A banda

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Se você aproximar a imagem, vai ver uma banda tocando ali na frente.

Uma banda toca o blues na praça. Passo direto, estou em horário de almoço. Refeição terminada, morta a fome, discutidas as amenidades do cotidiano com os colegas de trabalho, sigo o caminho de retorno e dessa vez paro pra ouvir a banda, ainda tocando. São cinco. Dois, o do saxofone e o do baixo, tenho a impressão de já ter visto por essas ruas, tocando sozinhos na esperança de uns trocados largados à caixa do instrumento aberta em frente a eles. Improvisam sobre um tema básico de blues, enquanto a cantora aguarda sentada num canteiro e dedilha o celular.

Há um contraste notável entre a aparência maltrapilha dos músicos e a montagem do concerto. Longe de terem os instrumentos e amplificadores mais caros, contudo parecem de qualidade e em bom estado. Também parecem jovens treinados, ao invés de gente de rua, gente que aprendeu sozinha a fazer música com coisas encontradas ou doadas. Até mesmo há, sobre uma estátua da praça, um suporte carregando um celular conectado ao que parece ser uma antena. Posso estar errado, mas acho que prepararam uma transmissão ao vivo, online, como um show de verdade. Estranho o tanto que essas pessoas têm, como o nomadismo ao qual eles se submetiam exigisse um voto de pobreza, ausência de posses e do desejo de possuir. Talvez fosse só uma brincadeira da parte deles. Fossem uma banda excêntrica e só. Escolhem tocar na rua pra mandar à merda o expediente, a carteira assinada, a caixa ar-condicionada. Mas, finado o dia, voltam às suas casas ou casa coletiva, mantida por familiares ou heranças; pelos trocados, nem fodendo.

O improviso instrumental continua e a cantora pega um chapéu e passa entre os ouvintes. Há tempos não ouço uma banda tão boa. Estou dividido entre uma nota de dois e uma de cinco. Não doar faria que eu me sentisse mal, como a falta dessa doação fosse o motivo do futuro fim da carreira deles e, ao mesmo tempo, uma vez feita a doação, eles seriam um sucesso. Decido por cinco, pois me empolguei. Nessa cidade não há banda tão boa, em bar nenhum, dia nenhum da semana. Quero saber o nome, se tocam por aí, se já gravaram discos e se eles estão à venda, se têm show marcado e, senão, estou disposto a me nomear agente deles e marcar quantos shows eles estejam dispostos a fazer. Aceno, quando ela olha ao redor da praça em busca de outros doadores, e largo o dinheiro chapéu adentro.

E disco, já tem?, pergunto, antes de ela ir.

Não, não, isso aqui é só uma brincadeira, cada um de nós veio de um canto, nem todo mundo mora aqui, só um ou outro, aí a gente decidiu se encontrar e tocar um pouco aqui, mas é no improviso mesmo, sem ensaio nem nada.

Nossa, muito bom. Improviso? Não parece, digo, mas não é o que eu quero dizer. O que eu quero dizer, mas a essa altura ela já tinha agradecido, me dado um toque amigável no ombro e voltado ao canteiro onde estava sentada, é que, embora não tivessem praticado juntos, o conjunto tocava naturalmente e isso se refletia no som, como houvesse intimidade entre os músicos, mesmo se tratando de improviso; na verdade, é o melhor tipo de improviso, não o que soa perfeito e ensaiado mas o que soa natural mesmo sem ensaio.

Começou outra música. Um blues arrastado e hipnótico. A voz da cantora faz pensar em Janis Joplin, mas não é uma imitação. Meu ouvido obsoleto aloca o timbre dela em algum canto à direita de Candy Givens, essa sim grande imitadora de Joplin, do Zephyr, primeira banda do maltratado Tommy Bolin, filho esquecido do período em que a era de ouro do rock ‘n’ roll começou a perder o brilho. Menos extridência e tristeza na voz dela, mais suavidade e sensualidade, esta última ajudada pelo ritmo e pelo clima transmitido pela banda, aquela atmosfera perdida nos anos das comunidades hippies. Cada membro tem sua personalidade – lógico, presumida por aquele que narra. O saxofonista e sua barriga e vestes comuns parece o mais inserido em um cotidiano. Não ficaria surpreso se o visse sair de um escritório qualquer ou vendendo instrumentos numa loja de música. Era comum vê-lo tocar naquela rua, sozinho, enquanto uma caixa de som reproduzia ao fundo algum clássico do jazz. Ele improvisava dentro da música, se inserindo no passado, ao lado de Dave Brubeck, Bill Evans, Herbie Hancock e tantos outros, mortos e não, com suas bandas. O baterista, ali isolado no fundo, quase não o posso ver bem o bastante para inventar a ele uma personalidade. A própria condição do baterista, o cara sentado no fundo, que não pode se desconcentrar por completo ou a locomotiva descarrilha, favorece esse isolamento. Além do mais, ouvi dizerem que é estrangeiro. Do Chile ou da Argentina. Mas mochilando com uma bateria? Vai saber o que não fazem esses caras. Enfim, se for verdade, mais isolado ainda. O guitarrista veste um colete e calças curtas feitas, parece, do mesmo tecido, sapatos longos e curvados como de um gênio da lâmpada, e cultivava uma juba crespa cortada à cuia. Sujeito excêntrico, o provável porra-louca do grupo. Aquele que não seduz as multidões nem atrai pelo talento, mas defenestra a televisão do quarto do hotel. O baixista seria um astro se estes fossem os anos 1970. Cabelão e barba, calça jeans velha vestida à vácuo, um colete parecido com o do outro cara, só que, debaixo dele, uma camiseta do setor infantil de uma loja qualquer. Sua aparência pode ser notada em fotos tiradas entre os anos 1963 e 1974, levando a crer que se trata de um viajante no tempo. Ele é outro que pode ser visto tocando, por essas mesmas ruas, um violoncelo, sozinho – com acompanhamento musical de uma caixa de som – ou com outras bandas de rua, provavelmente formadas na hora. Quanto à cantora, pode ser uma ex-colega de sala de qualquer um ou um ser de outro planeta; dinamite, gasolina e fogo, guardados em envólucro frágil de aparência e prestes a arrebentar e te pegar na explosão. Veste uma camisa de banda desconhecida, jeans pretas justas, manchadas de pó branco do canteiro no qual ela sentava ainda há pouco. Quando os instrumentistas se atiram em seus rocamboles de som, ela dança como ninguém olhasse. Ou talvez ela perceba os homens de meia-idade, em intervalo da firma, em camisas-sociais salmão, verde-claro, lilás, fazendo seus comentários patéticos e incremente a dança, certa de que isso vai aumentar sua gorjeta.

