Do manto das despedidas, fica a lembrança, a saudade, o desencontro.

 

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Das despedidas que fazemos em nossas vidas, quais mais marcaram vocês? São muitas ao longo da estrada. São tantas feridas. Amigos a gente encontra por aí, noutra cidade. Amores, vixe! Nem se fala. Mas falar que esquecer, despedir-se é algo fácil é uma mentira absurda. Temos essa falsa ideia que se despedir de alguém possa ser algo ruim. Isso significa um recomeço, talvez? Tudo depende do ponto de vista que se olha para fora da janela da despedida.

Viver é despedir-se eternamente. A família lá longe não se aguenta com a saudade, os amores deixados, relapsos de paixões. Frio na espinha daquele amor escondido que talvez nunca mais veja. Dar adeus para alguma coisa material que não poderá levar nessa nova jornada. Um violão antigo, um cachorro, um gato, um cacto ou até mesmo uma velha escrivaninha.

Existem despedidas que são feitas na hora de embarcar para um novo horizonte, ir para uma estrada ainda desconhecida, trifurcada, ambígua, aleatória, florida. Desmatada com o tempo. Mas, trata-se de uma nova colheita. O jardineiro que se preze: deixa o seu jardim sempre pela tarde. Para ver e cheirar suas rosas com o vento-sol sobre a relva cochilando.

Todas essas situações estão dentro do disco Azul Moderno da poderosa Luiza Lian. O disco já começa com a música “vem dizer tchau” parceria da Luiza Lian com a poeta Leda Cartum. Luiza, voz meio recém acordada no pé do ouvido de alguém antes de subir nos degraus da estação — preciso me encontrar. O disco transborda noticiais, cada canção é uma carta aberta para alguém que queria ter seguido junto com Luiza Lian, mas a caminhada é longa e Luiza avisa que não pode mais seguir junto, seguir acompanhada dói mais.

Existem pequenos versos simples, de um eu lírico agudo, poeta maldita, Luiza Lian declama: “desfaz mais um encontro em SP/nem deu/tempo para te contar/que àquela hora/ transando com você/transava uma multidão…” São versos rasantes que perfuram a imaginação num nível inimaginável, Luiza Lian não se limita, pois sabe que limitar é definir.

Geladeira é outra música, na qual, Luiza Lian junto com Leda Cartum constroem um pequeno conto poético. A linguística é atraente, as palavras ficam se repetindo continuamente na cabeça, “pela rua, não se conhecia/na janela, não se conhecia/via os pés, não se reconhecia…”

Não se poderia deixar de falar sobre a linda produção independente do famoso estúdio Canoa. Gravado e mixado pelo talentoso Gui Jesus Toledo, o disco traz Charles Tixier e  Tim Bernardes fazendo quase todas as experimentações e loucuras eletrônicas do disco. O flerte do pop com o samba-rock é maravilhoso. Esse disco é Jorge Ben puro cantando alto com o seu manto azul moderno.

É de despedidas que o disco fala. E é com uma música que mexeu demais comigo que o disco se despede. A poesia que dá o titulo ao disco: azul moderno. Quando a ouvi pela primeira vez, foi como se um punhal atravessasse minha garganta e conseguisse sentir e cantar junto, mesmo sangrando.

A arte existe para essa afinidade, de podermos extravasar junto através de uma obra. Alguém lá longe sentiu o mesmo que eu. Isso vai reverberando em grandes ecos e elos infinitos. A canção de Luiza. O disco realizado vem a se tornar um empório de despedidas, coisa de artistas que enxergam beleza nas curvas que a vida nos coloca. Marejei os olhos, muitas vezes quando algo mexe com a gente: é porque também vivenciamos algo igual ou parecido. E apenas isso faz com que não nos sentirmos sozinhos, por alguns segundos esquecemos que somos tão solitários no mundo.

A estrada que Luiza percorre durante todo disco, passeia por rodas, veste-se de pomba-gira, reza por Santa Bárbara e cheira a infância das ruas, becos e avenidas que Luiza andou, pregou suas digitais no tempo. Não poderia ser diferente que Luiza Lian nessa caminhada não agradecesse a estada que sempre iram parecer curtas, mas o tempo é cruel com todos. E isso dói. Dói demais. São cantos e encantos que se deixam, novos caminhos que se abrem. A tristeza tem suas felicidades. Sempre estaremos nessa eterna busca por uma nova despedida, a vida nunca irá cansar de fazer e desfazer roteiros de viagem. Estaremos sempre nas pontas dos dedos das mãos de alguém ou no olhar distante do horizonte.

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Uma autocrítica – em resposta a uma frase sem contexto de Olavo de Carvalho

Caro professor Carvalho, li sua entrevista ou o tanto que meu fígado pôde suportar dela e, devo admitir, quase fiquei surpreso com sua honestidade em uma das respostas, afinal não é da sua índole. Quando você disse, depois de citar dois filósofos de verdade – me surpreende que você os conheça, embora eu tema sejam os únicos que você conhece e por isso você os tenha citado -, que não há intelectual de esquerda à sua altura, bom, me vi obrigado a concordar. Como partidário da ideia de que toda a afirmação é verdadeira em certo sentido, falsa em certo sentido, insignificante em certo sentido, verdadeira e falsa em certo sentido, verdadeira e insignificante em certo sentido, falsa e insignificante em certo sentido, verdadeira e falsa e insignificante em certo sentido, li sua afirmação e pensei comigo mesmo: Olavo tem razão, em certo sentido.

Eu queria dizer que não há, na esquerda, intelectual que se compare a você, mas a autocrítica deve prevalecer. Sempre há que se colocar a autocrítica em primeiro lugar, não é? Pois bem, existem intelectuais auto-proclamados na esquerda. Ok, eles não se auto-proclamam intelectuais, como você faz todos os dias de sua vida, mas é que a esquerda tem o péssimo hábito da falsa modéstia. Eles insistem em recusar o título “intelectual”, sendo que ninguém os deu o título para que eles o pudessem recusar, o que é uma forma de auto-proclamação. Não pretendo citar nomes, mas eles estão por aí, empesteando jornais e revistas e por toda a internet. Talvez a fala deles não se compare à sua em se tratando de groselha, mas a profundidade é a mesma – a profundidade de um corte de papel.

Eu também queria poder dizer que ao menos a esquerda não vê estes dispensáveis como intelectuais, mas não é bem o caso. Não acho que qualquer um deles tenha recebido o grau de divina autoridade que você recebeu do seu rebanho, mas muitos são best-sellers de semana passada.

O que eu sei é que nenhum deles nunca escolheu ministro da educação ou ficou lambendo a orelha de presidente. Talvez alguns tivessem vontade, mas você foi o primeiro a conseguir. Parabéns, seu canalha.

Agora você está por aí, gozando uma vida à luz do sol. Largou a catacumba de onde nunca deveria ter saído. Tivemos a chance de invadir sua caverna decrépita em Virginia, com muito alho e uma estaca grossa, mas deixamos passar. Rimos de você, como rimos daqueles que te amam, afinal vocês são engraçados – embora nunca quando a intenção é fazer graça – até que vocês cresceram e, bestas que são, agora ameaçam nosso bem-estar.

Vem você gritar com jornalista, dizer que vai processar se te fizerem perguntas desagradáveis. Ninguém nem deveria te estar perguntando qualquer coisa. Quem é você, professor Carvalho, sem os títulos que o senhor deu a si mesmo? O que seria você, se você aceitasse discutir de igual pra igual com um acadêmico sério? Suas teses são teorias da conspiração, seus argumentos são baseados na infalibilidade do cristianismo – o que por si só te desqualifica como filósofo. (Não a crença no cristianismo, mas a certeza da infalibilidade do cristianismo. Certezas matam a filosofia.) Por isso você foge da academia. E não venha com essa de que é a esquerda da academia brasileira que te elimina, pois em qual outro país você foi aceito? Nos Estados Unidos você se esconde, tanto que vive em Virginia. Aceite que só seu rebanho te aceita como filósofo, só entre o seu rebanho suas ideias se sustentam. Largue a pose de intelectual, não combina com você.

