cadeia ele teve. Falam tanto do Bin Laden, mas ele não se matou depois do 11 de setembro. Isso sim, diria Hemingway, o santo padroeiro de gente como nós: COJONES. Pior ainda é homem branco brasileiro. Amigo, deixa eu te contar uma coisa: tu só é branco no Brasil. Dependendo da tua cara tu vai ser tratado como branco até abrir a boca, depois disso, teu sotaque entrega. Não que isso seja ruim, que se fodam os europeus e estadounidenses e a branquitude lavada deles. Só avisando que esse privilégio vai tão longe quanto teu visto. NInguém vai pensar duas vezes antes de botar a imigração na tua cola, te separar dos teus filhos, te jogar num campinho de concentração light. É só um aviso.

Onde eu estava?
Ah, o Curinga.

Uuuh hu huhu hu vô cumê a tia do Batimã!

Não esse Curinga, infelizmente. Vocês sabiam que o Curinga é um agente do caos? Um psicopata? Ou quem sabe um homem comum esmagado por uma sociedade injusta e que, por consequência, perdeu a cabeça e decidiu se vingar? Sim, você provavelmente sabia, já que esse personagem é retratado dessa forma desde a década de 1980, senão antes. Não é novidade, o filminho do Nolan só fez espalhar a informação pras pessoas desinformadas sobre quadrinhos – eu me incluo, mas já tinha lido A Piada Mortal nessa época? Não lembro, não importa. O que importa é que estão fazendo outro filme do Curinga. Um filme sombrio, sério, realista. Nada como esses filmecos rasos da Marvel, entretenimento vazio, moldado aos gostos dos guerreiros da justiça social. Estou bocejando, é que vocês não podem me ver agora, mas estou. Também estou gripado, isso pode ser um delírio de febre, relevem caso eu comece um número musical em alguns parágrafos.

A polêmica sobre o filme do Curinga começou antes do lançamento do trailer. Do nada, o que era pra ser só um filme interessante virou manifesto para um determinado grupo. Ai ai, esses incels, esses anônimos do 4chan e afins. Como essa gentinha gosta de aprontar, não é mesmo? Caso você não esteja familiarizado com o conceito de incel, a Marie Declerq publicou uma matéria bem boa, até diria demasiado empática, sobre essas pessoas (vai estar entre os links lá embaixo, aqueles links em que vocês deveriam clicar, embora, mais de uma vez eu tenha esquecido de os fazer clicáveis – não espere competência de mim). Perfis surgiram nas redes sociais elogiando o novo filme do Curinga. Esse sim é o filme de quadrinhos, não que o mundo quer mas que o mundo precisa. O trailer foi lançado e foi aí que se abriram as porteiras do inferno (eu sei, porque faço bico de porteiro lá, terças e quintas). Ao meu ver, não passa de um Taxi Driver com maquiagem de palhaço, mas o público não enxergou a coisa de maneira tão simples.

Os tais incels se reproduziram (assexuadamente, óbvio), dizendo coisas misóginas por toda a internet e elogiando esse filme que eles sequer viram. A mídia enlouqueceu. Dez artigos por minuto foram publicados falando do perigo que esse filme representaria à sociedade. Sem dúvida ataques terroristas seriam realizados em várias salas de cinema do mundo. As “minorias” estarão em perigo. Não saiam de casa no dia do lançamento, ninguém sabe do que esses virgens são capazes, o poder da frustração sexual é instável, imprevisível, imensurável. As próprias instituições nas quais se sustentam nossa sociedade estarão em perigo por conta desse … FILME. Não é pra tanto. Filmes assim sempre existiram, do cara branco frustrado que explode e faz merda. Às vezes a merda é positiva, às vezes a merda é negativa. Eu acabei de citar Taxi Driver, mas tem vários outros. Clube da Luta, por exemplo, muito homem se espelha nas ideias desse filme, assim, na teoria. Você não vai ver esses caras se batendo por aí em clubes clandestinos, muito menos iniciando organizações terroristas contra o capital. A maioria desses caras é bem liberal, capitalista e nem entendeu nada, só curtiu o cheiro de testorena que exalou da tela quando Brad Pitt e Edward Norton se pegaram.