(Em casa, revisarei a foto que tirei da apresentação após descrever os músicos e me darei conta dos erros. Farei questão de manter as confusões da memória, pois a imagem me veio daquela forma por algum motivo. Vi os músicos vestidos conforme a descrição na minha imagem mental. Fica aí o argumento sobre as linhas divisórias entre não-ficção, ficção, memória. Tantas coisas imaginei de certa forma apesar da verdade. Tantas coisas nos lembramos e reproduzimos e repetimos e repetimos, tudo sujeito a acidentes desse tipo. Acreditarei que isso significará alguma coisa e escreverei um parágrafo dedicado a isso. Este mesmo.)

Enquanto isso, eu invejo a música como forma de expressão artística. Acontece toda vez que vejo um show bem feito, durante o qual todos os músicos se entendem e se divertem, e o público está desarmado e se deixa conectar e levar pela música. Logo passa. Normalmente, assim que começo a escrever. O desgosto que seria ter de lidar com outra pessoa nesse momento. Então, durante o ato da escrita, tudo está bem, eu me sinto sob controle da situação – um exercício de autoengano, mas o que vale é o que se percebe, a realidade é um detalhe. A inveja vem depois. O texto pronto, guardado num arquivo ou num caderno, sem ter pra onde ir. Sem público nem reconhecimento. Meu ego enorme sofre na obscuridade. E se eu vou à praça gritar meus poemas… Eu não faria isso, não vale a pena considerar a possibilidade. Mas quero evitar reciclagens sobre a solidão da escrita. O que chamou minha atenção dessa vez foi a questão da personalidade. O palco permite a amostragem imediata da arte, acompanhada da cara do artista. talvez a vontade de representar num palco a personalidade do indivíduo não seja compreensível para todos. Uma forma fácil de explicar é apontando para o ego do artista. O ser humano dedicado a dar forma à sua criatividade pra mostrar ao público, como se esta levasse consigo grande significado e importância, é nada senão egocêntrico – a exemplo do cronista, que faz um texto supostamente sobre uma banda a tocar numa praça, mas não para de falar de si. O egocêntrico, ao notar que a arte à qual ele se dedica não garante aplausos, repensa suas decisões; e o egocentrismo é fator essencial do artista. Como ninguém aplaude livros, e mesmo que um louco sozinho num quarto os aplaudisse, ninguém ouviria fora as vozes habitantes da cabeça deste leitor peculiar, algo tem de compensar por essa falta. Os autores que recebem a chance de aparecer são raros e os que quando aparecem são recebidos são mais raros ainda. Mas a demonstração pública de afeto a um artista proveniente de um show de rock, mesmo os de praça, não se compara em nenhum aspecto ao afeto de uma palestrinha de autor famoso.

É até irônico que esses autores que reúnem grande público em volta de si mesmos, não só da obra, sejam comparados a estrelas da música. E normalmente há algo de extraordinário na vida deles, ofuscando até a obra, por vezes. O norueguês que se tornou ídolo por botar em livro cada um de seus passos e pensamentos, Karl Ove Knausgaard é exemplo. Outro, mais icônico, meu chegado, Roberto Bolaño, o chileno loucaço que morreu aos 50, após décadas de vagabundagem poética. Há quem diga que ele chegou a incluir em sua biografia um vício fictício em heroína (não se sabe e a verdade nunca vem ao caso, repetirei). Porra, até Rimbaud e Byron são tachados retrospectivamente de rock stars. E vale incluir nessa lista Patti Smith, a grandiosa poeta punk, que começou a carreira na literatura, mas foi atraída pelo palco.

