2 poemas (12:20 / à beira da praia)

12:20

têm sido quietos, nossos almoços. caíram em 
certa rotina. a conversa sempre parecida.
fico pensando se você percebeu que sempre
como a mesma coisa ou se já comentei 
isso contigo. é difícil separar na 
lembrança o que se diz do que não se diz.

à beira da praia

uma abelha flutua ao redor
da sola de sua sandália,
outra segue atrás da primeira,
sutis e vagarosas, tão leves.
a primeira encosta a cabeça
ou antenas na sola da sandália
e você nem a sente.
a segunda faz o mesmo, e
logo surge uma terceira
e quarta abelhas.
elas insistem nessa
misteriosa função de
descoberta. até que,
de repente, você se move,
descruza as pernas e as
cruza de volta, a de cima indo
pra baixo e vice-versa,
seu vestido de verão azul e branco
descobre e cobre de volta
suas coxas, que finjo não olhar,
e as abelhas fogem em
direção às árvores
temendo por suas vidas.
você bebe sua cerveja
sem saber do quase
múltiplo homicídio.

Mágica, milagre, memória; Sobre Las Curas Milagrosas del Doctor Aira (César Aira, 1993-2015)

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 Conheci por acidente esse autor. Numa livraria online qualquer, botei Sérgio Sant’anna na busca, ele que, no momento, é meu autor brasileiro favorito, e encontrei o livro Como me tornei freira (Como me hice monja, 1993). O site não botava o nome do autor ali, então cliquei pra ver o que era, já que não sabia de nenhum livro do Sérgio – depois de tantos anos já posso me dizer íntimo – com esse título. E não existe mesmo, o livro era do César Aira, parte da coleção “Otra Língua”, da Rocco (organizada pelo mestre Joca Reiners Terron, responsável por trazer ao Brasil dezenas de autores da América Latina até então não traduzidos – gente como Mario Levrero, Copi, Aira, Julián Herbert, Guadalupe Nettel et cetera). O que Sérgio fez foi escrever a introdução, elogiando a obra do Aira. Comprei, porque indicação desse porte já me bastava, li e, na minha viagem à Buenos Aires, fui atrás das outras obras dele – logo descobrindo quão extensa ela é e quão impossível é colecioná-la.

Las Curas Milagrosas del Doctor Aira foi um deles, encontrado na feira de livros da Plaza Italia. Composto de 3 romances breves, o primeiro, As Curas Milagrosas do Doutor Aira (1998), é o que intitula o livro, seguido por El Tilo (A Tília, 2003), e termina com Fragmentos de un Diario en los Alpes (Fragmentos de um Diário nos Alpes, 1993) mais seu apêndice. Em 2015, a Random House reeditou estes 3 romances em um único livro – agora vocês entendem a data no título desta postagem. Embora os romances tenham algo em comum, não estão relacionados e o leitor pode escolher a ordem de leitura; pode até ler um pouco de cada por dia e terminar os 3 ao mesmo tempo. Eu sou chato, por isso segui a ordem das páginas.

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Não se sabe se Doutor Aira é curandeiro, milagreiro ou charlatão. Há quem acredite em ambos, e Doutor Aira acredita em seus poderes de cura mesmo sem nunca tê-los posto em prática. A narrativa é um golpe de vento, em primeira pessoa, cheio de divagações, autoanálises, planos que nunca são realizados, argumentos e contra-argumento. Aira tem admiração pelas colagens surrealistas e aqui o romance tem algo disso. Os cenários arvorados das ruas buenairenses, médicos tradicionais perseguindo Doutor Aira pra expor seu método falho em montagens quase televisivas de tão espetaculares, as peças se encaixam mesmo que pareçam estranhas quando juntas, e se encaixam tão bem que passam a se complementar.

A tília era uma árvore enorme, maior que as outras árvores dessa espécie, da infância do narrador. Seu pai usava as folhas dessa árvore para um chá com supostas propriedades mágicas, talvez devido ao tamanho da árvore suas folhas fossem especiais. Até que um dia um menino peronista (assim o chamavam) foi se esconder naquela árvore e seus perseguidores a derrubaram sem nenhuma consideração. Assim segue o romance que é exatamente o que parece ser, uma grande digressão. Memórias levam a outras memórias, sempre na infância, até que se rumina sobre um momento específico ou outro ou sobre a memória em si. Se mais de uma vez o leitor se pergunta como a história foi parar ali, logo o autor se faz a mesma pergunta, porque não se sabe. Me lembrou a forma como eu mesmo às vezes me lembro da minha infância, pedaços que vão e vem e se juntam a outras que levam a mais outros, memórias que começam em algum lugar e eventualmente terminam, mas que não têm começo, meio e fim. Tratam sobre tudo e sobre nada.

Começa com uma descrição das coisas na casa em que o narrador está hospedado, amigos dele que vivem na França. Livros, obras de arte, coleções. A forma como as peças correspondem com a personalidade dos habitantes – ou não necessariamente. Descreve os cantos da casa, conta das conversas que teve com os amigos, dos livros que leu aproveitando a coleção presente na casa. Um desses livros que é melhor com um bloco de notas pras referências e depois pesquisar cada uma. Uma história que leva a outras, que se divide, deixa de ser só um diário e vira um ensaio sobre literatura romântica alemã, ou sobre arte moderna e Duchamp.

As histórias, mesmo não relacionadas, têm o algo em comum da literatura. Não digo isso pra ser óbvio. Todos os 3 romances tratam, uns mais de leve que outros, da escrita. Do milagre que é fatiar uma vida e deixar só as partes de valor. Dos vários caminhos que trilha a memória. Da mágica dos mundos criados por palavras, seja pelo conteúdo fantástico (Verne, Hoffman), seja só pela existência – magia estatística – de uma história que reuna aquelas palavras naquela ordem específica.

Cada romance, tendo sido escrito em períodos de tempo tão separados, cobre uma década da carreira do autor. Diria que é uma boa introdução aos que não conhecem a obra do Aira. Não que seja assim tão fácil reduzir a cada vez maior obra do Aira a um resumo compreensível, mas, digamos que esse livro ajuda aos que nunca ouviram falar dele. Diria no condicional porque a obra nunca foi traduzida, quem sabe num futuro próximo. Para os de vocês que leem em espanhol, mantenho a indicação. Livros argentinos são caros em comparação com o preço da moeda deles, mas talvez valha o sacrifício. Se você estiver passando pela terra dele, busque numa das várias vendas de livros usados.

Este é um mundo de segredos; Sobre The times are never so bad (Andre Dubus, 1983)

Nunca fiz questão de dar tema a este blogue. Ele sou eu, disse certa vez, e ficou por isso mesmo. Não posso negar, todavia, que, quando falo de literatura – também parte de mim -, mais especificamente com sugestões de livros, surgem seguidores e curtidas e todas essas desimportâncias essenciais. Logo, há leitores aqui que esperam indicações literárias, e, com estes, estou em falta. Até porque, gosto de indicar leituras; o que não gosto é de escrever sobre livros. Se pudesse, listaria minhas últimas leituras agradáveis e quem quisesse poderia ir atrás, mas não dá. É necessário convencer, explicar, mais que os motivos que me fizeram gostar do livro, por que o leitor do blogue deveria ir atrás de lê-lo também. Então bolei o formato “Andei lendo uns livros aí”. Acontece que este livro, este não deu pra resumir as sensações de leitura em poucas frases.