De tantas carreiras que você poderia ter forjado após a de guru da astrologia ter dado errado… Logo filósofo? Pastor ou padre seria muito mais rentável. E seu autoritarismo não seria questionado nessa posição. Sim, você combina muito mais com líder religioso ou mestre de culto. Qualquer coisa que acentue suas qualidades de charlatão. Por que você largou a astrologia? Podia ter ido além e virado médium de televisão, médium de cavalo. Mas não, decidiu ser professor de filosofia pra essas cavalgaduras que te chupam.

Você nunca devia ter largado os pokémon, professor Carvalho.

Agora vem falar de vacinas e terra-plana e pepsi de feto e mito do aquecimento global e escola sem partido e Adão e Eva e ideologia de gênero… Você tem alguma ideia que não seja só pra fazer sucesso com a direita juvenil? Que não seja composta de frases feitas e mentiras? Você é uma cópia pedante do Alex Jones. Pelo menos desce do salto e dá uns escândalos, diverte a gente um pouquinho. Não dá pra ser burro e chato, isso é pecado, deus castiga.

Devo, por outro lado, admitir que, ao menos entre a nova direita, esses sub-humanos oportunistas que se multiplicaram como vermes e ocuparam a frágil massa cerebral da população, você é muito superior – se tivesse pulso, te confundiria com um ser humano. Pelo menos tem boas referências. O resto é só Mises, arminha de dedo e polenguinho peniano.

Sua superioridade nesse meio, não é elogio.

Os autores que você diz amar te desprezariam do momento que você lhes dirigisse a palavra. Você é uma doença, professor Carvalho, degenerativa. Eu não sei se existe cura.

 

Uma crônica chinesa

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Uma raposa branca, no topo de um morro em Qingdao. O morro onde fica a torre de tevê, um ponto turístico, mas eu peguei um caminho alternativo e fui parar num beco. Lá, sentada do lado de fora de uma toca de concreto, dentro da qual havia um naco de colchão velho e entulho espalhado pelo chão – nenhum sinal de comida e água, embora eu não tenha examinado a cena a fundo –, encontrei a raposa. De longe, achava ser um cachorro. Tinham muitos cães e gatos de rua nos arredores do templo budista não muito longe dali. Fui me aproximando, com certa cautela, e vi ser uma raposa. Isso pode ser a voz romântica do retrospecto ao pé do meu ouvido, mas os olhos dela pareciam pedir alguma coisa. Estava presa pelo pescoço por uma coleira fina amarrada não sei onde dentro da toca. Eu ainda não tinha entendido direito aonde eu estava. Queria chegar na rua do museu da cerveja de Qingdao, pois lá se dizia ter alguns bares, além das cervejas servidas em sacos plásticos, que achei curioso e queria provar, como qualquer turista idiota teria vontade de fazer – estava fechado quando cheguei. Vi no mapa um templo budista por onde eu poderia passar e pegar um caminho alternativo. A caminhada de 40 minutos passaria a levar uma hora, mas era tempo que eu podia perder. Então eu passei pelo tal templo, segui um caminho que ligava o templo ao jardim botânico e comecei, sem me dar conta, a subir um morro que levaria até a torre de tevê, onde vim parar, depois de ficar bem confuso com os tantos caminhos e escadarias percorridos.

Isso aconteceu no segundo dia da viagem, quando eu ainda estava dopado pela falta de sono e tomado daquela sensação de distanciamento que todo deslocamento extremo causa. Eu não era eu. Estava num ponto distante de onde estão minhas raízes. Sem idioma, sem família, sem amigos. Meu rosto causava estranhamento e era encarado pelos passantes nativos. Meu corpo estava ali, de frente pra raposa. Trocávamos olhares. Mas eu não sei bem aonde eu estava – minha essência, alma, mente, chame como quiser ou nem chame, pode ser tudo bobagem. Então eu tirei uma foto da raposa. Não sei por quê. Não era a única coisa a fazer, não, eu tinha inúmeras opções, cada uma mais correta que a outra e todas mais corretas que tirar a foto. Escolhi tirar a foto e a tenho comigo até agora. Me recuso a começar o discurso batido de como a nossa geração está preocupada em registrar e aparecer e blá blá blá. Chega do blá blá blá.

Por causa do tal distanciamento, eu me recusava a aceitar a raposa e mesmo o cenário que me cercava como reais. Não era tanto uma recusa, pois não havia proposta. A realidade da raposa estava distorcida em minha mente. Até porque a montagem da cena parecia algo de sonho: um desvio de rota, um templo budista, um jardim imenso que levava até uma trilha, um beco onde uma raposa estava presa. Mesmo assim, tirada a foto, pensei em lhe dar água ou comida, mas eu não tinha nem água nem comida. Eu bem queria um pouco d’água, depois daquela caminhada, estava sedento. Ficaria bem contente em compartilhar um pouco da água que eu não tinha com aquela raposa. Sem nada a fazer, voltei à trilha, passei pela torre de tevê e descobri se tratar também de um supermercado (nada surpreendente), no qual eu não pensei em entrar pra comprar a tal da água e da comida, nem pra mim nem pra raposa.

Correndo o risco de dar início cedo demais às desculpas, quero deixar claro que, embora não seja vegetariano nem veja muito mérito ético no vegetarianismo, trato nossas espécies companheiras de planeta com respeito. O mesmo respeito que um urso teria comigo numa floresta, ou que qualquer animal carnívoro teria com a espécie humana, se fosse agraciado de suficiente inteligência pra industrializar seus meios de produção alimentar. Este respeito se mostra quando se tem consciência que a importância da outra espécie pro bom funcionamento do planeta é talvez maior que a da espécie humana – com toda a certeza a importância das outras espécies é maior. No entanto, chame de tragédia ou o que for, fomos, somos e seremos comida um para o outro. Essa ética alimentar não me impede de sentir culpa, mesmo que tardia, ao ver um membro de outra espécie mantido em cárcere, em condições precárias, incapaz de se alimentar por conta própria. Eu poderia continuar nesse assunto, mas isso aqui não é pra ser um debate sobre ética alimentar no século XXI. Isso é pra falar da raposa e de como eu errei para com ela. É pra demonstrar algum arrependimento, mesmo ele sendo inútil. É pra expor minha culpa, confessar, tentar, com palavras, analisar um defeito de caráter – ou coisa assim.

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Pude ver a cidade inteira do alto do morro que subi por acidente. Cheguei no topo a tempo de assistir o pôr-do-sol. Tirei mais fotos, evitando mostrar os outros, também fotografando, no fundo. Comecei a decida e foi aí que percebi ter cometido uma indignidade. Pode ser difícil de acreditar, mas só me dei conta de ter fotografado uma raposa possivelmente abandonada para morrer de fome quando cheguei na metade da decida. Antes disso, a imagem ficou registrada assim como o ar de estranheza emanado por ela, mas não a realidade dela. Era como se a coisa real fosse também foto, ali pra montar uma paisagem para mim. (Isso pode e deve ser revertido: eu poderia ser a coisa inconcreta, a foto, um fantasma, flutuando pela realidade estrangeira.) Nada disso, no entanto, é mais que desculpa. Uma tentativa meia boca de justificar a indignidade cometida.

