O retorno: carapaças abandonadas (Diário de viagem #2.1)

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Ó, Buenos Aires, você não pediu mas estou voltando. Antes mesmo de acabar minha tentativa de comprimir dez dias em dezenas de páginas estou voltando. Não imaginava que voltaria antes de terminar de escrever sobre a primeira viagem, mas deveria ter imaginado. Parte de mim se demorou na escrita daqueles dias como desculpa para os revisitar de tanto em tanto tempo na memória, outra parte não queria revisitar os detalhes para não sofrer de saudades. Havia também a insatisfação com a realidade geográfica, saber que aquilo sobre que eu escrevia estava lá e não aqui e que eu queria estar lá. Itajaí que me perdoe, mas já não a suporto. Meu mal-hábito de criar raízes com facilidade, mas me cansar delas com o tempo e as querer romper em um golpe. Não é tão fácil e a culpa não é da terra onde se fincaram as raízes, sim do vegetal que se deixou fincar. Nada disso importa, pois estou voltando. Transbordo desses perigos chamados expectativa e arrogância (só porque passei dez dias por lá acho que sei tudo do local e não tem como algo dar errado – isso deixando de lado o fato de que algo já deu errado, o plano original era ir primeiro à Montevidéu, depois à Buenos Aires, mas complicações e impossibilidades de parcelar passagens caras de avião me impediram de realizar o plano). É que os medos iniciais já se foram. Meio que sei o que fazer, para onde ir, o que evitar. Até meu espanhol creio que esteja melhor. Ainda não decidi quem vai ser meu companheiro de viagem. Ano passado foi Elvira Vigna. Não quero relacionar a morte dela com eu a ter levado comigo em minha viagem, seria excesso de arrogância, mas, só pra garantir, pretendo levar um morto. De João Gilberto Noll, tenho Lorde, que parece uma boa por ser sobre uma viagem (à Londres). Queria levar algo em espanhol pra já ir me inserindo na língua; talvez um Cortázar ou um Borges, apesar do clichê, ou Alejandra Pizarnik, de quem tenho a obra reunida, mas é o El Cerebro Musical, do César Aira – um vivo –, que me atrai. Vou decidir na hora, como todo o resto. É estranho que tenha essa impressão de decidir tudo na hora, quando meu cérebro, quando decide não me deixar dormir, me força a rever momentos passados, tenho a impressão que a maior parte da minha vida é formada de planejamentos – em maioria não realizados –, ainda assim acredito que não planejei nada. O momento, a coisa em si, passa sem deixar rastros. A primeira viagem não parece tão distante, mas não é nem de perto tão palpável quanto os dias de ansiedade e planejamento que passaram antes dela. Claro, a viagem foi dez dias, o resto foi… o resto, talvez mais de cinco anos, já que a viagem à Buenos Aires na verdade foi uma mudança de planos de uma viagem ao Rio de Janeiro, que foi uma mudança de planos de uma viagem à Praga. Isso explica muito, mas não a impressão de que a vida é um grande plano não realizado e os momentos em si, os que compõem a tal vida, são só ventania. Deixando de lado essas bobagens existenciais e voltando à viagem, preciso voltar ao Vuela el Pez, o bar que ainda não acredito que exista de verdade. O MALBA estará nos últimos dias de uma exposição da Diane Arbus, o que eu preciso ver. E quero buscar novamente o túmulo do Macedonio Fernandez, o que é uma tolice, afinal, o que eu espero?, um bate-papo com o fantasma? (Se houver coisa tal como vida espectral após a morte, e se por acaso eu me torne um fantasma célebre, vou fazer um favor a todos que visitem minha lápide e estarei presente para conversar. Esse é o objetivo da coisa toda, não?, das cerimônias, dos símbolos, das lembranças físicas. Visitem minha lápide e, se houver coisas tal como fantasmas e assombrações e espíritos e vida após a morte, eu estarei lá pelo menos por cinco anos. Do contrário, é tudo mentira, a morte é o fim e não há nada além. Pronto, fica aqui a promessa: vou resolver a grande questão que perturba a humanidade, exceto que eu não me torne um fantasma célebre, mas isso não cabe a mim, cabe?) Não comi carne na minha primeira vinda, o que é inacreditável. Alana prometeu me levar a uma parrilla. (Nesse[s] diário[s] estão contidos dois pseudônimos, Ana e Alana, e só agora reparei o quanto são parecidos. Um foi decidido pela pessoa por trás dele, o outro foi decidido por Cortázar em um dos contos de Queremos tanto a Glenda, mas não lembro qual, algo a ver com gatos, e a pessoa por trás dele o aprovou. Nenhum significado oculto, só coincidência.) Ainda estou surpreso que ela queira me ver de novo. Gente mais próxima que ela, que vive na mesma cidade, preferiu sumir depois de mais ou menos o mesmo tempo de contato. A viagem fez aniversário, nem acredito. Noutro dia, recebi um e-mail de um amigo do colegial. Fiquei sabendo em agosto desse e-mail que chegou em maio. Tinha resolvido ignorar até ler a frase: faz dez anos que a gente não se fala. Então, não responder deixou de ser uma decisão. Eu não poderia mais responder depois disso – ou ainda não fui capaz –, porque eu não sou o destinatário desse e-mail. O amigo dele no colegial, quando tinham, os dois, entre quinze e dezessete anos, era pra quem a mensagem tinha sido destinada. Ele não existe mais. Tentei canalizar aquela versão do meu eu; o processo trouxe à tona algumas memórias, mas a pessoa presente nelas, o amigo, está morta ou assim parece. É incrível como o tempo passa, ou não passa mas passam os momentos. Consigo me levar de volta para aquelas horas passadas com Alana no bar que encontrei por acidente com mais facilidade do que consigo me levar à escola onde fiz o ensino médio com as mesmas pessoas por três anos passando por momentos então considerados até que íntimos. Talvez um dia o eu que esteve em Buenos Aires ou o eu que passou quase dez anos em Itajaí esteja morto, ou os dois. Assim deixamos nossas carapaças pelos recantos desse sonho longo e estranho, entrecortado por imagens de sono, que chamamos de vigília.