Existe uma linha do realismo na literatura estadunidense que me encanta por sua humanidade. Ao mesmo tempo, muitos dos seus autores foram esquecidos ou nunca gozaram de sucesso internacional. Richard Yates é um exemplo, um dos meus autores favoritos que o tempo apagou, até o lançamento de Foi Apenas Um Sonho (Revolutionary Road – adaptação do seu principal romance, dirigida por Sam Mendes, em 2009) e, em parte, Mad Men (que pega emprestado características de seus livros e contos, especialmente Disturbing the Peace), mas que já voltou ao esquecimento de antes; os ainda vivos Frederick Barthelme, Russell Banks e Ann Beattie; J. F. Powers e Flannery O’Connor, embora a última esteja mais associada ao movimento gótico-sulista; entre outros, pertencentes a uma tradição que parece ter nascido naquele país, com Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Stephen Crane, popularizada por Ernest Hemingway, mantida por John Cheever e Raymond Carver e inúmeros outros. Neste meio, viveu Andre Dubus. Foi contista e nunca conseguiu terminar um romance. Teve uma vida trágica, envolvendo crises familiares, divórcios, bebida, falta de dinheiro, até perder uma das pernas num acidente de trânsito. Auxiliando um jovem casal na beira de uma estrada, um carro perde o controle e parte em direção deles. Dubus empurra a moça e a salva. O marido morreu, Dubus teve uma das pernas esmagadas. Passou o resto dos dias numa cadeira de rodas, mas dessa experiência saiu Meditations from a movable chair, talvez seu livro mais conhecido.

The times are never so bad é uma coleção de histórias, uma novela e oito contos. Todos econômicos em palavras, realistas, centrados nos eventos pessoais e crises que formam ou destroem pessoas e famílias. Gente simples. Histórias que com frequência fazem o leitor se identificar em algum dos personagens e acontecimentos, ou fazem o leitor temer que algo assim um dia aconteça com ele.

The pretty girl, a novela que inicia o livro, começa em primeira pessoa, narrando os acontecimentos recentes na vida de um homem sobre quem pouco se sabe. Na segunda parte, a narrativa passa pra terceira pessoa e passa a acompanhar a mulher de que ele fala com desdém – sua ex – e as pessoas próximas dela, amigos do trabalho, família. Descobrimos que ela tem sido, desde o fim da relação, aterrorizada pelo primeira narrador, o da primeira pessoa, que, até então, parecia uma pessoa normal. Então a narrativa muda de tom e adquire uma tensão rara na literatura, porque aqui não há “vilão”, há um homem perturbado disposto a tornar a vida daquela que o deixou um inferno.

Levei um tempo pra escrever sobre esse livro, faz meses que terminei a leitura. Mas ainda lembro bem dos contos, só não pretendo falar de cada um deles porque nem todos permitem que se diga muito. As histórias falam de casais jovens tentando sobreviver num mundo nem sempre justo, às vezes tendo que roubar pra isso; de racismo e perseguição; da filha que descobre o adultério do pai e o confronta; violência doméstica… Sempre reais e simples, compartilhando uma característica com Raymond Carver, a da impressão que a um pavio aceso que pode explodir a qualquer momento, mas nem sempre explode, mesmo quando não é apagado.

Mas teve uma história que me marcou mais que as outras, talvez a que faça valer a pena ir à caça desse livro, se esse estilo de literatura te interessa. A father’s story. Este conto, que fecha a coleção, é um resumo do estilo de Dubus. Ele foi um homem católico e pai, que se tornou superprotetor após uma de suas filhas ter sido estuprada. Este conto foca no catolicismo – não como pregação, apenas como o senso moral de um homem (que nem mesmo gosta de igreja e só respeita a um padre específico que se encaixa nos seus critérios) – e no instinto paterno. O pai da história vive só em uma fazenda, depois que os filhos cresceram e foram embora. Ele passa o tempo cuidando dos cavalos, pensando no passado e conversando com o padre. Sua filha vem visitá-lo. Quando ela está pra ir embora, sofre um acidente e precisa da ajuda dele. A história mostra a que ponto o instinto paterno, nesse caso, ou materno, pode fazer que uma pessoa deixe de lado sua moral.

That was the time to say I want to confess, but I have not and will not. Though I could now, for Jennifer is in Florida, and weeks have passed, and perhaps now Father Paul would not feel that he must tell me to go to the police. And, for that very reason, to confess now would be unfair. It is a world of secrets, and now I have one from my best, in truth my only friend. I have one from Jennifer too, but that is the nature of fatherhood. (de A Father’s Story – “Aquela era a hora de dizer eu quero confessar, mas eu não disse e não direi. Embora eu pudesse agora, pois Jennifer está na Florida, e semanas se passaram, e quem sabe agora Padre Paul não se sentiria obrigado a me dizer para ir à polícia. E, por esta mesma razão, confessar agora seria injusto. Este é um mundo de segredos, e agora eu tenho um do meu melhor, na verdade meu único amigo. E tenho um de Jennifer também, mas esta é a natureza da paternidade.”

Embora esse estilo de literatura, talvez por culpa dos MFAs – inclusive em que Andre Dubus se formou, em Iowa, tendo sido lecionado por Richard Yates -, repita a si mesmo, em estilo e em conteúdo, Dubus foge disso, deixando a si mesmo, seu sangue nas páginas. Ele nunca é cruel com as personagens, como certos autores se gabam dizer, nunca é caridoso… O que acontece nas histórias é a vida, marca de uma boa narrativa realista, em que nada é completamente certo ou completamente errado, e qualquer coisa pode acontecer com qualquer um, inclusive as coisas mais distantes da grandeza.

Sobre convivência, intervalo e continuidade, trens (Observações aleatórias #7)

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1 – Fim de semana passado, o que veio antes do feriado na segunda, fui com o pessoal que trabalha comigo pra Curitiba. Testei minha capacidade de convivência. Descobri que, apesar de tudo, apesar de preferir viagens solo, sou capaz de passar mais que 24 horas com um grupo de 8 pessoas, a maior parte delas bastante diferente de mim. Não que tenha sido fácil. Não fossem os livros que levei (obrigado Frank O’Hara e João Antônio, pela companhia) e o caderno que uso pra rabiscar ideias, teria fugido no primeiro dia. É que não sou muito turista, eles eram demais. Imagina, qual a graça do Hard Rock Café? Fui com eles, ainda não entendi a fascinação. Mas estavam lá, tirando selfies em frente a guitarra de neon, filmando a dancinha que obrigam os funcionários a fazer de tantas em tantas horas ao som das músicas de um cuzão qualquer que queria ser Michael Jackson, e eu assisti, meio que de fora, às vezes participativo. Até que me diverti em alguns momentos. É o que acontece quando se passa tempo com pessoas diferentes de você, você acaba indo a lugares onde não iria, fazendo o que não faria não fosse o incentivo extra. Então certas pessoas te surpreendem, outras decepcionam, tudo por causa da convivência prolongada… São experiências distintas, viajar só e viajar em grupo. Parece óbvio, mas é algo de que você só se dá conta quando não tem tempo de fazer algo que gostaria de ter feito ou alguém se recusa a fazer algo com o grupo e atrapalha todo o planejamento. Foi uma boa experiência, no fim das contas. Infelizmente não pude dar minha típica caminhada a esmo pela cidade, e admito que quando cheguei sozinho no meu apartamento silencioso, sentei, com um livro, na minha poltrona e acendi meu cachimbo… ah! que paz de espírito. O café do Mercado Público, no entanto, foi memorável.