Não sou profeta, não vou dizer que não vai acontecer nenhum ataque terrorista incel ou não depois ou durante o lançamento do filme do Curinga. Só, no começo, não achei justo que as pessoas estivessem julgando o filme por causa dos perfis de incel que brotaram por aí. Afinal é isso que esses anônimos fazem. Eles se organizam e semeiam ideia errada nos rincões não-anônimos da internet, causando badernas virtuais desnecessárias que só pioram quando caem nas mãos da mídia. Nem sempre essas manifestações são sinceras, é o que eu quero dizer. Não é porque incels e chaneiros criaram perfis tratando o filme do Curinga como um manifesto que eles realmente veem o filme dessa forma, eles só querem ver aqueles que não fazem parte da cultura deles reagir, de preferência com medo. E costuma funcionar.

MInha opinião preventiva sobre o filme, antes de sair a entrevista com o diretor, era de que seria um filme derivativo. A história de como se cria um terrorista, como ele explode, por assim dizer. Iguais aos outros filmes dessa linha, exceto agora com uma das personagens mais populares dos quadrinhos no papel principal. Interessante? Não muito, mas talvez um entretenimento raso. Sim, não é porque um filme recusa o humor que ele é profundo. Sombrio é diferente de profundo, sério é diferente de profundo. A qualidade do filme até poderia ser boa, a qualidade de produção quero dizer, mas isso não se traduz em novidade. Então o diretor abriu a boca. Ele tinha que abrir a boca. Eu não queria falar nada sobre ele, nada sobre o filme, não até que eu realmente assistisse a coisa – o que bem poderia nunca acontecer. Mas NÃO. Ele falou e falou merda, então aqui vem a cinta do papai botar ordem nesse barraco.

Quem é Todd Phillips? Ele é a mente cômica genial por trás da clássica franquia do humor politicamente incorreto Se Beber não Case, em que três amigos bebem demais em uma despedida de solteiro, perdem o noivo e se metem em confusões do barulho. Você não vai acreditar no que esses amigos aprontam em Las Vegas. O que acontece em Vegas fica em Vegas, né? Né? NÉ? (Desculpem, minha sanidade me escapou por um minuto. É que meu cérebro ferve em fúria perante a idiotice alheia. Respirando fundo.) Enfim, entrevistaram o Todd Phillips e ele reclamou que hoje é impossível fazer comédia. Esses guerreiros da justiça social impedem o trabalho do comediante com seus protestos em nome da correção política. É insuportável! *Bate o pé e choraminga*.

Gente, a comédia vai bem. Sim, de vez em quando as pessoas reagem de forma extrema a coisas não tão graves, mas ninguém foi censurado por isso, não nos Estados Unidos nem no Brasil (o Brasil tá começando a censurar, só que as coisas ditas “politicamente corretas” são o alvo – digamos que, no Brasil, quem mais chora hoje ainda nem levou um tapa). É parte da comédia, às vezes você se arrisca, às vezes o público não curte suas piadas. Acontece, ninguém é obrigado a te achar um gênio. Talvez você não seja tão engraçado. Se suas piadas são todas aos moldes das comédias da década de 1980, aquelas com o Bill Murray ou o irmão do John Belushi, talvez você realmente não tenha graça. A comédia exige novidade, frescor, exige uma visão diferente sobre os costumes da sociedade. As pessoas têm dado risada de certos grupos (mulheres, homossexuais, transexuais, negros, latinos etc.) desde antes do século XIX. Repetição de fórmulas é uma chatice, é falta de imaginação, falta de coragem. A entrevista com o Todd Phillips, pra mim, expôs um covarde. Um cara que antes imitava as fórmulas de comédia da década de 1980 (gente branca bêbada fazendo merda) e agora se revoltou pela falta de aplausos e decidiu imitar a fórmula dos filmes da década de 1970 (Scorcese em Mean Streets, Taxi Driver e outros, Laranja Mecânica, todos aqueles filmes sobre os males da sociedade). Mais do mesmo.