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Férias e insatisfação, produtividade, outros idiomas, John Giorno, Alban Berg (Observações aleatórias #10)

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1 – Falta só mais uma semana pras minhas férias. Mais exatamente, faltam quatro dias de trabalho, já que quinta que vem é feriado. Sim, estou contanto os dias, estou contando as horas. Se eu nunca entrei em detalhes sobre o meu trabalho por aqui é porque, em parte, eu não posso e, em parte, não é nada interessante, mas estou há seis anos na mesma empresa e me sentindo sufocado. A intenção é sair o quanto antes, mas aí somos levados a considerar aquelas velhas questões: o mercado não está mil maravilhas, essas e empresas e chefes só mudam de endereço, não estou tão satisfeito com o que eu faço apesar de ser a única coisa que eu estou formalmente qualificado pra fazer. A vontade real é largar tudo, mas não dá, porque o que vai botar comida na mesa do meu suposto paraíso imaginário? Então eu considero quão pouco rentáveis são as coisas que eu gostaria de fazer, isso levando em conta somente, dentre as coisas que eu gostaria de fazer, as que existem. Por favor, não me confundam com esses moleques que precisam se sentir realizados com o trabalho, de forma alguma. Por isso mesmo, o que vai acabar acontecendo quando eu voltar de férias, é: vou procurar outro emprego, enquanto mantenho o meu atual, talvez eu encontre e aceite o novo, talvez não, e, encontrando e aceitando, vou me empolgar com a novidade por um par de anos, enquanto continuo buscando realização (seja lá o que for isso) com outras coisas e projetos nada rentáveis. O que posso fazer agora é aguardar ansiosamente os dias passarem e aproveitar cada segundo dos meus trinta dias de liberdade.

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2 – Repararam que o blog está mais devagar? Melhor dizendo, o blog está mais devagar? Já não sei mais, a frequência aqui sempre foi instável. Usei a palavra produtividade no título da postagem, mas odeio essa palavra e tudo que ela representa e forma patética como ela é utilizada pela galerinha-empreendedora-motivada que ainda vai ser responsável pelo fim do mundo. Esclarecido este detalhe, acho que não posto tanto por não saber o que postar. Tenho lido, visto filmes, mas odeio resenhas; coisas têm acontecido, mas nem tudo dá pra escrever aqui; faz semanas que não escrevo uma poesia e os outros textos de ficção eu não quero publicar ainda; até tenho projetos de texto e rascunhos largados aqui, mas, ou eles se tornam coisas maiores (na minha cabeça), como o texto do Jim Jarmusch ou aquele sobre o punk rock em Nova Iorque, que estou prometendo a quase um ano, ou a ideia não veio pra que ele flua direito. Bom, nunca fui de me cobrar. Não estou frustrado com o blogue ou “travado” ou desgostoso, não pretendo de forma alguma parar. Só acho que a frequência aqui vai conforme a minha vontade, o meu próprio ritmo. Agora está assim, principalmente porque estou trabalhando em outras coisas (montando e revisando um livro de poesias, me convencendo a revisar outra vez um romance, escrevendo outra história que nem sei o que é ainda porque ando muito interessando em trabalhar com narrativas improvisadas…). Admito que às vezes tinha vontade de que as coisas se formassem na velocidade de um pensamento, mas um texto não surge no papel. O fato de eu não estar aqui semanalmente – nem vou fazer vocês rirem com um “diariamente”, afinal nunca aconteceu – não significa que eu não esteja trabalhando em algo.

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3 – Agora que sei o quão medíocre é meu espanhol, estou praticando outra vez, quero me aperfeiçoar. A intenção era focar nisso o ano todo, mas é setembro, volto pra Buenos Aires em três semanas e o progresso foi mínimo. Li alguns dos livros que comprei lá, vi uns filmes, mantive contato (bem pouco) com uma pessoa que conheci lá, mas não sei se ajudou. Já me imagino travando na chegada outra vez, pedindo pras pessoas repetirem a mesma frase duzentas vezes. Vejamos. Outra coisa que aconteceu foi o fim do curso de francês que comecei em 2015. Tenho uma relação de alguns anos com o francês, esquecendo e relembrando e esquecendo e assim por diante, mas agora quero me aperfeiçoar. É complicado aprender de verdade um idioma. O que costuma funcionar ou me ajudar nesse processo é a leitura. Só que, ao contrário do inglês e do espanhol, o que está havendo com o francês é a minha dificuldade de pegar livros mais acessíveis para as primeiras leituras. Não precisei disso pro inglês nem pro espanhol, mas começar as leituras em francês por Paul Éluard e Samuel Beckett não deu certo. Peguei emprestado Le Petit Nicolas e conseguia entender o texto, mas não passava da primeira página sem pegar no sono. Que tortura digna do diabo, não? Entender, mas não conseguir se interessar; se interessar, mas não conseguir entender.