O que me consola são as frases de certos autores em elogio ao isolamento. Em especial quando se referem à obra e o quanto a personalidade do autor não importa, tudo deve girar em torno à e estar inserido na obra. É quase religioso, de certa forma. Fundamentalista até: quem escreve não é nada; as palavras, tudo. Mas, ora, quando nada pode ser dito sobre a tal obra, ninguém a leu ou vai ler, pra onde vai o autor? O que se torna a pessoa quando ela se insere por completo em algo que, por todas as definições práticas, não existe? É natural, ao momento em que uma fonte de satisfação deixa de satisfazer por um lado, se busque o mesmo resultado por outra via. Resumindo em fórmula tosca: ego é a arte, arte é a satisfação; satisfação deixa de ser a arte, ego é a satisfação e arte é posta de lado ou alterada de alguma maneira – vide autores que passam mais tempo cultivando suas personas que a escrita, seja a melhorando ou de fato escrevendo. Logo, invejo, pois minha escrita não satisfaz no momento, tornando aplausos, um palco, uma personalidade espalhafatosa, um tanto atraente. Convenhamos, não é sem motivo que autores incluem blogues e perfis de redes sociais em suas minibiografias, nas orelhas dos livros e nos rodapés das colunas dos sites em que publicam. Não vem de hoje, antes era o número do telefone, vide Richard Brautigan.

Após o guitarrista cantar Superstitious e junto a banda vir com um improviso interminável, toca os primeiros acordes de uma canção do Led Zeppelin, instantaneamente reconhecidos e aprovados pelo público. A cantora e o baixista, agora mais que nunca, exsudam energia sexual de seus ancestrais, fantasmas trazidos de volta das profundezas das catacumbas de falso misticismo do rock, e seus tomos de mágicka arcaica. Essa banda, que não se diz banda, é a melhor que já ouvi tocar nessa cidade. A mais sincera, pelo menos. Sem as ancoras do ensaio excessivo e a limpeza exigida pelos falsos pubs ocupados pelos molecotes de classe média alta.

Seriam esses obstáculos autoimpostos combustível pra esses músicos? Se atirar no absoluto desperta algum talento? Ou estaria correto Flaubert e de fato é esterilizante o trabalho? Imagino, sem qualquer fundamento, que, não tendo a certeza de um teto e um prato de comida amanhã, me forçaria a escrever algo que prestasse ou, melhor dizendo, me pagasse. Seguirei a voz que me sugere aos sussurros ao pé do ouvido a dar o pulo? Não.

O guitarrista passa outra vez com o chapéu, mas já atravessei a rua e sigo de volta ao escritório. É permitido ruminar inconsequentemente. Nem tudo é epifania, nem tudo muda vidas. Sigo a luz do outro farol que me consola, o que diz que a melhor arte é a inútil. A que é apenas por ser. A minha, se assim a posso chamar, não serve pra nada, repito mentalmente, cheio de orgulho, feito um mantra, enquanto sobe o elevador.

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Único e universal; sobre I Remember, Joe Brainard [1970-1973]

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Às vezes as pessoas me perguntam como eu cheguei a descobrir certos autores. É um trabalho de curiosidade. Eu leio um livro e, se ele me pega pra valer, vou atrás de outros do mesmo autor, de contemporâneos do autor, gente influenciada pelo autor, seu contexto temporal, se fez parte de alguma “escola literária” ou signatário de algum manifesto etc. Isso faz que cada livro tenha uma história. Esse é o caso do Joe Brainard, descoberto numa época em que estava interessado no que há abaixo da superfície da geração beat, aqueles que não se tornaram ícones ou não se entregaram por completo ao movimento. Achei Ron Padgett, Ted Berrigan, Anne Waldman, Diane di Prima, Robert Creeley, Amiri Baraka, Eileen Myles, Kenneth Koch, entre tantos outros (um pouco da geração beat, um pouco da segunda geração da escola de Nova Iorque…), inclusive Joe Brainard. Uns eu li, outros não, mas uma vez que se conhece um nome, ele continua aparecendo nas coisas, de novo e de novo, até você se render.

Como muitos dos seus contemporâneos, Joe Brainard foi um experimentalista. A obra dele tem algo de poesia, algo de memória, colagens, pinturas. Suas obras tentam resistir uma classificação. Ted Berrigan, por exemplo, escrevia sonetos reciclando versos, trocando as ordens em cada um, cortando e colando e criando, com a mesma matéria, dezenas de poemas diferentes, quase uma função matemática. Ron Padgett pegou um romance de banca e reeditou, criando, com a mesma coisa, outra obra. Eram brincadeiras. Uma forma de encontrar algo mais na literatura, quando só botar uma frase atrás da outra não basta. Joe Brainard brincava com quadrinhos e tirinhas, misturava objetos encontrados na rua com desenhos e pinturas próprias. Por exemplo, as tirinhasda Nancy, por Ernie Bushmiller, serviram de inspiração para uma série de desenhos envolvendo a personagem.

Dessa busca por algo novo, surgiu I remember (Eu me lembro), uma série de livros autobiográficos, formados de frases começando com “Eu me lembro…”. Foram lançados quatro livros, entre 1970 e 1973, com uma edição corrigida e em volume único lançada em 1975 – a reedição atual desse volume único foi a que eu li. A premissa não podia ser mais simples. De certa forma, o resultado também não. Mas a forma como essas memórias íntimas acabam se mesclando com a do leitor ou tocando em pontos tão pessoas que geram constrangimento e, ao mesmo tempo, admiração pela coragem do autor, fazem o livro totalmente original. Hoje existem vários como ele, inclusive a homenagem por Georges Perec, chamada, também, Eu me lembro (Je me souviens, no original).