Enquanto isso, a comédia parece bem. Eu estou rindo muito de Fleabag, achei Russian Doll excelente, Bojack Horseman e Rick & Morty conseguiram trazer algo novo pras animações, o retorno do Dave Chappelle, apesar da polêmica, foi bem forte, What We Do In The Shadows foi provavelmente uma das coisas mais engraçadas que eu já vi em tempos recentes. Nada nem ninguém é imune à crítica (o grande e verdadeiro medo do Todd Phillips e todos os outros politicamente incorretos), mas ainda é possível criar comédia. É só um estilo muito difícil. É mais difícil ser engraçado do que ser sombrio ou sério. O riso é uma reação muito concreta, enquanto outras reações são mais vagas. A pessoa que decide trabalhar numa obra cômica, independentemente da forma em que ela se apresente, corre um risco um pouco maior do que outros artistas, a reação que se quer causar é decidida antes do ato de criação, vira parte do processo criativo – uma preocupação extra num processo, em geral, estressante. Dentre as artes, a comédia me parece a mais arriscada. Ela depende da cultura de seu tempo, da linguagem, do ritmo, de inúmeros fatores mutáveis que nem sempre se aplicam ao drama ou ao terror. Há controvérsias, óbvio, mas é como eu penso, como alguém que deseja um dia fuçar esse terreno incerto e pedregoso chamado comédia. Nem todos têm tanto talento, possivelmente eu não tenha, e fazer a comédia durar conforme muda a cultura é praticamente impossível. Kingsley Amis, por exemplo, clássico da comédia literária entre 1950 e 1980. Hoje é difícil encontrar dois críticos literários que estejam de acordo sobre a obra dele. Kurt Vonnegut, por outro lado, conseguiu sobreviver ao teste do tempo. Não existe outro Kurt Vonnegut nem nunca existirá.

Acho que um grande medo do pessoal que agora está empolgado com Curinga era que todos os filmes de quadrinhos fossem ser atirados na máquina marvelizadora. Acho válida essa preocupação. Essa fórmula é uma ameaça que paira sobre todo o cinema popular. No entanto, essa preocupação é ridícula em se tratando do Curinga. Desde o Nolan, ninguém nunca nem considerou trazer de volta o Curinga à Cesar Romero, o palhaço, o jóquer. Só eu quero que esse Curinga volte e eu, sozinho ou com outros três gatos pingados de ideia afim, não tenho poder pra manifestar esse desejo na realidade.

Quanto riso, ó, quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão

Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele Pierrô
Que te abraçou e te beijou, meu amor

Perdão, voltei.

Eu sei, eu sei. Sou branco, sou homem, e às vezes é difícil entender o outro, se colocar no lugar do outro. Mas vocês que compartilham da minha condição vão ficar surpresos com o quão longe a audição, a leitura e a convivência pacífica podem te levar. Se você não consegue entender a homossexualidade, leia livros sobre, leia artigos, tente conviver – ninguém vai querer te comer, eu garanto. Não entende mulheres, escute o que elas falam uma vez na vida, e os livros e os artigos etc. Isso vale pra qualquer pessoa de qualquer situação. Não sabe ler? Veja vídeos, veja filmes. Por um período, curto que seja, tente evitar coisas que sejam só um espelho. No início, é um exercício consciente, porque todos estamos acostumados a procurar nós mesmos nas coisas (agora imagine a dificuldade de quem não é homem, branco, hétero, em se encontrar em alguma coisa até umas décadas atrás…), mas aos poucos vai se tornando mais natural e, logo, até convivência em pessoa se torna possível. Então faça amizades reais com pessoas diferentes de você. É possível, embora nem sempre seja fácil. Desde que você haja com naturalidade com a outra pessoa, e não como se ela fosse razão de constrangimento para você, será possível.