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4 – Esse artigo sobre a exposição I ♥ John Giorno, em Nova Iorque, é muito bom. Ele que me convenceu a ilustrar essa postagem com as obras desse poeta tão esquecido. Há tempos quero falar dele, mas não conheço o suficiente. E a obra dele é tão vasta e se expande por meios tão diferentes que é difícil dizer se existe algo como “conhecê-la o suficiente”. Por algum motivo, ele sempre foi visto como um coadjuvante. Ele estava ativo na época da Escola de Nova Iorque, envolvido com os artistas; fez parte do movimento beat, junto de Burroughs e Ginsberg e Corso; criou o Dial-a-Poet, linha para a qual qualquer um podia ligar e, ao fazê-lo, seria atendido por John Cage ou Patti Smith ou John Ashbery ou Ted Berrigan ou Aram Saroyan ou Anne Waldman, entre tantos outros, que prontamente leriam um poema para o ouvinte; se apresentou junto das bandas punk – Patti Smith, Richard Hell – e das bandas que abriram caminho pro que hoje nós chamamos de rock industrial – Throbbing Gristle, Suicide – no CBGB, e formou sua própria banda em 1980; sem falar o papel dele como ativista, pra conscientização sobre a AIDS, e ter sido precursor desse tipo de poema-anúncio, tão popular nos dias de hoje, em redes sociais, apesar dos dele virem com um pouco mais de provocação e intensidade (e não o tipo de intensidade que todo mundo diz ter hoje e dia… mas isso é assunto pra outro texto). Mesmo assim, raramente ele visto como o artista, mas como o cara que o Andy Warhol filmou dormindo ou o “muso” de Robert Rauschenberg e Jasper Johns. O artigo serviu pra mostrar como ele, na verdade, é um símbolo vivo de tudo que Nova Iorque foi, desde a década de 1950, pra arte e tudo o que ela não é mais.

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5 – Esse é o disco da vez. Uma reunião de composições do Alban Berg, regidas por Pierre Boulez. Elas são: Concerto de câmara para piano, violino e 13 instrumentos de sopro; 3 peças para orquestra; e concerto para violino e orquestra “À memória de um anjo”. Prefiro não dizer nada, principalmente por não ter o conhecimento técnico para analisar. Me interesso por essa fase “modernista” da música erudita e é só. Além disso, fui apresentado por Cortázar à obra de Alban Berg, em O Jogo da Amarelinha. Isso é uma série de indicações musicais “em ordem alfabética” que comecei agora. A-lban Berg é o primeiro. A próxima indicação será por um artista cujo primeiro nome comece com a letra B. A ideia é focar em estilos que menciono pouco por aqui. Como não falo muito de música erudita, apesar de escutar com frequência (principalmente enquanto leio ou escrevo e preciso bloquear os sons de fora, mas não quero me distrair com letras), decidi começar por esse gênero. Pretendo botar pelo menos alguma nota biográfica nos próximos, mas sinto que já escrevi demais nessas observações e Google existe pra saciar os curiosos.

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Andei vendo uns filmes aí #6

Mi Amiga del Parque [Minha Amiga do Parque] – Ana Katz (2015)

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Filme argentino pouco conhecido com o qual cruzei pouco após minha viagem, quando estava buscando filmes de lá pra matar a saudade – ou fazê-la mais forte. Nos caminhos do IMDB, encontrei Mi amiga del parque, um longa que não passava de 1 hora e 25 minutos, sobre uma mãe que tem que lidar com a solidão da viagem do marido – documentarista em filmagem no Chile – e faz amizade com uma mulher num parque, supostamente mãe também, ou, pelo menos, sempre está com a mesma criança. Ana Katz dirigiu, atuou no papel da amiga e co-escreveu o roteiro com Inés Bortagaray (escritora uruguaia conhecida por Um, dois e já). O que tem de curto, este filme tem de tenso. Não chama atenção pelo visual, os cenários são bastante simples (quando na cidade, Buenos Aires, quando no parque, Montevidéu) e a câmera não faz mais que acompanhar as personagens. O foco aqui é na atuação e nas personagens, na intensidade de cada uma, no tanto que cada uma consegue passar só com expressões faciais discretas, e no roteiro, formado por mal-entendidos. Permanece por toda a história aquela impressão de que algo grave está pra acontecer. Comecei a ver o filme sem expectativas, achando que seria um suspense comum, e fiquei muito feliz de estar errado. Indico, mas já adianto que não é um filme fácil de achar e, no momento, não existem legendas pra ele disponíveis na internet.

Kong Bu Fen Zi [Terroristas] – Edward Yang (1986)

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Esse diretor foi a minha descoberta do ano. Poucos artistas me afetaram tanto e tão rápido. Tudo começou esse ano ou ano passado, quando esbarrei com um tuíte do Daniel Galera elogiando o filme que vocês verão a seguir. Nunca tinha ouvido falar, mas tava justamente explorando o “novo cinema” taiwanês, que começou na década de 80, gente como Hsiao-Hsien Hou e Ming-Liang Tsai e… adivinhem… Edward Yang, entre outros. Como o filme indicado tinha quatro horas de duração, deixei pra lá até algumas semanas atrás. E, depois de ver o famigerado, precisei ver os outros filmes dele. É aí que Terrorista entra na história. São três linhas narrativas interconectadas. Ao longo de tantas semanas, as vidas dessas pessoas se afetam, dando início a acontecimentos, mesmo sem que um saiba que está afetando o outro e vice-versa. Uma criminosa foge do local em que ela se escondia no momento em que a polícia invade para prender a ela e seu parceiro. Um fotógrafo captura a imagem da garota em fuga e desenvolve uma certa obsessão por ela, que dá fim ao relacionamento  entre ele e sua namorada. Um casal já viu melhores dias, quando a esposa, escritora, se vê desencantada com a escrita, decide terminar tudo e começar uma nova vida. A decisão do divórcio pode ter sido causada por um trote passado pela criminosa, mas talvez não seja só isso. Então as histórias seguem e se cruzam e afetam. É um filme espetacular. Talvez eu esteja me preparando pra escrever mais sobre esse filme e os outros em uma postagem dedicada à obra do Edward Yang depois que eu conseguir ver todos os filmes que eu encontrar? Talvez, mas isso não é uma promessa.