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2 – Não me lembro se em algumas das observações passadas falei sobre esse sentimento que às vezes nos toma de se estar como que em um hiato da vida. Não pretendo revisar cada uma delas, então correrei o risco de me repetir – não seria a primeira vez. Acontece que é isso que estou vivendo, basicamente. Tem uma série de coisas em andamento, não é como se eu estivesse deitado numa cama esperando a vida passar em uma sala vazia. Mas, às vezes, parece que estou. O resultado do concurso é só mês que vem, então não é como se eu pudesse tentar fazer alguma coisa com o romance. Tenho uma viagem (Montevidéu/Buenos Aires) pra planejar, mas ela só acontece em setembro. Quero escrever, mas não sei bem quê. Além disso, o motivo da minha recente ausência no blog foi talvez o mais ridículo até hoje – dentre os motivos das minhas ausências. O que aconteceu foi que gostei demais da minha última postagem (8ª parte do diário de vigem) e não queria tirá-la do topo em troca de um texto inferior. Não que a postagem tenha recebido muito público. Nenhum comentário – só um, no twitter (obrigado Lari! – vão olhar o blog dela) -, três curtidas (uma com certeza nem leu o texto, só veio pra retribuir curtida dada). Não é uma questão de números, mas orgulho de mim mesmo. Agora vejo que não importa, está lá e basta. Desencanei. O diário era o que eu precisava escrever, a história que fechou meu projeto de livro de contos. Agora trabalho nas outras histórias. Todavia contos são como pequenos vazios contínuos sempre que finalizados. Fico com um pé atrás de postá-los aqui por não saber como editoras reagem a isso. Ao mesmo tempo, não sei por que caralhos estou pensando em editoras, ainda mais pra contos. Talvez ainda surja uma ou duas partes do diário por aqui, mas não prometo. Provavelmente vai, nem contei a história do tombo ainda.

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3 – Voltando à viagem. De Curitiba, pegamos o trem que leva a Morretes. É um passeio conhecido, muitos de vocês, que não são muitos, já devem ter ouvido falar ou não vão ter dificuldades pra encontrar informações sobre ele. O passeio vem com guia histórico, o que, em certas partes, fica fascinante, quando você se dá conta de que está sobre um trilho centenário. Por mais ou menos quatro horas, o trem serpenteia pelas serras paranaenses na Mata Atlântica. É um desses locais em que é possível se distanciar de si mesmo, se deixar levar pelo inacreditável da existência. Por exemplo, quando olhamos pra trás e vemos, distante, a ponte, tão antiga e de aparência tão frágil, sobre a qual o vagão acabou de passar, e notamos que o trem é tão extenso que ainda não terminou de cruzá-la. Quando, em meio a tantas árvores e folhas e plantas, vemos uma ruína de sabe-se lá quantos anos no meio do nada, tomada pela natureza. Assim é que nos damos conta de que a Terra não precisa ser salva, é o ser humano que deve salvar a si mesmo. Sim, podemos causar o dano que for, irreversíveis até. O planeta seguirá firme. Quando a natureza não der mais conta de se sustentar com esses humanos inconvenientes em seu caminho, ela vai sacudir as pulgas e será o nosso fim. Apenas nosso. A Terra continuará, como continua a Mata Atlântica, se espalhando e tomando as ruínas e construções humanas, indiferente. Humanos são pouco pra matar planetas, isso é trabalho do Universo.

4 – Aqui o primeiro álbum, homônimo, dos Stooges, porque acho que vou ver Gimme Danger, documentário do Jim Jarmusch sobre a banda, em algum momento esse final de semana.

Sobre peixes voadores (Diário de viagem #8)

Contexto e cenário

Um bar sobre o qual li num blog, uma postagem em que artistas portenhos falam dos locais da cidade em que se pode ouvir música, tomar café, apreciar cultura, longe dos turistas que tomaram e enfeiaram parte da cidade e a deixaram mais caótica. Escolhi esse, dos lugares, porque ficava na avenida do meu hotel. A imensa Avenida Córdoba, em que larguei, em diversas das suas quadras, pedaços das minhas pernas, que se soltaram durante meus flanares. Parecia um bar de sonho. Tocavam bandas locais, permitiam que elas tocassem músicas próprias. Não tinha placa de identificação em canto nenhum, era só uma porta numa casa antiga, que levava a uma escadaria, que levava ao bar. Vuela el Pez, seu nome. Deve haver um motivo pra isso, o nome e as outras características. Lembro que comentei com amigos, muito antes de saber da existência dum lugar desses, que, se eu tivesse fontes infinitas de dinheiro, abriria um bar de jazz e outros estilos, sem placa, sem anúncios, onde bandas poderiam tocar o que quisessem pro público que as quisesse ouvir. Lá estava uma versão dele, real, não minha, mas pulsante. Sexta-feira, a viagem, até então, um tanto tediosa. A cidade era um espetáculo, os museus e livrarias e cafés, cada um que conhecia, me embasbacavam toda a vez. Mas faltava algo, algo que me fizesse querer ficar, me fizesse querer voltar sempre.  Além do mais, a melancolia da solidão estrangeira estava perdendo o charme e ficando triste. Procurava alguma coisa, queria alguma coisa, mas não sabia o que era essa coisa ou por que eu a queria e a procurava.

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deslumbrado e no escuro, lidando com pernas que não aguentam mais o corpo. as paredes expõem versos de Alejandra Pizarnik e quadros cheios de cor pintados por gente desconhecida, enfeites que se escondem quando as luzes se apagam. a banda toca aquele rock que as bandas que querem ser consideradas boas tocam,
meio jazz
meio rock
meio reggae
meio tudo
meio nada
pausas imensas instrumentais
vocais galáticos poetizando coisas vagas
aquele velho som original
que todas as bandas novas imitam,
iluminada, detrás, por luzes de natal brancas. o remédio é uma cerveja roja litrão tão fraca que mal sai da garrafa e não sobe à cabeça por nada. cerveja, a uma coisa sobre que aquele povo parece não entender coisa alguma. tratando cerveja por cor, sem cabimento. mas que tipo é?
não sei. tem da roja, da negra, da rubia. la buena, la mala y la fea.
vá da roja, que seja, ela me dá a garrafa e um copo de plástico, volto à mesa com uma coisa em cada mão.