(Limpo a garganta, faço voz de guru místico): mas pense que o Eu é apenas uma casca, todos somos um em um grande furdúncio cósmico incompreensível que só faz se arrastar em direção ao nada. Seu Eu não importa nem é fixo. Esse é o grande problema do incel, ele acha sua condição imutável e cria para si uma profecia autorealizável. Esse é um problema de todo o indivíduo, mas fode a cabeça do incel de maneira particularmente perigosa. Ele acredita em coisas como: a estrutura craniana do indivíduo é que decide se ele é ou não capaz de atrair parcerias sexuais, entre outras generalizações absurdas. O artigo da Marie Declerq explica em detalhes a mentalidade problemática, vão lá ler, depois de terminarem isso aqui.

Sobre o Curinga, não quero mais ver. Não queria antes, não dou a mínima pra heróis e vilões. Antes tava pensando em baixar ilegalmente, seis meses depois do lançamento, caso eu lembrasse e estivesse desocupado. Agora nem isso. O Todd Phillips acha que vai ser boicotado ou mal-compreendido pela “visão perigosa” dele? Que assim seja. Se vocês tirarem alguma coisa desse texto, que seja: não seja politicamente incorreto. Politicamente incorreto não significa o que você acha que significa. Você não é o bastião da estabilidade emocional por causa disso, muito pelo contrário. Vá na internet e fale mal de Cristo prum politicamente incorreto e veja quão longe vai a estabilidade dele. A lógica dele, a razão dele. Não vão muito longe. Faça piada de branco ou de hétero prum politicamente incorreto. Nada aconteceu com essa gente e eles já se acham perseguidos, imagina se algum viado aparecesse quebrando lâmpada na cabeça de hétero, ninguém mais saía de casa, ia ter toque de recolher. Imagina se tivesse uma reunião dos Black Panthers da mesma forma que os neonazistas tão se reunindo? Pois é, meu caro branco hétero, sua vida é bem tranquila e a minha também. Nem eu nem você temos motivo pra vestir a maquiagem de palhaço, exceto se for pra espalhar a alegria. Claro, a sociedade é cheia de defeitos, mas não é culpa dos outros, talvez seja culpa sua. Talvez seja culpa dos candidatos em que você vota. Tampouco leve muito a sério os surtos de ultraje da internet (isso vale para todos). Normalmente quem escreve esses artigos nem se encaixa entre os grupos que deveriam estar revoltados. Eu não vi um artigo escrito por gente trans contra o Dave Chappelle. Tampouco leve a sério movimentos que surjem do nada, criados e espalhados por gente anônima. Mas estes são outros assuntos, pra outra hora, talvez pra outros autores. Só tô cutucando esse ninho de vespa porque ninguém me lê, posso falar qualquer coisa inconsequentemente.

É isso, acabou. Tenho mais nada a dizer sobre isso não. Quer ver essa porra desse filme, vá lá. Só não me encha o saco. É isso, só não encha o saco dos outros. Que tal esse mantra pra vida? Faz o teu, eu faço o meu, ela faz o dela, ele faz o dele, elx faz x delx. E todos são felizes e ninguém se machuca.

E como dizia minha mãe: para de chorar à toa ou te dou motivo pra chorar.