Gu Ling Jie Shao Nian Sha Ren Shi Jian [Um Dia Quente de Verão] – Edward Yang (1991)

Sim, esse foi o filme indicado no tuíte do Daniel Galera. Só não digo que me arrependi de ter levado tanto tempo pra assistir porque acho que vi na hora certa. Quatro horas de duração é muito tempo, pretendia dividir em duas partes (duas horas num dia, o resto no dia seguinte), mas não consegui pausar. Quando vi, passaram 3 horas e eu não estava cansado. Também, pudera, são vários filmes em um, acontecendo ao mesmo tempo – não tem como ficar entediado. Baseado num crime que aconteceu na década de 60 em Taiwan envolvendo adolescentes, esse filme é parte romance adolescente, parte filme de gangster, parte drama familiar, parte suspense burocrático à Kafka, parte história de obsessão amorosa. Aos poucos, o espectador se vê em Taipei, como se vivesse com as personagens. Taiwan que, em 1960, lutava contra a influência chinesa, com auxílio financeiro dos EUA, implantando um policiamento de ideias, principalmente entre intelectuais e os muitos imigrantes chineses refugiados. Os filhos desses imigrantes e crianças e adolescentes taiwaneses que viviam nesse clima de repressão, na busca por identidade, formavam gangues. De início parece coisa de adolescente, mas vai tomando proporções cada vez mais violentas. Tudo isso ao som da influência americana, Elvis, rock ‘n’ roll. De novo, se um dia eu criar coragem de escrever sobre Edward Yang, analiso o filme com mais profundidade. Pra vocês, só posso dizer: assistam.

Gloria – Sebastián Lelio (2013)

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Sim, estou praticando meu espanhol. Gloria é um filme chileno sobre uma mulher de 50 anos, de espírito livre, seguindo a vida após seu divórcio. Os filhos dela já estão criados, então, o que ela quer é continuar com seu trabalho e, nas horas vagas, sair pra dançar. No bar, dançando, ela encontra um homem, dono de um parque de diversões, também divorciado, mas com filhas que dependem dele pra tudo. É um tema tão comum, amor na meia-idade, mas nunca vi tratado dessa forma, com tanta intensidade, sem foco constante no fato de ela estar envelhecendo. Sim, ela vai ao médico e descobre que precisa tratar de um glaucoma, e, sim, o filme mostra a maneira que o corpo já não trabalha mais tão bem quanto costumava, mas é muito sutil, é só um detalhe numa história bem interessante. Paulina García (Gloria) é uma tremenda atriz. Só a performance dela faz o filme valer cada segundo. Parece que Sebastián Lelio lançou outro filme esse ano, Una Mujer Fantástica, até agora bastante elogiado e que quero muito ver. Mais tarde esse ano, ele, igual seu conterrâneo Pablo Larraín ano passado, vai lançar sua primeira produção fora do Chile, em inglês. Só tenho elogios a Gloria. Mesmo quando o enredo se aproximou de um clichê (sempre possível, em se tratando de romances), ele deu um jeito de surpreender e seguir por outro caminho.

 

Minha relação conturbada com a internet (e comigo mesmo)

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Começa sempre que eu vejo um meme novo, outra e outra vez, sempre igual aos anteriores. Essa é a pior parte, a diferença entre um e outro é mínima. A imagem, a legenda, um sarcasmo barato. Então o lugar-comum que a ideia representa força milhares de compartilhamentos e variações. Isso tudo dura uma semana. Nos últimos dias de vida da piada, uma corporação usa o meme em campanha publicitária, normalmente errado, perdendo o humor já tão frágil da versão correta do meme. Mas não tem problema, porque três novos memes vão ocupar o espaço do recém-falecido, e cada um vai durar uma semana e, quando morrerem, três novos vão ocupar o espaço de cada morto. Eis o mito da Hidra de Lerna do humor low-brow online.

De onde veio esse gosto da atual geração pelo escroto? Sim, é irônico, mas não vou ficar aqui fingindo que entendo essa de “gostar ironicamente” das coisas. Ou se gosta, ou não se gosta. Fingir admiração pela vida e obra da Gretchen (artista que nunca, quando viva, imaginou as proporções que sua fama póstuma alcançaria – e nada me convence que ela não está morta) só pra se encaixar na linguagem das redes sociais é desperdício de vida. Existe muito nesse mundo pra se perder tempo com merda, Cada música ruim ouvida ironicamente é uma excelente que se perde na história (e, sim, estou considerando o “ruim” e o “excelente”, não com base numa espécie de cânone, mas no gosto pessoal – já chego nessa parte pra deixar isso mais claro). Supondo que não seja ironia – porque, se for mesmo só isso, é mais patético do que eu imaginava -, de onde veio esse gosto? Por que o Orkut é a Terra Prometida das redes sociais? Eu estava lá e não havia nenhum pote de ouro. Não havia comunidade “Bolsonaro 2018”, como há grupos no Facebook, mas isso porque o Bolsonaro não tinha sido conjurado pelos cavaleiros do apocalipse naquela época. Nos anos do Orkut, Bolsonaro era apenas um pesadelo se preparando pra acontecer, uma assombração selada num tomo perdido em dimensão que nem Lovecraft poderia ter imaginado, tão terrível é.

Também me lembro que Sandejunior não era alvo de grande admiração quando ainda existia. Mas isso tudo não importa. Não acho que terei acesso às resposta que procuro. Talvez os que tenham conseguido se encaixar nesse sistema escabroso forrado de piadinhas de minuto e ídolos de gerações esquecidas ainda não tenham entendido porque se perderam nesse labirinto sem fim. É uma coisa que acontece com eles, não por eles. Quando se entra no sistema, ele se torna parte indivisível de você. O meme é um parasita, um fungo de origem desconhecida. Algo que ninguém quer, ninguém gosta de verdade ou compreende a razão de ser, mas ninguém consegue se evitar de dar continuidade à existência dele. O que tomaria o lugar dele? Informação? Humor talvez mais duradouro? Experimentações que não seguissem o esquema “imagem-legenda”? Essa é a vantagem do meme, ao contrário da música disco, ele não exclui ninguém, mas é tão perigoso quanto. Você não precisa de talento pra criar um meme, saber desenhar ou ser engraçado. Você não precisa ser uma boa pessoa, melhor até que não seja. O meme te aceita pelo que você é e não reclama se você quiser fingir ser outra pessoa. O meme é um não-ser que só quer continuar existindo. Ei, numa era em que corporações têm identidade e cada indivíduo é um produto, é tão errado dar vontade própria a um conceito?

