[Newsletter #5] A faca sem corte da sátira

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Atravessamos uma faixa invisível. A sátira, antes uma forma de ridicularizar a realidade elevando os absurdos contidos nela a uma potência considerada impossível, agora é conforto. Nada na ficção pode se comparar ao que está acontecendo. Foi o que me veio na cabeça enquanto assistia The Boys, a adaptação do quadrinho de Garth Ennis, lançada há pouco tempo pela Amazon. A história não é novidade, é uma versão sem fantasias das histórias de super-heróis. Mostra como gente com tanto poder se corromperia, deixaria o papel de herói e se tornaria controlador, irresponsável, egocêntrico – uma catástrofe. Então a série usa esses heróis corrompidos como versões supostamente extremas de acontecimentos atuais. No entanto, ao comparar a versão fictícia com a realidade, se torna claro que o extremo é bem aguado.

Em The Boys, uma corporação usa os super-humanos como figuras pop, faz filmes e reality shows com essas “personagens”, criam narrativas, tudo para viciar e controlar a população, aumentando a influência da empresa perante o país e, por consequência, o mundo. No caso, os heróis são como a bomba atômica, uma força capaz de exterminar a humanidade se não for obedecida. Os heróis, como os nossos bilionários e celebridades, usam sua influência e aparente invulnerabilidade para realizarem suas vontades, ignorando os efeitos colaterais. Uma heroína explode a cabeça dum homem qualquer ao sentar na cara dele, por exemplo. Não importa, ele era qualquer um; ela tem potencial para salvar o mundo. Dois dos heróis mais poderosos e populares deixam de salvar as pessoas em um avião prestes a cair, afinal é mais conveniente deixar que morram e depois que se enfeite a narrativa: diga-se que eles chegaram tarde demais por não terem acesso a informações sigilosas do governo – assim talvez seja liberado o acesso a essas informações, tudo em nome da segurança pública. Uma heroína jovem é inserida no grupo dos “mais poderosos”, mas sofre todo tipo de abuso nas mãos desses mais poderosos e é forçada a aguentar, afinal eles são “os mais poderosos” e danificar a reputação deles traria consequências muito maiores do que só a saúde mental e física de uma jovem iniciante. Esses episódios tem correspondentes óbvios na realidade, a sátira deveria nos revoltar mas, por algum motivo, ela acalma, faz rir mesmo nos seus momentos mais sombrios, afinal o que de fato acontece é muito pior.

Consideremos o caso da heroína estuprada. Ela é uma referência nada sutil ao movimento Me Too, com o qual as pessoas se importavam muito mais ano passado do que esse ano. A versão real do movimento expôs a forma como mulheres que se tornaram celebridades foram submetidas a abusos diversos por homens no poder – produtores, diretores, artistas mais célebres et cetera. Na série, a vítima expõe o abusador da mesma forma como tantas vítimas reais expuseram tantos dos seus abusadores, as consequências na ficção, contudo, não são tão similares às consequências no real. De certa forma, na ficção, a ambiguidade das reações foi retratada de maneira mais ou menos precisa: a popularidade da heroína cresceu, ela recebeu apoio, seu abusador foi afastado, no entanto, ela também foi rotulada como uma mulher que fala demais e a corporação que a mantém sob contrato exigiu mais cautela caso ela decidisse continuar se manifestando. Enquanto muitas das atrizes reais receberam maior visibilidade no momento das suas denúncias, e seus abusadores foram recriminados com variados graus de severidade (uns fugiram para a Europa, outros sumiram das vistas públicas por um período sempre curto demais – crimes foram confundidos com gafes sociais), é inegável que o cenário permanece o mesmo. Se a representação fictícia nos diz alguma coisa é que essas denúncias foram monetizadas, não pelas vítimas mas pelos homens poderosos responsáveis pelos abusos. As corporações reais viram que esse discurso atrai certas demografias aos seus produtos e, portanto, decidiram o reproduzir. Ao mesmo tempo, é provável que muitas das pessoas envolvidas na produção de The Boys ou sofreram abusos ou abusaram ou estão cientes de abusos ainda silenciados. O que a sátira faz é trazer conforto: vejam só, essa personagem é submetida a atos similares aos retratados durante o movimento Me Too e ela, com sua força e coragem, mudou as coisas – não é maravilhoso? Vejam a consciência social dessa produção! Nós somos conscientes!, disseram os produtores, por meio de seus contratos com a Amazon – corporação famosa por explorar seus funcionários e lutar contra direitos trabalhistas, cujo dono tem fortuna capaz de resolver todos os problemas da nossa sociedade – e ele continuaria bilionário. O único momento em que a sátira em The Boys chega perto de ridicularizar a realidade é quando o abusador, no caso uma representação cômica do Aquaman, é estuprado em vingança. Eu não diria que qualquer abusador real tenha sofrido consequências similares, todos eles parecem muito bem, apesar das reputações manchadas.

A parte da sátira relativa aos movimentos feministas recentes é a mais potente, mesmo que o representado não se compare ao real. É quando The Boys tenta satirizar as relações entre corporações e Estado, e as relações internacionais entre potências econômicas e o “terceiro mundo” – termo, em si, desprezível -, que a faca perde o fio. Os heróis em The Boys são metáforas, sempre óbvias, às forças bélicas e de inteligência dos EUA e China, atualmente as grandes potências – não que The Boys cite a China, eu imagino que esse seja um assunto delicado demais para o consumidor médio estadounidense, em The Boys os EUA é uma força única e imbatível. A Vought International (corporação criadora dos heróis) é como as corporações armamentícias e tecnológicas, dos EUA e não. As reais não contam com super-humanos, mas com drones, bombas atômicas e redes sociais coletoras de dados. (As corporações focadas em robótica e automação, por acaso, não são mencionadas nessa sátira. Muitos aspectos atuais da sociedade são tocados, a precarização do trabalho foi evitada, afinal não é bom cutucar aquele que te financia.) Ambas usam poder e informação para conduzir a narrativa da humanidade, em parte, graças a corrupção inerente ao poder (público e privado). Por exemplo, para convencer o governo estadounidense a incorporar super-humanos às forças armadas, a Vought arranja um herói cujo poder é alterar sua forma física para se fazer uma mulher gostosa, ela seduz um político contrário à incorporação e, durante a transa, com o político vendado, ela se transforma num homem (grotesco, diga-se de passagem) e filma o ato, assim o político aceita votar em favor da tal proposta para que o vídeo não seja vazado. Transmorfos não existem, mas a atitude é tão típica que a cena é padrão desde sempre em filmes sobre sistemas corruptos.

Falemos de Jeffrey Epstein, já que, por coincidência, a série foi lançada na mesma época em que ele foi preso. Um homem que nasceu na classe média, foi professor de matemática e física, então fez sua fortuna na especulação financeira, fortuna essa que ninguém sabe ao certo se existe ou como exatamente foi adquirida (quais foram os investimentos e como foi que eles deram lucro, quando, ao se analizarem os números, eles deveriam ter dado prejuízo). Desde 2002 ele é investigado por estupros e envolvimento com prostituição e tráfico de mulheres, suas vítimas, em todos esses crimes, normalmente menores de idade. Epstein, supostamente, se suicidou um dia depois de alguns dos seus documentos pessoais se tornarem públicos, com destaque para sua caderneta de contatos, que continha desde numerosos advogados até políticos, entre estes Donald Trump (dezenas de contatos do Trump e família). As circunstâncias do suicídio não podiam ter sido mais convenientes. Nenhum dos guardas designados à proteção de Epstein estava por perto no momento em que ele preparou sua forca com o lençol, e as câmeras de segurança estavam desligadas. Apesar da controvérsia, o suicídio foi confirmado e, ao que se sabe, as investigações foram interrompidas. Curiosamente, dentre os muitos interesses e investimentos de Epstein estavam a eugenia e o transhumanismo. Desde o início dos anos 2000, ele doou milhões para pesquisadores nessas áreas. Mas isso é só um ponto de relação entre as ações de bilionários reais e a Vought, que fique registrado aqui para homogeneizar minha narrativa.

Independentemente das dúvidas sobre a fortuna de Epstein, ele tinha uma ilha particular, que ele frequentemente visitava e levava amigos, como o já citado Trump, Bill Clinton, príncipe Andrew, até Matt Groening recebeu uma massagem nos pés de uma menina de catorze anos em uma dessas viagens. Os documentos liberados têm mais de 2000 páginas e envolvem todo tipo de gente. É perturbador que a morte de alguém tão importante tenha sido descartada como suicídio assim tão rápido, isso dá suporte às mais terríveis teorias de conspiração. Quando algo assim vem à tona, normalmente é porque o que está escondido transbordou, tal qual uma infestação de ratos. E o acontecimento já foi acobertado, a Amazônia está pegando fogo, não dá pra prestar atenção em tanta coisa ao mesmo tempo, vai demorar até que mais ratos apareçam. Pouco se sabe sobre as vítimas, como elas viviam, o que aconteceu, como foram parar ali, quantas são além das que se manifestaram, quantas ainda estão sujeitas ao tráfico para o uso de bilionários entediados. Talvez não venhamos a descobrir muito mais que isso.