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https://www.youtube.com/watch?v=vrBjV5axUl0
https://todavialivros.com.br/livros/lucky-jim
https://www.intrinseca.com.br/livro/877/ (edição lindona com tradução do Pellizzari, ou seja, correta.)
https://www.indiewire.com/2019/10/taika-waititi-calls-out-todd-phillips-woke-culture-killed-comedy-1202178158/

A faca sem corte da sátira

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Atravessamos uma faixa invisível. A sátira, antes uma forma de ridicularizar a realidade elevando os absurdos contidos nela a uma potência considerada impossível, agora é conforto. Nada na ficção pode se comparar ao que está acontecendo. Foi o que me veio na cabeça enquanto assistia The Boys, a adaptação do quadrinho de Garth Ennis, lançada há pouco tempo pela Amazon. A história não é novidade, é uma versão sem fantasias das histórias de super-heróis. Mostra como gente com tanto poder se corromperia, deixaria o papel de herói e se tornaria controlador, irresponsável, egocêntrico – uma catástrofe. Então a série usa esses heróis corrompidos como versões supostamente extremas de acontecimentos atuais. No entanto, ao comparar a versão fictícia com a realidade, se torna claro que o extremo é bem aguado.

Em The Boys, uma corporação usa os super-humanos como figuras pop, faz filmes e reality shows com essas “personagens”, criam narrativas, tudo para viciar e controlar a população, aumentando a influência da empresa perante o país e, por consequência, o mundo. No caso, os heróis são como a bomba atômica, uma força capaz de exterminar a humanidade se não for obedecida. Os heróis, como os nossos bilionários e celebridades, usam sua influência e aparente invulnerabilidade para realizarem suas vontades, ignorando os efeitos colaterais. Uma heroína explode a cabeça dum homem qualquer ao sentar na cara dele, por exemplo. Não importa, ele era qualquer um; ela tem potencial para salvar o mundo. Dois dos heróis mais poderosos e populares deixam de salvar as pessoas em um avião prestes a cair, afinal é mais conveniente deixar que morram e depois que se enfeite a narrativa: diga-se que eles chegaram tarde demais por não terem acesso a informações sigilosas do governo – assim talvez seja liberado o acesso a essas informações, tudo em nome da segurança pública. Uma heroína jovem é inserida no grupo dos “mais poderosos”, mas sofre todo tipo de abuso nas mãos desses mais poderosos e é forçada a aguentar, afinal eles são “os mais poderosos” e danificar a reputação deles traria consequências muito maiores do que só a saúde mental e física de uma jovem iniciante. Esses episódios tem correspondentes óbvios na realidade, a sátira deveria nos revoltar mas, por algum motivo, ela acalma, faz rir mesmo nos seus momentos mais sombrios, afinal o que de fato acontece é muito pior.

Consideremos o caso da heroína estuprada. Ela é uma referência nada sutil ao movimento Me Too, com o qual as pessoas se importavam muito mais ano passado do que esse ano. A versão real do movimento expôs a forma como mulheres que se tornaram celebridades foram submetidas a abusos diversos por homens no poder – produtores, diretores, artistas mais célebres et cetera. Na série, a vítima expõe o abusador da mesma forma como tantas vítimas reais expuseram tantos dos seus abusadores, as consequências na ficção, contudo, não são tão similares às consequências no real. De certa forma, na ficção, a ambiguidade das reações foi retratada de maneira mais ou menos precisa: a popularidade da heroína cresceu, ela recebeu apoio, seu abusador foi afastado, no entanto, ela também foi rotulada como uma mulher que fala demais e a corporação que a mantém sob contrato exigiu mais cautela caso ela decidisse continuar se manifestando. Enquanto muitas das atrizes reais receberam maior visibilidade no momento das suas denúncias, e seus abusadores foram recriminados com variados graus de severidade (uns fugiram para a Europa, outros sumiram das vistas públicas por um período sempre curto demais – crimes foram confundidos com gafes sociais), é inegável que o cenário permanece o mesmo. Se a representação fictícia nos diz alguma coisa é que essas denúncias foram monetizadas, não pelas vítimas mas pelos homens poderosos responsáveis pelos abusos. As corporações reais viram que esse discurso atrai certas demografias aos seus produtos e, portanto, decidiram o reproduzir. Ao mesmo tempo, é provável que muitas das pessoas envolvidas na produção de The Boys ou sofreram abusos ou abusaram ou estão cientes de abusos ainda silenciados. O que a sátira faz é trazer conforto: vejam só, essa personagem é submetida a atos similares aos retratados durante o movimento Me Too e ela, com sua força e coragem, mudou as coisas – não é maravilhoso? Vejam a consciência social dessa produção! Nós somos conscientes!, disseram os produtores, por meio de seus contratos com a Amazon – corporação famosa por explorar seus funcionários e lutar contra direitos trabalhistas, cujo dono tem fortuna capaz de resolver todos os problemas da nossa sociedade – e ele continuaria bilionário. O único momento em que a sátira em The Boys chega perto de ridicularizar a realidade é quando o abusador, no caso uma representação cômica do Aquaman, é estuprado em vingança. Eu não diria que qualquer abusador real tenha sofrido consequências similares, todos eles parecem muito bem, apesar das reputações manchadas.