garota loira vem e pede as cadeiras desocupadas da minha mesa para que ela e sua amiga se juntem a um grupo de amigos dela.
estou falando com essa cadeira, mas, se você precisa, vá em frente.
frase tão complicada quando dita por um estrangeiro, ela tem de esperar pra ver se significa o que acha que significa e somente então se deixa bufar um riso.
minha mesa é tão frequentada, gente que vai e que vem e que puxa papo como se me conhecesse, só porque estou sozinho e, fora a garrafa e o copo, não tem nada sobre a mesa.
é que aqui se compartilha, diz um cara,
mas eu não recusei, não precisa justificar. estou tão mas tão só que qualquer companhia faz bem. quase peço pra que usem a minha mesa e não a de outro. e a ocupam com copos, uma pizza caseira, mais copos.
de onde você é?, moça do novo grupo que ocupa meu espaço pergunta
e quase conto minha vida pra ela. não falava havia doze horas, mais que isso. quão rápido passam os minutos do álcool. falo da distância que tive que percorrer pelas ruas portenhas, culpa minha por ter me perdido, enquanto ela se esforça pra superar meu sotaque e a música alta e pra entender o que eu digo. como a cidade tá te tratando é uma pergunta que se repete.
melhor do que eu esperava.
mas sempre espero ser escorraçado, quiçá porque me escorraçaria.

cidade nova, personalidade nova. larguei a insociabilidade no aeroporto. amo a tudo e a todos e a sensação não me queima por dentro tanto assim. falo com estranhos. todos são estranhos. sempre preferi estranhos aos conhecidos. estranhos só podem surpreender. vou atrás de outra cerveja, mas antes trafego o caminho enevoado que leva ao banheiro.
a moça do balcão mal me escuta.
meu português tampouco é bom, ela diz e ri.
a gente se vira como pode com o que tem,
eu digo enquanto pago pelo chope que pedi, e volto à mesa. a garota de antes me vê e me devolve minha cadeira. preciso ser cavalheiro, é meu momento james bond. tão raros esses momentos.
por favor, eu insisto, eu digo. (there’s a man who leads a life of danger…)
não vou tirar sua cadeira, você tá mais cansado que eu, vem, ela diz.
insisto mais.
ela insiste mais que eu.
pego a cadeira de volta porque tá ficando chato (secret agent man secret…) e ela e seu grupo encontram uma mesa própria e me largam à solidão e à música. viva à música, minha mão acompanha o ritmo estapeando de leve a mesa. olho pra garota à mesa na frente da minha.
aquele bar, aquela porta
sem placas no meio
da avenida que leva a uma
escadaria escura feito arma-
dilha de filme de gângster
que leva à arte não às
armas,
símbolo, lição pra vida exemplo duma hipótese de humanidade melhorada?
onde demos errado que perdemos
a sensibilidade pr’essas coisas?
a garota não me olha de volta, acho que vai embora uns minutos depois, uma hora depois, minutos escorregadios de cerveja. quantas músicas essa banda já tocou e por que já preciso ir ao banheiro de novo? quantas vezes me apaixonei desde que entrei aqui? me pergunto se ninguém mais vai aparecer pelo resto da noite, se melhor não seria ir embora de volta ao hotel e evitar a ressaca que debilitaria o dia seguinte.
não tenho planos pra sábado.
nem domingo, nem dia nenhum
até minha volta.
deveria ter me planejado melhor.

na semana antes dessa estava bebendo e ouvindo música num outro lugar, no meu país. sempre um pouco diferente. ali ou em outra esquina, é outro mundo sempre, próximo ou distante. aqui noto uma ausência geral de adornos, esta é a diferença. nada certo ou errado, só diferente. e os dentes. dentista portenho morre de fome. naquela noite, um dia antes da partida, tomava da boa cerveja brasileira, da qual sentia saudade por não ainda ter encontrado da boa cerveja argentina, e nem ligava, tão bêbado tinha ficado sem perceber, que, depois da apresentação de algumas bandas novas até que interessantes, quem começou a tocar era raimundos. pelo menos esse risco eu não corria na argentina, mesmo que, lá, o brasil me perseguisse a cada esquina. imagino a banda no palco começando um improviso jazz fusion de desafinado, um return to forever encontra joão gilberto encontra minha solidão exagerada. não acontece.