(Nota: eu não acredito que foi um assassinato. Mas eu discordo dos procuradores, investigadores e vítimas, que acreditam que o motivo por trás do suicídio tenha sido covardia, medo de encarar suas vítimas durante julgamento. Não seria o primeiro julgamento dele, ele foi preso em 2006 e solto em poucos meses, já conhecia o procedimento, mesmo que dessa vez fosse mais grave. Gente assim não tem medo de olhar nos olhos das vítimas. Se ele tivesse tanta consciência, não teria cometido os crimes para começo de conversa. Acredito que ele tenha se suicidado por saber que, caso tivesse de servir de testemunha para acusações contra seus amigos poderosos, seu destino seria ainda pior que um enforcamento improvisado com lençol de cadeia. Um assassino contratado para entrar numa prisão e apagar um sujeito tão visível seria um risco maior ainda para os contratantes. Isso não melhora o contexto.)

Outra série que tenta satirizar nossa realidade mas termina como comédia bobinha é Vice (Veep). Essa série que tenta retratar cruamente os bastidores da política estadounidense, mostrando políticos rindo da cara de seus eleitores, mais interessados no bem dos seus investidores e nos sinais positivos da bolsa de valores do que no bem do povo, falha tão miseravelmente em revoltar os espectadores que nós muitas vezes nos pegamos torcendo pelo bem dos protagonistas. Não importa que Selina Meyer (Julia Louis-Dreyfus) seja um retrato da incompetência generalizada da classe política, ela é tão carismática. O jeito como ela pisa em todos ao seu redor para crescer politicamente é tão divertido, nós queremos que ela tenha sucesso, do contrário a série é cancelada.

Isso é um sinal de dissociação? Ao contrário de The Boys, Vice não trabalha com metáforas. O cenário é realista, a única diferença é que as piadas são propositais, enquanto a realidade não tem roteiro – pelo menos não um bem escrito. Basta ler um site qualquer de notícias, ouvir as declarações de políticos, o real é pior que a ficção. Vice, com toda sua crueldade, não inclui um traficante de humanos entre os amigos pessoais dos políticos. (Pensando bem, acho que inclui, assim como inclui ditadores sanguinários que recebem financiamento em troca de favores políticos, de qualquer forma, passa tão desapercebido pelo espectador que a imagem me veio em análise retrop, não me atingiu enquanto eu assistia.) Até as características leves da série tem paralelos com a realidade. Em Vice, todos os envolvidos na corrida presidencial são idiotas, falam o que não deveriam constantemente e dependem de toda uma equipe de relações públicas para limpar as cagadas. Não muito tempo atrás, Joe Biden, um dos pré-candidatos para a eleição nos EUA ano que vem, deu a seguinte declaração para um grupo de eleitores latinos e asiáticos: “… crianças pobres são tão brilhantes quanto crianças brancas (pausa, as engrenagens começam a girar dentro da mente senil do presidenciável) … crianças ricas, crianças negras, crianças asiáticas…”. Parece uma cena de Vice, mas é a corrida presidencial esse ano. Eu não preciso incluir aqui declarações estúpidas do Trump ou do Bolsonaro, nos vemos essas por aí todos os dias.

A sátira, seja ela realista ou fantasiosa, com paralelos próximos ou distantes da realidade, ela perdeu seu propósito. Eu gostaria de saber se sempre foi assim, se as coisas sempre foram tão absurdas, mas algo me diz que não. Algo me diz que foi o excesso de informação que deixou nítido o surreal contido no real. Não dá mais tempo de corrigir declarações antes que elas se tornem públicas, ninguém é invulnerável, tudo é ao vivo. E, mesmo assim, mesmo com a fragilidade do sistema exposta aos nossos olhos, nós somos impotentes para exercer qualquer mudança significativa. Só nos resta a ficção escapista, porque nós precisamos dela mais do que nunca, e não existe conteúdo sombrio o suficiente para nos chocar.

Então The Boys, como qualquer outra série, serve para dar risada, desde que não seja levada muito a sério. Eu não acho que a essa altura muita gente veja com bons olhos esses produtos corporativos “socialmente conscientes”. Espero que não. Foi útil pra Amazon, que aproveitou pra apontar o dedo pra Disney e dizer: vejam como vocês são terríveis com seus filmes bobos de hominho poderoso, rárárárárárá! Aquela velha tática do “olha pra lá, eles (Disney) impediram um pai de enfeitar o túmulo do filho com uma imagem do hômi-aranha”, enquanto eles criam contas falsas no twitter de supostos funcionários repetindo constantemente como é bom trabalhar na Amazon e como sindicatos são prejudiciais às relações de trabalho. Não que eu ache que o Jeff Bezos se preocupe tanto e analise cada roteiro das produções lançadas na Amazon Prime, mas os advogados dele com certeza deixam bem claro o que pode e o que não pode ser dito. Assim morreu a sátira, como todas as outras coisas, nas mãos ensaguentadas de alguma multinacional. Vice consegue evitar essa hipocrisia. Não que a HBO seja uma corporação isenta às críticas, só não é tão prejudicial quanto a Amazon.

Se a sátira com fundo realista é mais efetiva que a fantasiosa, eu não sei dizer. Tanto The Boys quanto Vice parecem falhar igualmente neste aspecto. São séries competentes, e ficção e distração sempre andaram de mãos dadas, mas acaba aí. The Boys, principalmente, com seu enredo cheio de pretensões de crítica social, é raso. Tem uma mensagem bonitinha que prega que uma milícia de pessoas boas, mesmo sem poderes, é capaz de lutar contra a sujeira impregnada ao nosso redor – vencer é outra história. É ridículo, mas sem essa mensagem, viria o niilismo. Niilismo é coisa de adolescente revoltado. Vice não tem mensagem, mas não causa mais revolta só por isso, pelo contrário. Talvez a ficção simplesmente não seja capaz de jogar a gasolina necessária nesse incêndio social chamado realidade. Ao resto de nós, os impotentes, sobra lidar com a situação e continuar existindo, na medida do possível, agarrados na esperança de que um dia tudo melhore, mesmo que esse dia seja o ponto final da jornada de nossa espécie.

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[Newsletter] Bolsonaro e Robert Anton Wilson entram num bar.

(https://tinyletter.com/raphaeldias – se inscrevam. ou não, quero que se foda.)
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Isso começou com o que eu acreditava tinha sido uma ideia genial. Não, o encontro no assunto nunca aconteceu, pra sorte de Robert Anton Wilson (ou RAW, pros íntimos chegados à brevidade), que não teve de testemunhar tamanha burrice, pelo menos não partindo do determinado indivíduo – a burrice que ele testemunhou foi a de Ronald Reagan, Richard Nixon, aquele pastor que fazia protesto em funeral, enfim, o mesmo nível, só muda a nacionalidade. É que estou lendo Quantum Psychology, livro publicado por RAW em 1990. A função desse livro, me parece, é destruir a forma fixa como as pessoas costumam estar programadas a pensar, por conta da forma fixa da nossa linguagem e lógica – versão primitiva, aristotélica, da lógica.

Minha ideia, de início, era pegar frases da Damares e traduzir em “P-Prime”. Que porra é essa? Em Quantum Psychology, Raw explica o conceito de E-Prime (English-Prime) como inglês sem o verbo “to be”, ou, conforme RAW, sem o “isness” (é-ismo…? é-xismo…? …algo assim), a ideia equivocada de que as coisas existem em formas fixas, essenciais; que as coisas/pessoas “são”, ao invés de “parecerem” ou “estarem” devido a um estado temporário de espírito ou de um equívoco causado por limitações dos nossos sentidos, equívoco esse reforçado pela lógica primitiva que prega que existe a verdade, a mentira, e que estas nunca se cruzam. O E-Prime foi desenvolvido por David Bourland Jr., partindo do conceito de “semântica geral”, por Alfred Korzybski, e ambos tinham como objetivo uma remodelação da linguagem que resultasse numa diminuição do apego humano aos dogmas. P-Prime nada mais é que minha tradução do conceito para o português (português-prime ou, por que não?, prime-br – nome de posto de gasolina, mas curti).

Meu problema começou quando eu pesquisei frases da ministra-pastora Damares. Mesmo aplicado o prime-br, as frases dela ainda soavam dogmáticas. Tiravam a universalidade, mas mantinham a miopia do raciocínio. Por exemplo:

“A mulher nasceu para ser mãe, é o papel mais especial da mulher” – em 08/03/18, em entrevista para um site do Rio Grande do Norte, o Expresso Nacional.

Aplicado o prime-br, a frase poderia ser reformulada de muitas formas, uma delas sendo: “De acordo com o meu conceito de mulher, formulado com base na minha experiência pessoal e nas minhas crenças religiosas, o papel mais especial da mulher me parece ser o de mãe.”

Soa menos radical, mas o papel dela como ministra impede que a frase soe menos perigosa. Estamos falando de uma pessoa particularmente poderosa. Mesmo com todo o enfeite do mundo, uma frase como essa pode dar a entender que ela pretende aplicar seu dogma, seus conceitos pessoais, como base para suas funções de ministra.

Vendo que a aplicação do prime-br não resultava tão efetiva quanto eu imaginava nas frases da Damares, decidi ir além e escolhi umas frases do Bolsonaro. O resultado foi o mesmo. Um pouco pior, quando me dei conta que Bolsonaro forma frases, quase sempre, na primeira pessoa do plural, ou como se o que ele fala fosse o senso comum, ou incluindo, ali no meio, que se trata da opinião dele – opiniões das quais ele se orgulha -, ou se tratam de ameaças generalizadas (tal coisa vai acontecer ou tem que acontecer ou deveria ter acontecido). Lembremos das palavras de Cioran sobre autoritarismo, em Breviário da Decomposição:

“Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma a forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. […]

“Basta-me ouvir alguém falar sinceramente de ideal, de futuro, de filosofia, ouvi-lo dizer “nós” com um tom de segurança, invocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo. Vejo nele um tirano fracassado, quase um carrasco, tão odioso quanto os tiranos e os carrascos de alta classe. É que toda fé exerce uma forma de terror, ainda mais temível quando os “puros” são seus agentes.”