A parte da sátira relativa aos movimentos feministas recentes é a mais potente, mesmo que o representado não se compare ao real. É quando The Boys tenta satirizar as relações entre corporações e Estado, e as relações internacionais entre potências econômicas e o “terceiro mundo” – termo, em si, desprezível -, que a faca perde o fio. Os heróis em The Boys são metáforas, sempre óbvias, às forças bélicas e de inteligência dos EUA e China, atualmente as grandes potências – não que The Boys cite a China, eu imagino que esse seja um assunto delicado demais para o consumidor médio estadounidense, em The Boys os EUA é uma força única e imbatível. A Vought International (corporação criadora dos heróis) é como as corporações armamentícias e tecnológicas, dos EUA e não. As reais não contam com super-humanos, mas com drones, bombas atômicas e redes sociais coletoras de dados. (As corporações focadas em robótica e automação, por acaso, não são mencionadas nessa sátira. Muitos aspectos atuais da sociedade são tocados, a precarização do trabalho foi evitada, afinal não é bom cutucar aquele que te financia.) Ambas usam poder e informação para conduzir a narrativa da humanidade, em parte, graças a corrupção inerente ao poder (público e privado). Por exemplo, para convencer o governo estadounidense a incorporar super-humanos às forças armadas, a Vought arranja um herói cujo poder é alterar sua forma física para se fazer uma mulher gostosa, ela seduz um político contrário à incorporação e, durante a transa, com o político vendado, ela se transforma num homem (grotesco, diga-se de passagem) e filma o ato, assim o político aceita votar em favor da tal proposta para que o vídeo não seja vazado. Transmorfos não existem, mas a atitude é tão típica que a cena é padrão desde sempre em filmes sobre sistemas corruptos.

Falemos de Jeffrey Epstein, já que, por coincidência, a série foi lançada na mesma época em que ele foi preso. Um homem que nasceu na classe média, foi professor de matemática e física, então fez sua fortuna na especulação financeira, fortuna essa que ninguém sabe ao certo se existe ou como exatamente foi adquirida (quais foram os investimentos e como foi que eles deram lucro, quando, ao se analizarem os números, eles deveriam ter dado prejuízo). Desde 2002 ele é investigado por estupros e envolvimento com prostituição e tráfico de mulheres, suas vítimas, em todos esses crimes, normalmente menores de idade. Epstein, supostamente, se suicidou um dia depois de alguns dos seus documentos pessoais se tornarem públicos, com destaque para sua caderneta de contatos, que continha desde numerosos advogados até políticos, entre estes Donald Trump (dezenas de contatos do Trump e família). As circunstâncias do suicídio não podiam ter sido mais convenientes. Nenhum dos guardas designados à proteção de Epstein estava por perto no momento em que ele preparou sua forca com o lençol, e as câmeras de segurança estavam desligadas. Apesar da controvérsia, o suicídio foi confirmado e, ao que se sabe, as investigações foram interrompidas. Curiosamente, dentre os muitos interesses e investimentos de Epstein estavam a eugenia e o transhumanismo. Desde o início dos anos 2000, ele doou milhões para pesquisadores nessas áreas. Mas isso é só um ponto de relação entre as ações de bilionários reais e a Vought, que fique registrado aqui para homogeneizar minha narrativa.