Como é do feitio da espécie humana, me contei histórias para deixar os pensamentos ruins pra lá. Histórias que contextualizassem a raposa, diminuíssem ou anulassem minha culpa. Nenhuma delas podia ser comprovada, mas reconfortavam. Por exemplo, a raposa poderia estar domesticada. Havia gente vivendo naquela torre. Pelas roupas penduradas nas janelas, parecia gente simples, por isso as condições precárias da raposa, mas ela tinha um teto pra se proteger da chuva e do sol, e a gente ali a devia manter alimentada e hidratada, não? Mesmo que a raposa fosse mantida ilegalmente ali, qual o meu direito, enquanto turista e não agente de fiscalização florestal, de libertar o animal? Outro exemplo, de certa forma conectado ao primeiro, a raposa poderia estar a tanto tempo ali, presa, sendo alimentada por seres humanos, que, se fosse solta, não saberia mais se comportar em natureza. Seria irresponsável soltar a coleira. Seria irresponsável se aproximar de qualquer animal naquelas condições. A raposa poderia estar com medo, se aproximar assim do nada não ajudaria ninguém. O certo seria telefonar pras autoridades responsáveis, relatar o achado, mas eu não sabia quem elas eram e elas não falavam os mesmos idiomas que eu. Blá blá blá. Eu disse que estava cansado do blá blá blá, mas aqui está ele.

Agora eu não estou mais lá. Voltei ao meu país, onde a realidade é mais concreta pra mim, onde estão fincadas minhas raízes, frágeis que elas sejam. Eu não sei da raposa. E quando não se sabe, tudo é possível. Pode estar morta ou solta ou na mesma. Minha versão da história, que inventava uma possível domesticidade, se verdadeira, muito bem, mas era tão provável quanto um abandono, uma crueldade. Nesse mar de possibilidades, as únicas invariáveis são minha inação e minha fotografia. Ela ainda está aqui, no meu celular. A representação imóvel da raposa, a raposa coisificada. Ela também está tomando nova forma, agora, em texto. Nada útil pra raposa ou pra qualquer um. Nem mesmo pra mim, que não me sinto melhor. Não sei qual o objetivo desse texto.

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Começou como um poema, depois virou um conto. Sempre na minha cabeça. Esse texto nunca tomou forma em outros formatos que não o atual, o que provavelmente estará disponível pra leitura. Quero chamar esse formato de confissão, num esforço de lhe recusar qualidade literária. Seria outra indignidade fazer literatura, boa ou ruim, sobre a raposa. Claro, se trata de mais um autoengano, afinal, o texto foi escrito com algum esforço e quilos de autoconsciência. Eu posso lhe negar o caráter literário, eu não posso dar valor concreto aos meus julgamentos. Tudo é percepção e, no caso de um texto, tudo é percepção alheia; a minha pouco, importa. Minha confissão pouco importa. Ela não muda os acontecimentos e suas consequências. Aqui, no presente, nada do que eu fizer em relação à raposa importa.

Se isso fosse pra ser um conto, teria apenas duas frases: “Num morro, em Qingdao, avistei uma raposa presa a uma toca precária. Antes de ir embora, tirei uma foto dela.” Não precisaria mais nada. Mas esse conto, na sua qualidade de ficção, isentaria o autor da culpa, esquivando da realidade do ato. O conto pode trazer debates à tona, mas eu não teria nada a ver com eles. Na verdade, fosse isso um conto de ficção, seria um clichê barato: ó, vejam só a indiferença do ser humano para com a outra espécie; vejam só a cultura do fotografar ao invés de ajudar, que cruel e terrível. O autor ainda acaba saindo por cima, como aquele que enxergou o problema e o descreveu. O ápice da canalhice seria escrever o conto em terceira pessoa, aí sim seria de embrulhar o estômago. Pra piorar, esses microcontos clichês e cheios de julgamentos morais à sociedade, enquanto isentam autor, até estão na moda, poderia dar certo. É o blá blá blá sem fim.

Esse texto não tem objetivo. Pode ser visto como confissão ou qualquer outra coisa. Não me importa. Eu só queria falar da raposa que eu avistei e fotografei no morro e à qual eu não ofereci nenhuma ajuda. Queria falar que espero que ela esteja bem, que alguém tenha feito o que eu não fiz, mas isso não tem valor nenhum. Queria falar da culpa, mas isso passa. Já passou.

E aí, vamos de cárcere ou exílio?

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Esta não é hora para cinismo ou humor, mas o que nos resta? Ainda há esperanças, até domingo coisas podem acontecer, boas e ruins. Não quero perder a esperança. Pelo menos, quero fingir crença na existência da minha esperança. É que ele, como foi todo grande projeto de ditador tropical antes do surgimento dele, parece invulnerável. Não importa. Se diz que vai ao debate, suas ovelhas aplaudem e exaltam sua coragem; quando foge, suas ovelhas apontam a inteligência estratégica dele ao evitar ambientes desfavoráveis. Quando suas ideias são postas na boca de outros, são ridículas, até que deixam de ser quando voltam à boca dele. Como se mata a reputação de alguém cuja reputação foi moldada pelo desejo por ilusão de um povo exausto? Todo país que já foi vítima de um regime autoritário sabe a resposta, o Brasil inclusive deveria saber, mas o brasileiro não gosta muito de aprender. Na escola do planeta Terra, o Brasil é o aluno devagar, aquele que tem preguiça de anotar a matéria e se esquece de tudo antes da aula terminar, aquele que atira bolinha de papel com cuspe na nuca daqueles com notas mais altas e ri pra caralho, aquele que vem com as melhores piadas até que se torna a piada quando seu comportamento volta com suas consequências. O cenário político está envolvido por um miasma tão absurdo que até os pequenos prazeres, as piadinhas, os apelidos, os trocadalhos do carilho, os memes, enfim, as coisinhas boas que amenizam a amargura da vida, se desfizeram. O riso se tornou desgostoso, vem seguido de tristeza e medo. Essa eleição deixou triste até uma suruba.

Sinceramente, não compreendo. Não posso dizer nada novo sobre ele, pois já foi dito aquilo que deveria ser dito. Trata-se de um homem medíocre em geral e muito abaixo da média em pontos específicos. Burro e incompetente, um homem sem qualidades ou atrativos, isso num dia bom; canalha autoritário, quando acorda com o pé esquerdo, sem nunca deixar de lado a burrice e a incompetência inerentes; nos seus piores momentos, ele combina racismo, misoginia e homofobia com as características já listadas, e faz discursos capazes de enrubescer Le Pen a ponto de ela pedir mais bom senso ao presidenciável brasuca. Sim, ele é o extremista que assusta outros extremistas. Já foi dito e é fato que ele está mais para Duterte que para Trump ou Le Pen ou quaisquer outros desses piolhos do fascismo de outrora que andam despontando pelo mundo, fascismo este que agora vemos nunca morreu, só esteve dormente aguardando uma próxima crise mais grave e talvez uma rede como o twitter para lhe dar voz.

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Caso você se oponha ao que eu escrevi até agora (não sei como você veio parar aqui, se até fiz questão de evitar certas palavras-chave), eu sei o que você está pensando: mas e o PT? (Pois é, tenho esses momentos de clarividência. Estou até pensando em seguir carreira de místico caso tudo mais dê errado em minha vida.) O PT fez coisas boas e péssimas ao longo desses anos. Foi tirado do poder há dois anos e a suposta salvação (que apoia e é apoiada pelo e bastante similar ao inominável) foi o prego no caixão do país. A verdade é que vale pouco falar do PT a essa altura. O PT do Haddad não é mais PT. Abraçou e foi abraçado por inimigos de décadas, vindos de todas as pontas da rosa dos ventos político-social. O PSTU, Cristo!, declarou apoio, isso significa muita coisa. Respondendo à pergunta, “e o PT?”, bom… na pior das hipóteses, uma presidência do Haddad terminaria com uma ciclovia, talvez superfaturada, começando no Rio Grande do Sul e indo parar no Acre. Irresponsável, ok, mas pelo menos incentiva o exercício físico. O pior que pode acontecer ao se entregar o país na mão do outro é a construção de “campos de trabalho”, um lugar especial pra onde seriam enviados os lgbt, negros e mulheres insubordinados, inimigos do governo, ativistas, gente com pensamento subversivo que falou demais um dia no boteco e foi levado no dia seguinte et cétera. Se os surtos autoritários dele não representam o que de fato ele quer dizer, então alguma alma caridosa me diga o que é que ele tanto quer dizer e não consegue. Aproveite e me diga por que ele nunca diz o que quer dizer e por que tudo que ele de fato diz pode ser interpretado como uma ameaça às “minorias” e à democracia.