deixo meu copo meio vazio na mesa e vou ao banheiro de novo. a cada ida o percurso fica mais longo. e toda a volta traz uma surpresa. minha mesa ocupada por três garotas. paro ao lado da mesa, não quero interromper, mas peço licença e estico o braço pra alcançar meu copo no meio delas.
me desculpa, não tinha ninguém só o copo, achei que
não tem problema, fica tranquila, a mesa é sua.
de onde você é?
brasil.
ele é brasileiro, ela diz pras amigas, nem de perto tão interessadas.
trocas de olhares generalizados e meneios de cabeça e goles nos copos de campari.
meu nome é ala…
a-la-o que?
a-la-na.
alana.
isso. sou alana, ela é … e ela é …
constranjo sem querer a terceira, não entendo o nome dela. mas rimos, todos, elas da minha linguagem limitadíssima e esforços pra compreender e ser compreendido, eu sem qualquer motivo. me esquecerei dos nomes das outras duas, mas o de alana permanece. ela, quando me distraio e acho que nossa interação acabou, me cerca de perguntas:
o que te traz a buenos aires?
um pouco de tudo. a cultura principalmente. gosto muito de literatura argentina.
quem, por exemplo?
cortázar
sim. borges?
sim, borges, grande borges, alejandra pizarnik tem uns poemas dela na parede aqui
ela eu não conheço bem.
espera iluminar um pouco, aí você lê e vê o que acha. césar aira, também gosto, e tem um monte que tô descobrindo, roberto arlt.
o que você tem feito por aqui?
me perdi
hahaha
e muito o dia todo.
é uma cidade bem grande.
mas achei o malba
amo esse museu.
fui lá hoje.
hoje?
essa tarde.
o que achou?
um espetáculo. achei vários artistas brasileiros por lá.
sim, tem muita coisa do brasil aqui.
muita. conhece alguma coisa de lá?
amo paulo freire, de paixão. conhece?
um pouco.
e ela fala de pedagogia, em que ela se formou, que trabalha de niñera (a mágica das palavras, aqui, por niñera, relaciono a ninhos, o que não faz o mínimo sentido. levo um tempo pra lembrar de niños, mas mesmo aí não sei se ela trabalha de professora, se numa creche, num orfanato, e prefiro não perguntar pra não exigir dela uma explicação muito complicada pros meus ouvidos debilitados de bebum estrangeiro. noutro dia lia um poema com o verbo alejar e pensava que a poeta se machucou e estava exagerando dizendo que foi aleijada por alguma coisa, só muito depois lembro que lejos é longe e alejar, logo, é distanciar. que tipo é um cara, não um tipo, uma maneira/forma/jeito. como é fácil falar mal o espanhol e achar que se sabe muito) e leu quase tudo do freire e eu falo do quanto ele é combatido por gente burra no brasil enquanto a banda toca e nós mal nos entendemos. ela fala que também estuda teatro, quer ser ou é atriz, mas era niñera dois minutos antes. relaciono os dois sem saber o que é o um direito. eu ainda tenho cerveja no copo a essa altura? ela está de pé em minha frente? sentada ainda?
o que mais você quer fazer aqui?
ainda tenho uns lugares pra conhecer. queria ir no teatro e no cinema, uma vez pelo menos.
teatro… amanhã eu vou estar en La Noche de los Teatros, sabe o que é?
nem ideia.
ela explica do festival de teatro, grátis, no auditório de uma praça.
várias peças.
você vai atuar?
não, não. só assistir. ainda é cedo pra mim, um palco desse tamanho imagina.
qual a praça?
um minuto
ela rasga um papel de dentro da bolsa, escreve o nome da praça, o nome e o número dela.
aqui. e escreve aqui – outro pedaço de papel – seu número e nome pra gente se falar. mas seu número é brasileiro. tem facebook?
não.
e agora?
whatsapp?
tenho, pode ser.
escrevo. espero que certo. que nenhum número ou letra sobreponha outro.
amanhã você não vai se apresentar, mas e outro dia? é possível te ver num palco?
não tão cedo. pouco tempo atrás fiz stand-up, sabe o que é?
comédia stand-up?
isso.
uau.
é mais um hobby, o que me interessa mesmo é o teatro.
certo.
bailás?
no. pero puedo moverme alrededor de ti en cuanto tu bailas.
hay una primera vez para todo, ven..
e dançamos? ela dança. eu não sei o que estou fazendo. não só no que se refere à dança. flutuo por aí, flutuei por buenos aires e vim parar no vuela el pez até parar debaixo do pé de alana. ou meu pé sobre o dela. não, não foi o pé dela que eu pisei, estou pensando num caso no brasil anos atrás em que me vi numa situação parecida. várias vezes, quase toda vez que me vejo com uma desconhecida num bar ou festa ou local em que se bebe e há música danço sem saber que dancei. longe de ser primeira vez. qualquer coisa entre mim e alana, longe da primeira vez, mas primeira de qualquer forma. a primeira vez portenha, as segundas primeiras vezes da vida, sempre diferente. primeiras vezes portenhas, um bom título pra isso, lembra aguafuertes porteñas, quase. ou não. a amiga de alana, a terceira, a do nome curioso, oferece a bebida no copo dela. é campari. bebo e a doçura choca minha língua e minha garganta até o estômago.
dulce, digo.
sí, es bastante dulce.
volto pra alana ou ela me puxa de volta.
vamos lá fora tomar um ar? aqui tá meio
ok.
abafado.
vamos pro lado de fora da sala, pra outra sala, a que leva aos banheiros, onde as pessoas se reúnem em mesas pra fumar ou respirar o ar puro da fumaça. está mais claro, posso ver direito o rosto dela, mas não darei a ela alguma forma concreta até domingo, o dia sóbrio. vamos prum canto. hesito sem querer, o algo sob controle que em mim resta.
tem certeza?
algum problema?
nenhum. mas eu não vou ficar aqui, enquanto nossos rostos lentos caem um sobre o outro em confortável colisão.
nossas línguas se apresentam. meus sentidos tomados pela cerveja. ela parece bem. a multidão ao redor some aos poucos. não estão nas minhas lembranças. antes parecia tão cheio.
quando você volta?
ela pergunta, eu diria quanto tempo havia passado entre o beijo e a pergunta se tempo ainda existisse no cenário.
quarta.
quarta temos tempo.
um pouco.
aqui os acontecimentos se bagunçam. entre beijos e balangares arrítmicos, ela me rodopia, eu a rodopio,
(ela se afasta e seus lábios se movem. não escuto. ela se aproxima do meu ouvido. escuto, mas não entendo. ela repete. ela repete. outra vez.) eu desisto:
não te entendi, me desculpa mesmo, mas aceito.
como?
não sei o que você disse, mas aceito.
você estuda improviso?
como?
improviso?
improviso?, não, nunca fiz nada relacionado a atuar, por quê?
ah, é que aceitar sem entender é uma das bases desse estilo, sabe?, pra dar continuidade as cenas, entende?
entendo, mas não, nunca fiz. deveria fazer?
e trocamos ideias sobre coisas da vida, indo do teatro e atuação à
música: me pergunta se sei que é reggaeton, digo que não, só sei do reggae sem ton; pergunta se gosto de axé, digo que não sei qual axé chega por lá, mas no brasil é comercial demais e onipresente, não consigo ouvir.
filme: pergunto se ela viu lost in translation (encontros e desencontros ou como se chame em espanhol, não saberia traduzir) porque desde antes da viagem o filme não me sai da cabeça, ela diz que não, nunca ouviu falar, mas vai pesquisar depois. não acho que desde então tenha visto, o título deve ser outro.
fala de reggaeton porque pode ser que algo parecido com isso tenha começado a tocar. surge uma terceira banda. não consigo ver de onde estou. nossos beijos ganham tom de despedida.
diz que não mora tão perto dali e precisa da carona da amiga. digo que o meu hotel é perto. não lembro se a convido pra vir comigo, se precisa de convite, se ela percebe o convite. a despedida se adia. nos aproximamos e afastamos várias vezes e já não sei o que se passa se é que soube antes. as pessoas ao redor começaram a surgir de novo, como se nunca tivessem sumido, uma por uma. tenho a sensação de que estou sendo observado.
acho que vou voltar lá pras minhas amigas, mas a gente se vê.
sim, eu te ligo amanhã.
parte de mim tem vontade de voltar à mesa, pegar outra cerveja. quando foi que decidi ir embora? por que nos despedimos? outra parte não tinha disposição de continuar a noite. mas, antes de concluir os pensamentos, estou no meio da escadaria, chegando à rua, tonto, digerindo acontecidos, tentando quebrar o recorde de imagens mentais que um cérebro é capaz de formar num mesmo segundo. volto pro hotel enquanto gente acaba de sair de casa. meu celular diz que passam das três. grupo de moças envelopadas em vestidos pretos pega um ônibus, senhora passeia com um imenso golden retriever. reparo que estou distraído de madrugada numa rua qualquer de uma metrópole estrangeiro. rápido, tomo jeito e volto a observar os arredores, se alguém me segue ou me olha de forma suspeita, olho os outros com suspeita. bebida também dá paranoia e tesão inconcluso. chego ao hotel são e salvo, até consigo encaixar a chave na porta do prédio e subir as escadas e acertar a chave na porta do quarto, tudo na primeira tentativa, sinal de que não bebi o suficiente.

no quarto, tiro a roupa e me dou conta, antes de jogar em mim os trapos que uso pra dormir, do insistente voluntário pronto pra ação cancelada ainda há pouco. peço desculpas, digo que nada vai acontecer essa noite, mas não basta pro pobre endiabrado.
deveria de haver uma lei contra ti.
espera quer dizer que há?, pois bem.
não há outra saída que não enrolar um tanto de papel higiênico e achar, no celular, qualquer fantástica encenação que apazigue os caprichos deste velho e mimado mestre, deus demente, duas partes dionísio uma parte nero. deito nu na cama e encontro qualquer pose que ajeite os envolvidos de forma confortável o suficiente. me corre à mente a ideia de pensar em alana, mas não não nunca sujeitar sequer representação imaginária dela ao que livre percorre minhas circunvoluções nos momentos de alívio solitário nunca pior dos crimes. horrível o ser humano que mistura suas fantasias individuais do plano das ideias com as suas fantasias de carne e osso. que história ridícula é essa de que um vídeo não basta, de que este não satisfaz e quer outro em seu lugar? dez minutos atrás estava desesperado. que seja. cumpro com as demandas de sua majestade até que ela dispara e então escorre e então pinga pela superfície do papel. o dobro e o jogo no lixo. visto meus trapos e me deito na cama.