Noutro dia, vi Enquanto somos jovens (While we’re young, 2014, direção de Noah Baumbach). Nele, Ben Stiller interpreta Josh, um documentarista de meia idade com dificuldades para terminar seu projeto. Um dia ele encontra Jamie, um suposto fã, aspirante a documentarista, de 25 anos de idade, interpretado por Adam Driver. Os dois formam uma amizade. A primeira reação de Josh a Jamie é se admirar com a forma que ele e seus amigos de vinte e poucos anos não pareciam fazer distinção entre as coisas, falavam de Footloose e Cidadão Kane com a mesma paixão (e tinham os argumentos para justificar esse gosto). Com o passar dos meses, Josh perde a paciência com esse estilo de vida do Jamie, principalmente a falta de consideração dele para com os outros seres humanos e para com a forma tradicional de se fazer documentários. Jamie não se importa com pesquisa, realismo, verdade. Ele busca a reação, a narrativa que vai pegar o público, mesmo que tenha que ser montada. Faz seus documentários como se não fossem diferentes de qualquer reality show.

Para os leitores que agora não fazem ideia de onde eu quero chegar, releiam o título. O texto promete ser sobre a internet, promete ser conturbado e promete ser sobre mim. Ponto. Ainda estou nos temas e até que estou coerente, embora não me responsabilize pelo que possa acontecer daqui em diante. Isto não é uma análise acertada da nossa geração.  Geração que nem sei se é minha, porque gerações passam como anos hoje em dia. Todos os meses, surge um novo acontecimento marcante, um novo produto, uma nova revolução cultural ou tecnológica, e cada um desses promete ser a marca de uma geração – alguns até conseguem cumprir a promessa ou parecem estar conseguindo. Existe diferença entre as gerações que nasceram com um computador em casa e as que não? Pra quem nasceu entre 86-94 (talvez, não sei, depende do país ou da família), parece que foi um piscar de olhos. Lembro que houve um tempo em que minha família não tinha computador. Lembro da máquina de escrever dos meus pais. Então um dia surgiu um computador lá em casa, mas mesmo assim ele não tinha muita utilidade. A internet só veio depois e mesmo ela não mudou nada a nossa vida, ela não funcionava direito, interrompia o telefone e era caríssima. Começou a mudar com a banda larga, mas aí eu já começava minha adolescência. Consideremos a banda larga como o fator marcante da geração – a internet eficiente, muito embora as pessoas que ocuparam o mundo da internet discada talvez discordem de mim, mas vocês não são da minha geração, eu acho… ou são… não sei -, é possível separar por geração os que eram adultos com o surgimento da banda larga, os que eram adolescentes e os que eram crianças? E os que nasceram na época do smartphone? E os que não nasceram ainda? Somos gerações diferentes? A última cena de Enquanto somos jovens é Josh, no aeroporto com sua esposa, Cornelia, interpretada por Naomi Watts, assistindo boquiaberto um bebê pegar um smartphone da bolsa da mãe (foi da bolsa da mãe?, isso não importa…) e, como que por intuição, fazer uma ligação com ele.

Mas voltemos a Jamie, aos de vinte e poucos, aos meus contemporâneos – acredito que sejam. Falar de bebês e da possível relação deles com novas tecnologias é campo da ficção científica especulativa, e não estou aqui pra isso dessa vez. Ele, Jamie, quer a reação, não o método. Sim, criar um quadrinho, uma tira, artisticamente competente, com humor sutil, é bom, desejável, mas não é pra qualquer um. E se o humor for muito sofisticado, não vai ser pra todos. Vai excluir aqueles que não querem mais que algo que os faça reagir instantaneamente. E não se quer excluir nada hoje em dia. Cada música lançada, mesmo que seja só mais um embutido cagado por uma gravadora multimilionária, é um hino universal, uma obra-prima inigualável (e alcança esse patamar no dia do seu lançamento, quando o clipe passa das milhões de visualizações no Youtube), pelo menos por uma semana. Ai de quem discorde – os pedantes, odiadores, nariz em pé, conservadores nojentos, porcos… enfim. É muito melhor, por exemplo, desenhar um sapo. O desenho pode ser mal-feito, mas vai ser daquelas coisas tão ruins que ficam boas. Desde que venha com alguma mensagem identificável. E não tem problema que o desenho vire símbolo para neonazistas, porque, na mesma velocidade em que ele surgiu, na mesma velocidade em que seu significado foi deturpado, na mesma velocidade o seu significado pode ser recuperado. Não é que nem quando os nazistas originais pegaram Nietzsche e Wagner. As coisas são muito mais flexíveis nos dias de hoje, para o bem ou para o mal.

O meu problema não é nem com o mal gosto, mas com a ideia forçada de que tudo deve ser visto como bom. Opiniões negativas sobre qualquer coisa são mal vistas. Qual a necessidade de criticar?, de enxergar o lado ruim das coisas? Bom, do contrário, tampouco existem coisas boas. Se tudo é bom, nada é bom: tudo é, na realidade, neutro. Vivemos um estado de neutralidade, reagindo com extrema empolgação a tudo pelo mínimo de tempo possível. Por isso nada dura, nada é real, é só uma coisa que acontece. Memes são alucinações, te levam a crer que você viu algo incrível, chegou a uma grande conclusão sobre a existência, até que passa e te deixa vazio e sedento por mais – e de vez em quando vem o flashback.