Independentemente das dúvidas sobre a fortuna de Epstein, ele tinha uma ilha particular, que ele frequentemente visitava e levava amigos, como o já citado Trump, Bill Clinton, príncipe Andrew, até Matt Groening recebeu uma massagem nos pés de uma menina de catorze anos em uma dessas viagens. Os documentos liberados têm mais de 2000 páginas e envolvem todo tipo de gente. É perturbador que a morte de alguém tão importante tenha sido descartada como suicídio assim tão rápido, isso dá suporte às mais terríveis teorias de conspiração. Quando algo assim vem à tona, normalmente é porque o que está escondido transbordou, tal qual uma infestação de ratos. E o acontecimento já foi acobertado, a Amazônia está pegando fogo, não dá pra prestar atenção em tanta coisa ao mesmo tempo, vai demorar até que mais ratos apareçam. Pouco se sabe sobre as vítimas, como elas viviam, o que aconteceu, como foram parar ali, quantas são além das que se manifestaram, quantas ainda estão sujeitas ao tráfico para o uso de bilionários entediados. Talvez não venhamos a descobrir muito mais que isso.

(Nota: eu não acredito que foi um assassinato. Mas eu discordo dos procuradores, investigadores e vítimas, que acreditam que o motivo por trás do suicídio tenha sido covardia, medo de encarar suas vítimas durante julgamento. Não seria o primeiro julgamento dele, ele foi preso em 2006 e solto em poucos meses, já conhecia o procedimento, mesmo que dessa vez fosse mais grave. Gente assim não tem medo de olhar nos olhos das vítimas. Se ele tivesse tanta consciência, não teria cometido os crimes para começo de conversa. Acredito que ele tenha se suicidado por saber que, caso tivesse de servir de testemunha para acusações contra seus amigos poderosos, seu destino seria ainda pior que um enforcamento improvisado com lençol de cadeia. Um assassino contratado para entrar numa prisão e apagar um sujeito tão visível seria um risco maior ainda para os contratantes. Isso não melhora o contexto.)

Outra série que tenta satirizar nossa realidade mas termina como comédia bobinha é Vice (Veep). Essa série que tenta retratar cruamente os bastidores da política estadounidense, mostrando políticos rindo da cara de seus eleitores, mais interessados no bem dos seus investidores e nos sinais positivos da bolsa de valores do que no bem do povo, falha tão miseravelmente em revoltar os espectadores que nós muitas vezes nos pegamos torcendo pelo bem dos protagonistas. Não importa que Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) seja um retrato da incompetência generalizada da classe política, ela é tão carismática. O jeito como ela pisa em todos ao seu redor para crescer politicamente é tão divertido, nós queremos que ela tenha sucesso, do contrário a série é cancelada.