Pode ser que você ache que as coisas não foram tão ruins na ditadura ou que o que aconteceu naqueles dias não pode voltar a acontecer. Os da primeira opinião são comuns, estão errados, mas são comuns. Meus próprios pais se encaixam nessa categoria, o que dói um pouco, embora eu me esforce para compreender. Tem um quê de ignorância ali, eles que me perdoem. Ao mesmo tempo que dizem – e isso se repete entre outras pessoas encaixadas nessa categoria – não ter ocorrido nada tão grave, todos têm histórias de algum parente preso do nada. Todos cultivam um medo irracional da polícia – meus pais sempre comentam, mesmo eu não morando mais com eles, os riscos de sair de casa sem documento: mas e se você for parado pela polícia? se te confundirem com algum subversivo. Isso é papo de quem viveu o regime, mas não o reconheceu como tal. Gente que viveu em liberdade não tem esses medos, mas a censura e controle da mídia estavam lá para encobrir a noção do autoritarismo, como uma venda coberta de falsa alegria e segurança, acobertando os gritos vindos dos porões. Essa cegueira quase nostálgica é tipicamente brasileira. Não se vê chileno e uruguaio elogiando ditador. Argentino, é raro. O piolho de milico argentino é tipo uma lenda. Os portenhos da classe média remediada são acusados de serem militaristas enrustidos, no entanto evitam agir como tal, por enquanto, talvez os brasileiros incentivem estes aí a falarem mais alto. Já os da segunda categoria são uns ingênuos e vão cagar nas calças na primeira vez que ouvirem de um vizinho desaparecido. Vão se trancafiar em casa, com suas famílias e novelas e futebol e vão fingir que estão bem, na típica vidinha da classe medíocre.

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Nada disso explica o amor pelo inominável. Não é por carisma, não pode ser, ele tem o carisma de um moleque mimado de prédio. Nem mesmo a máscara de honesto pode ser usada mais. Tantos anos colega de partido do Maluf, sem ter feito nada como deputado nem ter lançado projetos relevantes, o enriquecimento misterioso nos anos mais recentes, o dinheiro, devidamente lavado pelo PSL, recebido da JBS – sim, valor menor do que o recebido por outros políticos, mas até ontem ele era um político menor -, a campanha movida por caixa 2, notícias falsas e bots. Isso tudo é repetição e é óbvio. Mas não atingiu a grande camada dos eleitores dele, que ou se recusam a acreditar ou não veem problema nisso – afinal “o PT é pior”.  O mais assustador está na recepção calorosa aos momentos mais autoritários dele. Essa camada espessa de eleitores dele que, ao ouvir elogios a Ustra e Pinochet, aplaude. Essa reação faz que eu visualize dois caminhos possíveis, caso ele ganhe: 1 – ele realiza as atrocidades que nós tanto tememos, uma certa parte da população se mantém feliz e protegida enquanto o resto de nós ou tenta sobreviver ou foge ou morre, mas as ações dele nunca chegam a causar muita repulsa nas massas, na verdade uma parcela dos eleitores até se sente representada, enquanto outra se vê de mãos atadas e diz que nada disso teria acontecido se aqueles que foram presos simplesmente tivessem aprendido a se comportar; 2 – ele não é capaz de aplicar as atrocidades e seus eleitores se revoltam com isso, pois queriam ver a varredura, o extermínio, dos vermelhos e afins, queriam um Pinochet para chamar de seus, e ficam muito decepcionados com o milico de estimação que eles adotaram por anos. Quero acreditar no segundo cenário apenas enquanto sátira, mas não é bem assim, eu sei. A tomada de posse de um regime autoritário pode ser imaginada com tanques de guerra invadindo as ruas, chacinas e invasões militares a prédios públicos, mas raramente ocorre dessa forma. O verdadeiro autoritarismo é um tanto vampírico em seus meios. Ele atrai aqueles mais suscetíveis, parece inofensivo e pede pra que lhe deixem entrar. Então ele entra, convidado, sem arrombar de portas. A dor está em acreditar que nossos pais, tios, quem seja, são favoráveis a isso.

Ah, mas ele é contra tudo o que está aí, você vem me dizer, como eu tivesse nascido ontem. Responda – alguém, os céus, quem estiver me escutando -, como alguém tão “anti-establishment” conseguiu viver tanto tempo banhado na lama do “establishment”, ao mesmo tempo sendo contra? Quão grande é a inocência ou desonestidade da pessoa com coragem o suficiente pra fazer uma afirmação dessas? Então o deputado de carreira, do nada, decidiu atacar aqueles com os quais antes comungava? Mas como, se os membros do “establishment”, se reúnem com ele e já negociam uma teta pra continuar mamando – fazendo uso dos termos tão repetidos pelos seus adoradores (pois já se tornou culto religioso)? Não dá pra ser contra corrupção aceitando caixa 2 de empresa privada. Não dá pra ser anti-establishment com apoio da FIESP, do Luciano Huck, de televangelistas diversos, tudo isso enquanto se recebe boquetes televisionados e impressos de todas as alas de comunicação da Record. Ele não é contra nada, ele é a representação mais pura de tudo que está aí e por isso sobreviveu tantos anos como deputado invisível e, quando finalmente decidiu sair das sombras, conseguiu não ser levado a sério até sua candidatura à presidência.

Mas o que nos resta de concreto? Se dar risada agora dói e a “virada” (fazendo uso de termos futebolísticos onde não deveria caber nem time nem chute) parece tão distante que é quase uma ilusão. É complicado pensar em fuga. E, sim, eu considero a possibilidade de autoexílio com alguma seriedade e agora compreendo um pouco melhor o peso dessa decisão e o quanto ela obriga o exilado a abandonar – mais que pátria e família, sua identidade cultural e memória. Acabou o tempo das piadas. Os velhos grupos da contra-cultura nunca chegaram a lugar nenhum. Adoro os lemas discordianos – se não pode vencê-los, confunda-os, por exemplo – e gosto de acreditar que a deusa Éris prevalecerá, mas, retirado o humor e a retórica espertinha, nossos heróis da contra-cultura nunca fizeram nada concreto, que evitasse as tragédias de seus tempos. Vietnã aconteceu, as ditaduras latino-americanas aconteceram e duraram décadas e deixaram fantasmas. Fizemos nossas canções e artes e jogamos com palavras e quão bonito foi isso!, mas e aí? Podemos formar grupos de guerrilha, se necessário for? Sejamos sinceros, quem de nós está preparado pra isso? Nem os mais sérios militantes do PCO são aptos para pegar em armas. Como eu detesto a palavra resistência… me faz pensar em sacos de pancada que se recusam a cair no chão. Isso é resistência, é apanhar com classe. Juro que já até cheguei a imaginar, num futuro em que o acesso a armas de fogo foi facilitado à população – a de certa renda, óbvio -, a possibilidade de me arranjar uma pistola qualquer e um tanto de munição. Caso a polícia viesse um dia bater na minha porta, por pensamento subversivo ou só por eu ter mandado um tuíte mal-criado, certa feita, ao atual ditador, eu dou trato em mim mesmo, talvez levando um milico comigo. Claro, agora estou me submergindo num pântano de fatalismo que eu mesmo desaprovo e acho irrealista. Mas é importante considerar todas as possibilidades.