Cada memória, lançada na página de maneira avulsa, sem narrativa que as conecte, traz outra, que traz outra, numa espécie de livre associação. Às vezes lembra até uma consulta psicológica. Memórias da infância, da escola, memórias recentes… Trata de autodescoberta, da descoberta da sexualidade (como fator humano em si e de sua própria) e da identidade (não só sexual, mas artística e pessoal, nem sempre chegando a uma conclusão, porque talvez não haja uma conclusão). Entre lembranças densas e pessoais, se encontram piadas, jogos de palavras, recordações de brincadeiras infantis, das coisas de sua terra natal (Tulsa), coisas que fazem parte da vida de todos. No entanto, até nos momentos íntimos, em que o autor se abre para o leitor, um pouco de identificação é inevitável. Seja a lembrança de ir ao bar buscando companhia certa noite e só encontrando rejeição, seja o jeito que um filme fez o autor se sentir (você pode não ter visto o filme, mas provavelmente reagiu assim por causa de um outro, ou, se não por um filme, por qualquer outra experiência similar).

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“Eu me lembro do primeiro desenho que lembro de ter feito. Foi de uma noiva com uma cauda muito longa.

“Eu me lembro do meu primeiro cigarro. Foi um Kent. No alto de um morro. Em Tulsa, Oklahoma. Com Ron Padgett.

“Eu me lembro das minhas primeiras ereções. Eu pensava ter pego uma doença terrível ou coisa assim.

“Eu me lembro da única vez que vi minha mãe chorar. Eu estava comendo torta de damasco.

“Eu me lembro do quanto eu chorei vendo Ao Sul do Pacífico (o filme) três vezes.

“Eu me lembro quão bom um copo d’água pode ser logo após uma taça de sorvete.

“Eu me lembro de quando eu ganhei uma medalha de cinco anos por não ter perdido uma única manhã na Escola Dominical por cinco anos. (Metodista.)

“Eu me lembro de quando eu fui a uma festa de “venha como sua pessoa favorita” como Marilyn Monroe.

“Eu me lembro de uma das primeiras coisas de que me lembro. Uma caixa-de-gelo. (Ao invés de uma geladeira.)

‘Eu me lembro de margarina branca num saco plástico. E um pacotinho de pó laranja. Você punha o pó laranja no saco com a margarina e espremia ele todo até a margarina ficasse amarela.

“Eu me lembro do quanto eu costumava gaguejar.

“Eu me lembro do quanto, no colegial, eu queria ser bonito e popular.

“E me lembro quando, no colegial, se você vestisse verde e amarelo numa quinta isso queria dizer que você era bicha.

“Eu me lembro de quando, no colegial, eu costumava botar uma meia na minha cueca.

“Eu me lembro de quando eu decidi virar padre. Eu não me lembro de quando eu decidi não o ser.

“Eu me lembro da primeira vez que eu vi televisão. Lucille Ball estava fazendo aulas de balé.

“Eu me lembro do dia que John Kennedy foi morto.”

O formato repetitivo e de certa forma ingênuo, foi inspirado no estilo de Gertrude Stein e Andy Warhol. A ideia de ingenuidade, contudo, é esquecida quando se percebe o ritmo de cada frase, como cada uma carrega uma poética claramente proposital e construída. O estilo de “Eu me lembro” expõe tão bem as características básicas da linguagem poética e tão simplesmente, que Kenneth Koch o adotou nas suas famosas aulas de poesia pra crianças. Até hoje, “Eu me lembro” é usado como exercício criativo. E funciona, principalmente porque ele tenta o leitor a fuçar suas próprias memórias. Mais que isso, ele traz à tona as lembranças do leitor. É natural que um leitor já inclinado à exploração criativa se deixe levar por essa tentação e crie seus próprios “Eu me lembro”.

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De fato anotar essas lembranças e, principalmente, as expor em qualquer meio, por outro lado, requer muita coragem. É isso que faz do livro especial e duradouro. Joe Brainard se abre sem medo, vira um amigo do leitor, contando seus segredos e histórias íntimas. Qualquer um consegue, uns com mais facilidade que outros, montar sequências de lembranças em frases de estrutura parecida. A arte está em fazer uso dessas lembranças para, quem sabe, fazer um estranho se sentir menos solitário no mundo (provavelmente “Eu me lembro” fez isso com inúmeros leitores, talvez todos), mostrar ao leitor um ponto de vista diferente da realidade. Não seria isso a literatura?

o que os sonhos querem dizer

todo sonho tem um significado, sem exceção,
você insistiu comigo certo dia e eu ironizei.
é profético, tem a ver com o inconsciente,
é como o cérebro nos alertasse
de algo que sabemos mas não nos damos conta,
aí entra o papel do sonho, ele vem
e nos confunde, igual alguém que nos
sacode os ombros por algum motivo,
sem nos dizer qual ele é.

então está bem, vamos lá,
tive uns interessantes e quero
por à prova essa história.
então me diz

(e eu sei o saco que é
ouvir sonhos dos outros.
você que pediu. eu ia
deixar isso em paz,
já tava até esquecendo...)