Às frases de Bolsonaro, para exemplo:

“Ele merecia isso: pau-de-arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também.”

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vou botar esses picaretas para correr do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá.”

“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria.”

“Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem.”

Em um debate, essas frases são inúteis. É justamente a estrutura, o tom autoritário, que remove o valor. Até uma reconstrução mais conciliadora parece incapaz de dar valor a essas palavras. Vamos lá, que tal essa frase em prime-br: “De acordo com meus ideias políticos, o mais correto seria fuzilar as pessoas afiliadas a partidos de oposição…” Não dá. Não dá pra ser razoável com a palavra fuzilamento, nem reagir de forma razoável. Uns dias antes da eleição eu escrevi um texto tentando botar ordem na minha cabeça e, pra minha surpresa, ele ainda é válido. Parece mais válido agora do que naquela época.

(Acho que tem mais valor pra mim agora porque eu não sou mais a pessoa que escreveu aquele texto.Quem escreveu foi uma pessoa bem empregada, estável, incerta do que queria fazer da vida, mas satisfeita com as circunstâncias, independentemente da política ao redor. Esse não é mais o caso, não desde abril. A ideia de exílio nunca me pareceu tão atraente quanto agora mesmo. Pegar minhas coisas, minha gata, tantos livros quanto eu possa carregar, e adeus. Não sei pra onde. Qualquer lugar que me aceite. Ah, Uruguai, não te conheço, mas como te quero.)

Parágrafo desnecessário 1: é sexta (2/8), 11:31, minhas mãos tremem pelo excesso de cafeína e nicotina no meu sistema. Li meus horóscopos e não absorvi nada do que eles me disseram. A APAE, minha vizinha, toca Girls Just Wanna Have Fun, alto para caralho e eu estou com dificuldades para me concentrar. Isso é só porque eu não sei concluir esse texto. Tem bloqueio? Descreva a situação e os arredores, alguém deve ter sugerido. “Entre os dias 02/08 (Hoje) e 19/08, o planeta Marte estará “brigando” com o Sol do seu mapa de nascimento, e este tende a ser um período de desgaste desnecessário de sua vitalidade. A sensação deste momento tende a envolver a ideia do uso excessivo de força para fazer coisas simples, algo do estilo ‘usar força de 1 quilo para levantar um objeto de 200 gramas’.” Isso faz sentido. “É como se você quisesse uma coisa, mas os seus atos contrariassem o seu próprio objetivo! Procure avaliar esta tendência neste momento, a fim de não se tornar uma espécie de sabotador da própria vontade, Raphael!” Isso também. Inclusive, faz uma semana que não faço nenhum dos meus rituais típicos, duas semanas que não trabalho no meu romance. Voltei à minha rotina de exercícios, depois de uma semana de pausa por gripe, mas hoje decidi pular porque meu torso foi convertido em dor. Aguardo mensagens de duas pessoas diferentes, que provavelmente não vão vir agora, mas isso não me convence a deixar pra lá. Botei o Screamadelica, do Primal Scream, pra abafar os barulhos vindos de fora. Não vai ajudar a minha concentração. 11:45. Estou pronto pra voltar ao assunto? Não, mas tá na hora.

E-prime, como conceito, e semântica geral são alvos de críticas desde sempre. O motivo é a inutilidade prática desse linguajar, tão detalhado, quase pedante. Por outro lado, o pessoal da inteligência emocional esbarrou nele por acidente. Talvez agora seja tarde para essa revisão linguística, as coisas foram longe demais para a gente se preocupar com conciliação. Se o que acontece nos EUA reflete no Brasil uns anos depois (Trump-Bolsonaro é o exemplo mais recente), temos que nos preocupar com campos de concentração e tiroteios em escolas. O povo indígena já é alvo de massacres. Imaginar campos de concentração no Brasil não é exagero, é o que falta, é sequência lógica. Temos pessoas, inclusive o ministro da educação, elogiando feitos do nazismo que nem mesmo foram feitos do nazismo. Isso tem um objetivo maior que irritar quem discorda. Talvez, se nós tivéssemos nos preocupado com linguagem antes… talvez, talvez, talvez. Agora corporações estão no comando e todo dia aparece um arrobando mandando as pessoas pararem de tomar banho pelo bem do meio-ambiente, para que as corporações possam trabalhar em paz fodendo o meio-ambiente – e o desemprego aumenta, a automatização aumenta, a renda diminui. Isso não é só Brasil, é pra onde o mundo está se encaminhando. É hora de pensar em linguística pacífica? É possível ou saudável?

Por um lado, esse zelo quase esnobe pela linguagem é inútil, contudo, os autoritários adotam seu oposto. O sistema axiomático típico da lógica aristotélica é aplicado por Olavo de Carvalho e seus discípulos como única forma de encontrar a “verdade”. Eles são os detentores da “verdade” e a devem propagar a todo custo. Ligue essa ideologia ao catolicismo e, não só está o autoritário propagando a verdade, ele está salvando o mundo do destino infernal. É uma caridade, como a inquisição foi o mal necessário para salvar pecadores.O fogo em carne para poupar do fogo eterno. Loucura, megalomania, picaretagem, a intenção real não importa. Rejeitar esse sistema o trocando por outro mais trabalhoso seria uma maneira eficaz de neutralizar esse veneno? Eu não sei. Meu primeiro instinto ao ver gente disposta a eliminar seres humanos de visão oposta ou diferente é violento e agressivo. Eu quero chamar esses desgraçados, filhos dumas putas, por todos os nomes que eles merecem ser chamados e desejar a eles exatamente aquilo que eles desejam, direta ou indiretamente, a essas pessoas entre as quais estão inclusas, além de mim mesmo, pessoas que eu amo, que são proximas de mim, que são meus familiares e amigos. Mas eu sei que isso não é o estado ideal para que uma sociedade funcione.

Passo boas horas dos meus dias pensando em métodos de reversão. Se é ou não possível um mundo em que a exploração não seja regra. É improvável. Isso que estamos vivendo parece resultado de uma obra de mais de trezentos anos, senão o resultado da soma das obras de todas as civilizações da humanidade. O mais provável é que isso aqui, o hoje em sua atual circunstância, seja resultado de todo o passado, ao invés de pedaços, e as consequências disso sejam inevitáveis a essa altura. Nossas noções de política sócio-econômica são baseadas em teorias com séculos de existência, postas em prática da pior maneira possível. Capitalistas ainda acreditam no livre mercado, por mais que ele não se manifeste em nenhuma forma concreta na vida das pessoas e, nas raras ocasiões em que ele acaba por se manifestar, é silenciado (por exemplo, quando um banco quebra, devido a maus investimentos, e o Estado é forçado a interferir; ou quando produtores de cinema veem mulheres como consumidoras e decidem criar mais protagonistas femininas, causando protestos de homens infantilizados). Alguns comunistas ainda vivem apegados ao culto à personalidade, vide a existência de apoiadores de Stalin, Mao, até Kim Jong-un – vi esses dias e, aparentemente, não era meme.

Parágrafo desnecessário 2: de lá pra cá, eu fui almoçar, voltei, fumei mais um pouco, bebi mais café. São 15:34, mas parece depois das 17, tá escuro, chove e esfriou pra cacete. Ainda é sexta (2/8). Eu não curti muito o disco do Primal Scream. A APAE ainda toca música alta. Faz isso todo o dia e eu não consigo entender o motivo. Botei o mais recente do Él Mató a un Policía Motorizado. Num primeiro momento, “indie” demais pro meu gosto. Nota para futura newsletter: falar mal da palavra indie e todo o mal que ela trouxe à humanidade. (La Síntesis O’Konnor, o nome do disco, pros que querem saber do que eu tô falando.) Tá mediano o disco, mas as saudades da Argentina me compelem a gostar da banda. Falando em América-Latina, comecei a ler Cem Anos de Solidão (quem tá acompanhando com atenção essa newsletter, já não compreende meu jeito de escolher leituras, um dia explico). Falarei dessa leitura quando eu terminar. Por enquanto: gostando. Importante incluir: sou contra o uso do p-prime para textos de opinião, a subjetividade nas frases deveria estar implícita. Sobre as mensagens que eu aguardava, não recebi. Pra uma das pessoas, eu mandei uma mensagem. Talvez não devesse ter mandado, mas a vida é isso. Acabo de ver o cara do linkedin anunciando a morte do capitalismo: coincidência? acho que não.

Existem teorias adaptadas à nossa realidade.São opções, mas elas parecem impraticáveis porque exigiriam que aqueles que controlam o poder abdicassem dele por livre e espontânea vontade. Uma revolução armada contra esses poderes: 1 – não é realista, já que essas pessoas, mesmo sendo 1%, são muito mais poderosas que os 99%, capazes de controlar exércitos, literalmente contratar mercenários, enquanto nós gostamos de falar de guilhotina e pegar em armas, mas nós temos meios para isso? 2 – Caso, por acidente estatístico, uma revolução armada dos 99% acontecesse, ela precisaria ser liderada por alguém e, ao terminar, caso tivesse sucesso, viria a pergunta: e agora? Os líderes da revolução trariam justiça? Abririam mão do poder que se lhes apresentaria naquele instante? Acho improvável. Então o que nos resta? Fatalismo, espera pelo meteóro, coisas, em sua essência, inúteis. Tão inúteis quanto só viver nas condições atuais esperando a morte. Mas eu não sei de nada. Só queria fazer uma piada envolvendo e-prime, conceito que aprendi agora, e os radicalismos do nosso atual governo. Vim parar aqui e nem sei como.