Esse fatalismo que me toma, contudo, não é sem justificativa. Pessoas já morreram ou foram agredidas por razões políticas. Aqui não falo do atentado à vida dele (tenho minhas teorias, mas elas não cabem aqui), falo de seres humanos, gente que ia votar e levou doze facadas nas costas. Falo de ameças constantes daqueles que o apoiam contra seus detratores. Da ideia já presente e quase posta em prática de que, quando ele for presidente, certas atrocidades serão permitidas. Então penso, e depois? Porque nada é pra sempre, uma hora ou outra esse potencial regime vai terminar. É possível perdoar seus causadores e apoiadores? Antes disso, caso ou quando comecem as atrocidades, é possível não culpar ou sentir rancor pelos responsáveis? Digo aqueles que para nós são gente de carne e osso, nossos familiares, e todos nós temos um com as mãos potencialmente banhadas em sangue – no mínimo um. Eles vão querer esse perdão?

Não sei de mais nada. Daqui em diante, nada existe ainda. Não existe futuro, só um presente que se alastra como lava por Pompéia. Lá se vai minha carreira de místico. Sei que não falei tudo nesse texto. Foi muita coisa, mas faltou muita coisa. Tem tanto que eu não sei falar, tanto que eu não poderia falar. Não posso falar pelas mulheres nem pelos negros e nortistas e nordestinos e homossexuais e transsexuais, nem de seus medos – posso apenas temer por eles, mais do que já temo por mim. Não falei dos empresários que o apoiam e dos males que eles planejam ao trabalhador, não falei das pessoas e militares que ele pretende tornar ministros e secretários, nem do fato de que, mesmo que ele perca, o PSL tem inúmeros deputados e senadores recém-eleitos. Não tive cabeça pra isso. Seria entrar num labirinto do qual eu nunca sairia.

Esse texto, eu sei, não vai atingir ninguém. Aliás, veio tarde demais, mas não poderia ter vindo antes. Domingo logo chega, pro nosso terror, e tão logo vai passar. Terei bebida em casa. Não resistirei às asneiras e aos joguinhos de palavras, pois quero aproveitar enquanto posso. Quero ser pego de surpresa com a “virada”, porém não acredito mais no realismo desse desejo. Talvez a única coisa que eu possa desejar com seriedade e ainda segurando na mão um pouco de realismo é que ele continue sendo o que ele foi até hoje: um nada político e siga mais quatro anos (somente quatro democráticos anos) fazendo o que ele fez até agora – coçando o saco e falando alto.

(Vim, por meio desta, comprar minha passagem direta pro pau-de-arara.)

E deixo, pra finalizar, umas passagens do Postfácio do livro Piazzas, de Roberto Piva – que ele seja lido nessa época de medo, botas e fogo:

“[…] tudo que o genial Genet descreve nas inumeráveis prisões por onde passou acontece em termos mil vezes piores aqui no Brasil, São Paulo em 1964. Basta lembrar-nos que o Pau-de-Arara & o choque elétrico pertencem ao folclore da Gestapo brasileira.”

“O que eu & meus amigos pretendemos é o divórcio absoluto da nova geração dos valores destes neomedievalistas. E a libertação de si mesmos do Super-Ego da Sociedade. Isto é o que nos separa das filosofias autoritárias tais como elas aparecem nas têmperas conservadoras & militaristas. Fazemos uma afirmação de que os atos individuais de violência são sempre preferidos à violência coletiva do Estado.”

Pra não perder o costume, nunca se esqueçam: King Kong morreu por nós, o pai de todos é o dedo do meio, e, principalmente, a deusa prevalecerá. Ave Éris!

Uma sequência desesperada de observações só pra não dar essa banca como falida

E pela primeira vez, provavelmente, desde minha estreia nesse mundo errado da escrita na internet, passei um mês sem publicar nada, nem um improviso abestalhado, nem um relato do cotidiano, nem uma opinião mal formulada sobre um livro ou um filme qualquer. Mas por que eu faria qualquer coisa? Isso nunca deu certo, por assim dizer. Isso nasceu pra eu praticar a escrita – no ano distante de 2012, ainda num endereço blogspot -, aí virou um meio de eu berrar minhas opiniões. Agora acho que já fiz de tudo por aqui e só me repito. Às vezes surge algo mais inspirado, mas normalmente são as coisas que não precisam estar aqui. Isso não é um anúncio do fim ainda. Só uma explicação da ausência e por que só vai piorar. Porque antes esse site me importava, agora não mais tanto assim. É difícil só largar, por isso vez ou outra eu vou reaparecer. Mas isso não é uma preocupação.

   Então quer dizer que havia preocupação?

            Isso nunca seguiu regras ou cronograma, qual a diferença agora?

                                  Qual o motivo disso se não é uma mensagem de despedida?

Era meio que uma preocupação, embora distante. Eu sempre quis manter isso aqui ativo e diversificado, mesmo que eu não fizesse questão de manter temas ou datas exatas pra cada coisa etcétera. É só que as coisas andam diferentes esse ano. Em muitos sentidos. A vontade de escrever sobre livros que li é inexistente. Minhas opiniões já não valem mais nada, nem sei quais elas são. Tampouco resta vontade de ficar indicando coisas pra meia dúzia de pessoas. Melhor é deixar isso aqui um espaço livre, pro qual eu posso voltar sempre que tenho algo a dizer. Ou não voltar mais, caso eu não tenha.

Mas isso não quer dizer que eu não possa falar sobre o que estou lendo agora. Peguei a coleção de contos do Haruki Murakami, lançada recentemente por aqui, O elefante desaparece. E quem acompanhou esta porra ao longo dos anos sabe o quanto eu já li do Murakami, embora eu não goste tanto assim da escrita do cara. Nem eu mesmo compreendo essa relação. Mas os contos foram escritos entre 1981 e 1993, a maior parte entre 81 e 85, que eu considero a era de ouro da obra dele, quando ele estava no ápice da sua criatividade, aos poucos amadurecendo como autor, sem cair na cama macia e estéril do “estilo próprio” ainda – hoje nada tira esse filho da puta dessa cama. Sim, os clichês dele estão todos ali. Na verdade, dá pra bolar uma lista de ingredientes pra criar um conto dele. E é isso que vou fazer:

  • Um homem de trinta anos como protagonista. Pode ser uma mulher, mas é necessário ter trinta anos. Mesmo que a história se passe na adolescência da personagem, ela é narrada só depois do narrador completar sua terceira década de vida.
  • Preparação de pratos simples. Uma macarronada, um sanduíche, salada com alguma carne, sopas… Não são necessárias especificidades, mas é importante encaixar na descrição um detalhe que demonstre que o narrador sabe o que está fazendo, mas não é lá um grande chefe.
  • Algo estranho acontece. Pode ser com o narrador, pode ser com alguém próximo do narrador. Se for alguém próximo, é do sexo oposto e é este quem vai mover a narrativa pra frente. O estranho pode ou não ser sobrenatural. O estranho nunca pode ser explicado.
  • Filosofia de boteco. O narrador deve ruminar por umas linhas sobre a vida e a morte, sobre amor, sobre a idade adulta, sobre seus parceiros sexuais, sobre o universo e tudo mais.
  • A voz da narrativa deve ser meio distante. Um pouco repetitiva. Sem floreios. Metáforas tentam imitar Richard Brautigan, mas o autor é careta demais pra impressionar no surrealismo. Brautigan é bem mais da hora – minha opinião, mas tu sabe que eu tô certo.
  • Um final aberto. Se a história puder só parar, ótimo.
  • Opcional: se alguém fizer sexo, a descrição vai ser bem esquisita, quase como se sexo fosse uma colisão frontal entre dois carros vagarosos, que não param uma vez que se chocam, mas continuam um contra o outro como dois alces lutando por dominância – normalmente o homem é o alce dominante nas cenas do Murakami e a mulher é o alce que só tá lá; às vezes é o contrário; raramente é uma coisa recíproca (não estou falando de estupro, só de desequilíbrio de interesses, ou assim parece).