então me diz:

certa noite, sonhei que estava na cama.
pois é, dormia e me sonhava insone,
mas não é só isso, pois, no sonho,
chovia uma verdadeira tempestade de raios.
por isso eu sabia que era sonho.
enquanto isso, no entorno,
houve uma queda de energia na minha rua.
não no sonho, no real.
suava na cama do real, num limbo de orfeu,
o ventilador sem energia parado
assistindo meu estado sem poder fazer nada,
não que ele quisesse fazer alguma coisa
ou tivesse vontade própria.
agora analisa isso, grande xamã:
um trovão ribombou
com tamanha fúria, o raio que o emitiu
atravessou minha janela e acertou
meu ventilador e o ventilador direcionou o raio
em cheio na minha cabeça dormente.
pude sentir meus corpos se debatendo
em ambos os planos.
quis acordar, não tive forças.
tive a impressão de abrir os olhos
e olhar pras minhas mãos, que reagiam
igual personagem de desenho animado
eletrocutado e agonizante, esqueleto visível e tudo.

foi isso.
um deles.
e aí?, estou esperando.
enquanto você procura no google
sonho   raio    significado
te conto outro, escuta só:

(perdi toda e qualquer noção de piedade
para com o ouvinte e ainda te culpo por isso.)

sobre o escritório em que trabalho -
e nem me venha com metáforas
sobre ambiente sufocante, cansaço,
pressões do capitalismo tardio
ou o que seja.
já estou farto disso.
estávamos organizados como fosse
uma hierarquia greco-romana, algo do tipo,
vestindo togas e levando muito a sério
a noção de classes sociais.
só zeus sabe o que aconteceu depois
ou no meio da bagunça,
mas, em determinado momento, uma funcionária
que antes chorava o sumiço do seu cão de estimação
o encontrou morto, carcaça abocanhada por ratos,
em frente a uma cúpula que guardava em si
um castelo, e ela não chorou por isso.
sua voz era triste, quase desesperada,
no entanto, a expressão no rosto trazia apatia
típica dos sonhos.

achou alguma coisa aí?
não?
pois é, depois disso
que eu me lembre
acordei.
mais nada.

 

Não bastasse, agora no instagram

Este blogue se inseriu em mais uma rede, pois é. Ninguém pediu, mas fui pra lá. Agora não falta nada. Se quiser ver umas fotos que podem ou não ter algo a ver com o conteúdo do blogue, me sigam no instagram. Isso mesmo, no istagrão…? estragão? estragon? Pensando num apelido ainda.

https://www.instagram.com/oulipombo/

Pra quem também segue no passaralho (vulgo, twitter) e quer saber qual é a do pombo, tem uma história. Estava eu num café/bar/restaurante em Boi nos Ares, tomando uma cerveja ao meio-dia. A viagem prestes a acabar, esperando um contato extraterrestre. Pousa na minha mesa um pombo e fica me encarando. Uma verdadeira personalidade, a ave.

 

Como o pombo fosse a cara de Georges Perec,

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                                                                                            atendo pelo nome Pigeorges Perec no passaralho e oulipombo no estragão. Pronto. Que história, Mark!

Então, saibam, o pombo é o mascote do blogue como Joan Didion é nossa santa vovó.

Acho que era isso hoje. Deve ter um jeito de botar ali do lado um link permanente pra conta no estragão, já vi gente com isso. Um dia eu aprendo, aí vai aparecer lá, junto do passaralho e do fuçalivro. Falta alguma rede pra eu cair? Lembram dos tempos que eu costumava resistir a essas bobagens. Ainda resisto, mas quantas vezes já me rendi, hem? A vida é isso, uma contínua rendição. Logo apareço com um canal no seutoba – sim, tenho um apelido pra todas as redes. Logo posto uns memes engraçados. Logo posto umas poetarias motivacionais com desenhos e fontes extravagantes e trocadilhos surrados e rimas daquelas que causam mal-estar (amor/dor/por favor/pelamor/catador/falador/morador (sabe, mora-dor, onde mora a dor, entendeu? entendeu?? entednue?!?! NOSSA OLHA PRA MIM EU SOU UM ARTÍFICE DAS LETRAS CUIDADO JOYCE EU TÔ CHEGANDO!!!

Perdão.

Aos poucos vão aparecendo fotos por lá. Aos poucos eu morro por dentro. Venha comigo se aproximar da morte, um dia por vez, vamos juntos.

Mais 2 livros da Joan Didion e uma correção

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Foto surrupiada do nosso senhor google das fontes perdidas. Não é minha, tampouco é da fonte. Na minha opinião, a foto pertence ao divino sobre nossas cabeças, aquele que nos julga e condena.

Nomeio agora Joan Didion a avó espiritual desse blogue, ela querendo ou não. Se eu montasse um hall da fama do Delirium Scribens, ela teria de figurar nele se não só pelo número de menções. Em 2016, escrevi isto, sugerindo os dois livros dela que então tinha lido. Li mais dois e vou repetir o ato. Este é um blogue, afinal, que preza suas tradições e ícones. Se eu ler mais dois – eventualmente eu vou -, farei outro igual, tantas vezes for necessário até a mensagem se fixar na mente dos leitores prováveis e improváveis.