É hora de quê?

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links:
https://deliriumscribens.wordpress.com/2018/10/25/e-ai-vamos-de-carcere-ou-exilio/
https://www.linkedin.com/pulse/open-letter-humanity-jeremy-desir/?articleId=6562776164119658496#comments-6562776164119658496&trk=public_profile_post (vivi pra ver isso.)
https://open.spotify.com/album/5YCFp2g2ZZUc0bKNAWyYHN?si=DVuWl79UT1C4i1QF9EnX3Q (O disco não foi lá essas coisas.)
https://www.worldcigars.com.br/prod,idproduto,4867049,fumos-p-cigarro-fumo-p-cigarro-manitou-virginia-blue-40g (fumem, porque o que mata é o amor … e o resto das coisas.)
https://www.imdb.com/title/tt0923752/?ref_=fn_al_tt_1
https://www.imdb.com/title/tt7520794/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1 (gostei da série, mas não gostei de saber que vai ter mais temporadas –  acabou muito bem; mania de americano querer prolongar as coisas.)

Retrospectiva – sobre a arte acidental que é escrever para ninguém

É engraçado como sempre que eu decreto a morte desse blogue me surge algo que eu tenho de escrever e esse é o meu melhor espaço. Tem a newsletter, sim, vai sair edição nova mais tarde essa semana, mas vai tratar de outra coisa, talvez mais importante que isso. Isso aqui vai ser uma espécie de desabafo, outro desses, sobre como, depois de tanto tempo escrevendo na internet, eu continuo correndo atrás do meu próprio rabo.

Ano passado ou há ainda mais tempo, recebi um comentário aqui pedindo que eu elaborasse sobre uma frase que eu escrevi numa postagem. A frase era algo assim: “… nesse mundo errado da escrita na internet.” Não me lembro como ou se eu respondi essa leitora. Mas eu não acho que naquela época eu tivesse uma resposta tão satisfatória como a que me veio hoje. Porque, então, a frase era só para efeito, combinava com o tom do resto da postagem e, em parte, com meu estado de espírito no momento. Hoje é um pouco mais complicado. Possivelmente era tão complicado na época, mas eu não soube elaborar porque sempre tive medo de autopiedade. Ainda tenho, não quero que isso aqui soe como mais uma reclamação idiota, mas acho que vai.

Quando eu comecei a escrever na internet, entre 2010 e 2011, eu tinha um objetivo claro e ingênuo: ia expor minhas ideias da melhor forma possível e, quem sabe, com sorte, eu iria aproximar leitores com a mesma mentalidade e meu alcance aumentaria. Sem ambições, só persistência. O que eu escrevia era péssimo, mas eu nunca tive muita sensibilidade para críticas. Nessa primeira fase, eu frequentava um fórum (lembram desses sites?) literário em que os membros discutiam livros e publicavam coisas próprias. Eu publiquei algumas poesias lá, sem grandes reações, até que uma foi lida por um número um pouco maior de pessoas. Foi, provavelmente, a única vez que um texto meu foi demolido. E os críticos estavam certos, era horrível. Eu não tinha o mínimo de maturidade pessoal ou literária, estava cru e mesmo assim eu servi ao público. Algumas pessoas defenderam, mas eu não tive a cara-de-pau de me apoiar neles, no fim, quando entendi o que tinha acontecido, eu estava fazendo coro com os críticos. Aprendi bastante aquele dia, mas evitei de publicar lá de novo e também me afastei do blogue, que então ficava no blogspot. Uns anos atrás, o fórum foi absorvido por outro sobre Tolkien, eu sumi de lá, acho que o site não existe mais.

Todos temos nossos guias, os exemplos que deram certo. E esses guias vão mudando conforme você aprende truques novos. Aquele Bukowski perde o brilho quando as influências dele se tornam familiares. Descartei 3 anos de textos em prosa e verso, sem pena, sem vergonha, como descartei influências. Quando eu voltava ao blogue, voltava com intenções de trazer algo diferente, certo de que era assim que as coisas funcionavam: autores escreviam e escreviam até que um texto, nem sempre o melhor, era visto por alguém que o compartilhava, e outra pessoa via o compartilhamento e lia também e compartilhava também, assim novos leitores eram atraídos, e o autor “dava certo”. Levava tempo para que isso acontecesse, muitos anos, mas acontecia. Persistência e autocrítica bastavam. É uma visão ingênua do mundo, mas, se não era assim, como era? Voltando aos “admirados”, como, por exemplo, o pessoal do Cardoso Online chegou onde chegou? Ou Mark Fisher? Talvez fosse nesses casos que eu mirava e eu prefiro não pensar onde eu atingi. O mundo dos blogues já não era, no meu tempo, o que tinha sido no período desses exemplos, mas poderia voltar, não? Eu acreditava que sim, dado o jeito que as outras redes sociais estavam cansando. É verdade que muita gente parece surgir do nada. Nomes aparecem nas linhas do tempo das redes sociais, milhões de compartilhamentos, e aparentemente a pessoa é famosa, mas quem é? Brotou do chão? Não importava, o que me importava é que eu tinha visto gente com ideias parecidas com as minhas dando certo, mesmo que em outra época. Enfim, talvez o que eu descrevi seja real e possível, mas eu não “dei certo”, por algum motivo.

Pela maior parte do tempo em que eu escrevi na internet, fiz em segredo. Podia contar nos dedos o número de pessoas no meu círculo social que sabiam. Não escondi muito minha identidade nos blogues, meu nome sempre esteve aí (o sobrenome, não), mas sempre evitei fotos, poucas vezes eu citei o nome da cidade onde eu moro e, quando falava algo mais pessoal, falava em termos vagos. Fui me abrindo mais com o passar dos anos, não muito, comparando com outras pessoas no meio que desenvolveram marcas com a própria identidade. O motivo disso sempre variou, na minha cabeça. Em parte era insegurança, e tinha também o fato de eu não querer ninguém próximo me incomodando caso um dia eu decidisse falar mal de tal próximo. Esse ano, com a minha demissão, toquei o foda-se. Fora minha família, quase todo mundo ou sabe ou pode descobrir. Foi aí que eu me dei conta de por que mantive o segredo.

Era a tal insegurança, sim, principalmente, só que não no sentido: nossa, e se for ruim? Críticas não me incomodam. Se fazem sentido, eu escuto; do contrário, vida que segue. Meu medo era: e se ninguém der a mínima? Afinal, se ninguém ao redor sabe, é óbvio que vai ficar por isso mesmo. Mas quando todo mundo sabe e ninguém lê, mesmo amigos próximos, aí a coisa complica. É difícil explicar. Ninguém precisa gostar de nada “em nome da amizade”, é que indiferença fere o ego mais que insulto. E quando a indiferença já existe por outras origens, como o fato do blogue ou seu autor, eu, no caso, nunca ter conseguido um número considerável de leitores, a indiferença dos próximos só faz aumentar a crise. Todo pretenso artista é visto como alguém com um passatempo, um hábito que logo é abandonado, e nenhum pretenso artista quer ser visto dessa forma por muito tempo, porque uma hora se torna a verdade – foi sempre um hábito inútil que precisa ser abandonado. O número de pessoas que dão certo é mínimo comparado ao número de pessoas que fracassam, em todos os setores, desde sempre.

Isso não é pra ser um lamento de dez mil palavras, mas uma retrospectiva. Estou travado há algumas semanas e parte do motivo disso é minha certeza de que não importa o que eu faça, ou como, ou quando, ninguém vai ler. Sempre existe a esperança: esse texto é um pouco polêmico, talvez atraia leitores; esse trata de um tema atual; esse fala de política etc. Mesmo agora a voz persiste: esse texto, quem sabe esse não vai finalmente ser descoberto e dar início à tal avalanche. Seria o momento mais ridículo pra algo assim acontecer, mas bem-vindo, não reclamarei. Então decidi voltar no tempo um pouco, pensar no que eu fiz ou não fiz durante esses anos, até que me viesse uma luz. É bem claro que meu trabalho de divulgação é fraco, mas quando nenhum dos meios de divulgação deslancha, não tem muito que possa ser feito. As redes tão ali, eu sou ativo nelas, elas só nunca cresceram, como o blogue nunca cresceu. Até textos escritos para outros sites tiveram o mesmo destino. É quase uma maldição. Aí surgem os questionamentos: é a qualidade?, o texto não é relacionável?, falta clareza?, eu tô escrevendo em português?