nove da manhã e minha cabeça acorda aos berros só por causa das tantas cervejas. peças do quebra-cabeça, por incrível que pareça, se perderam pelas poucas horas em que adormeci. o número de alana, encontro no bolso do casaco de ontem. tento sem sucesso incluir no meu celular. preciso de café, desvendo o mistério do funcionamento desses aparatos inúteis mais tarde. vou lavar a desgraça da minha carapaça. então café, então um livro e descobrir onde fica a tal da praça qual? e o número, não posso esquecer o número.

Como tomar no cu sem fazer sexo: analisando 50 Tons de Cinza (E. L. James – 2011) – parte 2

Quando a internet e a genialidade se encontram.

 

3. Os três patetas: Anastasia, Inconsciente e Deusa Interior

Personificações do Tico e Teco, as vozes na cabeça de Anastasia, que tornam o pensamento dela mais claro (?) e a leitura insuportável, são chamadas Inconsciente e Deusa Interior. Um passa a história insultando Anastasia enquanto o outro só se masturba. Antes que eu me adiante, vamos definir a personalidade dessas duas alucinações, sim?

Comecemos pelo Inconsciente porque, dos dois, é o que mais me emputece. Não se enganem, a Deusa Interior é tão ruim quanto, mas ela é o tipo de idiota inofensiva, enquanto o Inconsciente é uma demonstração do quanto a autora não estava preparada para escrever o horóscopo de uma revista de fofoca, que dirá um romance. Desde a primeira página, o Inconsciente serve como o bom senso, o lado inibitivo da “mente” de Anastasia, que, por sarcasmo mal escrito e tentativas sem graça de piadas autodepreciativas – afinal o inconsciente é parte de Anastasia, tenha ele consciência disso ou não –, tentam mostrar a ela que o que ela está fazendo é errado ou incompatível com a personalidade dela ou apontar um mal a ser evitado. Em termos psicanalíticos, é o Superego. Isso mesmo, caros leitores, uma das coisas mais presentes nesse livro é, por definição, um erro. É difícil explicar como isso aconteceu. E. L. James deve ter achado a palavra inconsciente bonita, então decidiu repeti-la o máximo de vezes possível ao longo do livro, sem nunca pesquisar no Google o seu significado. É verdade que o Superego não é de todo consciente, mas o de Anastasia parece ser, visto que ela tem um acesso muito claro a ele – e mesmo assim o chama de Inconsciente. Nenhuma das milhões de leitoras parou para pensar nesse detalhe? Não é preciso um diploma em psicologia pra perceber que tem algo errado. Então é isso, o Inconsciente é só essa coisa que passa o livro todo reprimindo Anastasia e sendo ignorado, tanto pela personagem quanto pelo leitor, que, inevitavelmente, passa a pular as frases em que ele aparece.

A Deusa Interior, por outro lado, é um tipo completamente oposto de chateação. Ela dança, comemora, pula etc. Mantendo a civilidade, ela é o Id da personagem. O impulso, a fonte da libido, os desejos e por aí vai. A Deusa Interior, sendo franco, é a vagina da Anastasia. Mas deus nos livre da palavra vagina aparecer no texto. A autora tem algum problema com qualquer menção nominal aos órgãos reprodutivos. É bem verdade que o uso de termos biológicos num livro de sexo pode fazer as cenas soarem como uma aula de anatomia, mas nem apelidos ela usa. Ela poderia ter vulgarizado de vez e soltado logo a boceta, ou, como pelo visto ela não tem medo do ridículo, lançar uma xoxota aqui e ali, até perseguida poderia ser perdoado em lugar da real escolha da autora. Não, ela tinha que fazer a personagem dizer coisas como “lá embaixo”, que não é nem um eufemismo digno. A mais ingênua das mulheres não usaria essa expressão. Lá embaixo é o que uma criança responde ao juiz quando ele lhe pergunta: “onde foi que o padre te tocou?” Mas eu estava falando da Deusa Interior. É que não tem muito a se falar sobre ela, por isso eu me perco nos meus pensamentos – deve ser meu inconsciente trabalhando. A Deusa Interior é o equivalente feminino do “pensar com a cabeça do pau”, nada além.

Então o leitor é forçado, pelas quase quinhentas páginas, a ler dezenas e dezenas de breves reações do Inconsciente e da Deusa Interior aos pensamentos e escolhas de Anastasia. Que eu me lembre, os dois nunca se encontram. Eles sempre se dirigiam diretamente a Anastasia, nunca um ao outro, o que foi uma oportunidade perdida para muita galhofaria, tortadas na cara e dedos no olho, no maior estilo Moe (Inconsciente), Larry (Anastasia) e Curly (Deusa Interior). Nada disso muda o fato de que, se o editor tivesse passado a faca em todas as menções a essas duas criaturas, a leitura teria sido menos desagradável, pra começar porque isso cortaria pela metade o número de páginas.

4. Falsa luz no fim do túnel e a raiz de todo o mal

Então, já no último capítulo ou algo assim, eu me surpreendo. Pela primeira vez, Anastasia toma uma decisão acertada. Ela leva umas porradas do pica das galáxias e decide que chega, aquela vida não é para ela, os dois não devem mais se ver. Seria isso um sinal de amadurecimento?, E. L. James mostrando que não é só uma escritora incompetente, mas alguém com inconsciência, decidida a quebrar o formato padrão das histórias sobre meninas inocentes tentando mudar os homens terríveis por quem elas se apaixonam? Não, porque o livro tem duas continuações, logo não é necessário ler todos os volumes pra saber que ela volta atrás e ele promete mudar e os dois voltam a ficar juntos e se casam e têm dois filhos e meio e um Golden Retriever e então as agressões do pica das galáxias começam a ficar mais frequentes principalmente porque o corpo de Anastasia já não é aquilo tudo e a pica já não está explorando tão bem a galáxia fazendo umas aterrizagens de emergência ou não decolando e Anastasia desenvolve um vício em antidepressivos e analgésicos e as crianças descobrem a sala de jogos e o cachorro morre de câncer e finalmente eles terminam em um longo e doloroso processo de divórcio em que nenhum dos dois é visto como capaz de criar as crianças e os dois se suicidam. Eu posso sonhar; a autora não escreveu o que vem depois do felizes para sempre.