Misture tudo isso numa série de páginas não muito bem revisadas, você tem uma história do Murakami. Os ingredientes devem ficar mais preguiçosos conforme o tempo passa. Parece que eu odeio o cara, mas sempre que lança algo novo no Brasil eu compro e leio quase imediatamente. Então qual é? Eu não sei. É igual Star Wars. Os antigos me marcaram a infância, os novos do George Lucas são horríveis e me ensinaram a julgar filmes qualitativamente, os da Disney são ok. Eu não vejo nada de especial neles mais, mas vai lançar um novo filme e eu vou ver, provavelmente no cinema. E tanto com Star Wars quanto com Haruki Murakami, cada nova experiência vem com um pouco de esperança. Como se o novo pudesse ser o perfeito, a obra que vai superar todas as outras. Com Star Wars, acho impossível. Murakami, tomara. Tomara ele releia a própria obra e reveja seu “estilo”, que já deu no saco. Mas se você nunca leu, vá em frente.

Outro dia, vi uma entrevista com o Mark Leyner, David Foster Wallace e Jonathan Franzen. Eles discutiram sobre o papel da literatura como escolha de passatempo entre jovens, na década de 1990. Mas foda-se isso aí. A entrevista na verdade me fez pensar no quanto simpatizar com um autor interfere no meu interesse pela obra do mesmo. Em determinado momento, David Foster Wallace dá uma cortada de classe Franzen. Tenho uma antipatia infundada pelo Jonathan Franzen que só fica mais profunda quanto mais eu escuto ele falando e só por isso não consigo me interessar pelos livros dele. Vejo as sinopses e logo formo uma ideia preconceituosa de como eles são. Acho que são dramas familiares, com vários personagens; tenta ser polifônico, mas o foco é na terceira pessoa onisciente (nem sei se os livros dele são em terceira pessoa, tô bancando o vidente literário aqui); meio experimental, linguagem forçadamente rebuscada que tenta forjar uma beleza nabokoviana e acaba truncada e esquisita – não no bom sentido -, tenta uma complexidade à William Gaddis e acaba estafante. No fim das contas, prega um moralismo barato, como a opinião esnobe dele sobre a inferioridade das pessoas que assistem televisão quando comparadas as que gostam de livros (dele). O que conheço do Foster Wallace são os contos, e destes, embora eu goste, admito os defeitos, pelo menos em se tratando de como eles envelheceram dentro da história da literatura. Mesmo assim, tenho uma admiração pelo cara e quero continuar lendo os livros dele – espero um dia conseguir. Enfim, eu também simpatizo um pouco com o Murakami. Ele tinha um bar de jazz, quando começou a escrever. É meu sonho isso. Então eu continuo lendo os livros dele. Não porque são bons, mas é como se um amigo que eu nunca mais vi os tivesse escrito. Aí eu me forço a dar uma olhada, dar apoio moral. Isso não faz o menor sentido, mas acho que é a explicação.

 

A banda

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Se você aproximar a imagem, vai ver uma banda tocando ali na frente.

Uma banda toca o blues na praça. Passo direto, estou em horário de almoço. Refeição terminada, morta a fome, discutidas as amenidades do cotidiano com os colegas de trabalho, sigo o caminho de retorno e dessa vez paro pra ouvir a banda, ainda tocando. São cinco. Dois, o do saxofone e o do baixo, tenho a impressão de já ter visto por essas ruas, tocando sozinhos na esperança de uns trocados largados à caixa do instrumento aberta em frente a eles. Improvisam sobre um tema básico de blues, enquanto a cantora aguarda sentada num canteiro e dedilha o celular.

Há um contraste notável entre a aparência maltrapilha dos músicos e a montagem do concerto. Longe de terem os instrumentos e amplificadores mais caros, contudo parecem de qualidade e em bom estado. Também parecem jovens treinados, ao invés de gente de rua, gente que aprendeu sozinha a fazer música com coisas encontradas ou doadas. Até mesmo há, sobre uma estátua da praça, um suporte carregando um celular conectado ao que parece ser uma antena. Posso estar errado, mas acho que prepararam uma transmissão ao vivo, online, como um show de verdade. Estranho o tanto que essas pessoas têm, como o nomadismo ao qual eles se submetiam exigisse um voto de pobreza, ausência de posses e do desejo de possuir. Talvez fosse só uma brincadeira da parte deles. Fossem uma banda excêntrica e só. Escolhem tocar na rua pra mandar à merda o expediente, a carteira assinada, a caixa ar-condicionada. Mas, finado o dia, voltam às suas casas ou casa coletiva, mantida por familiares ou heranças; pelos trocados, nem fodendo.

O improviso instrumental continua e a cantora pega um chapéu e passa entre os ouvintes. Há tempos não ouço uma banda tão boa. Estou dividido entre uma nota de dois e uma de cinco. Não doar faria que eu me sentisse mal, como a falta dessa doação fosse o motivo do futuro fim da carreira deles e, ao mesmo tempo, uma vez feita a doação, eles seriam um sucesso. Decido por cinco, pois me empolguei. Nessa cidade não há banda tão boa, em bar nenhum, dia nenhum da semana. Quero saber o nome, se tocam por aí, se já gravaram discos e se eles estão à venda, se têm show marcado e, senão, estou disposto a me nomear agente deles e marcar quantos shows eles estejam dispostos a fazer. Aceno, quando ela olha ao redor da praça em busca de outros doadores, e largo o dinheiro chapéu adentro.

E disco, já tem?, pergunto, antes de ela ir.

Não, não, isso aqui é só uma brincadeira, cada um de nós veio de um canto, nem todo mundo mora aqui, só um ou outro, aí a gente decidiu se encontrar e tocar um pouco aqui, mas é no improviso mesmo, sem ensaio nem nada.

Nossa, muito bom. Improviso? Não parece, digo, mas não é o que eu quero dizer. O que eu quero dizer, mas a essa altura ela já tinha agradecido, me dado um toque amigável no ombro e voltado ao canteiro onde estava sentada, é que, embora não tivessem praticado juntos, o conjunto tocava naturalmente e isso se refletia no som, como houvesse intimidade entre os músicos, mesmo se tratando de improviso; na verdade, é o melhor tipo de improviso, não o que soa perfeito e ensaiado mas o que soa natural mesmo sem ensaio.