Essa reclamação é até injusta com a meia dúzia de pessoas que me leu durante esses anos, inclusive leu essa mesma reclamação três vezes por ano. Peço desculpas. Isso não é sobre vocês. (Sou muito grato aos que acompanham, embora vocês pudessem falar mais, ajudaria.) É que elogios de poucos tendem a ser enterrados sob a indiferença de muitos. A vida é assim. Até gente que conseguiu um público parece focar nos comentários negativos, mesmo diante um mar de aplausos. Então devia ser esperado, depois de quase uma década de trabalho, não sei quantos textos publicados sobre tantos temas diferentes, que bata uma ponta de desespero. Ainda mais quando se sonhava viver da escrita. As desculpas vão acabando. Antes era porque estava ruim, então melhorou. Mudou alguma coisa? Não. Antes era o conteúdo obscuro, então foi popularizado. Mudou alguma coisa? Não. Falta emoção no texto? Tem muita emoção? Falta organização? Eu não me sinto hermético ou experimental, é esse meu problema? Me recuso a acreditar que esses textos intimidam interação. Qual é o meu problema? Assim por diante. Eu quero que Sísifo se foda, chega uma hora que é necessário encarar: a pedra não vai chegar ao topo da montanha, não vai chegar nem na metade do caminho. E agora? Eu tenho feito muito essa pergunta, por muitos motivos, nunca me veio uma resposta. Vou continuar, porque é o que eu faço. Dediquei muitas horas nisso aqui pra largar agora, seria o mesmo que apagar oito anos de uma memória. Tá se arrastando pelo chão há uma década, numa estrada sem fim, sem destino? Não adianta levantar agora, não adianta dar meia volta, o jeito é se arrastar, sempre em frente, ruma a lugar nenhum, até a morte.

 

 

Newsletter #3 (Por uma literatura inútil)

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É hora de eu parar um pouquinho de falar de música. Decidi tentar, com brevidade, falar sobre o que eu faço ou dos problemas inevitáveis no processo de escrita. Faz sentido, não? O ruim é que até reclamar da escrita é clichê, tão ingrata é essa arte. Não nos deixam reclamar. O que não nos impede de reclamar, não, nós somos uma categoria de reclamões classudos.

Cheguei no que parece ser a metade da atual versão do meu primeiro romance e estou à beira do desespero. Ninguém pediu para que eu escrevesse um romance ou encasquetasse com a ideia de me tornar escritor. O livro nem mesmo é necessário. A ficção deve, por essência, ser inútil. Deixem a serventia, a utilidade, o propósito, para os teóricos e os panfletários, por favor. Eis meu manifesto: por uma literatura inútil. Mas o que eu quero dizer é que ninguém botou uma arma na minha cabeça, eu fiz isso comigo mesmo. E, por favor, sem balela, sem papo de predestinado, sem “forças sobrenaturais que compelem à escrita”, sem torturas mentais. Fazemos o que fazemos porque trabalhar é chato e escrever é bem bacana, quando é bom. Só que é muito difícil saber quando é bom, não é? Às vezes parece bom, mas não sobrevive a uma releitura.

Então a tal tortura parece teimosia mesmo. A hora em que eu nasci me fez um taurino com lua em gêmeos, eu entendo de teimosia e autoindulgência. Porque o artista em geral precisa ser autoindulgente, mas o escritor é o pior deles. É o sujeito que inventa uma história qualquer e acha que o mundo precisa ter acesso a ela e que o mundo deve algo a ele quando a história falha em chamar atenção. Aí nos lançamos nesse serviço de Sísifo, imposto, não por deuses, mas nós mesmos (se bem que o Eu pode ser um deus ou uma parcela Dele, dependendo das suas filiações metafísicas). Eu perdi a conta de quantas versões esse romance já teve, mas essa é a última. Pra mim chega, se não der certo e ir pra estante das pessoas, vai pra gaveta mesmo e foda-se. Vou continuar fazendo o mesmo com outra história.

Isso tudo é pra dizer que estou compartilhando o que agora é o sétimo capítulo do livro. Talvez seja incompreensível assim avulso, mas, até onde eu sei, ele pode ser incompreensível no conjunto também. Precisa de uma lapidada, é a primeira vez que eu escrevo essa versão e é sempre diferente. Um detalhe que eu posso acrescentar é que a personagem narrada nesse capítulo está no livro desde o primeiro rascunho. É quase uma amizade a essa altura, embora eu queira evitar a todo custo essas bobagens que escritores falam de personagens ganhando vida et cetera – “minhas personagens são escravas de galera”, disse Nabokov, se masturbando pro Herbert Gold, da Paris Review em mil novecentos e coca-cola com pó. (Uma confissão: tenho medo de essa personagem – ou qualquer outra – se manifestar de alguma forma na realidade.) Num geral, é uma divagação sobre autenticidade, criação, essas coisas. O capítulo é como uma vinheta sobre a personagem, um breve resumo do que está na mente dela. Cada personagem tem sua própria vinheta, que interrompe a narrativa central, criando, assim espero, um esboço de polifonia dentro do que seria só uma narrativa em terceira pessoa – também evita longas e detalhadas digressões banais sobre o passado de cada personagem. Em outras palavras, é um truque, um que, tomara, agrade os leitores.

*

A encomenda era um vaso de flores. Foi uma ideia que Naima teve para completar o orçamento, quando saiu da casa da avó. Imprimiu um anúncio simples, só palavras em fonte grande o suficiente dizendo que pintava quadros para decoração doméstica, adornado com exemplos do que ela tinha em mente seriam os pedidos que ela viria a receber, o número do celular dela e e-mail. Uma semana depois, ela recebeu o primeiro pedido. Era sua vizinha, uma senhora viúva, obrigada a se mudar para um prédio habitado principalmente por estudantes por razões financeiras e porque os filhos dela se sentiam mais confortáveis com ela vivendo em um ambiente menor. Esse era o tipo de gente que vivia nos quarto-e-salas daquele prédio: estudantes, casais jovens, idosos solitários. Queria um retrato de seu netinho para pendurar na parede do quarto. Deu à Naima uma foto do menino, quatro anos. Olhava desconfiado para a câmera, em postura militar, escondendo as mãos nas costas. Assim Naima fez seu primeiro quadro por encomenda, como fosse um retrato do século XVIII, de um membro da família real só que em vestes contemporâneas ou quase isso, num fundo claro, de cores sem forma. Ao terminar, ela teve um ataque de risos, dizendo: é a coisa mais brega que eu já vi. Cobrou duzentos e cinquenta reais.

A senhora, constantemente visitada por amigas de idade tão avançada quanto, não perdia uma oportunidade de exibir o quadro do neto, tão lindo, um mocinho. E, logo, elas queriam saber quem foi que pintou, queriam um desses também. Ela distribiuiu o número de Naima entre as idosas da cidade. Vasos de flores, mesas de frutas, cópias descaradas das naturezas mortas impressionistas menos inspiradas da história da arte, netos e netas e bisnetos e bisnetas, poodles, chihuahuas, gatos persas felpudos feito grandes bolas brilhantes de pelo brincando com novelos de lã, crianças e animais reais ou fictícios nas cores mais chamativas e nos ambientes mais confortáveis que se possa imaginar, riachos e montanhas e paisagens bob-rossianas (ela, inclusive, punha no youtube as aulas de Bob Ross e, enquanto pintava, divertia a si mesma, óbviamente chapada, seu apartamento parecia uma sauna, repetindo as máximas: little scenes, little paint, little strokes, happy little trees, happy little clouds, happy little bushes, happy painting and god bless – e ela nunca se divertiu tanto na vida, batendo os pincéis para lá e para cá, no esforço de imitar cada movimento do professor), e ela podia se despreocupar do estilo, do bom gosto, daquilo que pesava em sua mente sempre que ela iniciava um quadro novo. Exceto do fato de que, enquanto ela se ocupava dessas encomendas fáceis e lucrativas, ela não pintava. Seus projetos pessoais ficavam para trás. E como era fácil deixar para trás esses projetos. Com as encomendas ela se sentia, como diria Bob Ross, uma criadora, capaz de qualquer coisa, movia rios, criava árvores, fazia o que quisesse, num escapismo besta povoado por fofuras, bichos macios e redondos, e grandes bebês babões, isenta às críticas, pois era ruim mesmo, feio, um atentado aos sentidos no pior dos sentidos. Ela amava mergulhar nessa liberdade insípida e infértil. Amava olhar para um quadro pronto e gritar: você é horrível, inútil, e eu amei cada minuto que eu gastei te pintando.

Mas essas férias não podiam durar. Ideias vieram e ela precisava se dedicar a elas. Tão exigentes essas ideias supostamente sérias. Tinha medo até de começar. Primeiro, ela não sabia quem era Naima, a pintora. Tampouco sabia de Naima a pessoa, mas tinha a impressão que a pintora ela precisava conhecer. Havia Picassos, Portinaris, Hoppers, Tarsilas, Pollocks, Kahlos. Era necessário que houvesse Naimas, assinaturas além do nome no canto do quadro ou na placa do museu. Não era? Queria experimentar os estilos. Improvisar visões abstratas em uma tela, ser realista em outra. Até o momento, era o que ela fazia. Tinha uma série de quadros abstratos baseados em experiências sinestésicas que tinha quando combinava Syd Barrett com Psylocibe cubensis; fez diversos autorretratos em variados estilos; pintou cômodos do seu apartamento, um sofá solitário, a geladeira aberta, a cama desfeita; usou suas amizades como modelos para várias cenas. Ela pegava esses quadros, os observava lado a lado, via uma obra mas não um estilo. Isso aos poucos se tornava desesperador. Começava projetos, rascunhos, e os descartava antes que tomassem forma, pois eram derivativos demais, não eram ela, fosse ela quem fosse. Até comentários inofensivos e, em qualquer outra circunstância, elogiosos, a perturbavam. Como na vez que levou Alex para ver a série de quadros sobre partes do apartamento. Ele disse que eles tinham uma qualidade fria, lembravam Edward Hopper. Nada contra, ela amava esse pintor, mas não queria ser ele. Não podia negar a semelhança, no entanto. O que eu posso fazer se até borrões de tinta já têm dono?, foi a resposta defensiva que ela deu. Alex pediu desculpas, tentou se explicar, disse que sentia o mesmo quando escrevia, que era inevitável não se sentir assim. Nossas influências foram egoístas, ele disse, rindo de si mesmo, como parecia ser o grande hábito de sua geração, uma variação sobre a típica autodepreciação: riso motivado pela falta de caminhos ou escolhas, mesmo que os arredores prometessem infinitos caminhos e escolhas.