O que importa é a reação. É? Estou me envelhecendo quando digo que tenho dificuldades para aceitar isso? Que tenho medo das consequências disso? Mais dois males que assolam meus contemporâneos: a sensação prematura de velhice e a paixão pela nostalgia – já vi gente se sentindo nostálgica por coisas que aconteceram há cinco anos, e o pior é que faz sentido, porque a coisa de cinco anos atrás durou tão pouco e passou tão rápido que parece que faz uma eternidade desde que ela surgiu. Estamos condenados? Eu sinto como se estivéssemos. Como se não fosse mais tão simples agora. Como se tivéssemos ido a fundo demais no labirinto e não desse mais pra voltar. Fizemos essa cultura e não sabemos mais como desfazê-la. O engraçado é que ela morre todos os dias. Nada dura, mas tudo que surge no lugar é igual. Parte de mim quer que fique pior, acredita que a única forma de matar essa besta é deixando que ela saia ainda mais de controle, tome proporções aterradoras até para os que ajudaram a criá-la. Ao mesmo tempo, eu posso estar errado. Pode ser que nada assuste essas pessoas, que elas sejam mais monstruosas que suas criações. Pode ser que o futuro vá se resumir a isso mesmo: opiniões políticas expostas via memes, debates via gifs da Gretchen. Claro que não. Claro que isso vai passar. Logo virá uma nova geração com algo ainda pior e mais passageiro. E eu vou escrever outro texto, nesse futuro, relembrando os bons e velhos tempos, quando uma opinião podia ser resumida com uma imagem legendada com uma piada sem graça.

onde está a porra do poema?

você roda o porta copos
entre os dedos de suas mãos,
suas unhas raspam as bordas
e logo ele está em retalhos.
assisto suas mãos, o zelo
inconscientemente preciso
dos seus dedos, e
olho pra você. e você
me olha de volta. e volto
a olhar seus dedos parados
agora,
então de novo seus olhos.
você sorri, ri um pouco até,
mas larga o porta copos na mesa.
palavras incompletas saltam
pela minha cabeça.
sussurram ideias que ignoro
porque há coisas mais importantes
no agora que hipótese de poema.
então passa uma semana,
duas, três e mais de um mês, e
não volto a te ver apesar da vontade.
nem volto ao poema apesar da vontade.
é você e o poema que não vêm
a mim.
o que resulta da busca por
um pouco mais de você
e um punhado de palavras
que possam ser ordenadas
com um mínimo de dignidade
é nada. não há resposta. então
aqui estou eu, um mês depois,
inventando coisas, sem saber
se atrás de você ou de um poema
ou se do meu próprio rabo, que,
todavia, balança.

Aos iniciantes, Béla Tarr, banalidades japonesas, Gao Xingjian (observações aleatórias #9)

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1 – Evitei o quanto pude colocar dicas de escrita nesse blogue, mas vim com uma e acho que ela deve ser compartilhada. Não antes que eu deixe claro que sou um merda e não preciso ser ouvido. Mal se pode chamar de dica, na verdade, é mais uma tentativa de esclarecimento. Não esquente a cabeça com certos e errados. Se explicações junto ao diálogo tiram a naturalidade, se aspas são mais corretas que travessões ou se o melhor é cormacmccarthear (estilo que tem todas as características de um diálogo livre e natural, mas nada tem de natural, com personagens divagando sobre a existência e o terror interminavelmente) de uma vez, lirismo, frases curtas ou longas, parágrafos longos ou curtos ou livros inteiros em um parágrafo – ou uma frase -, linguagem simples ou rebuscada ou achar o meio termo, história mundana ou épica, descrições detalhadas ou mínimas ou ausentes. Seu trabalho não é responder essas perguntas, mas usar das ferramentas – que são todas. Aprenda o método. Análises e julgamentos são pros críticos, e, lembrem-se, os críticos sempre vêm depois das obras. Existe esse esforço por fazer que o autor crie sua própria teoria literária – ou se obrigue a justificar sua obra com base em determinadas teorias – o que não é nada saudável pra arte. É impossível escrever – e só posso dizer isso com base nas minhas próprias dificuldades, passadas e presentes – sem cortar relações com ideias fixas do que é “boa literatura”. Não seja ingênuo, apesar de aberta, essa dica te deixa tão mais livre quanto responsável pela sua própria visão estética. Eu ainda não me resolvi com essa parte do esquema.

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2 – Tampouco acho possível ensinar escrita criativa. Técnicas e teorias são possíveis de ensinar; a escrita em si, ou qualquer outra arte, não. E nem deveria ser, num sentido educacional/doutrinário. Depois de se aposentar, em 2011, Béla Tarr (diretor húngaro) começou a film.factory numa universidade em Sarajevo. O que ele disse em entrevista foi que o mal das escolas de cinema estava na insistência dos professores em educar os alunos, quando esse não deveria ser o objetivo. A film.factory, encerrada no fim de 2016 por falta de verbas, tinha por objetivo colocar pessoas de gerações, origens e culturas diferentes, em uma mesma escola para trocar informações e buscar formas de renovar a linguagem do cinema. Ele comparava a ideia ao que houve na escola Bauhaus de arquitetura (sobre a qual eu nada tenho a acrescentar por ser analfabeto no tema). Concordo com essa visão e invejo quem teve a chance. Interação entre artistas experientes e novatos é essencial, independente dos gostos de cada um.