Começou outra música. Um blues arrastado e hipnótico. A voz da cantora faz pensar em Janis Joplin, mas não é uma imitação. Meu ouvido obsoleto aloca o timbre dela em algum canto à direita de Candy Givens, essa sim grande imitadora de Joplin, do Zephyr, primeira banda do maltratado Tommy Bolin, filho esquecido do período em que a era de ouro do rock ‘n’ roll começou a perder o brilho. Menos extridência e tristeza na voz dela, mais suavidade e sensualidade, esta última ajudada pelo ritmo e pelo clima transmitido pela banda, aquela atmosfera perdida nos anos das comunidades hippies. Cada membro tem sua personalidade – lógico, presumida por aquele que narra. O saxofonista e sua barriga e vestes comuns parece o mais inserido em um cotidiano. Não ficaria surpreso se o visse sair de um escritório qualquer ou vendendo instrumentos numa loja de música. Era comum vê-lo tocar naquela rua, sozinho, enquanto uma caixa de som reproduzia ao fundo algum clássico do jazz. Ele improvisava dentro da música, se inserindo no passado, ao lado de Dave Brubeck, Bill Evans, Herbie Hancock e tantos outros, mortos e não, com suas bandas. O baterista, ali isolado no fundo, quase não o posso ver bem o bastante para inventar a ele uma personalidade. A própria condição do baterista, o cara sentado no fundo, que não pode se desconcentrar por completo ou a locomotiva descarrilha, favorece esse isolamento. Além do mais, ouvi dizerem que é estrangeiro. Do Chile ou da Argentina. Mas mochilando com uma bateria? Vai saber o que não fazem esses caras. Enfim, se for verdade, mais isolado ainda. O guitarrista veste um colete e calças curtas feitas, parece, do mesmo tecido, sapatos longos e curvados como de um gênio da lâmpada, e cultivava uma juba crespa cortada à cuia. Sujeito excêntrico, o provável porra-louca do grupo. Aquele que não seduz as multidões nem atrai pelo talento, mas defenestra a televisão do quarto do hotel. O baixista seria um astro se estes fossem os anos 1970. Cabelão e barba, calça jeans velha vestida à vácuo, um colete parecido com o do outro cara, só que, debaixo dele, uma camiseta do setor infantil de uma loja qualquer. Sua aparência pode ser notada em fotos tiradas entre os anos 1963 e 1974, levando a crer que se trata de um viajante no tempo. Ele é outro que pode ser visto tocando, por essas mesmas ruas, um violoncelo, sozinho – com acompanhamento musical de uma caixa de som – ou com outras bandas de rua, provavelmente formadas na hora. Quanto à cantora, pode ser uma ex-colega de sala de qualquer um ou um ser de outro planeta; dinamite, gasolina e fogo, guardados em envólucro frágil de aparência e prestes a arrebentar e te pegar na explosão. Veste uma camisa de banda desconhecida, jeans pretas justas, manchadas de pó branco do canteiro no qual ela sentava ainda há pouco. Quando os instrumentistas se atiram em seus rocamboles de som, ela dança como ninguém olhasse. Ou talvez ela perceba os homens de meia-idade, em intervalo da firma, em camisas-sociais salmão, verde-claro, lilás, fazendo seus comentários patéticos e incremente a dança, certa de que isso vai aumentar sua gorjeta.

(Em casa, revisarei a foto que tirei da apresentação após descrever os músicos e me darei conta dos erros. Farei questão de manter as confusões da memória, pois a imagem me veio daquela forma por algum motivo. Vi os músicos vestidos conforme a descrição na minha imagem mental. Fica aí o argumento sobre as linhas divisórias entre não-ficção, ficção, memória. Tantas coisas imaginei de certa forma apesar da verdade. Tantas coisas nos lembramos e reproduzimos e repetimos e repetimos, tudo sujeito a acidentes desse tipo. Acreditarei que isso significará alguma coisa e escreverei um parágrafo dedicado a isso. Este mesmo.)

Enquanto isso, eu invejo a música como forma de expressão artística. Acontece toda vez que vejo um show bem feito, durante o qual todos os músicos se entendem e se divertem, e o público está desarmado e se deixa conectar e levar pela música. Logo passa. Normalmente, assim que começo a escrever. O desgosto que seria ter de lidar com outra pessoa nesse momento. Então, durante o ato da escrita, tudo está bem, eu me sinto sob controle da situação – um exercício de autoengano, mas o que vale é o que se percebe, a realidade é um detalhe. A inveja vem depois. O texto pronto, guardado num arquivo ou num caderno, sem ter pra onde ir. Sem público nem reconhecimento. Meu ego enorme sofre na obscuridade. E se eu vou à praça gritar meus poemas… Eu não faria isso, não vale a pena considerar a possibilidade. Mas quero evitar reciclagens sobre a solidão da escrita. O que chamou minha atenção dessa vez foi a questão da personalidade. O palco permite a amostragem imediata da arte, acompanhada da cara do artista. talvez a vontade de representar num palco a personalidade do indivíduo não seja compreensível para todos. Uma forma fácil de explicar é apontando para o ego do artista. O ser humano dedicado a dar forma à sua criatividade pra mostrar ao público, como se esta levasse consigo grande significado e importância, é nada senão egocêntrico – a exemplo do cronista, que faz um texto supostamente sobre uma banda a tocar numa praça, mas não para de falar de si. O egocêntrico, ao notar que a arte à qual ele se dedica não garante aplausos, repensa suas decisões; e o egocentrismo é fator essencial do artista. Como ninguém aplaude livros, e mesmo que um louco sozinho num quarto os aplaudisse, ninguém ouviria fora as vozes habitantes da cabeça deste leitor peculiar, algo tem de compensar por essa falta. Os autores que recebem a chance de aparecer são raros e os que quando aparecem são recebidos são mais raros ainda. Mas a demonstração pública de afeto a um artista proveniente de um show de rock, mesmo os de praça, não se compara em nenhum aspecto ao afeto de uma palestrinha de autor famoso.

É até irônico que esses autores que reúnem grande público em volta de si mesmos, não só da obra, sejam comparados a estrelas da música. E normalmente há algo de extraordinário na vida deles, ofuscando até a obra, por vezes. O norueguês que se tornou ídolo por botar em livro cada um de seus passos e pensamentos, Karl Ove Knausgaard é exemplo. Outro, mais icônico, meu chegado, Roberto Bolaño, o chileno loucaço que morreu aos 50, após décadas de vagabundagem poética. Há quem diga que ele chegou a incluir em sua biografia um vício fictício em heroína (não se sabe e a verdade nunca vem ao caso, repetirei). Porra, até Rimbaud e Byron são tachados retrospectivamente de rock stars. E vale incluir nessa lista Patti Smith, a grandiosa poeta punk, que começou a carreira na literatura, mas foi atraída pelo palco.

O que me consola são as frases de certos autores em elogio ao isolamento. Em especial quando se referem à obra e o quanto a personalidade do autor não importa, tudo deve girar em torno à e estar inserido na obra. É quase religioso, de certa forma. Fundamentalista até: quem escreve não é nada; as palavras, tudo. Mas, ora, quando nada pode ser dito sobre a tal obra, ninguém a leu ou vai ler, pra onde vai o autor? O que se torna a pessoa quando ela se insere por completo em algo que, por todas as definições práticas, não existe? É natural, ao momento em que uma fonte de satisfação deixa de satisfazer por um lado, se busque o mesmo resultado por outra via. Resumindo em fórmula tosca: ego é a arte, arte é a satisfação; satisfação deixa de ser a arte, ego é a satisfação e arte é posta de lado ou alterada de alguma maneira – vide autores que passam mais tempo cultivando suas personas que a escrita, seja a melhorando ou de fato escrevendo. Logo, invejo, pois minha escrita não satisfaz no momento, tornando aplausos, um palco, uma personalidade espalhafatosa, um tanto atraente. Convenhamos, não é sem motivo que autores incluem blogues e perfis de redes sociais em suas minibiografias, nas orelhas dos livros e nos rodapés das colunas dos sites em que publicam. Não vem de hoje, antes era o número do telefone, vide Richard Brautigan.

Após o guitarrista cantar Superstitious e junto a banda vir com um improviso interminável, toca os primeiros acordes de uma canção do Led Zeppelin, instantaneamente reconhecidos e aprovados pelo público. A cantora e o baixista, agora mais que nunca, exsudam energia sexual de seus ancestrais, fantasmas trazidos de volta das profundezas das catacumbas de falso misticismo do rock, e seus tomos de mágicka arcaica. Essa banda, que não se diz banda, é a melhor que já ouvi tocar nessa cidade. A mais sincera, pelo menos. Sem as ancoras do ensaio excessivo e a limpeza exigida pelos falsos pubs ocupados pelos molecotes de classe média alta.

Seriam esses obstáculos autoimpostos combustível pra esses músicos? Se atirar no absoluto desperta algum talento? Ou estaria correto Flaubert e de fato é esterilizante o trabalho? Imagino, sem qualquer fundamento, que, não tendo a certeza de um teto e um prato de comida amanhã, me forçaria a escrever algo que prestasse ou, melhor dizendo, me pagasse. Seguirei a voz que me sugere aos sussurros ao pé do ouvido a dar o pulo? Não.