Agora estava na casa da avó, outra vez, outra tarde de domingo. Era a quinta vez que rascunhava aquela senhora, e as diferenças entre cada rascunho eram cada vez mais imperceptíveis para qualquer um fora Naima. Já era hora de ela admitir a obsessão, mas ela tinha um motivo, queria fugir do derivativo. Ao terminar a primeira tentativa, Naima ficou satisfeita com o resultado por um mês, até que ela reviu o retrato de Gertrude Stein por Picasso e finalmente ela entendeu porque o quadro que ela pintou parecia tão familiar. Dona Mônica, como era chamada em seu meio, tinha aquele ar pesado, sisudo, e as cores escolhidas por Naima eram muito parecidas com as usadas por Picasso, mesmo a pose sendo outra, mesmo que Mônica, em seu retrato, aparecesse dormindo, com um livro aberto repousando em seu colo, mesmo que a luz desse a entender que ela estava de frente a uma janela aberta, numa tarde ensolarada de inverno, ao invés da aparência enclausurada e poeirenta da obra de Picasso. Talvez se Naima incluísse mais da mobília no cômodo. Enquadrando por outro ângulo, ela poderia incluir o piano, o piso de madeira, as estantes nas paredes e seus livros e enfeites. Talvez, com outra luz, ela pudesse acrescentar uma ambiguidade ao momento retratado, se se tratava de um descanso ou de um último suspiro, um tom de azul, convenhamos, também picassiano, faria o serviço. E os retratos se acumulavam na garagem de dona Mônica, onde Naima guardava as pinturas sem destino certo. Mônica não se importava, nem com o acúmulo nem com as várias sessões em que tinha de se fazer de estátua. Precisava dos cochilos, a cena escolhida por Naima era condizente com a realidade, com as necessidades de Mônica. E mesmo que não fossem, mesmo que fosse desconfortável, faria porque amava a menina como fosse sua filha. Era sua filha. Desde o dia, em 1994, quando sua verdadeira filha foi embora, conforme o combinado, para viver a vida.

Foi difícil, mas Mônica entendia demais o sentimento para julgar as atitudes de Beatriz. Quando ela mesma estava grávida, vinte anos antes, aos dezoito, de um homem que sumiu, teria abortado se não fosse tão perigoso. Não tivesse ela sido acolhida por João, nem poderia imaginar o que teria sido delas duas. Um homem solitário, autor esquecido, de aparência envelhecida. Um dia ela foi contratada para faxinar a casa dele. Ele foi um dos poucos que viu os serviços dela como um serviço, e não caridade. Permitiu que deixasse sua filha dormindo num dos cômodos e, caso ela acordasse, dedicasse um tempinho para dar atenção a ela, amamentasse se necessário, trocasse fraldas. Ao terminar, ele perguntou se ela aceitaria trabalhar semanalmente na casa dele e, três meses depois, a contratou como assistente permanente, com quarto próprio, e ele cuidaria de todas as despesas envolvendo sua filha. Aceitou sem pensar duas vezes, embora temesse que logo ele viesse com uma conta para ela pagar. Mas nunca veio. Somente cinco anos depois ela perguntou a ele o motivo, ao que ele respondeu: tenho muito dinheiro para gastar só comigo mesmo, você parecia necessitada, quis ajudar. E ele precisava desesperadamente de companhia. Sua família estava ou morta ou distanciada. Não tinha amantes, tinha medo do que poderia ser dele e sua reputação se sua orientação se tornasse pública. Recebia olhares tortos em Paris, que diria no Brasil. Seria preso, torturado, exilado como mais um artista subversivo, e um cuja arte nem era apreciada, para que alguém sentisse pena ou o tentasse proteger. O mais seguro era a reclusão. Assim, com Mônica, essa herdeira de sangue alheio, teria alguém para quem contar suas histórias, que sentisse saudades dele quando partisse, o que poderia acontecer a qualquer momento. Assim passaram os dias, Mônica cuidava da casa e, com o passar dos anos, veio a servir de enfermeira, conforme a decrepitude alcançava o velho Allard. Beatriz levava uma vidinha escolar, típica de cidade pequena, cercada de fofocas sobre a estranha composição de sua família. João escrevia, escrevia apressado as tantas histórias que ele mesmo censurou. Seus manuscritos finalmente saíram do jeito que ele queria que fossem os livros publicados, finalmente podia se orgulhar de sua obra, mesmo oculta. Nada daqueles romances bestas sobre prostitutas de Montparnasse e vagabundagem artística. Escreveu sobre o submundo do qual realmente fez parte, das pessoas que realmente conheceu, das coisas que precisou fazer, da pessoa que realmente foi. Escreveu a sua verdade, em tantos volumes, encaixotados e guardados em um armário. Morreu em 1989. Deixou todas as suas posses para Mônica – por sorte, estava tão esquecido que ninguém protestou – e a instruiu que lesse seus manuscritos e, assim que ela sentisse que era hora, os publicasse.

Quase deu risada quando o tempo revelou à Mônica sua natureza cíclica e Beatriz apareceu grávida. Estava um par de anos mais velha do que quando o mesmo aconteceu com Mônica, mas de qualquer forma, lá estava a menina, em seu útero o feto que se tornaria outra menina, e nenhum homem por perto para se responsabilizar pela concepção – o tal milagre da vida. Beatriz queria abortar. Já tinha um circuito pela Europa programado, não estava preparada para jogar fora seus sonhos. Mônica pensou no velho Allard, quando recebeu a notícia, pensou no que ele faria em seu lugar. Disse que ela poderia fazer como achasse melhor e que ela não julgaria a própria filha por fazer algo que ela mesma pensou fazer quando se viu na mesma situação. Mas, caso Beatriz estivesse disposta a aguardar os nove meses e o parto, Mônica disse que ficaria muito feliz por cuidar da criança, e Beatriz poderia seguir com a vida, fazer o que quisesse.

Seria a última vez que Naima viria rascunhar a avó. Não adiantava mais, o problema não era o ângulo nem a luz nem as cores, era ela. Sua confiança estava abalada. Não se achava uma pintora de verdade. Como alguém se tornava uma pintora de verdade? Era como trabalhar em uma mina explorada até a última pedra. Poderia abstrair o cochilo de Mônica átomo por átomo, encontraria em algum lugar alguma pintura parecida. Seus últimos esforços trafegavam entre Jenny Saville e Lucien Freud, e esses dois já eram comparados o suficiente entre eles.

Como não bastasse, um fotógrafo amigo dela pediu que ela posasse para uma foto que ele estava planejando. Participariam da mesma exposição, que aconteceria em três meses. Ele a chamou para ver o resultado final e, grande surpresa, parecia uma obra da Alyssa Monks. Naima nua, seus cabelos espalhados pelo seu corpo feito galhos de uma árvore fantasmagórica, um fundo borrado com ar florestal, um tanto etéreo. Por trás dos cabelos, seus olhos e seus mamilos eram dois predadores à espreita. Todos que viram a foto, amaram o resultado, Naima inclusive, mas aquilo não era um “Giovanni Martins” – nome do fotógrafo –, era mais uma derivação. E já era hora de admitir que esse apego pela originalidade era um obstáculo. A cada pintura, Naima chegava mais perto de concluir que, hoje em dia, se alguém vira nome, se alguém consegue se tornar um artista de verdade, seja lá o que for isso, é por acidente. E que acidente feliz. Um acidente que permitia a proliferação de Romeros Brittos e Banksys e Jeffs Koons e Damiens Hirsts, esses milionários em nome dos quais críticos queimam milhares de neurônios para justificar a existência e o valor.

Com essa mentalidade, de que nada mais pode ser original, que nomes são farsas e fama é acidente, Naima conseguiu dar como finalizado seu retrato. Nem teve que pintar um novo. Batizou o mais recente – o azulado, que incluía o piano no canto do quadro e mostrava a luz do sol como um holofote ou como uma visita divina sobre o corpo adormecido de Mônica, o que supostamente deixava o observador incerto se a cena se tratava de sono ou morte – de “O Descanso” e pronto. Não tinha mais o que mudar. Podia seguir em frente para seu novo projeto e continuar com seus quadrinhos comerciais, sem medo ou culpa. Até porque, as obras de um artista importavam menos que sua biografia. A veracidade dessa afirmação era menos importante para Naima que o simples andar das carruagens dos artistas contemporâneos. Não havia mais Escolas, Movimentos, Manifestos, apenas Nomes e Investidores. Naima precisava se despir da pressão da obra, não para continuar pintando mas para continuar vivendo. Pintaria o que quisesse por enquanto, contudo precisava trabalhar sua biografia, criar situações para que a sorte, aquela que faz os Nomes, a encontrasse.