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3 – Falando em Béla Tarr, botei como objetivo do ano ver todos os filmes dele em ordem cronológica – ou todos que conseguir encontrar. Já vi O Cavalo de Turim e A Harmonia Werckmeister, mas preciso rever, são os tipos de filme para serem vistos várias vezes em uma vida. Agora quero seguir ordem cronológica, então o primeiro será O Ninho Familiar, de 1979, quando ele ainda se ocupava do realismo social sem tanta preocupação estética.  Pra me preparar pra Satantango, o filme de 7 horas e meia, comecei a ler o livro que deu origem ao filme, escrito em 1985 por László Krasznahorkai, na tradução pro inglês. Grande leitura, densa, blocos de texto que se expandem. Tem aquele humor negro à Beckett e Kafka, mas o cenário é um tanto mais desesperançado. Enquanto Kafka trata da fraqueza do indivíduo em uma sociedade opressora e Beckett trata do absurdo e da impotência humana de forma tragicômica, Krasznahorkai é uma espécie de profeta do apocalipse pra quem o apocalipse já passou e o resto de nós que não se deu conta ainda. É interessante quando dois artistas (no caso, Béla Tarr e László Krasznahorkai) têm uma visão tão próxima que suas histórias parecem se complementar, que um consegue passar criar a matéria-prima ideal pra obra do outro. Uma pena que, nem mesmo depois do László receber o Man Booker Prize ano passado, até agora nenhuma editora brasileira se interessou pela obra dele.

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4 – Enquanto lido com os parágrafos tortuosos e imensos de Satantango, contrabalanço com a simplicidade e o cotidiano em O Livro do Travesseiro, da Sei Shōnagon. Esta é uma das principais obras da prosa japonesa clássica. Consiste de uma série de anotações, feitas por essa dama da corte imperial, aproximadamente no ano 1.000, sobre tudo que a cercava. Ela descreve o que se passou com ela ou na corte em determinado dia, lista coisas que adora e coisas que odeia, sempre de maneira precisa, usando o mínimo de palavras para dizer o máximo. Esse estilo dela, de dar foco ao que a cerca, me fez lembrar dos filmes de Yasujirō Ozu (Era uma vez em Tóquio, Bom dia, Pai e Filho, são os que eu vi até hoje). Nenhum deles trata de grandes temas ou sequer parece acompanhar as coisas importantes que acontecem dentro de suas próprias histórias. O foco é no banal, no quieto. Noutro dia, vi Andando, filme de 2008 dirigido por Hirokazu Kore-eda, que segue o mesmo estilo, sobre dois irmãos (cada um com sua família), que vão passar um dia na casa dos pais, já bastante idosos. Então eles falam do passado, cozinham, tratam da passagem do tempo. Nada grandioso, mas de certa forma é, afinal existe e, pra maior parte de nós, é o todo da vida. Parece tradição japonesa esse tipo de retrato, essa forma de enxergar a realidade e fazer arte com ela… Acho que isso aqui é mais um esboço para algo maior que sinto que devo escrever algum dia. A maior parte dessas observações são exatamente isso: coisas que ainda não sei como escrever, mas esse é o resultado parcial. Ao mesmo tempo, você, leitor imaginário, descobre coisas novas e todo mundo sai ganhando.

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5 – As pinturas que ilustram o texto são de Gao Xingjian, que também é dramaturgo, romancista, contista, vencedor do prêmio Nobel de literatura em 2000. Que eu saiba, o único livro dele traduzido para o português é Montanha da Alma, mas está fora de linha e quase não se encontra ele por aí. A obra teatral é comparada com Ionesco e Beckett. Dá pra perceber a sensação de isolamento nas pinturas dele, grandes abismos, espaços escuros abertos, gente sem rosto vagando sem rumo. Em parte, os cenários são como os que Béla Tarr filme, os campos vazios de O Cavalo de Turim ou a cidade deserta em que algo terrível sempre parece prestes a acontecer em A Harmonia Werckmeister. Xingjian, com suas pinturas no estilo tradicional sumi-ê (sobre o qual não vou fingir entender nada, fora que utiliza uma tinta especial próxima do nanking e papel artesanal à base de arroz), também cria essa impressão de impotência perante algo muito maior e terrível. Influência do autoritarismo em que ele viveu? Talvez. O mesmo está em Kafka, Beckett, Ionesco, Tarr, Krasznahorkai. E todos viveram em períodos de autoritarismo. Outro esboço, isso aqui, talvez. Vejamos.

Sobre poemas de amor e reciclagem de textos, comunicação e pessoas novas, Stan Brakhage (Observações aleatórias #8)

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1 – Fuçando a finada versão blogspot desta bodega, achei uma postagem que queria reciclar e vi que já tinha feito. Reli o texto e, apesar de ainda concordar com ele – tem casos de textos velhos meus que eu mal consigo olhar na cara, com esse eu ao menos simpatizo -, ao ler um artigo sobre Stan Brakhage e a forma como ele usava a vida doméstica dele como matéria-prima pros seus filmes, principalmente Jane, sua primeira esposa, decidi que o queria reescrever sob outra perspectiva. Qual eu ainda não sei. O motivo está no fim do artigo, na descrição da conversa entre Stan, Jane e Hollis Frampton. Em resumo, Stan não entende por que todas as suas tentativas de retratar Jane saem mais como autorretrato (enquanto Jane já está cansada e quer sua privacidade de volta).

Então, conversando com uma colega de trabalho sobre uma garota com quem saí outro dia e como é difícil se comunicar no começo – sem correr o risco de interpretar mal, gerar constrangimentos desnecessários et cetera -, a colega, que sabe que eu escrevo – uma das poucas pessoas da minha vida pessoal que sabe disso -, me pergunta por que eu não escrevo algo pra garota, um poema ou coisa assim, ainda mais com dia dos namorados na porta. (Estava na porta no momento da conversa; fazer o que se essa colega é dada a saltos de romantismo?) Mal sabia ela, já tinha escrito dois poemas pra garota em questão. Um muito antes de chamá-la pra sair, outro sobre o encontro. Não tinha nem tenho interesse de fazer declarações, mas analisei os poemas e se valia a pena mostrar pra garota – que gosta de literatura, o que é um começo -, e vi que não importava, porque ela não entenderia o que há dela ali naquele texto. Sim, ela foi a fonte dos poemas, sem ela talvez eles não teriam existido daquela forma, mas ela não está retratada naquelas palavras, não sua essência. Tem mais de mim nos poemas que fiz pra ela do que dela. Mais que isso, os poemas que escrevi não foram pra ela, não foram pra ninguém. São poemas, como todos os outros que fiz, inúteis, pinturas de momentos feitas de palavras, sem dedicatória ou finalidade. Nem mesmo fiz pra mim. Fiz, se pra qualquer coisa, pro momento, ou coisa parecida.