O guitarrista passa outra vez com o chapéu, mas já atravessei a rua e sigo de volta ao escritório. É permitido ruminar inconsequentemente. Nem tudo é epifania, nem tudo muda vidas. Sigo a luz do outro farol que me consola, o que diz que a melhor arte é a inútil. A que é apenas por ser. A minha, se assim a posso chamar, não serve pra nada, repito mentalmente, cheio de orgulho, feito um mantra, enquanto sobe o elevador.

Único e universal; sobre I Remember, Joe Brainard [1970-1973]

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Às vezes as pessoas me perguntam como eu cheguei a descobrir certos autores. É um trabalho de curiosidade. Eu leio um livro e, se ele me pega pra valer, vou atrás de outros do mesmo autor, de contemporâneos do autor, gente influenciada pelo autor, seu contexto temporal, se fez parte de alguma “escola literária” ou signatário de algum manifesto etc. Isso faz que cada livro tenha uma história. Esse é o caso do Joe Brainard, descoberto numa época em que estava interessado no que há abaixo da superfície da geração beat, aqueles que não se tornaram ícones ou não se entregaram por completo ao movimento. Achei Ron Padgett, Ted Berrigan, Anne Waldman, Diane di Prima, Robert Creeley, Amiri Baraka, Eileen Myles, Kenneth Koch, entre tantos outros (um pouco da geração beat, um pouco da segunda geração da escola de Nova Iorque…), inclusive Joe Brainard. Uns eu li, outros não, mas uma vez que se conhece um nome, ele continua aparecendo nas coisas, de novo e de novo, até você se render.

Como muitos dos seus contemporâneos, Joe Brainard foi um experimentalista. A obra dele tem algo de poesia, algo de memória, colagens, pinturas. Suas obras tentam resistir uma classificação. Ted Berrigan, por exemplo, escrevia sonetos reciclando versos, trocando as ordens em cada um, cortando e colando e criando, com a mesma matéria, dezenas de poemas diferentes, quase uma função matemática. Ron Padgett pegou um romance de banca e reeditou, criando, com a mesma coisa, outra obra. Eram brincadeiras. Uma forma de encontrar algo mais na literatura, quando só botar uma frase atrás da outra não basta. Joe Brainard brincava com quadrinhos e tirinhas, misturava objetos encontrados na rua com desenhos e pinturas próprias. Por exemplo, as tirinhasda Nancy, por Ernie Bushmiller, serviram de inspiração para uma série de desenhos envolvendo a personagem.

Dessa busca por algo novo, surgiu I remember (Eu me lembro), uma série de livros autobiográficos, formados de frases começando com “Eu me lembro…”. Foram lançados quatro livros, entre 1970 e 1973, com uma edição corrigida e em volume único lançada em 1975 – a reedição atual desse volume único foi a que eu li. A premissa não podia ser mais simples. De certa forma, o resultado também não. Mas a forma como essas memórias íntimas acabam se mesclando com a do leitor ou tocando em pontos tão pessoas que geram constrangimento e, ao mesmo tempo, admiração pela coragem do autor, fazem o livro totalmente original. Hoje existem vários como ele, inclusive a homenagem por Georges Perec, chamada, também, Eu me lembro (Je me souviens, no original).

Cada memória, lançada na página de maneira avulsa, sem narrativa que as conecte, traz outra, que traz outra, numa espécie de livre associação. Às vezes lembra até uma consulta psicológica. Memórias da infância, da escola, memórias recentes… Trata de autodescoberta, da descoberta da sexualidade (como fator humano em si e de sua própria) e da identidade (não só sexual, mas artística e pessoal, nem sempre chegando a uma conclusão, porque talvez não haja uma conclusão). Entre lembranças densas e pessoais, se encontram piadas, jogos de palavras, recordações de brincadeiras infantis, das coisas de sua terra natal (Tulsa), coisas que fazem parte da vida de todos. No entanto, até nos momentos íntimos, em que o autor se abre para o leitor, um pouco de identificação é inevitável. Seja a lembrança de ir ao bar buscando companhia certa noite e só encontrando rejeição, seja o jeito que um filme fez o autor se sentir (você pode não ter visto o filme, mas provavelmente reagiu assim por causa de um outro, ou, se não por um filme, por qualquer outra experiência similar).

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“Eu me lembro do primeiro desenho que lembro de ter feito. Foi de uma noiva com uma cauda muito longa.

“Eu me lembro do meu primeiro cigarro. Foi um Kent. No alto de um morro. Em Tulsa, Oklahoma. Com Ron Padgett.

“Eu me lembro das minhas primeiras ereções. Eu pensava ter pego uma doença terrível ou coisa assim.

“Eu me lembro da única vez que vi minha mãe chorar. Eu estava comendo torta de damasco.

“Eu me lembro do quanto eu chorei vendo Ao Sul do Pacífico (o filme) três vezes.

“Eu me lembro quão bom um copo d’água pode ser logo após uma taça de sorvete.

“Eu me lembro de quando eu ganhei uma medalha de cinco anos por não ter perdido uma única manhã na Escola Dominical por cinco anos. (Metodista.)

“Eu me lembro de quando eu fui a uma festa de “venha como sua pessoa favorita” como Marilyn Monroe.

“Eu me lembro de uma das primeiras coisas de que me lembro. Uma caixa-de-gelo. (Ao invés de uma geladeira.)

‘Eu me lembro de margarina branca num saco plástico. E um pacotinho de pó laranja. Você punha o pó laranja no saco com a margarina e espremia ele todo até a margarina ficasse amarela.

“Eu me lembro do quanto eu costumava gaguejar.

“Eu me lembro do quanto, no colegial, eu queria ser bonito e popular.

“E me lembro quando, no colegial, se você vestisse verde e amarelo numa quinta isso queria dizer que você era bicha.

“Eu me lembro de quando, no colegial, eu costumava botar uma meia na minha cueca.

“Eu me lembro de quando eu decidi virar padre. Eu não me lembro de quando eu decidi não o ser.

“Eu me lembro da primeira vez que eu vi televisão. Lucille Ball estava fazendo aulas de balé.

“Eu me lembro do dia que John Kennedy foi morto.”

O formato repetitivo e de certa forma ingênuo, foi inspirado no estilo de Gertrude Stein e Andy Warhol. A ideia de ingenuidade, contudo, é esquecida quando se percebe o ritmo de cada frase, como cada uma carrega uma poética claramente proposital e construída. O estilo de “Eu me lembro” expõe tão bem as características básicas da linguagem poética e tão simplesmente, que Kenneth Koch o adotou nas suas famosas aulas de poesia pra crianças. Até hoje, “Eu me lembro” é usado como exercício criativo. E funciona, principalmente porque ele tenta o leitor a fuçar suas próprias memórias. Mais que isso, ele traz à tona as lembranças do leitor. É natural que um leitor já inclinado à exploração criativa se deixe levar por essa tentação e crie seus próprios “Eu me lembro”.

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De fato anotar essas lembranças e, principalmente, as expor em qualquer meio, por outro lado, requer muita coragem. É isso que faz do livro especial e duradouro. Joe Brainard se abre sem medo, vira um amigo do leitor, contando seus segredos e histórias íntimas. Qualquer um consegue, uns com mais facilidade que outros, montar sequências de lembranças em frases de estrutura parecida. A arte está em fazer uso dessas lembranças para, quem sabe, fazer um estranho se sentir menos solitário no mundo (provavelmente “Eu me lembro” fez isso com inúmeros leitores, talvez todos), mostrar ao leitor um ponto de vista diferente da realidade. Não seria isso a literatura?