The White Album (1979) 

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Uma coleção de ensaios escritos e publicados em variadas revistas ao longo da década de 1970 e sobre a década de 1970. Na primeira postagem falei de Slouching Towards Bethlehem, enquanto este era um retrato do fim da revolução, The White Album é uma reação às suas consequências. Joan, agora uma jornalista reconhecida, com família constituída, presente nos círculos literários e roteirista de Hollywood, fala do mundo que a cerca. O ensaio que intitula o livro trata dos assassinatos de Charles Manson. Não é uma peça de jornalismo investigativo, é uma reação ao horror. Ela entrevistou uma das participantes/vítimas do culto. Uma garota jovem como tantas, como a filha de Didion viria a se tornar. Ela escreve sobre os assassinatos pelo ponto de vista de uma vizinha, uma opção de vítima. Ela vivia naquela vizinha, os membros do culto passaram em frente à casa dela na mesma noite dos assassinatos. O pânico do que poderia ter sido rege o tom da narrativa. E esse pânico se mantém em outros ensaios. Didion fala de seu colapso nervoso, de fugir para uma região isolada do litoral com o marido e a filha num esforço por salvar seu casamento, fala de cinema, da experiência de ser roteirista de Hollywood e de ter seu livro mal adaptado pro cinema, e música, principalmente The Doors, banda com a qual ela conviveu durante gravações. A coleção, como sua predecessora (Slouching…), é dividida entre retratos da época, exames culturais e textos pessoais – inclusive passagens que lembram diários e uma transcrição do diagnóstico psicológico dado a Joan nesse período no qual os ensaios foram escritos. The White Album é mais que um retrato de uma década, é uma cirurgia, as vísceras são expostas e cutucadas. Por isso um leitor atual, mesmo que sinta a distância temporal, pode se identificar, em parte por ter sido uma época tão marcante e pelas sensações descritas permanecerem e serem identificáveis em nossa época. Sem falar da qualidade do texto. Joan Didion é uma pugilista literária. A figura pequena e frágil dela esconde um soco na boca do estômago a cada frase e vai te derrubar por nocaute em quase todos os ensaios, principalmente os pessoais.

The Year of Magical Thinking [O Ano do Pensamento Mágico] (2006)

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O livro que tornou Joan Didion uma autora reconhecida e premiada em tempos recentes, já que a maior parte da obra reconhecível dela tá presa às décadas de 60 e 70. Foi, talvez, o ensaio que mostrou ao mundo que a idade não fez ela perder a força. O grande choque veio do fato de o livro ser sobre o período de luto da autora. Pra quem não sabe, a filha dela teve, no começo da década passada se não me engano, uma série de problemas graves de saúde – descritas com riqueza de detalhes no livro. Na noite em que ela e o marido voltavam de uma visita no hospital, o marido, também autor John Gregory Dunne, teve um ataque cardíaco e morreu. Então Didion descreve o processo. Como foi lidar com a morte da pessoa com quem ela dividiu tudo por anos e anos. Talvez um dos textos mais emocionantes que eu já tenha lido, contudo ele não tem nada de sentimental. Por vezes, e esse é o forte do livro, já que ninguém quer ler duzentas páginas de autopiedade – foco parcial do ensaio -, a linguagem é distante, típica da utilizada por jornalistas ao tratarem de seus temas. O luto da autora era isso, seu tema, nada mais. Ela cita os muitos textos médicos e psicológicos que ela leu sobre luto, morte, doenças cardíacas e respiratórias (o respiratório foi o que afetou a filha dela, que morreu pouco tempo depois dos acontecimentos descritos em O Ano do Pensamento Mágico), menciona a falta de textos de não-ficção sobre luto e o tabu da morte – temas bem mais presentes na ficção, inclusive de seu marido, detalhe que ela só percebeu depois dos acontecidos. Esse foi um dos melhores livros que eu já li. Só posso indicar, pedir que o leitor dê a si mesmo essa experiência. Não é fácil, na verdade é desconcertante. O leitor é forçado a encarar sua própria mortalidade e a de seus entes queridos, esse é o efeito que o distanciamento da linguagem traz, fica fácil se botar no lugar da narradora (potencializado pela veracidade da história). Aos poucos, o ensaio vai do relato de uma autora, já de certa idade, lidando com a morte do parceiro e a possível morte da própria filha, lidando com a possibilidade de ter que passar a velhice sozinha, até a realização de que a vida é isso, ela contém em si esse risco, e esses acontecimentos da vida de Didion, mesmo raros, não são exclusivos a ela.

***

A correção 

A postagem anterior a esta foi da série Observações Aleatórias. Aconteceu de eu ter esquecido meu projeto de incluir, em ordem alfabética, uma indicação musical. Então vim corrigir essa falta. Estava na letra D, nada mais apropriado que o disco da vez seja L.A. Woman, do The Doors. A banda foi tema de um dos ensaios de Joan Didion, mas também representa a decadência da transição da década de 60 pra 70. Estou longe de ser fã dos misticismos e poetarias do Jim Morrison, na verdade acho datados pra caralho, mas não posso negar a qualidade da música, não como poesia mas como rock ‘n’ roll – também datado, do pianinho de cabaré ao blues psicodélico arrastado. Mesmo nos seus momentos mais pretensiosos – e cristodocéu como tem pretensão… – o disco funciona. Pronto, tá aí, apesar dos pesares, The Doors funciona. Não posso dizer mais nada.

Trabalho, carreira, psicologia, ressaca (OA #13)

1 – Sem entrar em detalhes, esse ano começou com uma mudança na minha vida profissional. Antes era possível só chegar no escritório de manhã e sair no fim da tarde. De vez em quando, podia até escrever por uns minutos, seja coisas do blogue ou notas para um texto durante o expediente. Agora não dá. Digamos que cheguei num ponto em que um certo grau de compromisso se fez necessário. Além disso, vou ter que viajar algumas vezes esse ano. Isso tudo é pra dizer: terei menos tempo esse ano pro blogue, ou assim parece. Menos tempo pro blogue quer dizer menos tempo pra escrita, logo uso o tempo para outros textos, ao invés de postagens. A ironia dessa história é vou fazer exatamente aquilo que dizia ser meu objetivo quando comecei a faculdade. Passaram os anos e não sou mais aquela pessoa. Embora eu esteja empolgado pras novidades e não possa de forma alguma reclamar da minha situação, não é o que eu quero fazer, é só o que paga minhas contas – a escrita nunca me comprou um sanduíche.