Pois é, por um momento eu quase vi algo que pudesse redimir essa história. Se ela tivesse ido embora e não tivesse continuação, o livro continuaria sendo uma merda mal escrita, mas teria uma razão de ser. Mostrar que não dá pra mudar um parceiro abusivo, que certas pessoas são incompatíveis, enfim, uma versão adulta da história. Se ela tivesse feito isso, com toda a honestidade, eu teria dito que o livro é uma merda. Do jeito que está, ele é uma merda ofensiva, insistindo que amor e persistência podem mudar uma pessoa. Receita para um desastre. E tem gente que acredita. Por mim, se as pessoas estivessem elogiando o livro porque todo mundo gosta de uma sacanagem, tudo bem. O livro é péssimo em sacanagem também, mas não vem ao caso, cada um com seus gostos. Mas daí a dizer que é uma história de amor, superação e o caralho à quatro, isso é intragável e, dependendo do quanto a leitora em questão realmente acredita nisso, prejudicial.

A maneira como as pessoas mais apaixonadas por essa história insistem que Anastasia se interessa por algo mais no seu Grey que os bilhões de dólares e a vara me intriga. Nada no livro dá a entender o contrário. De vez em quando Anastasia diz para si mesma que não é isso, mas ela não é capaz de definir o que é. E o pior de tudo, e que categoriza o abuso na relação, é que ela nem tem padrões comparativos adquiridos em relações passadas para ajudar a definir se o que ela está vivendo é bom ou não. Nada do que ela diz sobre o relacionamento é confiável, nem mesmo o tamanho do dote do ricaço. A mulher nunca nem se masturbou antes de transar com ele, como ela sabe que ele é tão grande assim? Ela não conhece nem os próprios dedos, porra. E mesmo que ele tivesse aquilo tudo, baseado nas descrições da autora, as proezas sexuais do cidadão não funcionariam na vida real. É que, pra sorte dele, ela guardou todos os orgasmos que ela não atingiu em sua vida adulta dentro de um armário na casa da Deusa Interior e ela é capaz de atingir cinco em sequência com o toque de uma pluma. Até a autora tem suas dúvidas sobre a capacidade do rapaz e vive se forçando a avisar as leitoras de que o que acabou de acontecer foi sexy, só para que não reste dúvidas.

Minha dica para Anastasia e qualquer outra moça que possa estar envolvida em um dilema desses na vida real é: se o cara aparece na loja em que você trabalha sem que você tenha dito para ele onde é, você pergunta como ele descobriu e ele responde que tem seus meios, ele compra corda, um taco de baseball, uma máscara de esqui e uma motosserra, e então te convida para sair, diga não. Então corra o máximo que suas pernas suportarem, mude de país ou compre algumas armas de fogo.

5. Conclusão

O fato de que esse livro atingiu os números de venda que atingiu e se tornou tamanho fenômeno me impressionaria se as pessoas já não tivessem esse hábito de comprar livros ruins. É normal, temos aí Paulo Coelho, Dan Brown, Stephenie Meyer. Tudo que ela fez foi escrever um livro ruim com sexo. Fórmula para o sucesso. A surpresa é que demorou tanto tempo para acontecer.

Todas as leitoras que dizem amar esse livro por serem mulheres liberadas e bem resolvidas com a própria sexualidade, sinto em lhes dizer, mas não é verdade. Esse livro é literatura erótica para quem não gosta de literatura erótica, é sadomasoquismo para quem não sabe o que é sadomasoquismo, é sexo para quem não faz sexo. Ruim em todos os graus, tanto literários quanto eróticos, falhando em tudo aquilo a que se propõe fazer. Isso é tão claro que pode-se dizer que as pessoas que gostariam de ler 50 Tons de Cinza já leram, e aqueles que não gostariam perceberam pelo faro o lixo literário irredimível que é esse livro. A única coisa que eu gostaria de ler relacionado a 50 Tons de Cinza é a perspectiva da faxineira do senhor Grey. As coisas que essa mulher já deve ter visto e sofrido, isso sim é uma história.

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Texto originalmente publicado, na íntegra, em 2 de novembro de 2015, aqui: http://delirandoeescrevendo.blogspot.com.br/2015/11/como-tomar-no-cu-sem-fazer-sexo.html

Antes, durante, depois (diário de viagem #7)

1 – O efeito Lost in Translation: expectativas

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Um dia antes da data de partida, me dou conta de que estou vendo Lost in Translation (Encontros e Desencontros, Sofia Coppola) outra vez. É automático, de tanto em tanto tempo bate a vontade. Também, é um filme tão natural. Mas não posso deixar de pensar que esta vez foi menos automática. Uma espécie de autossabotagem, porque, em geral, estou me sentindo bem, nada nervoso com a viagem que se aproxima, ajustado. Os meses pós-compra das passagens foram movidos por um esforço consciente pra não criar expectativas. Queria passar os dias como um nativo, sem esperanças de mudar minha vida ou encontrar algo que estivesse procurando – dessas coisas que estamos sempre procurando sem saber que estamos ou o que é. Mas vejo esse filme e ele é um resumo perfeito do que é e o que se espera de uma viagem. Temos Bill Murray em crise de meia-idade, perdido num universo de celebridade que sem querer ele criou pra si mesmo, de um lado; do outro Charlotte (Scarlett Johansson) que foi atrás de alguém pra um país estrangeiro e perdeu sua identidade (não o documento) no caminho. Toda a viagem traz uma espécie de perda de identidade momentânea. Fora o fato de ser um estranho em terra estrangeira. A temporalidade da presença faz dessa coisa frágil que é a identidade ainda mais inútil. Posso me apresentar a cada pessoa da cidade estrangeira, posso andar com um crachá – não vai significar nada. Ok, que saibam meu nome, em poucas horas, o que ele será? Nem memória. Logo o que pra mim é um acontecimento tão memorável, vai morrer comigo. A esperança que Lost in Translation força aos que amam esse filme é a de que conexão é possível. Sim, termina com um sussurro místico ao pé do ouvido, mas existe. É possível recuperar a identidade nesse punhado de dias. Termina o filme, todos os meus esforços partem com os créditos. Antes do fim, nem sabia que estava assistindo algo, perdido nas minhas próprias invenções sobre o futuro próximo. Quem sabe alguém no hotel. Quem sabe alguém na cidade. Não que precise ser Charlotte (e não que eu já seja Bill Murray), não que precise ser memorável… Já, rápido assim, não sei mais o que eu quero mesmo, onde eu quero chegar.

2 – Suspeita e surpresa são palavras parecidas

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Sigo as instruções do cara do sebo pra chegar no metrô. Desço as escadas. A cada tantos passos tem um mapa da cidade coberto de linhas legendadas representando o caminho que seguem os metrôs. Estou entre a cabine e a catraca. Pergunto pro segurança, um dos muitos, qual é a mágica. Diz pra que eu vá na cabine e eles vão me informar. Faço isso e me pedem o cartão Sube, que não sei o que é, mas eles agem como se eu devesse saber. Dias e dias de pesquisa e não sei porra nenhuma, mal sei espanhol, apesar dos 6 anos que passei no curso encerrado 9 anos atrás. A atendente diz que normalmente poderia comprar ali, mas estava em falta. Diz que vende em toda a loja de conveniência, então subo as escadas e compro o cartão na primeira delas que vejo, por 50 pesos, e me recuso a pesquisar pra saber qual o tamanho da faca que cravaram nas minhas costas. Decido aceitar, decido que vou aceitar praticamente tudo nessa viagem, me abrir às novas experiências. É pra isso que se viaja, não?