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É isso. Comentários são bem-vindos. Seria bom saber se alguém, com esse trecho, ficou curioso de saber do que se trata o resto do livro ou se alguém leria essa história. Mais nada por hoje.

A terceira edição da zine vai sair, mas um pouco atrasada esse mês, e só em versão digital. Mais informações quando eu tiver mais informações – provavelmente no dia que a zine estiver pronta.

Você pode baixar as 2 edições atuais aqui: http://www.mediafire.com/folder/w6kiy9nutpykz/dqc

Gostaram dessa punheta verbal? Me indiquem por aí. É sério, vocês são 7. Se cada um indicar meu trabalho pra 1 pessoa, vocês viram 14, o que pra mim é muito. Vocês gastam tantas horas espalhando merda por aí, espalhem as minhas merdas também, porra.

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Como sempre, uns links:
https://www.youtube.com/watch?v=w5Rkm_dqm7A
https://www.youtube.com/watch?v=oBsHqVO_EKs
Esses são shows, respectivamente, do John Prine e do Jonathan Richman. Tem algo nesses dois que me anima. Os dias estão difíceis. Quem está atento deve estar em algum ponto entre o desânimo e o suicídio, e esses dois artistas ajudam a levantar os espíritos. Talvez porque eles não negam que estamos na merda, mas as músicas tratam sobre achar um resquício de felicidade mesmo na merda, têm um senso de humor beckettiano, sem a insanidade. As histórias do John Prine fazem qualquer um sorrir, e ver o Jonathan Richman dançando faz com que você queira dançar também, mesmo que você não saiba, afinal nem ele sabe. Se tu não quiser ver show, procura qualquer disco deles. Não tem como errar.

Mais divulgações; seguido de A apoteose do chiclete

Como combinado, sempre que uma nova edição da newsletter está pra sair, eu posto a anterior aqui, para os de vocês que se recusam a seguir o que eu escrevo de outra forma. Se me for permitido um último esforço para te fazer mudar de ideia, a edição atual fala um pouco sobre escrita, as dores de cabeça do processo, e o sétimo capítulo da atual versão do meu livro.

https://tinyletter.com/raphaeldias

Esse é o link. Cliquem nele, se inscrevam, entrem na caixa de entrada de vocês e confirmem a inscrição. Não é difícil e é grátis.

Também tem a zine, cuja 3ª edição vai demorar um tempinho pra sair ainda, mas, ei, quase ninguém baixou a 2ª edição, então aproveitem pra fazer isso por aqui:

http://www.mediafire.com/folder/w6kiy9nutpykz/dqc

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Agora ao texto da 2ª newsletter:

A apoteose do chiclete

Estava investigando conexões misteriosas envolvendo a música I think we’re alone now, uma noite dessas. Devo admitir que eu tinha uma quantia talvez excessiva de tetraidrocanabinol na minha corrente sanguínea, mas eu cheguei a conclusões. Qual poderia ser o mistério dessa cançãozinha mais ou menos composta em algum momento da década de 1960, por Ritchie Cordell, então gravada e feita um hit em 1966, pelos esquecidos Tommy James & The Shondells, gravação essa que o crítico (e meu guru pessoal) Lester Bangs denominou “apoteose do chiclete*”? À primeira vista, parece uma música inocente sobre amor entre dois adolescentes, que precisam se esconder dos adultos para dar aqueles pegas. Estranho, saindo da boca de um bando de marmanjo, mas era a década de 1960, ninguém se importava, na verdade, era meio que norma. The Turtles fez o mesmo em Happy Together; Beach Boys, em Wouldn’t it be Nice – embora essas duas últimas envolvam, mais que uns pegas, casamento entre adolescentes… eram tempos estranhos. Isso pode ser perdoado se levarmos em conta que o adolescente estava sendo inventado como consumidor nesse período da história do capitalismo. Mas onde eu estava?, porque eu não vim aqui pra falar disso.

A música não morreu ali. Ela foi revivida em 1977 pelo grupelho pop britânico The Rubinoos, do qual você nunca ouviu falar e nem precisa descobrir agora. E, finalmente, um ano depois, a grande Lene Lovich transformou esse chiclete num new wave bem bacana. Pela primeira vez, essa música fez algum sentido. Deixou de ser sobre um bando de primatas tentando seduzir fãs adolescentes e virou biografia. Que eu saiba, a Leve Lovich conheceu Les Chappell, que se tornou seu guitarrista e parceiro (se eles ainda tão juntos ou se casaram ou sei lá o que, eu não sei, eu não estava lá), quando eles tinham uns 13 anos, então a letra de I think we’re alone now pode ter um significado pessoal pra esses dois. Eu também acho que o fim da década de 1970 e começo dos anos 1980 foi o período em que o rock agonizou.

Existe música boa hoje, inclusive no rock, eu sei, eu não sou assim tão saudosista. Estou falando de originalidade. E o período 1976-84 foi um dos últimos em que bandas originais nasceram. Não falando só do new wave como movimento, mas bandas como The Raincoats, The Slits, The Cure, The Clash, Au Pairs, a própria Leninha, Daniel Johnston, Throbbing Gristle, Psychic TV, Swans (SWANS!!!), entre muitas outras, foram paridas nessa época e, antes delas, não existia nada comparável fora do círculo ao redor delas. Música diferente, inovadora, aconteceu em muitos períodos, mas eu estou falando de uma época de forte industrialização. Os embutidos musicais estavam operando com força. Peter Frampton lotava estágios cantando sobre como ele estava dentro de você, Genesis largou o Peter Gabriel e suas fantasias de flor e adotou o som pop que infectou como doença venérea gente como Yes e Emerson, Lake & Palmer (que já nem eram aquilo tudo quando saudáveis). Nem me deixem começar a falar do rock boneca inflável, Scorpions, Whitesnake e o caminho que eles pavimentaram com ajuda dos clipes e da MTV. O cenário estava desolador e as bandas que eram boas eram realmente fantásticas (algumas ainda são – SWANS, ouça Swans, caralho), mas o resto, credo cruz.

Eu acredito que a música I think we’re alone now e sua resiliência blattodea pode servir de metáfora para esse cenário musical que eu só não chamo de distópico porque é real demais e distopia se tornou matéria-prima de ficção barata. Começou na era bubblegum do rock sessentista, ascendeu ao seu potencial máximo através da voz de Lene Lovich e depois o que aconteceu? Eu achava que Leninha era a versão bizarro da Debbie Harry – uma é morena, a outra loira; uma tem sex appeal fortíssimo, outra tem jeito de bruxa (o que é sexy pra mim, mas não pra todos, eu ouvi dizer…); uma chamava mais atenção pro lado gótico do new wave, outra era mais animada;Heart of Glass fala no erro que é acreditar no amor, Lucky Number fala no erro que é não acreditar no amor; et cetera -, mas não. Pulemos para o aterrorizante ano de 1987 e eis a versão através do espelho de Leninha: Tiffany.

Reparem: uma se tornou famosa em 1978, a outra em 1987 – eu ouvi alguém dizer espelho? Sim, fui eu. Pra quem não sabe (os deuses te abençoem por viver em tão feliz estado de ignorância, embora eu esteja prestes a estourar sua bolha, perdão), Tiffany foi um ícone teen da década de 1980 e uma das músicas mais populares dela, talvez a única, foi uma versão de I think we’re alone now. Por isso eu digo que 1987 foi o começo do fim. Toda a década de 1980, apesar das coisas boas surgidas na época, foi como um liquidificador da autenticidade. Moeu de tal forma a música que a única resposta possível, na década 1990, foi um retorno às origens. Gente como Nirvana e os grunge tentando fazer algo como os punks fizeram no fim de 1970; Brian Jonestown Massacre, Yo La Tengo, The Dandy Warhols, Luna, tentando reviver o psicodélico; mas nada totalmente novo, talvez porque o novo não mais fosse possível. Talvez não seja mais possível. Ou eu posso estar errado e as coisas que eu chamei novas até agora nesse texto nem sejam tão novas assim, o novo em si pode ser ilusório, uma questão de ignorância inevitável devido à impossibilidade de onisciência.

Mas I think we’re alone now não acabou em Tiffany. Não, senhoras e senhores, teve mais. A pá de cau sobre essa sofrida canção caiu em 2006, quando um grupo pop britânico chamado Girls Aloud – mais um Spice Girls do um e noventa e nove – fez uma versão dessa música, e eu estou bem certo que assistir esse clipe é o equivalente a dar uma boa mirada no abismo que separa o ser humano da Grande Iluminação. Não é necessário ritual, nem evocar Choronzon num esforço de destruição do ego, basta assistir àquele absurdo, as cantoras tão intercambiáveis em voz e aparência, o cassino como pano de fundo do clipe, sem nenhuma conexão com a letra da música, o ritmo totalmente deslocado…

o horror … o horror …

Claro, você não vai conseguir atravessar o abismo só vendo esse clipe, mas vai servir para que você pense bem antes de tentar a travessia.

Comecei esse texto incerto se concordava com a escolha de adjetivo do Lester Bangs pra essa cançãozinha medíocre: A Apoteose do Chiclete. Agora acho que ele acertou mais uma vez. A música transcendeu estilos e gerações, foi destruída e reconstruída e destruída de novo. Tem algo de sagrado em sua essência ou de muito profano. Seja lá o que for, é místico.