Gostava de não precisar me comprometer muito com o trabalho, isso me permitia uma dedicação maior para o outro trabalho, a escrita. Por outro lado, vou, por enquanto, considerar o lado positivo e acreditar que a experiência pode servir de combustível pros textos. Novos relatos de viagem são garantia. E, fora a ausência no blogue – que não é novidade -, as novas funções não têm atrapalhado tanto assim. Eu atrapalho a mim mesmo com mais frequência. Mas mudanças de tal proporção me fazem querer fugir. Há anos a ideia de fugir me atrai, ridícula e impraticável que seja. Fugir como? Fugir pra onde? Fazer o que depois, fugir da fuga?

2 – Outra coisa em que penso há anos é procurar um psicólogo. Só pra saber se tá tudo em ordem ou, melhor dizendo, identificar o que há de errado. Não faço por medo de um diagnóstico. A dúvida tem um quê de liberdade. Não sei o que eu tenho, logo pode ser qualquer coisa ou nada. Claro, se tenho algo, grave não é, pois aqui estou eu divagando sobre ir ou não ir ao psicólogo, tendo um emprego, um teto, uma rotina et cetera. Se fosse grave, seria óbvio. Ou posso estar errado. Na verdade esse é outra argumento que a voz contrária na minha minha cabeça usa, eu tenho esse jeito de ruminar a mim mesmo a ponto de ser capaz de chegar no psicólogo tentando adivinhar os julgamentos dele, só por estar certo de já ter chegado neles em algum momento da vida. Outro argumento contra é o medo de que uma mente na medida do possível balanceada corte o acesso à fonte de combustível que alimenta esse meu lado criativo, por assim dizer. Teria de ser o contrário, eu sei. Se tem algo de errado comigo, é isso o que me atrapalha e me impede de trabalhar com vontade e ordem.

3 – Desde o ano retrasado minhas ressacas estão monstruosas. Antes não iam além de uma dor de cabeça e um leve mal-estar resolvido prontamente com doses cavalares de água. Hoje a ressaca é uma derrota mental e física. Sair da cama é um desafio, embora eu não consiga dormir (depois do sono da bebida, que não é bem sono). Então vem essa sensação terrível de que algo aconteceu, mesmo que não tenha, mesmo que eu me lembre de tudo da noite anterior, algo aconteceu e foi minha responsabilidade e assim que eu voltar a vida real esse acontecimento vai foder comigo. Então eu me torturo por horas e horas, parado num quarto, tentando beber água e comer, mas isso não alivia a sensação. Alivia, um pouco, a dor física, as dores de cabeça e no corpo. A parte mental se mantém firme e forte e bagunça inclusive a noite de sono do dia seguinte. Sim, são quase onze horas da noite e estou escrevendo isso por não conseguir dormir. Fico pensando na noite anterior e no que as pessoas comigo podem dizer, penso no seja lá o que foi que eu fiz – que na verdade é nada e ninguém tem nada a me dizer, eu sei disso e não importa.

Estou considerando reduzir drasticamente meu consumo de álcool. Não passar de uma ou duas cervejas, no máximo três. Uísques, vinhos, se consumidos, não passando de uma ou duas doses, seguidas de água. Não por saúde, não por questões de comportamento. É medo da ressaca.

Nicotina virou minha droga favorita. Não tem ressaca, os efeitos passam rápido. Claro, moderação é tudo. Nunca vou além de um cachimbo em dias de semana, dois ou três no sábado, um charuto no domingo. Considerando os hábitos de Thomas Mann de doze cigarros e dois charutos por dia, sou quase um monge. O álcool me maltrata.

Vou tentar dormir agora. A semana vai vir como se nada tivesse acontecido. Nada aconteceu.

Na quinta choveu – parte 2.3 (diário de viagem #14)

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Na quinta, choveu – 2 – Tarde, San Telmo (parte 3)