Cartão carregado com vinte pesos, causo um distúrbio na catraca por não saber manejá-la, mas logo acerto o cartão no sensor e consigo passar. Estou esperando o metrô – da linha B ou da linha D, na estação Scalabrini Ortiz ou Pueyrredón ou qualquer outra do complexo ninho subterrâneo… não sei qual e a distância que separa as opções que minha memória traz à tona demonstra o quanto caminhei pra lá e pra cá antes de pegar um rumo certo -, que vai me levar à estação Florida, a mais próxima da casa de câmbio, ou iria, se ela não estivesse fechada por algum motivo, algo entre uma reforma ou um protesto organizado pra acontecer mais tarde naquele dia. Descido que não mais vou tentar me encontrar por conta própria. Pergunto ao cidadão na minha frente se ele sabe onde fica a Calle Sarmiento (tinha escutado que a Cambio Alpe, nessa rua, tinha as melhores cotações) e ele diz que sim, mais rápido seria descer na Florida mesmo, que me jogaria a uma quadra do meu destino, mas a em que havíamos chegado (9 de Julio ou Carlos Pellegrini) não era tão distante. Saímos do vagão e ele me pergunta de onde eu sou, porque meu espanhol não engana ninguém. Digo que do Brasil. Ele começa a tentar falar português e fala do quanto ama o Brasil e o quanto sua irmã ou prima ou cunhada ou algo que o valha ama o Brasil ainda mais que ele.

Já sobre o solo, percebo que ele segue ao meu lado, falando; eu escuto, faço uns ruídos pra indicar que entendo, mas quero saber qual o motivo de ele ainda estar ali. Pergunto pra que lado fica a rua num tom de obrigado mas agora eu me viro. Ele diz que é pra lá, mas que eu não me preocupe porque é o caminho dele, ele me guia. Fala que ali é o Centro, a parte mais turística de Buenos Aires.

Já esteve aqui antes?

Não – tenho minhas mãos no bolso, uma na chave do hotel, qualquer movimento brusco e acerto o olho do cidadão. Ele é um pouco menor que eu, deve ter por volta de cinquenta anos, não parece capaz de fazer mal a ninguém, mas nunca se sabe. Passar informação é uma coisa, de fato se esforçar pra ajudar alguém é motivo de suspeita. – Acabei de chegar.

Ali – aponta -, o Obelisco.

Não é que é mesmo?, digo. Tento não demonstrar suspeita. Acho que ele vai tentar me roubar ou qualquer outra coisa, ninguém pode ser tão amigável a ponto de levar um estrangeiro desconhecido pra onde ele precisa ir, algo não está certo. Olho pro Obelisco, mas nunca entendi a graça dele. Não me comovia à distância, não me comove em pessoa. É um grande palito de churrasco, um símbolo fálico despontando no meio da cidade.

Mas é aqui, no Centro, que você vai encontrar a maior parte dos teatros e cinemas. Só cuidado que tem muito batedor de carteira. Você não vai trocar o dinheiro na rua, né?

Não, estou indo numa casa de câmbio mesmo.

Ah, bom. Antigamente fazia diferença, mas aí o Macri veio e… bom, está do jeito que está.

E falamos um pouco de teatro e um pouco sobre segurança e taxas de câmbio. Pergunta o que mais me interessa em Buenos Aires e falo do meu gosto por literatura e trocamos uma ideia sobre Cortázar e Borges.

Tem um café em homenagem ao Cortázar por aqui, não tem?, digo. Onde ele escreveu

Los Premios, sim, é aqui perto.

London City, o nome.

Isso. Olha, agora não é mais o que costumava ser. Mas vale a pena a visita, é um belo café e aqui perto, na esquina da Plaza de Mayo, que, por sinal, você deveria ver, é outro ponto turístico… histórico, como o Obelisco, onde fica a Casa Rosada.

Passamos por uma das El Ateneo na cidade.

Essa é a maior livraria de Buenos Aires, e olha que tem muitas. Depois vai lá, mas não nessa. Tem outra, na Avenida Santa Fe, Grand Splendid, costumava ser um teatro ou um cinema. Um espetáculo o lugar. E imensa, tem de tudo.

A linha reta em que caminhamos parece não chegar ao fim, até que chega. Passamos por algumas casas de câmbio até chegarmos na que me interessa, e a taxa de fato é melhor; muito melhor que a que aplicaram no Brasil, um pouco melhor ou igual que a dos bancos pelos quais passei. Paramos na porta, eu agradeço.

Não há de quê, é caminho pra mim, mesmo. Até quando você vai estar aqui?

Quarta que vem.

Ah, pena que é uma semana corrida, se não te convidava pra conhecer minha família. [A cunhada ou prima ou irmã ou algo que o valha que ama demais o Brasil] ia gostar muito de falar sobre o Brasil com você. Já o London City, pega essa rua aqui (gesticula a direção) e segue reto em direção à Plaza de Mayo, não tem como errar.

Ele insiste em me passar o whatsapp, eu não vejo outra saída que não aceitar. Nos despedimos. Por hábito, ele se aproxima pro popular encostar de bochechas entre os portenhos; por hábito, brasileiro que sou, me afasto, mais por achar que é o assalto finalmente se apresentando do que qualquer outra coisa. Me explicou o hábito e aceitei isto também. Nos despedimos mais uma vez, agora sem incidentes. Entro na casa de câmbio. Vou até a mulher no canto do balcão fazer meu cadastro, mas não sabia que precisava do papel carimbado que me entregaram no aeroporto. Saí em cinco minutos do lugar que levei cinco horas pra achar. Mantive o ânimo, porque ainda não sabia a quais lonjuras minha caminhada cega em direção ao London City (que nunca encontrei) iria me levar.

3 – Recepção e decepção se parecem mais ainda

São noventa reais de Navegantes até meu apartamento, diz o taxista. O que eu já sabia, porque o preço é tabelado e foi o que eu paguei pra ir ao aeroporto. Tinha noventa reais separados na carteira, junto de cento e três pesos que não consegui gastar. O avião chegou às seis da tarde. Pegamos um congestionamento boschiano nas proximidades da balsa que parecia se estender por toda a cidade. Quero mostrar a ela um pouco da cidade, mandar umas fotos, mas não quero tirar o celular do bolso. Quase duas horas depois estou em casa – na esquina, porque o taxista errou o caminho. Gente carregando bandeiras de um candidato a prefeito ocupa a rua em frente ao prédio, toca a versão sertaneja de sua música tema. Quero ir embora outra vez. Tiro fotos das pessoas com as bandeiras e mando pra ela, como legenda: quero voltar. Ela responde: me encantan las palmeras. Talvez, em Buenos Aires, só tenha tido tempo de ver as palmeiras. O desejo de voltar e ficar por lá seja só reflexo ilusório causado pela visão limitada da pausa temporária que se dá na vida durante as férias. Não muda o fato de que já sinto falta.