Independentemente, não seguiria a sugestão da colega. Quem em sã consciência gosta de receber poemas? É muita pressão ter que ler um poema de alguém que supostamente gosta de você, seja o pedido de leitura uma espécie de declaração ou só perguntando se está bom. Duvido muito que exista ser humano que goste de receber poesias autorais como declaração de qualquer intensidade. Quer se declarar pra alguém, leia Vinícius, Pablo Neruda, ou I Wanna be Yours, do John Cooper Clarke; não leia Castro Alves ou Casemiro de Abreu, pelo amor de Erato, a não ser que sua amada seja uma virgem tísica em leito de morte. Mesmo esses poemas mal retratam alguém, só falam o que o poeta quer ser pra amada ou o que a amada faz que o poeta sinta – quando não falam o que o poeta quer da amada. Mantenho a conclusão da postagem original: se quiser retratar alguém, aprenda a desenhar, e até desse jeito…

Se postarei os tais poemas aqui? Dificilmente. Se fizer, não direi que são eles. Fica a proposta, será que vocês conseguem adivinhar quais são eles se eu os postar? Não, não conseguem. Se adivinharem, vai ter prêmio*.

*Válido apenas para pessoas que vivem a no máximo 1 quilômetro de distância de mim. Do contrário, o prêmio é um parabéns bem sincero.

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2 – Começar a conhecer gente é sempre a mesma merda. Comunicação é uma impossibilidade. Ou é muito difícil. Pensando bem, isso tudo é pessoal demais. Achei que fosse conseguir criar um meio termo entre a sinceridade e a invenção, ser vago o suficiente, mas não estou me sentindo vago. Por outro lado, tudo isso é tão banal que pode muito bem se aplicar a qualquer um ou qualquer coisa. É a dificuldade de se conhecer alguém sem ter acesso ao que realmente se passa na cabeça dessa pessoa. Há quem não se preocupe com isso, que ache que é sempre agradável, que todos ao redor sempre se alegram quando ele está presente – gente assim costuma ser a pior, a mais inconveniente. Mas acredito que a maior parte das pessoas, ou a maior parte que convive comigo, se preocupa com saber o que os outros pensam. Por mais que algo pareça ter ido bem um dia, só nos dias seguintes é que a realidade vai ficar clara. O momento costuma vir acompanhado de uma camada de névoa, que só se dissipa uns dias depois. Quando os dias passam e não se consegue esclarecer as coisas, a névoa dissipa, mas os arredores seguem obscuros. É normal. Às vezes estranho, mas normal.

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3 – Falando de Stan Brakhage, vi uns curtas dele esses dias. Nunca vi coisa parecida. Não vi as gravações que ele fez da esposa ou de amigos, só as obras mais conhecidas – mais associadas ao que ele tentava criar -, as feitas por manipulação direta: pinturas (animação direta) e colagens na película, danos físicos ao filme, cortes rápidos… Isto pra passar ao espectador uma experiência visual única. Não exatamente filmes, pois não têm narrativa, mas arte visual, um quadro em movimento. Difícil explicar, vou só jogar alguns que encontrei no youtube aqui para que vocês tenham a experiência vocês mesmos. Esse tipo de arte em vídeo é um novo interesse meu, então decidi compartilhar, mesmo não sabendo o suficiente sobre o tema ainda. Claro, ver numa tela de computador não basta, mas nossas chances de ver algo assim em telão é nula.

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4 – As pinturas que usei para ilustrar a postagem são do Cy Twombly. Temo ter exagerado na quantidade, mas essa edição das observações foi um pouco mais longa. Pode ser uma ideia pra daqui em diante, ilustrar o texto com pinturas que transmitem o sentimento que quero passar ou que passam por mim. Desde que vi o vídeo da School of Life apresentando a obra do pintor, tenho pesquisado a obra dele, passado tempo olhando as imagens das pinturas na tela do computador. Conforme o vídeo da School of Life, Cy Twombly trata da vida interior, da tentativa de representação das emoções. Talvez aceitar o sucesso do esforço de Twombly seja questão subjetiva. Eu aceito. Quando sinto emoções em conflito dentro de mim, uma querendo ocupar mais espaço que a outra, quando meu monólogo interno corre tão rápido e confuso que as frases e ideias não se completam deixando só leves esboços de milhares de coisas sem sentido na mente, quando acho que estou pra descobrir alguma coisa ou que preciso fazer alguma coisa mas não sei o que essa alguma coisa é, posso visualizar todos esses estados psíquico-emocionais representados nas pinturas de Cy Twombly. Agora me resta descobrir se é minha vida que anda uma sequência de pinturas do Cy Twombly ou se a vida que é, sem escapatória, feita destas pinturas.

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5 – E como gosto de encerrar essas observações indicando discos, o da vez é Glitter Glamour Atrocity, da White Hills, lançado em 2007. Uma das bandas mais interessantes do rock, e mais ativas. Como eu vivo me repetindo e insistindo nas minhas obsessões, sim, descobri a banda por causa de um filme do Jarmusch, Amantes Eternos. A banda aparece tocando “Under Skin or By Name”, desse álbum, num bar de Detroit em uma cena desse filme. Aí está, não posso fazer nada se foram os filmes dele que me fizeram descobrir tantas coisas. (Queria o disco todo, mas não tem no youtube. Não sei botar aqui o disco via Spotify. Fica a faixa que mencionei no texto e se gostarem vocês têm capacidade e meios pra encontrar o resto.)

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