*Chiclete, por Lester Bangs, era a variação bubblegum do rock, não necessariamente a característica grudenta das músicas pop, mas eu igualei os dois termos na minha tradução do elogio. Achei que combinava.

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Aquilo que eu falei da última vez sobre ler I’ve Been Down So Long That It Looks Like Up To Me, do Richard Fariña ainda não aconteceu. Tô numa fase Henry Miller. Li Black Spring e que livro fantástico. O jeito que ele consegue arrastar o leitor por uma vastidão de imagens e temas sem qualquer conexão é… é… eu nem sei, coisa de santo louco mesmo. Agora comecei Ar de Dylan, do Vila-Matas. Segundo livro que eu leio do espanhol e está muito bom, mas tô só começando.
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Links:
A ascensão e queda de I Think We’re Alone Now:
https://www.youtube.com/watch?v=IkMFLUXTEwM (Tommy James & The Shondells – a origem)
https://www.youtube.com/watch?v=FIxvP–GjPg (The Rubinoos – a repetição)
https://www.youtube.com/watch?v=uJRGdQSvwjU (Lene Lovich – a ascensão)
https://www.youtube.com/watch?v=w6Q3mHyzn78 (Tiffany – a queda)
https://www.youtube.com/watch?v=7vFGKHzY_38 (Weird Al Yankovic – a sátira)
https://www.youtube.com/watch?v=WjpbcsttFyM (Girls Aloud – o abismo)
http://www.keyofz.com/vvoice.htm – “Better Than The Beatles (And DNA, Too) – Lester Bangs, 1981 (God bless The Shaggs.)
https://www.youtube.com/watch?v=0AEVJaiNZIA (Stateless, o disco inteiro da Lene Lovich, porque vocês merecem)
https://www.imdb.com/title/tt0416394/?ref_=fn_al_tt_1
https://www.youtube.com/watch?v=pI5Xhxce2hE (Henry Miller – o monólogo no banheiro, e você chega a conclusão assustadora de que ele meio que escrevia como ele falava)

 

Divulgações, seguido de tragédia no folk cirandeiro

A segunda edição da newsletter vai sair hoje. Você pode se inscrever aqui:

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Tem que confirmar a inscrição depois, via e-mail.

Lancei também a segunda edição da zine, disponível em pdf via esse link:

http://www.mediafire.com/file/c18u332adnnv5ai/dqc_%25232.pdf/file

Como nem todo mundo acha newsletter prática (e não é mesmo), vou postar aqui a primeira edição. Vai ser cópia e cola. Quando uma edição nova for lançada, a anterior vai aparecer aqui. Ou seja, quem é inscrito na newsletter, vai receber os textos antes. Isso é só pro blogue não morrer, pra quem só me acompanha pelo blogue e sente falta da minha presença aqui.

Aqui a primeira edição:

tragédia no folk cirandeiro

tá na hora de começar isso aqui, não é? mesmo vocês sendo tão poucos. quem sabe isso não serve pra mostrar que, sim, eu pretendo mesmo levar a sério esse negócio de newsletter, e isso por si só não acaba por atrair mais gente. por que hoje? porque eu estava com vontade de escrever, mas, ao mesmo tempo, de continuar atrasando o progresso do projeto em que eu realmente deveria estar trabalhando. (espalhem a palavra, por favor. trinta e quatros anos falando merda na internet, estatisticamente, já era pra alguma coisa alcançar a superfície – como faria um cadáver, jogado num lago…)

onde é que eu estava…

finalmente eu tomei vergonha na cara e li outro romance do thomas pynchon. o primeiro foi vício inerente e, admito, não me impressionou. agora the crying of lot 49 (o leilão no lote 49), esse sim serviu pra que eu entendesse porque existem tantos leitores obcecados pela obra dele. mas eu não vim falar dessa leitura nem do pynchon. não vim nem falar da próxima* leitura na fila, que provavelmente será been down so long that it looks like up to me. vim falar do autor desse livro que talvez seja minha próxima leitura, richard fariña.

lá pros anos 1940 (pois é, se faz necessário especificar o 19 antes do 40, ano que vem voltamos aos anos vinte, que tal essa?), em reação ao macarthismo e a ameaça vermelha, gente como big bill broonzy, lead belly woody guthrie, trouxe de volta a música folk estadounidense raiz, aquelas músicas cujas letras ninguém sabe quem compôs, com o mínimo de enfeite possível, de preferência só violão e voz. esse movimento chegou ao auge de sua popularidade na década de 1960, depois do movimento beat e antes da guerra do vietnã, principalmente em greenwich village, nova iorque, onde vários músicos com ideias similares acabaram se esbarrando. esse movimento eu apelido folk cirandeiro – porque, no fim das contas, eles foram a sucursal fofa da contra-cultura esquerdopata estadounidense -, e englobou gente como dave van ronk, carolyn hester, joan baez, bob dylan, phil ochs, karen dalton e o casal mimi e richard farinã.

isso pode ter sido exagero da imprensa da época, mas o que se dizia era que na segunda metade da década de 1960, rivalidades começaram a aparecer nesse grupo, principalmente entre bob dylan e os fariña. eu poderia escrever por dias sobre isso, mas vou me segurar ao tema que deveria ser o foco. se houve alguma rivalidade, provavelmente o motivo é a similaridade entre os dois. embora dylan fosse um mago dos jogos de palavra e seus versos parecessem grandes e belíssimos nós, ele não tinha a qualidade narrativa de mimi e de richard fariña. enquanto dylan já naquela época fosse o mais próximo que o estados unidos já chegou de ter um deus em suas terras, ele era um pé no saco – nem estou falando dele em entrevistas, só que reza a lenda ele era cuzão de igual maneira com seus amigos e colegas de trabalho. os fariña, por outro lado, só uma foto deles pode aquecer o coração de um sujeito. existia uma alegria juvenil no jeito deles. e tanto dylan quanto os fariña compunham suas próprias músicas, ao invés de se privarem às tradições, e logo gravaram músicas elétricas, desafiando as leis folk-cirandeiras.

algumas pessoas dizem que, não fosse a morte prematura de richard, os fariña teriam potencial para tirar dylan de seu trono. nunca saberemos. um dia depois de lançar seu primeiro romance (aquele livro que eu pretendo ler, lembra? é disso que eu tô falando), richard fariña sofreu um acidente de moto e morreu na hora, aos 29 anos. seu livro foi prefaciado pelo thomas pynchon (os dois eram colegas de faculdade) e foi um sucesso na época. até virou um filme que ninguém nunca viu e hoje deve assombrar algum galpão hollywoodiano. jim morrison, inclusive, usou o título do livro num verso de uma de suas músicas. o tempo passou, o tempo passou, a obra dele sumiu. mimi, irmã de joan baez, também sumiu. continuou cantando, mas o folk em geral perdeu força, depois do rock psicodélico. sobreviveram 3 gatos pingados dessa leva.

entre os mortos, feridos e desaparecidos, está karen dalton: a cantora favorita de bob dylan, ele disse alguma vez. dylan elogiou alguém! só isso já é inacreditável. e esse alguém foi karen dalton, então, acreditem, ela foi grande coisa. gravou pouco, mas o suficiente para criar um dos meus discos favoritos, in my own time. ela não compunha músicas próprias, era intérprete, e das boas. sinceramente, o combo cantor/compositor é superestimado. bons eram os tempos em que cada papel era separado e os limites de cada um eram respeitados.

depois do lançamento de in my own time, em 1971, ela foi desaparecendo. dizem que ela era complicada de lidar e o vício em heroína não ajudava. não que isso tenha atrapalhado a carreira de certas pessoas. mas enfim. karen dalton morreu em 1993, por doenças relacionadas a aids, sozinha, num trailer no meio de woodstock, ou foi nas ruas, em woodstock, por conta de uma overdose. já ouvi as duas histórias.

é isso, dois artistas que poderiam ter feito muito mais e não conseguiram, porque é assim mesmo. essas coisas acontecem.

que história, né?

*”próxima leitura” não como a leitura que veio depois de lot 49, e sim depois de do inferno (alan moore / eddie campbell) e distancia de rescate (samanta schweblin), que comecei logo depois de lot 49 e já estou terminando – talvez fale de alan moore na próxima newsletter.

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em respeito à velha-guarda da internet, segue uma lista de links:
https://www.theparisreview.org/blog/2016/04/29/a-maker-of-mirrors/
https://www.theguardian.com/music/2007/mar/23/folk
https://www.youtube.com/watch?v=kx_qF507rlI (o folk cirandeiro foi tão popular que pete seeger teve um programa de tv na década de 1960, e ele é como um bob ross musical. eu sei que o vídeo é longo, mas se você for como eu é possível que você seja hipnotizado pela cirandeiragem.)
https://www.imdb.com/title/tt8695030/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1 (não vi ainda. quero muito ver, apesar das críticas.)
https://www.imdb.com/title/tt7908628/?ref_=nv_sr_1?ref_=nv_sr_1 (melhor série. o filme já é ótimo, acho que a série conseguiu superar.)
https://www.theparisreview.org/blog/2019/05/09/listen-to-hebe-uhart-now-that-shes-gone/
https://www.youtube.com/watch?v=FFAdU9TC3uI
https://www.youtube.com/watch?v=lYiYNg-pwD8 (if there’s a way to say i’m sorry / perhaps i ‘ll stay another evening beside your door / and watch the moon rise inside your window / where jewels are falling, and flowers weeping, and strangers laughing / because you’re grieving that i have gone/… – pura cirandeiragem.)