Isso é um sinal de dissociação? Ao contrário de The Boys, Vice não trabalha com metáforas. O cenário é realista, a única diferença é que as piadas são propositais, enquanto a realidade não tem roteiro – pelo menos não um bem escrito. Basta ler um site qualquer de notícias, ouvir as declarações de políticos, o real é pior que a ficção. Vice, com toda sua crueldade, não inclui um traficante de humanos entre os amigos pessoais dos políticos. (Pensando bem, acho que inclui, assim como inclui ditadores sanguinários que recebem financiamento em troca de favores políticos, de qualquer forma, passa tão desapercebido pelo espectador que a imagem me veio em análise retrop, não me atingiu enquanto eu assistia.) Até as características leves da série tem paralelos com a realidade. Em Vice, todos os envolvidos na corrida presidencial são idiotas, falam o que não deveriam constantemente e dependem de toda uma equipe de relações públicas para limpar as cagadas. Não muito tempo atrás, Joe Biden, um dos pré-candidatos para a eleição nos EUA ano que vem, deu a seguinte declaração para um grupo de eleitores latinos e asiáticos: “… crianças pobres são tão brilhantes quanto crianças brancas (pausa, as engrenagens começam a girar dentro da mente senil do presidenciável) … crianças ricas, crianças negras, crianças asiáticas…”. Parece uma cena de Vice, mas é a corrida presidencial esse ano. Eu não preciso incluir aqui declarações estúpidas do Trump ou do Bolsonaro, nos vemos essas por aí todos os dias.

A sátira, seja ela realista ou fantasiosa, com paralelos próximos ou distantes da realidade, ela perdeu seu propósito. Eu gostaria de saber se sempre foi assim, se as coisas sempre foram tão absurdas, mas algo me diz que não. Algo me diz que foi o excesso de informação que deixou nítido o surreal contido no real. Não dá mais tempo de corrigir declarações antes que elas se tornem públicas, ninguém é invulnerável, tudo é ao vivo. E, mesmo assim, mesmo com a fragilidade do sistema exposta aos nossos olhos, nós somos impotentes para exercer qualquer mudança significativa. Só nos resta a ficção escapista, porque nós precisamos dela mais do que nunca, e não existe conteúdo sombrio o suficiente para nos chocar.

Então The Boys, como qualquer outra série, serve para dar risada, desde que não seja levada muito a sério. Eu não acho que a essa altura muita gente veja com bons olhos esses produtos corporativos “socialmente conscientes”. Espero que não. Foi útil pra Amazon, que aproveitou pra apontar o dedo pra Disney e dizer: vejam como vocês são terríveis com seus filmes bobos de hominho poderoso, rárárárárárá! Aquela velha tática do “olha pra lá, eles (Disney) impediram um pai de enfeitar o túmulo do filho com uma imagem do hômi-aranha”, enquanto eles criam contas falsas no twitter de supostos funcionários repetindo constantemente como é bom trabalhar na Amazon e como sindicatos são prejudiciais às relações de trabalho. Não que eu ache que o Jeff Bezos se preocupe tanto e analise cada roteiro das produções lançadas na Amazon Prime, mas os advogados dele com certeza deixam bem claro o que pode e o que não pode ser dito. Assim morreu a sátira, como todas as outras coisas, nas mãos ensaguentadas de alguma multinacional. Vice consegue evitar essa hipocrisia. Não que a HBO seja uma corporação isenta às críticas, só não é tão prejudicial quanto a Amazon.

Se a sátira com fundo realista é mais efetiva que a fantasiosa, eu não sei dizer. Tanto The Boys quanto Vice parecem falhar igualmente neste aspecto. São séries competentes, e ficção e distração sempre andaram de mãos dadas, mas acaba aí. The Boys, principalmente, com seu enredo cheio de pretensões de crítica social, é raso. Tem uma mensagem bonitinha que prega que uma milícia de pessoas boas, mesmo sem poderes, é capaz de lutar contra a sujeira impregnada ao nosso redor – vencer é outra história. É ridículo, mas sem essa mensagem, viria o niilismo. Niilismo é coisa de adolescente revoltado. Vice não tem mensagem, mas não causa mais revolta só por isso, pelo contrário. Talvez a ficção simplesmente não seja capaz de jogar a gasolina necessária nesse incêndio social chamado realidade. Ao resto de nós, os impotentes, sobra lidar com a situação e continuar existindo, na medida do possível, agarrados na esperança de que um dia tudo melhore, mesmo que esse dia seja o ponto final da jornada de nossa espécie.

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