O Museu de Arte Contemporânea está logo ao lado. Passo em frente. Ter que deixar minhas coisas em um lugar outra vez e pagar entrada e andar por salas imensas me desanima. Quem sabe outro dia volte pra esses lados, num dia que não esteja chovendo. Minhas pernas já doem um pouco, levando em conta as poucas horas de sono, as voltas pelos aeroportos anteontem, mais a caminhada de quase uma hora que encerrou a noite. Sigo o caminho reverso da minha vinda até encontrar um restaurante simpático de esquina, destes frequentados por idosos saudosistas cheios de memórias de refeições passadas naquele mesmo lugar, da amizade íntima com o garçom e com a mobília, que sabem o cardápio de cor e salteado, já provaram cada prato e hoje comem sempre a mesma coisa, o predileto, o de sempre. Assim que passei pela porta, me senti indesejado. Sento a uma das mesas e aguardo receber o cardápio, o que acontece rápido, apesar do garçom ter me dado a impressão de que preferiria que eu fizesse o pedido sem olhar. Calculo mentalmente – e errado – a conversão dos preços e me decido pela milanesa com batatas fritas, mais pela tradição que qualquer coisa, quero me infiltrar. Claro, ninguém ao meu redor pediu isso. Apenas turistas vão atrás dos tais pratos típicos. O garçom vem com uma cesta de pães e eu digo que não precisa. Ele insiste e eu continuo recusando por ter visto no cardápio que não é de graça. Acabo de ganhar a antipatia do homem, capto na expressão dele o exato momento do câmbio do neutro pro negativo de sua percepção sobre mim. Como o bife, que é do tamanho do prato, e as batatas sob e ao redor dele. A falta de sal e tempero na culinária argentina, alvos de tanta reclamação brasileira, não me incomoda. Temo estar perdendo o paladar com o passar dos anos. Uma mistura do efeito solvente dos álcoois e do calor do tabaco na língua, aos poucos a percepção do sutil se esvai. (Quanto exagero!) A refeição é agradável o suficiente. A presença dos locais me constrange e me sinto um invasor e peço a conta quase sem dar um tempo após o último gole da água que pedi pra acompanhar o prato, quando deveria ter pedido uma cerveja ou um vinho. É nessas horas que deveria revidar zerando a gorjeta. Nunca faço, sei lá eu por quê. É um ciclo: turistas deixam de dar gorjeta, garçom pega bronca de turistas, garçom trata mal turistas, turistas deixam de dar gorjeta. O que veio primeiro? Normalmente daria vantagem ao garçom, mas Buenos Aires quer te convencer do contrário a cada restaurante. Salvo no Café Oso, aquele garçom foi simpático. E a garçonete no bar de ontem à noite, que aceitou trocar a música quando eu pedi, mas ela era colombiana e não conta. Ano passado tinha uma num café, acho que na Jorge Luis Borges; não encontrei esse lugar de novo, acho que fechou. Acontece que gosto da indiferença dos garçons locais – ou a indiferença da maioria deles, que seja – e gosto de ser deixado em paz. Fica a pergunta: são os garçons daqui antipáticos ou os do Brasil excessivamente simpáticos? E que mania a nossa de exigir sorrisos de quem nos serve? Dou a gorjeta. Sou até mais generoso que de costume, como se quisesse provar alguma coisa, buscar aprovação. Não recebo aprovação. A cara amarrada que me recebeu não me viu sair, porque estava de costas tocando o foda-se.

Cristo, que porra acontece depois? Como não poderia deixar de ser, me perco. Viro pra um lado quando era pra virar pro outro, em algum ponto, e sigo andando, mesmo quando sei que deveria reconhecer todo o caminho de volta, mas não o reconheço. Confundo um ponto de ônibus com o ponto do metrô ou fico com a impressão que vi um ponto de ônibus como aquele ao sair do metrô. Peço informação pra funcionária ali presente. Parece tão perdida quanto eu. Abro o mapa e vamos nos localizando. Aqui é a rua tal … você tem que chegar aqui … pra isso, tem que dar essas voltas. Pego a rua que ela indica e chego no metrô quase uma hora depois. Busco o endereço de uma cafeteria de que ouvi falar quando pesquisava lugares pra conhecer, mas envolve outra caminhada de meia hora que não sei se meus pés aguentam; o mesmo vale pro museu Xul Solar. Paro em café, no caminho entre a linha de metrô da Plaza Italia e a rua do hotel. Sento e peço uma água e um espresso duplo. Tiro o Onetti da mochila, um tanto mais pesada, e quase me surpreendo com a presença dos nove outros livros abarrotados lá dentro, e eles me lembram que estou perto de uma livraria de acervo bom o suficiente pra que tenham o presente de Alana. Decido passar lá antes de voltar ao hotel. Depois de uma olhada geral nas estantes, inclusive na pilha de destaques – na qual vários livros me tentam e da qual acabo separando Las cosas que perdimos en el fuego, da Mariana Enríquez. Há tempos o livro traduzido me tentava. Me preocupa que ainda é quinta e talvez esteja me excedendo nos gastos. Me acalma a mentira que diz que posso comprar menos nos próximos dias. A vendedora logo encontra o da Clarice: tem Perto do coração selvagem e A paixão segundo G. H. Levo o primeiro. No hotel, leio as primeiras frases de Clarice traduzida e gosto do resultado. Aprovo a tradução, mesmo que minha aprovação não valha nada e eu nem saiba direito por que a aprovo, só parece certa o suficiente e eu tenho mania de analisar as coisas até quando não tenho conhecimento para tal. São quase cinco da tarde. Tomo um banho, que tira de mim a caminhada. Deito na cama até as oito. Passo as horas folheando cada livro, meio desorientado pela quantidade, sem saber por qual começar.


Essa é a última parte do relato sobre San Telmo. Se você não viu as outras partes, veja:

1 – https://deliriumscribens.wordpress.com/2017/12/05/notas-sobre-a-crise-da-chegada-e-na-quinta-choveu-parte-1-diario-de-viagem-2-3/

2 – https://deliriumscribens.wordpress.com/2018/01/09/na-quinta-choveu-parte-2-1-diario-de-viagem-2-4/

2.1 – https://deliriumscribens.wordpress.com/2018/01/14/na-quinta-choveu-parte-2-2-diario-de-viagem-13/

E o diário todo pode ser lido aqui: https://deliriumscribens.wordpress.com/category/zuihitsu-ba/